segunda-feira, 28 de novembro de 2016
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
A tristeza de Porto Alegre
Eu vou escrever uma coisa triste. Quero falar de Porto Alegre, cidade do meu coração. Do medo que sinto em andar por suas ruas. Da saudade que tenho do tempo em que isto era possível. Do sentimento de isolamento que nos invade com o cerco da violência.
Difícil acreditar que Porto Alegre é, hoje, uma das capitais mais perigosas do país. Pouco saio de casa temendo assaltos, sequestros, tiros, que ocorrem nas calçadas, nos semáforos, nos estacionamentos de shoppings, em toda parte.
É doloroso não poder caminhar como antes por suas ruas cobertas pelas copas de tantas árvores. E o que dizer de seu rio, de suas praças e parques, do cais, dos barcos e navios, de seu lindo pôr-do-sol, de sua gente acolhedora? Está tudo escondido, hibernando à espera de melhores dias.
Difícil acreditar que Porto Alegre é, hoje, uma das capitais mais perigosas do país. Pouco saio de casa temendo assaltos, sequestros, tiros, que ocorrem nas calçadas, nos semáforos, nos estacionamentos de shoppings, em toda parte.
É doloroso não poder caminhar como antes por suas ruas cobertas pelas copas de tantas árvores. E o que dizer de seu rio, de suas praças e parques, do cais, dos barcos e navios, de seu lindo pôr-do-sol, de sua gente acolhedora? Está tudo escondido, hibernando à espera de melhores dias.
Segundo dados oficiais, o número de latrocínios (roubos com morte) aumentou este ano, chegando, entre janeiro e junho, a 23 vítimas em Porto Alegre e 89 vítimas no Estado. Mata-se por um celular, um par de tênis, um relógio velho, um carro, um pacote de supermercado, muitas vezes por nada, e sem qualquer reação das vítimas. No mesmo período, os homicídios dolosos saltaram para 351 em Porto Alegre e 1.276 no Estado. Isto sem contar outros crimes.*
O Estado não cumpriu a obrigação de construir novas casas prisionais diante do incremento da criminalidade. A superlotação dos presídios impede o atendimento individualizado aos presos, a começar pelo indispensável acompanhamento psiquiátrico. As condições desumanas dos estabelecimentos penais e o despreparo da sociedade em receber o egresso de volta são responsáveis pelo fenômeno da reincidência criminal, que ultrapassa os 70%. Inexiste ressocialização dos apenados.
O que as pessoas não se dão conta, parece, é que tudo de horrível que acontece no interior dos presídios retorna para as ruas.
Nos anos em que atuei na execução criminal, empenhei-me junto com colegas juízes e entidades civis pela humanização dessas casas de mortos (no dizer de Dostoievski). Trabalhamos com projetos de melhoria das condições carcerárias, buscando inserção social através do trabalho, do estudo, de encontros, palestras, livros, bem como pelo envolvimento da comunidade e das famílias dos presos nas atividades de ressocialização. Os resultados foram bons, confirmando que não existe execução criminal que dê frutos sem a participação da comunidade. A Lei de Execução Penal é sábia nesse sentido.
Pois bem, Porto Alegre possui um dos piores estabelecimentos penais do Brasil, se não for o pior, o Presídio Central. É o fundo do poço.
O que as pessoas não se dão conta, parece, é que tudo de horrível que acontece no interior dos presídios retorna para as ruas.
Nos anos em que atuei na execução criminal, empenhei-me junto com colegas juízes e entidades civis pela humanização dessas casas de mortos (no dizer de Dostoievski). Trabalhamos com projetos de melhoria das condições carcerárias, buscando inserção social através do trabalho, do estudo, de encontros, palestras, livros, bem como pelo envolvimento da comunidade e das famílias dos presos nas atividades de ressocialização. Os resultados foram bons, confirmando que não existe execução criminal que dê frutos sem a participação da comunidade. A Lei de Execução Penal é sábia nesse sentido.
Pois bem, Porto Alegre possui um dos piores estabelecimentos penais do Brasil, se não for o pior, o Presídio Central. É o fundo do poço.
Não se chegou a este estado de coisas, portanto, por acaso. São décadas de omissão e indiferença do Estado e da sociedade. Não se combate a criminalidade sem investir, lá atrás, na concretização de direitos elementares como habitação, creches, escolas, saúde, centros comunitários e de convivência, oportunidades de trabalho, etc.
Não, a pobreza não é fábrica de criminosos. A imensa maioria da população não vai para o crime. Mas o que se vive no Brasil é uma situação de indigência social e abandono. O mundo do crime sabe cooptar seus integrantes em todos as classes, inclusive entre as pessoas mais vulneráveis, em situação de alto risco e desespero.
Não, a pobreza não é fábrica de criminosos. A imensa maioria da população não vai para o crime. Mas o que se vive no Brasil é uma situação de indigência social e abandono. O mundo do crime sabe cooptar seus integrantes em todos as classes, inclusive entre as pessoas mais vulneráveis, em situação de alto risco e desespero.
