quarta-feira, 29 de abril de 2015

Tempo de reescrever o país

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

Aqueles que lutaram de coração aberto e sem interesses mesquinhos pela democratização do Brasil não podiam imaginar que gente inescrupulosa se valeria da democracia, duramente conquistada, para assaltar o país.

Os que roubam a nação, ou permitem que a roubem, são os maiores inimigos dos direitos do cidadão, da justiça social e da liberdade.

Se o país não tivesse a corrupção que o assola, estampada ad nauseam nos meios de comunicação, os brasileiros teriam qualidade de vida igual ou superior à das nações mais desenvolvidas. Mesmo com os atuais 200 milhões de habitantes.
 
Porque aqui se trabalha muito, se produz muito, pagam-se oceanos de impostos. Temos território, recursos naturais, miscigenação, multiculturalismo. A imensa maioria das pessoas quer estudar, realizar projetos, transformar.
 
Mas aí acontece esta tragédia que é a corrupção com dinheiro público, nunca tão escancarada. Por suas enormes dimensões e implicações, atinge e penaliza toda a sociedade.

É impressionante o que se vê. Para tentar corrigir tantos abusos e desmandos, fala-se, eufemisticamente, em ajuste fiscal. Isto é, entrega-se a conta desumana para o cidadão pagar.
  
Estou numa altura da vida em que não posso me dar ao luxo de perder a esperança. É tarde demais pra isso. Preciso acreditar que as coisas vão melhorar.

Confio, portanto, que o Brasil sairá dessa, porque o povo é sábio e não se deixará enganar por quem lhe traiu a confiança, tenha as cores que tiver, seja do partido político e da ideologia que for.
 
Está em nossas mãos construir um país mais justo, começando por dizer não à corrupção e a toda forma de desonestidade, mentira e violência. É nas pequenas atitudes de cada indivíduo que vamos mudar esta realidade.
 

domingo, 26 de abril de 2015

Momento

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto


A passagem vertiginosa do tempo está aí para provar que certas coisas não valem a pena diante da precariedade de tudo, a começar pela condição humana. Não fosse por outra razão, só isso já seria motivo para uma vida mais em harmonia consigo, com o outro, com a natureza. 
 
Sentimentos como ódio, rancor, inveja, raiva, indiferença, só atrasam nossa transitória viagem. O culto da vaidade e da posse de coisas materiais não é boa companhia. O egocentrismo apaga o outro, retira o ar do ambiente, ofende, instaura a dor.
 
Eu não aspiro da flor mais que o perfume numa praça de cidade do interior.
 
Todas as horas de todos os dias são santas. Todas as manhãs, tardes e noites, mesmo as mais escuras, são santas. Todas as madrugadas em claro, diante da janela, esperando a estrela cadente passar.
 
Não quero da branca nuvem mais que o doce algodão.

Vou saboreá-la em sentimento, aqui mesmo no chão, tão provisória e frágil contra o fundo azul.

É tempo de viver outra vez. Reconstruir um país.
 
O sol de abril ilumina os pássaros e seu livre canto no galho da árvore já sem folhas.
 
Os suicidas desistiram do gesto fatal, foram caminhar entre os pinheiros.
 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Falls

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Agora as folhas caem, Maria. Abril das passagens e dos mistérios. Ouço o ruído seco que fazem ao deslizar entre os galhos.

É bonito vê-las escorregar no ar. Elas me lembram coisas que caíram um dia no pátio do meu coração e o vento levou. Algumas tão silenciosamente que nem percebi.
 
Trago essas perdas espalhadas dentro de mim. Sou feito dessas ausências e silêncios. Vou em frente.
 
O outono carrega reminiscências em seus velhos baús de madeira. Traz um desmesurado apego aos ocres, amarelos e dourados. Essas são as cores da mutação. 
 
Eu vou sem medo pela estrada de terra, Maria. Vou olhar o caminho do sol.

O tecido de seda da tarde de outono.

Os passos andarilhos. As quedas das folhas.
 
