segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Viver é tudo que temos: vivamos

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto
 
Além da difícil luta pela sobrevivência, que nos consome mundos de sacrifício, nervos e paciência, temos de prover as necessidades do espírito. Nem só de pão vive o homem, diz o ensinamento bíblico (Mateus 4:4, Lucas 4:4).
 
Cada um faz o que pode (ou pelo menos devia). Em geral, trabalha-se duro uma vida toda para garantir o sustento e um pouco de segurança. Sobra pouco tempo para olhar os detalhes da paisagem e as coisas interiores.

Mas quem quer trilhar o caminho do conhecimento e do alumbramento não deve desistir.
 
Como passar por este mundo tão belo sem deter o passo para admirar, endender e sentir o que nele pulsa?
 
Aquele que diz que não tem sede espiritual é porque já está seco por dentro. Os secos não têm precisão de leitura, música, pintura, conversas, teatro, janelas, barcos no cais, pinheiros na Serra.
 
As crianças não são indiferentes ao mundo ao seu redor, olham amorosamente para os seres e as coisas. Veem a vida sempre pela primeira vez. Esse olhar inaugural é que faz bater o coração, adoça o pensamento.

Sejamos como as crianças. 

Não vale a pena desistir da beleza e da busca só porque alguns fazem tudo para estragar a travessia.

Viver é tudo que temos, raro leitor, é a nossa única oportunidade. Na dúvida, vivamos.
 
Enquanto escrevo estas linhas, a solidão e o drama se renovam no planeta azul.

Mas também as gaivotas, as pontes e o olhar primitivo das crianças. Vivamos.

Essas palavras, de tão breves e leves, nenhuma marca deixarão no ar onde flutuam.

Em segredo e em silêncio, vivamos.
 

sábado, 3 de novembro de 2012

A mágica flauta de Plauto Cruz

Jorge Adelar Finatto

Plauto Cruz. Foto: Jefferson Botega, Agência RBS.
 

O Choro é considerado a música erudita brasileira. É um gênero urbano, com origens no Rio de Janeiro da década de 1870, que se alastrou para outros lugares do Brasil, ampliou suas possibilidades.

Expandiu-se num universo harmônico e melódico de rara sofisticação e inventividade. É cultuado por admiradores fiéis em lugares tão distantes do Brasil como o Japão*.

A execução do Choro se dá em conjuntos formados com bandolim, violões de seis e sete cordas, pandeiro, cavaquinho e instrumentos de sopro como a flauta, entre outros.

Escutei nessa semana o disco Choros e Canções do virtuose da flauta e compositor Plauto Cruz, nascido em São Jerônimo, Rio Grande do Sul, em 15 de novembro de 1929. Fiquei encantado com o trabalho. Nunca antes havia me detido a ouvi-lo com a devida atenção.

Num país que valorizasse seus talentos, Plauto Cruz estaria tocando para o povo com apoio governamental, num grupo musical popular, num conjunto de câmara ou numa orquestra. Apresentaria por todo o país suas composições altamente elaboradas, dignas de figurar em qualquer sala de concertos.

O Brasil e o mundo não sabem o quanto perdem por não conhecer melhor este instrumentista e compositor. Canções como Choro para o Aguinaldo, Doce ternura, Beatriz e Choro para Ana são belas e universais. Algumas em estilo tradicional, outras com uma levada de jazz, todas primorosas

__________________

*Naomi Kumamoto:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/naomi-kumamoto.html
 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A fala do Arlequim

Jorge Adelar Finatto 
 

photo: j.finatto. Veneza
 
 
Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível. De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado. Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Nem sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira. Vivo no austero. Sinto no meu segredo. Amador. Ela não me vê. Eu a vejo. A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as gaivotas.

Caminho nos meus penhascos. Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico. A vida gira nos esconsos. Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador.
 
________________

Photo: Cena veneziana.
Texto publicado em 30 de outubro, 2010.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Drummond 110

Jorge Adelar Finatto


Carlos Drummond de Andrade


 
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.* 

31 de outubro, 1902. Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais. Nessa data e nessa cidade nasceu Carlos Drummond de Andrade. Hoje comemoram-se 110 anos de seu nascimento.
 