Os maus governantes devem estar orgulhosos do trabalho que fizeram, assim como aqueles que se beneficiaram deste iníquo sistema de coisas. E nós, cidadãos, temos nossa parcela de responsabilidade por escolher quem escolhemos. E por cultuarmos ferozmente a filosofia do eu-sozinho, esquecendo-nos do nós.
O dinheiro que falta para a realização do bem comum e para uma vida mais digna está depositado nos bolsos sequiosos e insaciáveis dos corruptos, conforme estampado nos noticiários todos os dias.
O colapso de Porto Alegre não é um caso isolado, é só um triste recorte do Brasil. Esta é a herança que estamos recebendo e passando adiante, construída pelas pessoas da minha geração e das que nos antecederam. Muitos de nós achavam que a democracia era, por si só, a panaceia para todos os males, quando na verdade é apenas o começo do caminho a ser percorrido, e só Deus sabe a que preço.
Estamos atravessando um dos momentos mais agônicos da história brasileira. A falta de ética na vida pública nunca foi tão evidente. Ninguém aguenta mais tamanha desfaçatez. Precisamos urgentemente de mulheres e homens que reinventem o país com base no sentimento de solidariedade social. Um novo tempo de respeito ao próximo e de intolerância a todas as formas de corrupção é a nossa esperança.
________
*Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do RS. Informação atualizada no blog em 3/12/2016.
http://www.ssp.rs.gov.br/?model=conteudo&menu=348
Os números publicados anteriormente a 3/12/16, nesta matéria, continham erro.
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Os números publicados anteriormente a 3/12/16, nesta matéria, continham erro.
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sexta-feira, 18 de novembro de 2016
O cavaleiro invisível
Jorge Finatto
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| Dibujo de Miguel de Cervantes inspirado en el retrato que le hizo Juan de Jáuregui Autor: Hernán Cortés Moreno. Foto: Arantxa Boyero Fonte: Museo Casa Natal de Cervantes* |
UM HOMEM SÓ, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.
A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.
Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.
Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.
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| Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832-1883) |
O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido do cotidiano.
Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcinéia del Toboso.
O que nos diz o Quixote é que a vida real é insuficiente. Falta vida à vidinha.
A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.
O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.
Montado no magro Rocinante ele vai ao mundo, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco como o amo, um pouco mais sensato talvez, montado em seu jumento.
Lá vão eles pela solidão dos caminhos.
A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora do fundo da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.
Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre.
"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²
Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam. O Quixote sonhou e tentou; o seu tentar valeu por tudo.
Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?
Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós à espreita da hora da rebeldia.
"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote. Essa afirmação vale um tratado de filosofia. Vale uma vida.
A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.
O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.
| Dom Quixote, por Gustave Doré |
Montado no magro Rocinante ele vai ao mundo, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco como o amo, um pouco mais sensato talvez, montado em seu jumento.
Lá vão eles pela solidão dos caminhos.
A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora do fundo da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.
Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre.
"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²
Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam. O Quixote sonhou e tentou; o seu tentar valeu por tudo.
Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?
Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós à espreita da hora da rebeldia.
"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote. Essa afirmação vale um tratado de filosofia. Vale uma vida.
_________________
¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações, exceto Cervantes: Wikipédia.
Fonte das ilustrações, exceto Cervantes: Wikipédia.
Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.
* Museo Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/
* Museo Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/
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domingo, 13 de novembro de 2016
O hotelzinho de Rilke e Goethe
Jorge Finatto
Olhai, as árvores são; as casas que habitamos, resistem. Somente nós passamos (...)
fragmento da Segunda Elegia. Rainer Maria Rilke ¹
NA CIDADEZINHA DE SIERRE, sul da Suíça, no Cantão do Valais, hospedei-me num pequeno hotel 3 estrelas. Perto da estação de trem, tem comida caseira regional e bom vinho. O imóvel é do século XVIII e, segundo seus registros, recebeu no passado, como hóspedes, Goethe (1749 - 1832) e Rilke (1875 - 1926), dois grandes da literatura de língua alemã.
O Hôtel de la Poste passou por reformas ao longo do tempo, claro. É simples, caprichoso e as pessoas são acolhedoras. Ocupei um quarto no segundo andar, imaginando se Rilke ou Goethe teriam ficado nele alguma vez. Será que escreveram na mesinha junto da janela, atrás da cortina cor-de-rosa?
Enquanto me acomodava, a neve tecia caminhos de úmido algodão lá fora.
Enquanto me acomodava, a neve tecia caminhos de úmido algodão lá fora.
| Hôtel de la Poste.Sierre. photo: jfinatto |
| vista do quarto. Sierre. photo: jfinatto |
A razão de minha visita à pícola cidade, cercada pelo maciço rochoso coberto de neve dos Alpes, era percorrer os passos de Rilke em seus últimos cinco anos de vida. Na região de Sierre terminou de escrever as Elegias de Duíno, iniciadas na Itália em 1912. E verteu para o francês parte de seus poemas, além de outras criações e de cultivar a extensa correspondência.