Gosto de sentir o sol em meu peito. Ele entra no meu coração e ilumina todas as coisas. Algumas eu nem lembrava mais.
 
A luz cálida da tarde se mistura ao sangue. Então não há tristeza que faça sombra à alegria de estar vivo.

E é como se as folhas se levantassem do chão e, douradas, saíssem em bando pelo céu azul.
 

terça-feira, 21 de abril de 2015

O designer do universo

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto


Escrevi há alguns dias sobre a estranha flor que apareceu no meu quintal (essa aí da foto). Me causou intensa impressão estética. Um achado.

No encanto polifônico que me provocou, cheguei a pensar tivesse caído de uma estrela.
 
Nos dias que se seguiram, descobri que é uma flor muito nossa: nada mais, nada menos, do que a querida flor de maracujá. Era uma flor comum na minha infância. Agora anda sumida.

Como pude esquecê-la?

O tempo e o duro presente estarão apagando em mim a memória das coisas belas? Estarão secando as fontes das ternas lembranças?

Onde andará o som alegre do riacho atravessando as manhãs?

Estarei com lapsos típicos de tiozinho? Ah, não, não permita Deus.

Espero que o Grande Designer do Universo mantenha acesas as lanternas que alumiam as recordações no sótão da memória. Peço também que renove as seivas e as esperanças, e releve meus esquecimentos. E continue plantando suas raras flores no meu quintal. 
 

sábado, 18 de abril de 2015

Nos cafés da vida

Jorge Adelar Finatto

Cômoda onde Fernando Pessoa escreveu muitos de seus poemas.
Casa Fernando Pessoa, Lisboa. photo: jfinatto, 2011.
 
O que é uma boa mesa num café? É o contrário das mesas de muitos cafés parisienses no Quartier Latin e Saint-Germain-des-Prés. Algumas são tão próximas que nos obrigam a ouvir os pensamentos do vivente ao lado.

Os cafés de Paris podem até ter mais charme do que os nossos, mas aqui temos mais espaço. Eu troco o glamour por um pouco de intimidade.

Um bom café deve ter qualidade no produto e bom atendimento. A receita é simples. Além disso, acho importante que a mesa tenha claridade suficiente para leitura e que, da janela, se possa olhar a rua.  Mas, se não for bem assim, não tem problema. O que importa é estar no café.
  
Só uma coisa neste vasto mundo me tira a graça: gente grossa. Não suporto, por exemplo, esses que falam alto ao celular, como se todos em volta tivessem de compartilhar seus assuntos. Por favor, não me contem, eu não quero saber. Não gritem no meu ouvido, tenham piedade!
 
Em certo café, que visito quando estou em Porto Alegre, há um garçom intelectual. Como eu invariavelmente estou com um livro sobre a mesa, ele invariavelmente pergunta o que estou lendo. Eu aprecio o interesse.

Na semana passada, respondi que estava lendo Nada de novo no front, do escritor alemão naturalizado norte-americano Erich Maria Remarque (1898-1970). Uma obra clássica sobre a brutalidade da guerra e a desumanização, ambientada na 1ª Guerra Mundial.

Ele aprovou a minha leitura. Em seguida perguntou se eu tinha lido As benevolentes, do americano Jonathan Littell (n. 1967), cuja narrativa se passa na 2ª Guerra Mundial. O autor escreve em francês e conquistou com esse livro o importante  Prêmio Goncourt.
 
Respondi que não conhecia. Ele afirmou que isso era uma falha de leitura, eu precisava sanar. Pegou um guardanapo, retirou a caneta do avental e escreveu o título da obra, o nome do autor e me entregou resoluto. Eu elogiei a sua bonita caligrafia. De lambuja, ele falou que tinha lido o tal  livro em francês mesmo, porque considera o inglês (para o qual foi traduzido) uma língua vulgar.
 
- Se nada neste mundo é perfeito, por que a língua de Shakespeare seria?... - perguntou meu coração lacunoso.

a cômoda de FP

Ele foi atender outras pessoas. Eu fiquei ali com aquela anotação na minha frente, apontando a lacuna literária que carrego desde tempos imemoriais. Imagine se o culto garçom soubesse que há bibliotecas e hemerotecas inteiras que nunca li nem lerei.
 
