segunda-feira, 30 de julho de 2012

Mario Quintana, 106 anos

Jorge Adelar Finatto

photo: Moacir Gomes, 1966

Ser poeta é uma maneira de ser e não de escrever. O leitor de poemas é um poeta sem saber.¹
Mario Quintana

Atravessei o corredor que ligava a redação da Folha da Tarde com a do Correio do Povo, os dois jornais da Companhia Jornalística Caldas Júnior, hoje extinta. Contornei o vetusto elevador, cuja porta se abria que nem uma sanfona metálica, entrei no Correio em busca do meu entrevistado. Devia ser 3 da tarde, ele ainda não tinha chegado. A mesa do poeta estava coberta de livros, revistas, jornais, cartas. Em 1982 eu era um jovem repórter da Folha.

No alto da parede, à direita da ampla sala, a foto ampliada (acima) que eternizou o encontro daquele grupo de escritores, em 1966, na cobertura cultivada com plantas e pássaros do cronista Rubem Braga, no Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita: Drummond, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos.

Enquanto aguardava Mario Quintana, conversei com o jornalista Paulo Fontoura Gastal, outro notável daquela redação. O Correio da época era dos melhores jornais que havia no Brasil. A edição dominical (a principal da semana) muitas vezes superava em qualidade jornais do centro do país, como Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo e Estadão. 

Quintana viveu a maior parte da vida em quartos de hotel, o mais lembrado deles Hotel Majestic (depois transformado na atual Casa de Cultura Mario Quintana), na Rua da Praia, não distante do portão do cais de Porto Alegre. Ele era um caminhante contumaz da cidade velha, junto ao Guaíba. Sempre me pareceu que andava como um veleiro no rio, a cabeça levemente erguida, olhar alheio ao movimento, deslizava calmamente, parecendo flutuar.

Naquele nevoeiro
Profundo profundo...
Amigo ou amiga,
Quem é que me espera?²

Nasceu em Alegrete em 30 de julho de 1906, há 106 anos, e morreu em 05 de maio de 1994, em Porto Alegre. É uma das principais vozes da poesia brasileira e um dos importantes tradutores que tivemos. Pela Editora Globo, verteu para o português obras do inglês e do francês, de autores como Marcel Proust, Virginia Woolf, Aldous Huxley, Honoré de Balzac, Voltaire, Guy de Maupassant, Somerset Maugham, entre outros.

O poeta chegou à redação trazendo a sacola que costumava carregar naquele tempo. Sentou-se e pediu-me que lesse as perguntas, cinco ou seis, que tinha feito. Pegou a anotação e começou a responder por escrito, à mão, solícito e bem-humorado, enquanto conversávamos. Com as respostas, voltei para a Folha e fiz a matéria. Infelizmente, tempos depois extraviei o manuscrito.

Em certas tardes perdidas, no café do jornal, vi Mario Quintana sentado diante da indefectível taça de café preto, com o quindim amarelo no pires. Lia alguma coisa, livro ou jornal, ou simplesmente olhava para algum ponto indefinido, caminhando dentro de si mesmo. Nunca me atrevi a interrompê-lo naqueles momentos, que podiam durar uma hora, às vezes mais.

Não tinha pressa de viver nem de escrever. Vivia, escrevia. O primeiro livro, A rua dos Cataventos, veio a lume em 1940, revelando um poeta senhor do ofício. O tempo foi seu aliado e concedeu-lhe numerosos dias para construir a rica obra que deixou.

Uma vez disse: O proletário é um sujeito explorado financeiramente pelos patrões e literariamente pelos poetas engajados. Achava que se um poeta quisesse mudar o mundo deveria candidatar-se a um cargo público, ao invés de escrever versos que os mais pobres não leriam por falta de tempo ou por não saber ler. É verdade que Castro Alves influiu na abolição da escravatura. Mas acontece que Castro Alves era genial e nós temos apenas algum talento

Um homem que viveu em estado de poesia, um hóspede solitário a vagar pelas ruas de Porto Alegre, cidade que tanto amou. Inquilino do mistério, a simples presença de Quintana, entre nós, foi um acontecimento luminoso. Um ser raro, desses que aparecem de vez em quando para nos fazer encontrar e sentir um pouco de beleza.

Não constituiu uma família tradicional, com mulher e filhos, viveu só. No entanto, conquistou uma numerosa e cálida família entre seus leitores e amigos. Nos últimos 20 anos de existência, foi celebrado como grande poeta no Rio Grande do Sul e no Brasil. Teve a merecida ventura de ser reconhecido em vida.

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¹ Entrevista concedida a Vitor Edézio Borges, jornal MJ, da PUC/RS, em 1978.
² Primeiros versos do poema O cais, do livro O aprendiz de feiticeiro, incluído na antologia Poesias, Editora Globo, Porto Alegre, 1977.
³ Entrevista a Geneton Moraes Neto, publicada no caderno Ideias do Jornal do Brasil, em 30 de julho de 1988.

sábado, 28 de julho de 2012

A pátria da língua portuguesa

Jorge Adelar Finatto

Fernando Pessoa nos azulejos do Martinho da Arcada*. photo. j.finatto


Após um tempo sem falar português, num país distante, quando, enfim, entrei no avião da TAP, de regresso a Lisboa e, horas mais tarde, ao Brasil, disse aos tripulantes, na entrada da aeronave: a nossa pátria é a língua portuguesa.

Aquilo saiu assim, de repente, quase um desabafo, ao reencontrar pessoas que compartilham o mesmo idioma, depois de um período de exílio longe da língua.

Minha pátria é a língua portuguesa. A frase de Fernando Pessoa, do Livro do Desassossego, trecho 259, expressa essa verdade cósmica e sentimental: pertencemos à língua que nos viu nascer, essa que sussurrou aos nossos ouvidos, nos instantes inaugurais da vida, o som das primeiras palavras de acalanto e consolo.


Amanhecer no oceano perto de Lisboa. photo: j.finatto

Os membros da tripulação não se mostraram espantados com o palavroso passageiro, ao contrário, aderiram à minha saudação, talvez levados por um sentimento de saudades de Portugal e do Tejo, naquela tarde fria do norte europeu.

A maternal língua de Camões nos lambe desde o berço, como lambeu Pessoa, Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Carlos Drummond, Heitor Saldanha, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Henrique do Valle, entre tantos, da mesma maneira que lambe o vendedor de peixe do mercado público de Porto Alegre, a florista da Praça da Aurora, o homem da banca de jornais.

O português cultivado no Brasil enriqueceu-se dos sons e novos sentidos advindos das falas de origem africana, indígena, espanhola e de todos os povos que vieram ao continente brasileiro.

A língua portuguesa, amarga e doce, nos habita, e com ela tentamos nos comunicar no duro ofício de viver, sonhar e sofrer. Essa pátria nos carrega dentro de si aonde quer que nos levem os ventos oceânicos.

A língua é nosso território espiritual no mundo.

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* Café Restaurante Martinho da Arcada, um dos mais antigos do mundo, em Lisboa. Patrimônio Nacional português. Nele Fernando Pessoa costumava beber, jantar e receber amigos no balcão do café (foto acima) e na sua mesa cativa. O proprietário de então, reza a lenda, amigo a admirador do poeta (pobre), não cobrava as suas despesas. Há no local cópias de manuscritos, de fotografias e outros documentos do poeta. Fica na Praça do Comércio (ou Terreiro do Paço), sob os arcos, quase à margem do Tejo.(Jorge Finatto)