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| Rilke em Muzot. photo: Fundação Rilke² |
Entre 1921 e 1926, viveu no castelo de Muzot, emprestado por alguém da aristocracia local. O imóvel situa-se mais exatamente na pequena e calma localidade de Veyras, ao lado de Sierre. Nele escreveu e recebeu muitas cartas, fez poemas, traduziu, conviveu, amou, planejou viagens, foi feliz e chorou em silêncio sentado no banco sob a parreira do quintal.
Muzot pouco lembra um castelo, não é grande nem suntuoso. Trata-se na verdade de uma construção que lembra uma torre. Não se pode entrar no local, pois é propriedade particular. Não sei se possui objetos do poeta, não há informações a respeito. Mas o fantasma de Rilke deve perambular por seus espelhos.
Em Muzot compôs o poema-epitáfio. E mandou construir seu túmulo ao lado da igrejinha que costumava freqüentar, em Rarogne, a cerca de 30 quilômetros de Sierre, engastada na encosta alpina, depois que se descobriu com leucemia, na época incurável.
Aquele lugar tinha para Rilke um sentido místico. Situado sobre uma colina, com ampla visão dos alpes a leste e oeste, a passagem do rio Ródano no meio dos vales, nos remete ao sagrado. Há algo nesta paisagem que não se explica. Uma visão mágica que inspira um forte sentimento de transcendência..
Aquele lugar tinha para Rilke um sentido místico. Situado sobre uma colina, com ampla visão dos alpes a leste e oeste, a passagem do rio Ródano no meio dos vales, nos remete ao sagrado. Há algo nesta paisagem que não se explica. Uma visão mágica que inspira um forte sentimento de transcendência..
| Igreja de Rarogne, ao lado da qual está enterrado Rilke. photo: jfinatto |
| túmulo de Rilke. Rarogne. photo: jfinatto |
A cidade de Sierre, na qual cultivou relações, mostra interesse pela memória do poeta, a começar pela Fundação Rilke ali existente. Numa livraria, porém, os livreiros mal conheciam seu nome, o que me causou certo espanto. Talvez por ser um devoto da poesia rilkeana esperava mais. Encontrei poucos livros dele na estante, comprei seu poemas franceses.
Já escrevi no blog sobre como descobri seu túmulo solitário e coberto de neve e da emoção que senti ao ler o famoso epitáfio inscrito na rósea e gelada pedra tumular.³
| epitáfio do poeta. photo: jfinatto
Rosa, ó pura contradição,
volúpia,
de ser o sono de ninguém
sob tantas
pálpebras. 4
|
Caminhei ao léu nas ruas solitárias e geladas de Sierre. Admirei da estrada o castelo de Muzot com seu quintal, a parreira e o banco.
Memórias de um poeta que me acompanha desde a adolescência, a quem sempre serei grato pelas lições de vida e poesia em seus livros. Cartas a um jovem poeta é um dos grande livros já produzidos pelo homem em todos os tempos. O poeta genial, humilde e cordial que nunca se cansou de desvelar os mistérios de nossa passagem pelo mundo.
_____________
¹ Elegias de Duíno. Rainer Maria Rilke. Tradução e comentários de Dora Ferreira da Silva. Edição bilíngüe alemão-português. Editora Globo, São Paulo, 2001.
² Fundação Rilke:
http://fondationrilke.ch/la-fondation/
³ O epitáfio de Rilke:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/12/o-epitafio-de-rilke.html
4 Tradução de Manuel Bandeira, em sua Antologia Poética, Livraria José Olympio Editora, 7ª edição, Rio de Janeiro, 1974.
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Memorial da vida breve
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |
O QUE NOS liga à vida
é um fio muito tênue
o tempo de estar
no mundo é breve
traço de luz
sopro divino
a gente nunca sabe
quando a maravilha
vai se apagar
nada nunca está completo
nenhuma vida é suficiente
o transitório é nossa medida
somos a névoa
que passa
e não volta
ave, poema
_________
Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Caminho dos ventos
Jorge Finatto
Gosto de coisas que se movimentam conforme a levada dos ventos.
QUANDO A GENTE pensa que aprendeu alguma coisa na vida, que já sofreu o seu quinhão neste mundo de Deus, aí vem o imponderável e mostra o contrário. Tudo continua em aberto.
É por isso que eu gosto de flores, cata-ventos, pandorgas, borboletas, palmeiras, livros e gente que não é inflexível.
Estou exausto de tanta dureza e indiferença. Não precisava ser assim. A vida é um dom raro demais pra ser desperdiçado com tanta injustiça, maldade e sofrimento.
Gosto de coisas que se movimentam conforme a levada dos ventos. Construo as próprias asas no galpão de fundo de quintal da minha alma.
Quero mais humanidade, beleza e leveza no voo.
É por isso que eu gosto de flores, cata-ventos, pandorgas, borboletas, palmeiras, livros e gente que não é inflexível.