Sinto saudade do poeta como de um irmão mais velho. Desta natureza são as admirações literárias, que se transformam em afeto, respeito e falta.
 
Morto aos 84 anos, em 17 de agosto de 1987, 12 dias depois da morte da única filha, a escritora Maria Julieta, Carlos foi - e é - um dos nomes mais importantes da poesia de língua portuguesa.

Notabilizou-se, também, como cronista e contista refinado, de leitura obrigatória nos jornais em que seus textos eram publicados. O bardo de Itabira conseguia fazer uma interpretação solar dos acontecimentos e dos não-acontecimentos. Captava como poucos a essência das coisas e dos sentimentos. 
 
A poderosa lente com que mirava o ser-no-mundo produziu uma das obras mais belas da nossa literatura. Seus textos são fonte de consolo e beleza.
 
Enxergava nossas qualidades e defeitos, nutria uma irredutível esperança na existência, mesmo desiludido.
 
O bom humor é outro traço marcante de sua visão de mundo.

O humanismo da expressão, em Drummond, sempre foi revelação no deserto.
 
O poeta nos toca e nos ajuda a viver. Amoroso e lúcido, seu verso nunca sai indiferente ao destino humano. 

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?**
 
É nessa vida prolongada da palavra escrita que podemos ter o poeta conosco tempo afora.
 
Convivente, irmão.

__________________

*Trecho do poema Consolo na Praia, da Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, Editora Abril, São Paulo, 1982.
**Trecho do poema Amar, idem.
Foto do poeta copiada do site da Editora Companhia das Letras:
http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02213
 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Prosa da caverna

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Algum entendido afirmou um dia desses que os blogs fazem parte da pré-história da internet. Pode ser. 

Da parte do troglodita que traça estas singelas, continuará a escrever e publicar fotos na parede da caverna enquanto não desligarem a luz. 

Meu padroeiro na arte de escrever no blog (mania, obsessão, devaneio, ofício ou coisa parecida) é o escritor português José Saramago, primeiro e até agora único Nobel de literatura de língua portuguesa.

Depois que conheci O Caderno de Saramago, pensei com os rudes botões do meu notebook: por que não?

De modo que a culpa de eu estar aqui, raro leitor, deve ser compartida com o desbravador Saramago, que foi quem teve a ideia de vir para a rede partilhar sua lucidez e seu talento (ele, um grande escritor, dando ideias e fazendo seguidores entre os pequenos, como o australopiteco que redige estas parcas).

Daqui a cinquenta, cem ou mil anos, alguém descobrirá esta página perdida na nuvem de signos, lerá estes dizeres e iluminuras e provavelmente se rirá a valer desta esquisitice.

O antediluviano autor do blog poderá, então, descansar na santa paz da sua outra caverna, mais calada e subterrânea, na ilusão de que algo valeu a pena.

Iá-badá-badu! 

domingo, 28 de outubro de 2012

O cavalinho de madeira

Jorge Adelar Finatto
 


 
Não sei há quanto tempo ninguém abria o armário sob a escada dos fundos da casa. Uma espécie de triângulo escaleno, cinza azulado, com fechadura cor de alumínio. Foi ali que o encontrei.
 
Um cavalinho de madeira, com a pintura já desbotada, um pouco de tinta azul, um pouco vermelha, quase apagada, apagada pelo incessante escorrer da areia na ampulheta. Terá sido o brinquedo de alguém que viveu nesta casa bem antes de mim, há muito, muito tempo.
 
Os olhos do cavalinho estão bem abertos, são vivos, vivos e castanhos. Da boca do cavalinho sai uma fina tira de couro em direção ao dorso.
 
Quando o encontrei, havia algo no seu olhar que implorava que o tirasse daquele armário. Ele queria sair e vir comigo. Deve ser bem triste ficar preso num lugar escuro.

Como a minha vida tem dias no escuro também e eu preciso de amigo, pensei, vou levá-lo daqui. Peguei-o nos braços.

O cavalinho respirou fundo, piscou os olhos devagar. Vi duas lágrimas rolarem entre os longos cílios negros sobre sua face.

Impossível descrever o seu ar de felicidade quando o levei a tomar ar fresco na grama do jardim. Ergueu as patas dianteiras e, num salto, estava agora solto, dando voltas no pátio.

