quinta-feira, 18 de julho de 2013

A rebelião dos guarda-chuvas

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 
Um fato incomum aconteceu em Passo dos Ausentes.

Revoltados por viver na zona sombria do esconso, os guarda-chuvas da nossa pequena aldeia reuniram-se em assembléia na Praça da Ausência. Decidiram protestar flutuando sobre os telhados do casario antigo. Depois foram-se pelo céu azul em alegre bando.


photo: j.finatto
 
O blog procurou um dos líderes do movimento, Ernesto Chuva Fina, que nos recebeu no banco da Fonte dos Esquecidos. Segundo afirmou, os conjurados deliberaram aproveitar os dias de azul profundo como esse (em pleno julho invernal), a fim de arejar o pensamento, o corpo e o espírito.
 
- A questão é simples -, disse ele: - guarda-chuva também é gente. Mas o povo só se lembra de nós nos dias maus, de relâmpago, trovoada, frio, chuvarada e ventania. Por que nunca nos fazem um agrado?

Prosseguiu Chuva Fina:

- O que custa sair com a gente num dia lindo como hoje para aproveitar a fresca e o bom tempo? Mas não. Nos dias belos nos deixam fechados, molhados, pendurados, enterrados e amargurados numa lata cilíndrica ou num cabide. Queremos um pouco de vida na nossa vida. Na verdade, queremos muito mais vida.


photo: j.finatto

E concluiu:

- Por que será que a felicidade dos outros incomoda tanto algumas pessoas?
 
A bela sombrinha Mariana Gota Dágua afirmou que não há prazo para o fim da rebelião:
 
- Por certo não queremos um prazo determinado para ser feliz. Prazo é coisa de gente rígida, impermeável, tosca, avessa às belezas e levezas da vida. Nós vamos é curtir. Enquanto houver dias azuis, ficaremos na rua. Ou mehor, nos ares e nas praças, que é onde gostamos de passear e nos divertir. Podemos ser muito engraçados e brincalhões, sabia? Temos humor, coisa que as pessoas deste lugar perderam faz tempo.


photo: j.finatto
 
E saiu flutuando a jovem Gota Dágua, reunindo-se ao bando na maior felicidade.
 
Como em grande parte do ano faz frio, chove, venta, neva e neblina aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, os moradores estão preocupados com os desdobramentos do movimento guarda-chuval. O guarda-chuva é artigo de primeira necessidade entre nós.



photo: j.finatto
 
- Temos de nos acostumar aos novos tempos. Assim como o povo, os guarda-chuvas também resolveram parar de esperar por dias melhores e foram à luta nas ruas (e pelos ares). Eles têm seus motivos e devemos respeitar seus sentimentos, declarou ao blog Don Sigofredo de Alcantis, filósofo, presidente da Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Agnóstica,  Astronômica, Antropológica, Mística, Antropofágica, Ecológica, Pantagruélica e Artística de Passo dos Ausentes.

 E a vida segue.

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Fotos tiradas na cidade de Canela, Rio Grande do Sul, inverno 2013. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Postal do fim do mundo

Jorge Adelar Finatto

Vale do Olhar. photo: j.finatto


O sol mal aparece entre as nuvens nesses dias glaciais de julho em Passo dos Ausentes. Através da janela, a silhueta azulada das montanhas na profundidade do Vale do Olhar. Um cartão-postal do fim do mundo, esse lugar onde Deus descansou os pincéis, as tintas e as ferramentas, deu por encerrados os trabalhos, e pôde enfim admirar a sua maravilhosa obra.
 
O inverno abre gavetas no escritório em busca de uma luz escondida. Encontro entre os papéis um desenho antigo. É um riacho correndo sob o céu azul com pinheiros nas margens. Sentada num tronco caído, com um chapéu de palha, uma mulher pesca. Perto dela, um cachorro e uma bicicleta. Um pouco acima, uma ponte de madeira une as duas margens do córrego.

magnólia. photo: j.finatto

Há uma serena alegria na face dos personagens que habitam o retrato. Agora quase todos flutuam (invisíveis) no ar como figuras de uma pintura de Marc Chagall.

O inverno deixa a solidão das coisas a descoberto. Procuro um sopro cálido de luz nas anotações esquecidas no fundo da gaveta.

magnólias. photo: j.finatto

Ando pela casa atrás de mim, faz tempo que não me encontro.

Talvez esteja no sótão olhando o céu com o telescópio, à espreita de um habitante engraçado num planeta distante. Talvez tenha ido ao porão conversar com os fantasmas. Talvez adormeci na poltrona, afundado no grosso capote azul, diante da janela, esperando a primavera.

camélia. photo: j.finatto

Em certos dias na vida, só a presença das camélias e magnólias é fonte de alegria e inspiração.

A sagrada alegria de um jardim cultivado com mãos de afeto.