Estou exausto de tanta dureza e indiferença. Não precisava ser assim. A vida é um dom raro demais pra ser desperdiçado com tanta injustiça, maldade e sofrimento.
Gosto de coisas que se movimentam conforme a levada dos ventos. Construo as próprias asas no galpão de fundo de quintal da minha alma.
Quero mais humanidade, beleza e leveza no voo.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Os mortos, os vivos e as flores
Jorge Finatto
EM MEMÓRIA dos meus mortos, saí pela estrada à procura de flores. Dizem que os mortos adoram flores. No Dia de Finados, os cemitérios das cidadezinhas mais parecem floriculturas a céu aberto.
Alguns acreditam que os falecidos acordam da eternidade só para ver as flores recém depositadas e depois voltam a dormir. Eu de nada duvido nesta vida.
Em Nova Petrópolis, passei um pedaço da tarde na Úrsula, uma impressionante casa de flores.
| photo: jfinatto, 02/11/2016 |
Admiro em Deus essa capacidade de desenhar e pintar suas obras florais. Inspiradíssimo. E em muitas delas acrescenta, ainda, de lambuja, os mais finos aromas. Encontrei, por exemplo, uma flor com etéreo cheiro de chocolate.
Recomendam-se flores principalmente aos vivos, neste jardim cheio de espinhos que é viver. Espantam qualquer tristeza e matam saudades.
| photo: jfinatto, 02/11/2016 |
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Cais
Jorge Finatto
| photo: j.finatto |
Tem dias em que saímos
com o corpo nu
para alojá-lo na primeira copa de árvore
e chorar longe dos homens
dias em que os desejos
até os mais secretos
sucumbem apagados
na penumbra
tempo de total privação
da carne e do sonho
tardes em silêncio reveladas
intervalo entre dois mundos
olhamos o céu
no quadrado da janela
esperando ver a face de Deus
procuramos Deus
no íntimo da alma e das coisas
precisamos repousar no colo de Deus
sentir suas mãos nos olhos
para amparar a lágrima quente
que por ali verte
tem dias em que estranhamos
o próprio olhar
que amanheceu mais seco
não reconhecemos a rua
onde tantas vezes inventamos o amor
na sombra dos cinamomos
as melhores viagens
ficaram sonhando no cais
enquanto navios partiam
repletos de homens decididos
em busca de cidades felizes
onde andará o menino
que nos visitava nos dias
em que tudo em volta
parecia desabar?
em que gare deserta
se perdeu o guarda-chuva melancólico
com que meu avô ia à cidade
buscar a porção diária de pão
esperança
e jornal?
tem manhãs em que apesar do sol
não habitamos o claro sentido
de existir
mal percebemos a luz
acalentando o corpo
manhãs em que o carteiro
extravia a carta que irá nos salvar
a notícia tão esperada
que nos revelará
um mundo desconhecido
onde pandorgas falam
e o arco-íris é uma escada
que nos retira do poço
não compreendemos
as mãos cansadas
a boca amarga
com que damos bom-dia aos vizinhos
cumprimentamos os superiores
tem dias em que o isolamento
é tão assombroso
que sentimos tristeza em tudo
principalmente na alegria ingênua
das velhas fotografias
uma dor inevitável
diante dos sonhos da infância
dormimos em quartos de aluguel
projetamos ataúdes de aluguel
as dívidas invadem a porta
os poros
o amanhã ficou torto
na cordilheira dos dias
sem luz
a cidade parou no escuro
sufocou nossos melhores anos
inundou o rio
com seus maus óleos
seu excremento
não merece um verso
sequer uma notícia fugidia
em página de jornal
talvez careça uma bomba
um terremoto
talvez uma flor
povoando o asfalto
estamos um pouco mais tristes
e calados
(um pouso só)
trazemos um gosto de sol
entre os dentes
um resíduo de primavera
na palma da mão
uma promessa de encontro
nos olhos
com o corpo nu
para alojá-lo na primeira copa de árvore
e chorar longe dos homens
dias em que os desejos
até os mais secretos
sucumbem apagados
na penumbra
tempo de total privação
da carne e do sonho
tardes em silêncio reveladas
intervalo entre dois mundos
olhamos o céu
no quadrado da janela
esperando ver a face de Deus
procuramos Deus
no íntimo da alma e das coisas
precisamos repousar no colo de Deus
sentir suas mãos nos olhos
para amparar a lágrima quente
que por ali verte
tem dias em que estranhamos
o próprio olhar
que amanheceu mais seco
não reconhecemos a rua
onde tantas vezes inventamos o amor
na sombra dos cinamomos
as melhores viagens
ficaram sonhando no cais
enquanto navios partiam
repletos de homens decididos
em busca de cidades felizes
onde andará o menino
que nos visitava nos dias
em que tudo em volta
parecia desabar?
em que gare deserta
se perdeu o guarda-chuva melancólico
com que meu avô ia à cidade
buscar a porção diária de pão
esperança
e jornal?