Depois ele veio habitar no escritório a meu lado, tem os olhos voltados para o vale, diante da janela.

No armário, nesse sob a escada de madeira, ficaram ainda quatro bonecas de pano sentadas junto a um acordeom cor de vinho.

Um casal de bonifrates, com chapéus de palha e caras de maluco, está pendurado num canto. De quando em quando, uma bailarina de vestido branco rodopia ao som de uma caixinha de música.

Tanta coisa bonita e esquecida no mundo, pensei. Tanta gente esperando apenas que alguém abra a porta, deixe entrar um pouco de luz e estenda a mão.

_______________

Ilustração: Maria Machiavelli
 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tévye, o leiteiro

Jorge Adelar Finatto

Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes? (Tévye, o leiteiro, pág.181).
 
 
Tévye, o leiteiro, do escritor Scholem Aleikhem, pseudônimo literário de Scholem Rabinovitch (1859 - 1916), é um dos melhores livros publicados nos últimos anos no Brasil. Faz parte, desde logo, da estante das grandes obras que li até hoje. 

Trata-se de um clássico da literatura ídiche, publicado este ano pela Editora Perspectiva. A tradução do ídiche para o português, bem como a organização, introdução e notas foram realizadas por J. Guinsburg.

O resultado é um trabalho de raro apuro, de transferência e generosidade cultural.

Tévye, o personagem-narrador, é um judeu pobre, vive no longínquo schtetl (a cidadezinha judaica do interior da Rússia czarista), é casado com Golde, pai de sete filhas e nenhum varão. Leva uma vida dura.

Uma bela e tocante conversação dele com o leitor percorre o livro.
 
Ele fala o tempo todo consigo próprio e com Deus. Assim o vemos nos solitários deslocamentos pela floresta, desde sua pequena propriedade rural até o povoado, com sua carroça e seu cavalo. Vai em busca do pão através do trabalho de vender aos fregueses creme de leite, manteiga, queijo, nata, produzidos pela família a partir do leite tirado das vaquinhas que possui.

O leiteiro-personagem conversa, também, desde o início, com o escritor Scholem Aleikhem, a quem conta seus eventos, emoções e pensamentos para que este fixe em palavras suas histórias. O monólogo-diálogo incessante estabelece uma narrativa que chama e cativa o leitor.

É da beleza, da dureza e dos meandros da vida que ele nos fala, a partir de uma visão ao mesmo tempo prática e espiritual da existência. Nada lhe escapa do coração sensível e do poderoso olhar de observador.

As preocupações com a sobrevivência, com o futuro da família e das filhas, com as perseguições e ataques contra os judeus na Rússia dos pogroms, com as injustiças e com o sentido desta vida figuram entre os assuntos que permeiam as histórias deste homem simples e sábio (a sabedoria é simples).
 
A obra fez muito sucesso quando transposta para o teatro e o cinema com o título de Um violinista no telhado. Na forma de musical, na Broadway, permaneceu em cartaz por mais de sete anos após a estreia em 1964. No cinema, em 1971, alcançou grande êxito de público e crítica, tendo conquistado três Oscars e dois Globos de Ouro.

A grandeza do livro não permite a leviandade de tentar resumi-lo numa singela resenha. O que importa ressaltar é que se trata de uma delicada e inesquecível viagem pela alma humana.

Scholem Aleikhem (que significa em hebraico "A paz seja convosco!") oferece-nos uma visão de mundo muito rica, um conhecimento profundo do modo de ser e de estar no mundo das pessoas. Nascido na Rússia imperial, acabou migrando para os Estados Unidos por força de perseguições. Veio a falecer em Nova York, deixando extensa obra e leitores fiéis.

O notável trabalho de Jacó Guinsburg, escritor, estudioso e crítico de teatro, ensaísta, editor, professor emérito da Universidade de São Paulo, agrega uma brilhante contribuição à língua portuguesa.

O patrimônio imaterial que se incorpora à nossa cultura, com esta publicação, é inestimável.

Tévye, enfim, anda agora pelas ruas e cidades do nosso Brasil, conversando com as pessoas, dando notícias de seu/nosso mundo, tão antigo, tão atual, tão difícil quanto humano.

______________________

Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.

Editora Perspectiva:
http://www.editoraperspectiva.com.br/index.php