Não li sequer todas as revistas em quadrinhos do Recruta Zero, uma das minhas devoções, nem as do Hagar, o horrível. Li, porém, muitas aventuras do misterioso Fantasma, o espírito que anda. Mas isso faz tanto tempo que parece que foi em outra vida.

Ao contrário dos que dizem que leram tudo - ou quase tudo - (e eu acredito sempre no que me dizem), eu li só e apenas uma parte.

Li, profissionalmente, livros de Direito a maior parte do tempo. Nas horas que restavam, sempre escassas, li menos do que gostaria. Hoje dedico-me a leituras não profissionais. O que me valeu foi que, antes de mergulhar no Direito, li muito outros livros. Isso ajudou bastante.

Sou grato às sugestões literárias. Elas são oportunidades de abrir caminhos. Mas estou um pouco crescidinho para me meter em leituras somente para preencher lacunas. Elas, aliás, são tantas que eu nunca conseguiria saná-las no tempo que me resta.

Só uma obrigação me move quando vou ler um livro: o prazer da leitura.

Não esqueço, a propósito, algo que alguém uma vez disse ou escreveu: feliz foi Marcel Proust que, para escrever e para estar em dia com a literatura universal, não precisou ler os sete volumes de Em busca do tempo perdido escritos por ... Marcel Proust.

Uma heresia, claro...
 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Eduardo Galeano

Jorge Adelar Finatto

Galeano no Café Brasilero, Montevideo, 2002. Autor: Andres Stapff, Reuters. 
 
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
 
                           Eduardo Galeano, in Mulher que diz tchau ¹
 
A morte de Eduardo Galeano, aos 74 anos, em Montevideo, na segunda-feira, 13/4/2015, é uma perda não só literária como afetiva para seus leitores espalhados por muitos países.

Estive duas vezes em Montevideo este ano. As viagens coincidiram com os últimos dias de José Pepe Mujica na presidência do Uruguai.
 
Um dos meus passeios preferidos em Montevideo é ir ao Café Brasilero, na Cidade Velha. Galeano era habitué do lugar. No ambiente de fins do século XIX, ele lia jornais, revistas, conversava com amigos e com estranhos que queriam conhecê-lo. Era gentil e solícito.²
 
Nas últimas vezes em que lá estive, sempre perguntava por ele ao moço ou moça que vinha me atender. As respostas eram "ele está doente, não tem aparecido" ou "ele melhorou, veio aqui na semana passada". Nunca tive ocasião de vê-lo, tampouco a este outro grande escritor uruguaio, Mario Benedetti (1920-2009), que também gostava do café. Mas era bom saber que eles costumavam ir ali.
 
Travei conhecimento com a obra de Galeano em 1977 ao ler este pequeno/grande livro de contos que é Vagamundo (96 páginas). Nos textos breves, o escritor atingiu uma intensidade poética poucas vezes alcançada no gênero. Uma obra-prima.³

É um livro que se constrói, em parte, no clima infernal das ditaduras sul-americanas (a primeira edição é de 1973, ano do golpe que instalou a ditadura civil-militar no Uruguai. A ditadura civil-militar brasileira já vinha desde 1964). Mas vai além. Há tal esmero literário e o resultado é tão elevado, que transcende as circunstâncias em que foi concebido e se afirma enquanto obra. É um trabalho artístico de rara beleza. Só um escritor no domínio do ofício e amoroso da vida consegue isso.

Depois de Vagamundo li outros livros do autor, mas aquele me marcou mais que todos.
 