tem manhãs em que apesar do sol
não habitamos o claro sentido
de existir
mal percebemos a luz
acalentando o corpo
manhãs em que o carteiro
extravia a carta que irá nos salvar
a notícia tão esperada
que nos revelará
um mundo desconhecido
onde pandorgas falam
e o arco-íris é uma escada
que nos retira do poço
não compreendemos
as mãos cansadas
a boca amarga
com que damos bom-dia aos vizinhos
cumprimentamos os superiores
tem dias em que o isolamento
é tão assombroso
que sentimos tristeza em tudo
principalmente na alegria ingênua
das velhas fotografias
uma dor inevitável
diante dos sonhos da infância
dormimos em quartos de aluguel
projetamos ataúdes de aluguel
as dívidas invadem a porta
os poros
o amanhã ficou torto
na cordilheira dos dias
sem luz
a cidade parou no escuro
sufocou nossos melhores anos
inundou o rio
com seus maus óleos
seu excremento
não merece um verso
sequer uma notícia fugidia
em página de jornal
talvez careça uma bomba
um terremoto
talvez uma flor
povoando o asfalto
estamos um pouco mais tristes
e calados
(um pouso só)
trazemos um gosto de sol
entre os dentes
um resíduo de primavera
na palma da mão
uma promessa de encontro
nos olhos
__________________
Do livro O Fazedor de Auroras, Jorge A. Finatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
photo: Cais de Porto Alegre
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tem dias em que saímos
sábado, 29 de outubro de 2016
O tempo à beira do arroio
SESSENTA VELAS ao vento no meu velho barco, sessenta cidades, sessenta despedidas, sessenta portulanos, sessenta astrolábios, sessenta esperas, sessenta remorsos, sessenta naufrágios, sessenta silêncios, sessenta encontros, sessenta novembros no baú do tempo.
Lembro o arroio que passava atrás da casa lá da infância. Corria à margem da horta e do quintal. Entre mim e o arroio, as alfaces, os pintos, os pinheiros e as roupas no varal . Entre mim e o arroio, a cálida intimidade de amigos de infância, o mundo inteiro pela frente.
As águas vinham do interior profundo da terra. Nasciam em algum remanso dentro da mata, limpas, frescas. Vinham alegres, vinham cantando pelos caminhos sinuosos.
Um dia entrei no meu barco de papel e segui com o arroio em direção ao mar. Depois, bem, tudo veio depois. Mas a casa e o arroio ficaram lá, com os seres amados, guardados num lugar secreto do meu coração onde nenhuma tempestade pode entrar.
Lembro o arroio que passava atrás da casa lá da infância. Corria à margem da horta e do quintal. Entre mim e o arroio, as alfaces, os pintos, os pinheiros e as roupas no varal . Entre mim e o arroio, a cálida intimidade de amigos de infância, o mundo inteiro pela frente.
As águas vinham do interior profundo da terra. Nasciam em algum remanso dentro da mata, limpas, frescas. Vinham alegres, vinham cantando pelos caminhos sinuosos.
Um dia entrei no meu barco de papel e segui com o arroio em direção ao mar. Depois, bem, tudo veio depois. Mas a casa e o arroio ficaram lá, com os seres amados, guardados num lugar secreto do meu coração onde nenhuma tempestade pode entrar.
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Não me abandones
Jorge Finatto
a Chet Baker*
a Chet Baker*
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| Chet Baker (1929-1988) |
Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto
enche o deserto
com teus passos
em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias
me dá outra vez
o diamante
da tua
presença
________
*Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html
sábado, 22 de outubro de 2016
A crônica de Pedro Mexia
Algumas dessas crónicas sobre mim não são de facto sobre mim. Se fossem, certamente não interessavam a ninguém (sobretudo não me interessavam a mim). Essas crónicas são também, assim o espero, sobre si, leitor. Meu atento leitor, meu semelhante, meu irmão.
Pedro Mexia, trecho da crônica Primeira Pessoa.(grafia de Portugal)*
Ser um bom escritor é muito mais do que uma questão de inteligência, cultura e técnica literária. É preciso antes que haja vida por trás das linhas, uma cabeça e um coração capazes de comover-se com o ser humano no difícil ato de viver. E é preciso ser duro às vezes.
Descobrir um escritor que nos faz reencontrar a ventura do texto é um acontecimento cada vez mais raro, ao menos pra mim. Quando acho um livro assim, os meus dias se enchem de uma espécie particular de alegria, algo que, se não é um pedaço do paraíso, anda perto disso.
Nas minhas viagens a Portugal, garimpando em alfarrabistas e livrarias, tenho encontrado autores atuais de grande talento. Não só portugueses como de países outros da comunidade lusófona. Por uma dessas razões que escapam à compreensão, nossas literaturas estão separadas. Não se conhecem, parece até que falam línguas diferentes. Algo muito além do Atlântico nos divide.
O meu primeiro passeio, em qualquer cidade, é a banca de jornal e, depois, o café. Lisboa oferece ótimas estações. Foi assim que conheci dois grandes cronistas portugueses: Manuel António Pina e António Lobo Antunes, autores que escrevem também em outros gêneros. Pina, infelizmente, já morreu. Imensa falta me fazem os textos que escrevia no Jornal de Notícias. Escrevi sobre ambos nesta página elétrica.
