segunda-feira, 17 de março de 2014

Canção da bruma

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto, 12.3.2014
 

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa eu levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho

as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa

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Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

sexta-feira, 14 de março de 2014

As virgílias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, Madri.
 
Eu tô muito cansado de viver na solidão. 
 
Cada um carrega seu quinhão de solidão, por supuesto. Todos temos as mesmas perguntas diante da vida. Como faz um grande silêncio do outro lado da linha e o caderno de respostas está vazio, continuamos tão desamparados como no dia do nascimento.

Não sei você, raro leitor, mas eu conheço o sentimento inscrito na epígrafe. Eu li a frase num pedaço de papel deixado num assento do trem entre Madri e Salamanca. Estava justamente no lugar marcado na minha passagem.

Guardei a anotação entre as páginas do livro de poemas de Salvador Espriu que comprara na noite anterior num sebo da Calle de Los Libreros em Madri.

Entendo bem o sentimento escrito naquele papel. 

Um cansaço de estar só, uma vontade de sair da ostra, ver o sol lá fora, encontrar gente, não num centro comercial, numa fila de banco, num aeroporto, mas na rua, num café, numa praça, em casa. 

Um lugar humano. 
 
As longas temporadas de recolhimento fazendo coisas que a sociedade impõe. Solitude desde a infância até a vida adulta e velhice. O oposto de estar junto, de partilhar. 

Sim, nascemos de mãos dadas com nossa irmã gêmea, solidão. Mas a vida não há de ser só um buraco dentro do peito. Tem de ser mais, tinha de ser mais. 
 
Encontrar seres humanos, dividir o vagão do trem, o lado mais bonito e luminoso da viagem.

Mas, em caso de urgência, tenho pelo menos as virgílias.

São minúsculas borboletas que não têm mais que um centímetro e meio de asa a asa. Revoluteiam ao meu redor. São dezenas, cada uma com sua cor viva, violeta, azul, púrpura, amarelo, lilás, laranja, branco, preto.

As virgílias surgem do nada. Como um bilhete num assento de trem.

Acendem a solidão como lamparinas em miniatura. Ficam voando em volta de mim como vaga-lumes numa praça silenciosa e desabitada.

As virgílias depois vão-se embora. Apagam aos poucos suas luzes até que nenhuma mais resta. Nenhuma. E eu durmo esperando amanhecer. 

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quarta-feira, 12 de março de 2014

O inquilino do absurdo

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. 09.03.2014. Passo dos Ausentes

 
Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, de tudo dou fé e assino.
 
As coisas que não aconteceram são as que mais se afeiçoaram à minha memória.

A biografia que merece os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas a caminho do mar. 
 
Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia.

Cheio pela borda de cansaços, frustrações, tapas na cara e desejos. Quem houvera nesta vida se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno.
 
Por isso estou aqui. Me contando, me abrindo, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao raro leitor. Construo o venturoso canto.

Não me interessa a realidade. Quem tiver a realidade que bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário.

Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fio de orvalho estendido de manhãzinha sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma.
 
Caminho para o lugar ermo do esquecimento.

Eu, Landgrave dos Santos Esquecido, inquilino do absurdo, ante vossa alta ausência, improvável leitor. 

Aqui Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento, Rio Grande do Sul, Brasil. Dou fé e assino.

Inícios de outono.
 
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Texto revisto, publicado em 20 de agosto, 2010.

domingo, 9 de março de 2014

Fernando Pessoa e o barbeiro Manassés

Jorge Adelar Finatto
 
Fernando Pessoa. fonte: Casa Fernando Pessoa


Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Fernando Pessoa, no poema Mar Português
 
Em 2007 estive na minúscula sala onde funcionou a Barbearia Seixas do senhor Manassés, na Rua Coelho da Rocha, bairro Campo de Ourique, em Lisboa. Ele foi, durante muitos anos, o barbeiro de Fernando Pessoa (1888-1935), que morou naquela rua entre 1920 e 1935. Conversei na ocasião com António Seixas, quase octogenário, que ocupava então a velha sala que tinha pertencido ao seu pai.

Não era mais uma barbearia, mas uma oficina para conserto de aparelhos de som. Estava localizada quase na frente do prédio onde o poeta viveu até a morte em 30 de novembro de 1935. No local existe hoje a Casa Fernando Pessoa.
 
Sobre esta longa conversa e as revelações de António (que conheceu o poeta) escrevi O barbeiro de Fernando Pessoa, publicado no blog.¹

Acrescento algo que não divulguei naquele texto. O poeta vivia na época na companhia da irmã, do cunhado e da sobrinha. Segundo António Seixas, o relacionamento de Fernando com o marido da irmã não era bom.

