quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Na tarde gelada e nevoenta de Gramado, todos somos celebridades

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

photo: jfinatto

Alguns haverão de encontrar encanto em sair do cálido quarto de hotel, abandonar a leitura de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, e mergulhar na paisagem gelada e nevoenta de Gramado para assistir filmes no Festival de Cinema. Não é o meu caso.
 
photo: j. finatto
 
No hotel onde estou hospedado há tantos astros, estrelas, diretores e gente envolvida com cinema, que até um anônimo como eu chama a atenção.
 
Tenho participado, involuntariamente, de variadas rodas sobre temas relacionados ao mundo da tela grande. Não que eu faça questão. Sou ao natural um sujeito tímido e pouco falante. Prefiro sempre ouvir a falar. Não por modéstia, mas por falta do que dizer.
 
Ocorre que me pegam pelo braço no corredor, no café, no jardim, como se fosse um deles, e me levam pra lá, pra cá, em salas temáticas da sétima arte. Talvez o cabelo cinza, os óculos com lentes de fundo de garrafa e a aparência vetusta façam presumir alguém que não sou eu.
 
photo: j.finatto

A vida me ensinou que não é de bom tom perguntar-se o nome das pessoas nesse ambiente cinematográfico. Supõe-se que, entre nós, celebridades, existe o desejável, esperável e nunca desprezível recíproco reconhecimento.
 
A mim deram para chamar de Carlos, o Carlinhos do 707. Eu, que até dias atrás era um ilustre anônimo, pertenço agora à malta.

Sou um peixe navegando nessas marés de Deus, adapto-me com certa facilidade às vicissitudes, sobrevivo. E sempre gostei deste nome, Carlos! Já agora me sinto à vontade com a nova identidade.
 
Um diretor famoso (no festival todos os diretores são famosos) cismou de achar, num desses encontros, que, no início da carreira, trabalhou como meu assistente num filme. Disse aos presentes - pedindo que eu levantasse da cadeira, no fundo da sala - disse que eu lhe dei a primeira oportunidade.

Espantado, eu quis dizer que não, não era assim, ele estava me confundindo com outro. Mas o diretor imediatamente me interrompeu e retrucou:
 
- O velho e bom Carlinhos de sempre! Além de tudo, humilde!
 
A assistência aplaudiu, alguns de pé. Limitei-me a esboçar um breve aceno e sentei-me, curtindo meu momento de glória.
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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval e livre-pensador, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue a convite de Alberta de Montecalvino. Como o blogue não tem mecenas, o Cavaleiro paga todas as suas despesas e acha que está muito bem assim. Texto revisto, publicado antes em 10 de agosto, 2011.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Venimos de muy lejos

O Cavaleiro da Bandana Escarlate
 
photo: cena do filme
fonte: site dos produtores*
 
Não fique em casa sozinho, vendo televisão no sofá. Venha para a praça fazer teatro com a gente.
                                              Grupo de Teatro Catalinas Sur

Venimos de muy lejos (Viemos de muito longe, 2012), filme argentino com direção de Ricardo Piterbarg, é o melhor que vi até agora no Festival de Cinema de Gramado. Mais uma vez, o cinema argentino brilha, salva um festival que costuma ser apenas morno e faz valer a pena estar aqui em meio à chuva e ao frio.
 
O filme documenta o trabalho de criação e realização da peça Venimos de muy lejos, do Grupo de Teatro Catalinas Sur, que existe há trinta anos em Buenos Aires.

Catalinas Sur é o nome do bairro onde o grupo se formou, integrado pelas pessoas da comunidade. Vejamos o que eles dizem no seu site oficial*:

Somos um grupo de vizinhos que vemos no teatro a possibilidade de nos comunicarmos com outros vizinhos. Através do teatro, da música, do circo, dos títeres, queremos recordar o valor de nossas histórias individuais e coletivas e recuperar a memória que acreditou e que acredita em um mundo melhor.

Parece exagero dizer que o teatro pode mudar a sociedade, mas um grupo de homens e mulheres que fazem teatro pode levar adiante um projeto que não se limite aos novos modismos globalizados e se apóie nas ricas tradições e na história popular.


Pensamos e sentimos que o teatro é uma forma de comunicação e também de resistência. Estamos convencidos de que nossa utopia é possível e trabalhamos todos os dias para torná-la realidade.

photo: peça Venimos de muy lejos

Venimos de muy lejos conta histórias fictícias e reais, a partir da experiência dos imigrantes (italianos, espanhóis, poloneses, etc., antepassados dos membros do grupo) que vieram para a Argentina em fins do século XIX, inícios do XX, instalando-se nas imediações do porto da cidade de Buenos Aires, no bairro La Boca, conhecidíssimo hoje pelo time de futebol Boca Juniors (estádio La Bombonera) e pela rua-museu Caminito
 
Naquele lugar os imigrantes passaram a morar nos conventillos (cortiços), precariamente instalados em pequenos quartos, com problemas de toda ordem, desde várias pessoas dormindo no mesmo ambiente até diversas famílias usando um mesmo banheiro.
 
O filme traz a peça para a tela, contando as dificuldades e também a solidariedade que movia aquela gente, suas esperanças, suas lutas por um amanhã melhor, suas festas e canções, tudo sempre com muito humor.

Teatro comunitário. A peça, agora filme, estreou em 1990 na Praça Ilhas Malvinas do bairro Catalinas Sur, e segue sendo apresentada em outras praças, cidades e países.

O que mais chama a atenção é a maneira como o grupo atua na comunidade, chamando os moradores para a rua a fim de participarem das atividades artísticas e comunitárias.

Desde crianças até velhos, muita gente se envolve, opina, discute, atua, sendo a criação coletiva a principal característica.

O filme retrata tudo isso com muita riqueza.

Ao saírem da solidão dos apartamentos, as pessoas se encontram, conversam, sabem umas das outras, realizam vários tipos de oficinas, criam projetos, sentimentos e sentidos. E isto, nos dias de hoje, considerando a penúria de convivência em que se vive, é, no mínimo, revolucionário.