Eduardo Galeano era honesto a ponto de criticar, no ano passado, seu maior sucesso, As veias abertas da América Latina, durante entrevista na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, onde foi homenageado. Admitiu que, quando o escreveu, não estava suficientemente preparado para abordar alguns dos temas. Acrescentou que o tempo havia passado e tinha descoberto outras maneiras de se inteirar da realidade, concluindo que não gostaria de reler o livro. Além disso, considerava a linguagem de esquerda tradicional chatíssima.4 

Não é todo dia que um escritor tem essa transparência. Um homem assim generoso merece a estima e o respeito de todos. Pertencia a uma estirpe em extinção. Deve, por isso, ser lido e admirado por todas as coisas boas que pensou e escreveu, que não são poucas.
 
_____________
 
¹Vagamundo. Eduardo Galeano. Editora Paz e Terra, tradução de Eric Nepomuceno, 2ª edição, Rio de Janeiro, 1977. Com apresentação de Otto Maria Carpeaux.
²Café Brasilero:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2015/01/la-dulzura-puede-cambiar-el-mundo.html
³O testemunho dos livros:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/o-testemunho-dos-livros.html 
 

4Leia matéria sobre o escritor no jornal O Globo:
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/morre-escritor-jornalista-uruguaio-eduardo-galeano-aos-74-anos-15856331
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Landgrave

Jorge Adelar Finatto

designer: Deus. photo: jfinatto


A fala principial que lhe dirijo, ó, impossível leitor.

Eu, o Landgrave, me curvo diante da vossa alta ausência. Vivo no interior do ermo, habito as brumas dos Campos de Cima do Esquecimento.

Me esqueço no esconso do mundo. Meu revólver é o calepino.

Vento de julho quase me derruba.

As fraquezas do corpo. Nunca se sabe o que vem a contrapeito. Travessias a que os fados nos obrigam.

O sonho muito sonhado tinha nome: Cléria, Cléria dos meus suspiros. Invernos ao relento. A moça de papel e tinta, musa em solidão concebida, menos tida que havida. Só a conheci de vista, na janela da mansarda, quando lá embaixo ela passava. Eu poeta tímido e sufocado.

Sentimentos que teço no abismo dos dias. Dores que não têm conta.

O fosso profundo do fundo de cada um. Meu Deus.

Foi assim.

Os vazios dias, minhas tardes distantes, à beira do penedo. Hoje eu vejo tudo aqui de cima, na mansarda. Recolhido na grossa e comprida manta, atrás dos óculos de fundo de garrafa. Não vivo mais na borda dos penhascos. Saltei para dentro da lira. O consolo possível.

Esta página escrita no sótão, arrostando vento e solidão.

Fugazes as vaidades do mundo são. Mais vale um poema que um tostão. O frio glacial dessas alturas inóspitas.

Fui resgatado do evento proceloso pela mão de salvadoras prosopopeias. Eis-me de ponta cabeça no perau do texto.

São caminhos que se andam. Depois se aprende, depois se esquece. A vida.

O que não se tem se inventa. O mundo não tem bom coração. O delicado vive por teimoso e obstinado.

A humanidade enaltece a ruína, mata o humano. O que fizeram com esse texto as escuridões do mundo!

Cléria, sim, Cléria do capucho branco e do casaco azul claro. Cléria dos meus tormentos. Dos meus espantos e secretas ternuras. A que não se deixou amar. A desaparecida musa do vestido rosa com a fita lilás. Entrou e saiu do meu sonho sem saber.

Vivia lá no seu castelo, sem dar pela minha existência de bardo de arrabalde.

Eu o que quero agora é a solidão dos ventos gelados.

Meu olhar atravessando as névoas eternas.

Eu, o provedor das horas finitas, senhor de nadas, o catador de conchas de silêncio nos ares da infinita montanha.

Ela se foi pela estrada de ferro, sem dizer adeus.

Nas minhas saudades, ouço o ranger do velho trem saindo da estação.

A sintaxe é território que se conquista na dureza de batalhas cruentas. Palavras são coisas que criam asas e depois se lançam.

Agora sou o navegante. Viajor do tempo. Astrônomo de dicionários. O tal que restou com a bicicleta retorcida nas pedras.

 O sobrevivente, ridículo pierrô interiorano.

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Texto revisto, publicado antes em 13 de outubro de 2010.