Pois um dia desses, lendo um artigo do escritor angolano José Eduardo Agualusa, no jornal O Globo, com o título A literatura pode sobreviver sem crítica?, encontrei referência ao lisboeta Pedro Mexia.
Pois um dia desses, lendo um artigo do escritor angolano José Eduardo Agualusa, no jornal O Globo, com o título A literatura pode sobreviver sem crítica?, encontrei referência ao lisboeta Pedro Mexia.
Resolvi procurar na livraria, em Porto Alegre, algum título dele. E encontrei justamente o livro de crônicas Queria mais é que chovesse, que marca sua estréia no Brasil, terra de cronistas do porte de Alvaro Moreyra, Rubem Braga, Olavo Bilac, Drummond, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e José Carlos Oliveira, mestres do gênero.
Não imaginava o que me aguardava nessas páginas. Um dos melhores cronistas da atualidade, autor que areja o gênero, conferindo-lhe graça, beleza, ironia, realismo e poesia, colhidos no pátio dos dias. Uma mistura muito bem dosada, e refinada, desses ingredientes povoa seu texto.
Só os incautos podem considerar a crônica um gênero menor ou fácil.
Existem escritores belos e vazios como pavões de feltro. E há aqueles que carregamos no bolso do casaco por onde andamos. Já não podemos passar sem eles. Este é o caso de Pedro Mexia, grata revelação em tempos de tantos pavões de olhar mortiço empoleirados nas estantes.
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*Queria mais é que chovesse. Pedro Mexia. Editora Tinta-da-China Brasil, Rio de Janeiro, 2015.
Não imaginava o que me aguardava nessas páginas. Um dos melhores cronistas da atualidade, autor que areja o gênero, conferindo-lhe graça, beleza, ironia, realismo e poesia, colhidos no pátio dos dias. Uma mistura muito bem dosada, e refinada, desses ingredientes povoa seu texto.
Só os incautos podem considerar a crônica um gênero menor ou fácil.
Existem escritores belos e vazios como pavões de feltro. E há aqueles que carregamos no bolso do casaco por onde andamos. Já não podemos passar sem eles. Este é o caso de Pedro Mexia, grata revelação em tempos de tantos pavões de olhar mortiço empoleirados nas estantes.
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*Queria mais é que chovesse. Pedro Mexia. Editora Tinta-da-China Brasil, Rio de Janeiro, 2015.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
O Nobel de Bob Dylan
Jorge Finatto
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| Bob Dylan * |
BOB DYLAN (Robert Allen Zimmerman, 75 anos) é um artista inspirado e inspirador. Alguém que surgiu da obscuridade e construiu um espaço na canção mundial.
Tornou-se um músico original, intérprete criativo, pensador e poeta do nosso tempo. Toca com lirismo e fé aquela gaitinha de boca. Um autêntico menestrel viajando na Via Láctea.
Tornou-se um músico original, intérprete criativo, pensador e poeta do nosso tempo. Toca com lirismo e fé aquela gaitinha de boca. Um autêntico menestrel viajando na Via Láctea.
Causou estranheza o fato da Academia Sueca ter-lhe concedido, na quinta passada, 13 de outubro, o Prêmio Nobel de Literatura. Normalmente concedido a escritores de livros (em poesia ou prosa), este ano fugiu do padrão. Muita gente vai às livrarias atrás de obras do agraciado com o galardão. Isto dificilmente ocorrerá com o Nobel de 2016, porque o material literário de Dylan é muito escasso e, no Brasil, quase inexistente. O interessado deverá, neste caso, dirigir-se à seção de discos.
Um dos livros aqui editados intitula-se Tarântula (Editora Brasiliense, 1986), de prosa poética, e o outro Crônicas - volume 1 (Editora Planeta, 2005), ambos difíceis de encontrar. Não li nenhum. Encontrei a informação de que, em novembro próximo, nos Estados Unidos, será lançado um livro com todas as letras do famoso compositor. Tenho muita vontade de conhecer um livro de pinturas dele sobre o Brasil.
O que chama atenção é a mudança de enfoque do prêmio, levando a questionar os limites do que se considera literatura. Será apenas aquela a que estamos acostumados, livresca, impressa ou eletrônica? Letras de música, caso de Dylan, são também literatura? Para a Academia Sueca, parece que sim.
Aliás, não há novidade em considerar letras um gênero dentro da literatura, havendo estudos nesse sentido. No Brasil, país de poucos leitores, os textos musicais são uma das principais formas de expressão e comunicação com o público. Através deles, os autores celebram a sensibilidade, a poesia e fazem a leitura da nossa realidade. Temos poetas extraordinários na canção popular, como Lupicínio, Cartola, Vinicius, Tom, PC Pinheiro, Caetano, Chico, Fernando Brant, Ary Barroso, Caymmi e muitos, muitos mais.
