quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os passos do andarilho

Jorge Adelar Finatto


photo: Maria Fumaça. Autor: Almir Dupont
fonte: Secretaria de Turismo de Bento Gonçalves*


Meus olhos já não sabem
senão contemplar dias
e sóis perdidos. Ouço
rodar velhas charretes
nas ruas de Sinera!
                                Salvador Espriu


A condição de leitor - o que essencialmente sou - se parece com a do viajante de trem. Sou feliz quando entro num vagão ou num livro e saio por aí a conhecer pessoas, lugares, histórias. De face em face, lugar em lugar, página em página.

Um observador amoroso do mundo é como me sinto. Calado embora, quase invisível.
 
Uma vez embarquei no trem que vai de Lisboa a Paris. Um trem do tempo antigo, que não é de alta velocidade (o que eu acho muito bom). Andar de trem é para olhar a paisagem, não voar.

A viagem começou às quatro da tarde, durou toda a noite e se estendeu pelo dia seguinte com troca de trem na Espanha. Como aquelas viagens que eu fazia, quando menino, de Passo dos Ausentes a Porto Alegre: uma eternidade, mas uma eternidade boa.

O comboio, como dizem os portugueses, pára em várias cidades lusitanas, espanholas e francesas. Eu não dormi a noite toda. Fui admirando as paisagens noturnas.

Chegar numa cidade estrangeira de trem, de madrugada, tem um gosto especial. As ruas dormem. Um ou outro vivente aparece na esquina, na calçada. Um cachorro atravessa a rua. As luzes dos postes iluminam as cercanias. Silêncio, vida recolhida. Realidade submersa.

As estações quase desertas. Nenhum sino toca. O relógio gira lentamente nas paredes das gares. A vida gira lentamente.


photo: j.finatto
  

Na condição de andarilho de livros e cidades, acabo de descobrir - ó felicidade - o poeta espanhol Salvador Espriu. Um encontro desses não se esquece.

A insônia, às vezes, verte luz na escuridão.

Um dia desses dias perdi o sono. Devia ser por volta das 4 da madrugada. Chovia. Últimos dias de dezembro que se arrastam feito uma carreta velha por estrada de chão.

Resolvi ligar a televisão no canal espanhol (acho que foi na tv educativa deles). Passava um programa sobre o poeta Salvador Espriu (1913-1985), de quem nunca ouvira falar, com depoimentos dele próprio, de leitores e estudiosos.

Um ator e uma atriz diziam poemas. Aqueles versos e as declarações do poeta produziram em mim tal encanto que lamentei muito não tê-lo conhecido antes.

Ouçamos algumas coisas que consegui anotar, ditas pelo catalão Espriu, que celebrou em sua obra a amada Arenys de Mar, cidadezinha a 40 quilômetros de Barcelona, de onde sua família era originária e que nos seus poemas se transfigura em Sinera, o nome da cidade escrito ao contrário:

 
"A principal qualidade de uma pessoa não é a inteligência, mas a bondade."

"Sou um artesão da linguagem, simples aprendiz."

No seu exílio interior, com suas memórias e seu existencialismo, partilhado com filósofos como Sartre, o poeta escreve visceralmente e nos comove.

Contemplo
calmos ciprestes no amplo
jardim do meu silêncio.

No outro dia, telefonei para a livraria e me disseram que o único livro de Espriu traduzido no Brasil (diretamente do catalão, que é bem diferente do espanhol) é a coletânea 4 poetas da Catalunha, com organização e tradução de Luis Soler (espanhol radicado em Florianópolis), publicado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina em 2010. Uma breve mostra. Retirei da antologia os versos aqui transcritos. Os outros poetas são Joan Maragall, Carles Ribas e Joan Oliver (Pere Quart).
 
Ando agora atrás de livros de Salvador Espriu em espanhol. Um poeta rigoroso no viver e no escrever, que não usa falsos enfeites de poeta, e que tem tanto a dizer e disse. Grande, generoso, humilde. Um caso sério - mais um - de poesia e humanismo da velha Espanha.

Pois eu morro
sem nenhuma ciência,
rico somente em passos
de perdido andarilho.

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