Não admira que assim fosse. O poeta levava uma vida de solteirão, ganhava pouco como correspondente de inglês e francês em casas comerciais, bebia muito (fato que contribuiu para a morte precoce aos 47 anos) e fumava como uma chaminé no pequeno quarto que ocupava no apartamento. O cunhado era coronel acostumado à disciplina da caserna. A contradição entre as visões de mundo de ambos é de fácil percepção.

A família, contudo, foi fundamental na vida de Fernando Pessoa. Nela ele encontrou amparo emocional e material. Não foi por acaso que viveu os últimos 15 anos na casa da irmã. Ali se sentia acolhido, não obstante as diferenças com o cunhado (de resto comuns entre pessoas do mesmo grupo familiar).

Arrisco a dizer que não haveria a obra genial sem o lastro afetivo e prático da família (açoriana pelo lado materno). Os familiares de Pessoa foram essenciais na sua vida e contribuíram para que ele tivesse condições de dedicar-se à escrita.

photo: j.finatto, 2007, Lisboa

                                                 *   *   *

Ontem, 8 de março, pessoanos do munto inteiro recordaram os cem anos do famoso Dia Triunfal (08 de março de 1914).

Conforme relatou Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, em carta de 13/1/1935, ao abordar a gênese dos heterônimos: "(...) acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim." ²

Vieram à luz, no êxtase do Dia Triunfal, o Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, "O Mestre"; após a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa; seguindo-se a revelação dos heterônimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos (este com a Ode Triunfal).

A carta foi escrita alguns meses antes da morte do poeta. Segundo estudiosos, o Dia Triunfal foi uma ficção de Pessoa para explicar a origem dos seus "outros".³

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¹O barbeiro de Fernando Pessoa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/03/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html
²Arquivo Pessoa:
http://arquivopessoa.net/textos/3007
³O "dia triunfal" de Pessoa: uma ficção verdadeira
http://www.publico.pt/cultura/noticia/o-dia-triunfal-de-pessoa-uma-ficcao-verdadeira-1627473
Casa Fernando Pessoa:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
 

sexta-feira, 7 de março de 2014

O e-mail do amigo morto

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: jfinatto
 
 
Tenho um amigo que morreu há alguns anos, mas que ainda está muito presente na minha vida. Um cara alegre, espirituoso, valente leitor. Aprendi e me diverti muito com ele.

Manuel gostava da vida e era forte. Por isso eu tinha a impressão de que ele viveria não menos do que 90, 100 anos. Viver era com ele mesmo. Não desanimava diante dos tombos.
 
Na verdade, nunca esqueço meus mortos. Trago-os sempre por perto, na memória e no coração. Às vezes pensam que estou em colóquio com as paredes, falando sozinho. Bobagem. É com eles que eu falo quando estou muito só (o que nem é tão raro assim).
 
O fato é que o e-mail do Manuel ainda está na minha lista de e-mails do computador. Nas ocasiões em que decido mandar algum texto e/ou photo para pessoas da lista, sempre me deparo com o e-mail do Manuel.

Me dá um arrepio de saudade, uma dor.
 
Um sentimento mais forte que a razão me diz que eu não posso deletar o e-mail do Manuel. Sinto que, se o fizesse, perderia mais ainda o Manuel. De uma forma que não entendo bem, acho que ele cairia mais fundo da ponte da memória dentro do abismo do esquecimento.
 
Pessoalmente estou farto de perdas, raro leitor. Por isso não vou apagar o e-mail do Manuel.

Sempre fica em aberto a possibilidade de comunicação entre nós. Quem sabe um dia ele ainda vai mandar uma mensagem me gozando por não ter coragem de retirá-lo da lista? Talvez dissesse, entre irônico e triste, olhando nos meus olhos:
 
- E-mails de amigos mortos são como folhas ao vento, não dá para escrever nada neles. Esquece e segue em frente.
 
Faria talvez uma graça com a tendência, tão minha, para a melancolia e para me agarrar ao perdido como um náufrago.
 
Como se eu próprio não fosse, qualquer dia desses, mera lembrança. Um e-mail deletado da lista. 
 

quarta-feira, 5 de março de 2014

O rumor do córrego

Jorge Adelar Finatto

Montreux. Lago Léman. photo: j.finatto
 

O seixo sobre a escrivaninha é cor de mel maduro e tem pequenas crateras na superfície. Elas lembram o território redondo e branco da Lua cheia. 
 
Antes de vir parar aqui, o seixo habitou outros lugares. Deve ter rolado por séculos no fundo das águas.

Provavelmente veio ao mundo antes das ondas do Dilúvio. A menos que seja o minúsculo fragmento pós-diluviano de uma estrela que despencou e esfriou.