Não vejo, portanto, blasfêmia na atribuição do Nobel a Dylan. Ele é, por sua arte, merecendente.
Penso, contudo, que o prêmio de literatura deveria ficar com os escritores de ofício, dedicados à produção de obras literárias. Não é exatamente o caso das letras de música. Estas funcionam esteticamente junto com a canção (para isso são feitas). Isoladas, nem sempre atingem um resultado artisticamente válido. O que deveria ser criado é um Prêmio Nobel de Música, contemplando-se, assim, especificamente, os criadores desta arte.
Escritor é uma raça tão solitária, sofrida, esquecida, torturada e difícil de entender que merece, ao menos, ter um Nobel por ano para aliviar um pouco as dores, traumas, recalques, incompreensões e injustiças.
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* O crédito será dado assim que conhecido o autor da imagem.
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Prêmio Nobel de Literatura 2016
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Olhar sobre Veneza
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto |
Nesta quarta-feira, 19 de outubro, começa a exposição de fotos Olhar sobre Veneza. Colhi as imagens perambulando pela belíssima cidade-museu construída sobre 118 ilhas, separadas por canais e ligadas por cerca de 400 inspiradoras pontes.
Naveguei os canais a bordo de leves e deslizantes gôndolas e fiz a pé o percurso tortuoso das fondamenta (passagens à beira dos canais). Não existem automóveis, motos, ônibus, metrô, etc. Caminha-se ou navega-se em Veneza, e isso já faz a gente se sentir noutro planeta. Os detalhes vocês verão nos 17 painéis que estarão expostos no Josephina Café, em Gramado. Benvenuti a tutti!
Naveguei os canais a bordo de leves e deslizantes gôndolas e fiz a pé o percurso tortuoso das fondamenta (passagens à beira dos canais). Não existem automóveis, motos, ônibus, metrô, etc. Caminha-se ou navega-se em Veneza, e isso já faz a gente se sentir noutro planeta. Os detalhes vocês verão nos 17 painéis que estarão expostos no Josephina Café, em Gramado. Benvenuti a tutti!
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| photo: jfinatto |
Venezia, la bella signora:
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sábado, 15 de outubro de 2016
Paixão de primavera
Jorge Finatto
| photo: ipoméia azul. jfinatto, 14/10/2016 |
NINGUÉM ESTÁ IMUNE a uma paixão na primavera. Supõe-se, contudo, que um cara na minha idade tenha anticorpos suficientes para evitar recaídas e armadilhas.
Afinal, já levou rasteiras, deu com a cara no chão, apanhou bastante. Deve ter aprendido a não brincar com fogo. O tempo arrefece emoções violentas, vive-se mais, digamos, espiritualmente.
Não por outra razão inventaram a religião, a literatura, a filosofia, as palavras cruzadas e os blogs. Quireras, quireras, estimado leitor. Não passamos de uns pobres diabos. Veja o que me aconteceu.
Ontem, saí de Passo dos Ausentes às 7 da manhã em direção a Nova Petrópolis. Depois de 8 horas viajando serra abaixo na intrépida Linguilingui, contornando sinistros abismos, cheguei ao destino e parei para o café da tarde (costume ainda em voga entre serranos da antiga). Logo em seguida, me dirigi ao Recanto das Azaléias, floricultura local do meu agrado. Foi aí que tudo começou.
| photo: ipoméia azul. jfinatto, 14/10/2016 |
Numa curva da aléia, entre vasos e flores, encontrei-a, de repente. Ela mal percebeu a minha existência. Eu não tirei mais os olhos dela. O coração acelerou. Por instantes esqueci quem eu era. Toda minha vã filosofia caiu por terra. Eu só tinha tenção pra ela. Indefeso, fiquei a admirá-la. Pura visão.
Apaixonei-me, em suma. Seu nome, de remoto sabor grego: Ipoméia. Todo Quixote encontra um dia sua Dulcinéia. Intrépido, levei-a pra casa.
Ao anoitecer, a divina donzela enclausurou-se em si mesma, recolhendo-se em seus secretos aposentos. Ao amanhecer, inaugurou o suave e delicado tecido das inefáveis flores. Sentimento azul.
Ao anoitecer, a divina donzela enclausurou-se em si mesma, recolhendo-se em seus secretos aposentos. Ao amanhecer, inaugurou o suave e delicado tecido das inefáveis flores. Sentimento azul.
Não podia imaginar que Deus me reservava essa beleza, que eu não mereço, em plena secura do tempo. Mas aconteceu.
Ipoméia azul, minha paixão de primavera.
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Escrito sob a boa grafia antiga, vigorante antes do (des) acordo ortográfico.
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016
A boneca de trapo
Jorge Finatto
| photo: j.finatto |
ERA UMA DESSAS TARDES que antecedem o outono em Passo dos Ausentes. O ar outonal nos deixa mais sensíveis diante das mudanças nas cores e das primeiras quedas de folhas. As seivas concentram as forças, evitando qualquer desperdício. Em dias assim, é uma sorte estar vivo.