O seixo faz parte agora do resumido mundo do escritório. Mergulhado nessas águas de estantes de livros e objetos que foram se chegando com o passar dos anos (enquanto eu próprio passava).

Cada objeto tem uma origem e uma história para contar, assim feito o seixo.

Como viajantes numa estação de trem.

Às vezes levo o seixo ao ouvido para escutar o rumor distante do córrego da minha infância na sua antiga viagem rumo do mar.

Ouço então a passagem do vento sobre as águas e o vôo das folhas quando se soltam dos ramos.

O escasso seixo é um pedaço do infinito universo que veio ao mundo para rolar e passar (tal como eu).

Uma singela lembrança do eterno. 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto
 
A morte é um preço excessivo para dar por uma rosa encarnada.
Oscar Wilde* 


 
O guarda-chuva é um escudo existencial contra a tristeza e a pouca luz do mundo.

Um indivíduo deprimido e solitário não deve andar por aí sem guarda-chuva, mesmo em dias de sol. Não importa o tempo que faz lá fora.

A umbela traz consolo ao coração, além de proteger o esqueleto.

Em Passo dos Ausentes, existe o Sindicato dos Fazedores de Guarda-Chuvas, Chapéus, Bengalas, Luvas e Mantas. A cidade, hoje habitada por muitos fantasmas e poucos seres humanos, foi importante centro produtor e exportador desses produtos. Consta nos registros do sindicato que, entre 1890 e 1939, a Inglaterra importou a quase totalidade da produção.

O cliente mais famoso, na área das artes, foi ninguém mais, ninguém menos, do que o escritor irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900). Dizem os antigos que ele chegou a ter perto de 20 chapéus-de-chuva (nome pelo qual também é conhecido o guarda-chuva ) e cerca de 10 bengalas confeccionados na Terra dos Ausentes.

Numa secreta viagem, o autor de O Retrato de Dorian Gray esteve em Passo dos Ausentes, em 1891. Veio a nossa pacata aldeia a fim de mandar fazer, pessoalmente, um modelo exclusivo de guarda-chuva. O artefato tinha, num canto da parte externa do tecido azul-claro, as iniciais D.G., em tom rosa, as mesmas que foram gravadas, em prata, no cabo de osso de anta.

Oscar ficou durante 40 dias por aqui, conforme está registrado no livro de hóspedes da pensão Ao Viajante Solitário. Foi tempo suficiente para encantar a todos. Ganhou o título de cidadão honorário e sua despedida, na estação de trem, foi um dos maiores acontecimentos da cidade em todos os tempos.

 

 
Tal impressão causou em nosso meio que, desde então, quando pessoas de Passo dos Ausentes viajam à Inglaterra e à França, fazem uma espécie de peregrinação sentimental atrás de Dorian Gray, quer dizer, Oscar Wilde.

Muitos dos bilhetes apaixonados colocados (todos os dias) junto ao túmulo do escritor, no cemitério Père Lachaise, em Paris, são de gente dos Campos de Cima do Esquecimento.

Entre os políticos que adquiriram as nossas obras de arte, estão Getúlio Vargas e Winston Churchill. Na Terra da Rainha como em São Borja, são tratados como relíquias e viraram peças de museu. Em diferentes países do mundo, os guarda-chuvas aqui produzidos transmitem-se através das gerações na condição de finas joias de artesania.

Faz 40 anos que Guilherme Baden-Baden, o químico de Passo dos Ausentes, não sai à rua sem carregar o enorme Morcego Negro, espécie de capacete protetor que se afeiçoou a ele como se fosse a extensão de seu esquerdo braço.

Homem pequeno, Baden-Baden quase desaparece sob o para-sol (outro nome do objeto pluvioso). Enquanto estiver com o guarda-chuva aberto, afirma ele, nada de ruim poderá lhe acontecer. Não se trata de vã filosofia, diz o sábio:

- É uma intuição ancestral, uma maneira de ver e sentir a existência.

Nunca ninguém, em qualquer tempo, foi abandonado por um guarda-chuva. O contrário, porém, é muito comum.

Uma das grandes invenções da humanidade, cuja origem se perde na noite dos séculos, o guarda-chuva é, ao lado do cão e dos diários das moças, o melhor amigo do homem.

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Fotos: 1) Oscar Wilde, 1882. Autor: Napoleon Sarony. Fonte: Wikipédia. 2) Guarda-chuva nos jardins da Praça da Ausência. Autor: J. Finatto.
Texto revisto, publicado em 18 de abril, 2011.
Leia também, sobre Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
*Pensamentos, Oscar Wilde, p. 202. Relógio D'Água Editores, 2011, Lisboa.