Enquanto atravessava a Praça da Ausência, encontrei uma boneca de trapo caída no chão. Era feita de velhos panos coloridos. Os olhos eram dois botões verdes.
Os cabelos, fios de lã repartidos em duas tranças. A boca, um pequeno risco vermelho e sorria.
Apesar de perdida, a boneca não parecia muito triste. Apenas carregava um toque de melancolia no semblante, que desapareceu quando a levantei. Acomodei-a no banco da praça, embaixo de um salgueiro, ao lado do lago.
Fui embora, não sem alguma dor. No início quis levá-la comigo, dar-lhe novo lar. Mas desisti ao pensar que quem a perdeu (uma criança tudo leva a crer) voltaria para buscá-la. Seria de cortar o coração não encontrar a sua boneca de trapo.
Viver tem dessas coisas. Nem sempre (ou quase nunca) podemos ter o que nos encanta. Nem sempre, como no outono, a vida se exalta em delicadas mutações.
Num dia, o céu azul nos ilumina, habitado aqui e ali por nuvens cor-de-rosa, o coração bate harmonioso. Noutro, pensamentos escuros, pesados, se espalham e a gente só imagina besteira.
A boneca de trapo me lembrou coisas que perdi na vida. Perdi e me conformei. Porque nada, absolutamente nada, nos pertence nesse mundo.
Tudo que temos é emprestado, a começar pela vida. Um dia teremos de devolver. Nada é nosso.
Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.
Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.
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Boneca artesanal da região serrana do Rio Grande do Sul. Texto revisto, publicado em 16 de março de 2011.
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segunda-feira, 10 de outubro de 2016
O morto-vivo
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |
UM FANTASMA que lê, escreve, caminha invisível pela estrada de terra na encosta escorregadia da montanha.
Aquele que morreu e anda por aí, que teima em acordar, tomar banho, trabalhar, comer, dormir, ter pesadelo, ir ao cinema, ler jornal e livro, beber café.
Aquele que morreu e anda por aí, que teima em acordar, tomar banho, trabalhar, comer, dormir, ter pesadelo, ir ao cinema, ler jornal e livro, beber café.
O que espera pelo próximo livro de Guillermo Cabrera Infante, que infelizmente não virá mais.
Uma assombração que passa em silêncio em direção à mesa de trabalho e o trabalho é uma expansão de solidão entre nuvens.
O morto-vivo, coração pulsante, que resiste escrever o próprio epitáfio.
Viver lhe parece pouco, irmão leitor? Querias taça de champanha com uvas graúdas em mesa de toalha de linho, sob pérgula, no jardim das delícias?
O meio-vivo, meio-morto, no claro-escuro, ternura impossível, esta cidade gemente.
Há um boneco de ventríloco sentado na sua esquerda perna, anotando algaravias que ele pensa e já sonha, quando imagina que ainda vive.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
O padeiro feliz
Jorge Finatto
| photo: jfinatto, Rio Guaíba, Porto Alegre |
NUM TEMPO difícil, por volta dos vinte e seis anos, com excesso de trabalho, escassez de salário e pouco prazer na vida, encontrei uma maneira curiosa de me acalmar e tocar o barco em frente: comecei a fazer pão em casa nas horas livres. Ao invés de me amofinar, vestia o avental e me enfiava na cozinha.
Produzia pães doces e salgados, com variadas especiarias e frutas, numa média de dez por semana. Inventava sabores e formas (uns lembravam um submarino, outros, uma estrela, um peixe, uma borboleta, um avião, um tijolo, etc).
Produzia pães doces e salgados, com variadas especiarias e frutas, numa média de dez por semana. Inventava sabores e formas (uns lembravam um submarino, outros, uma estrela, um peixe, uma borboleta, um avião, um tijolo, etc).
Uma padaria artesanal e austera, feita no diminuto forno do fogão a gás. Buscava naqueles pães um pouco de inspiração, de fertilidade em meio à grande secura das coisas. Sentia-me feliz com o ofício de fazedor de pães, deliciava-me com o cheiro que impregnava o apartamento. Embrulhava-os com todo cuidado. Dava para pessoas da família e amigos.
A faina padeira durou cerca de um ano. Sublimei sofrimentos, recalques, frustrações e impotências, que assavam no forno junto com a massa. Cada pão era um ato de resistência. Quanto mais bonito e saboroso, melhor eu me sentia. De onde veio tudo isso? Sei lá. Mas funcionou.
A faina padeira durou cerca de um ano. Sublimei sofrimentos, recalques, frustrações e impotências, que assavam no forno junto com a massa. Cada pão era um ato de resistência. Quanto mais bonito e saboroso, melhor eu me sentia. De onde veio tudo isso? Sei lá. Mas funcionou.
Não fui um boulanger de mão cheia, longe disso. Mas também não fui um completo impostor na arte de fazer pães. Vi que servia para alguma coisa além de manusear códigos e livros de direito. Constatei que não morreria de fome se não passasse no concurso para juiz. O pão caseiro, ao menos, estava garantido...
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