sábado, 14 de setembro de 2013

Blobfish, a melancolia de um rosto

Jorge Finatto

photo: blobfish. Greenpeace/Rex Features

A Sociedade de Preservação dos Animais Feios (Ugly Animal Preservation Society*) fez um concurso pela internet para escolher o bicho mais feio do mundo em 2013.

O objetivo dessa sociedade inglesa é chamar a atenção para animais pouco visíveis, pouco conhecidos e nem tão bonitos assim, que, no entanto, desempenham seu papel no ecossistema, merecendo, como os ursinhos panda que todos acham lindos e fofos, ser protegidos.

Participaram da eleição mais de 3 mil votantes. O eleito no curioso certame foi blobfish, ou peixe gota, com nome científico de psychrolutes marcidus. Ele habita as profundezas do Oceano Pacífico, e agora é o mascote da UAPS.

Blob tem aparência de gente. Tem um ar inteligente, tímido, mimoso e melancólico.

A expressão taciturna é de alguém desamparado no mundo. Mais que isso, percebo nele a tristeza dos que a sociedade rotula, não sem crueldade, de estranhos ou feiosos.

Procuro entender o que vai na alma de BLOB. É visível que ele não gosta da situação criada à sua volta, incomoda-o a exposição a que está sendo submetido.

Seu semblante parece dizer-nos: me deixem em paz, detesto sensacionalismo ecológico, principalmente este que está sendo feito em relação à minha discreta pessoa.

Julgar alguém pela aparência é um hábito leviano e prepotente que leva, não raro, a erros grosseiros. Imperdoáveis injustiças cometem-se em nome das aparências. Nós, os que não somos lindos, nos ressentimos com isso. Por isso entendo o sentimento de indignação de Blob.

Fazer julgamento pelo aspecto exterior é coisa de néscios e brutamontes, os quais, infelizmente, tomam conta do planeta desde sempre.

Não será este, por certo, o caso da Sociedade de Preservação dos Animais Feios, cujo objetivo, ao que parece, é justamente proteger de maus-tratos e da extinção criaturas da natureza pouco atrativas esteticamente, isto é, feias na visão do senso comum (quantas barbaridades se cometem com base no tal senso comum!).

O senso comum tem feito misérias ao longo da história. Hitler chegou ao poder e fez o que fez com base no senso comum da Alemanha da época. As ditaduras sul-americanas, mas não só, idem.

Uma pessoa jamais pode dar-se o direito de não pensar. Do contrário há sempre o risco de outros o fazerem por ela e, em seu nome, cometerem grandes desatinos e crimes. O espírito crítico é fundamental em qualquer situação, pena de aceitar-se o horror como algo normal e o mal como coisa banal.

Continuando. No que concerne aos padrões de beleza normalmente aceitos, são em geral vazios, mesquinhos, privilegiando a crosta dos viventes mais que o conteúdo. Coisa tola.

Mas, afinal, o que é feio e o que é bonito, não é, Blob? Acaso existirão o feio e o belo absolutos? Não haverá nisso uma margem de subjetivismo, de nuvem e de negociação?

Por causa da ditadura das aparências, um dia, na tentativa de evitar comparações estéticas com outros seres, e os sofrimentos daí decorrentes, os ancestrais de Blob resolveram habitar o fundo profundo do oceano.

Adaptaram-se com o passar do tempo, vivendo no silêncio e na solidão das águas de profundeza, onde poucos resistem. Os marcidus suportam bem grandes pressões no corpo gelatinoso. Acima de tudo, acho que eles queriam ficar longe da maldade humana, dos julgamentos desumanos. Mas não adiantou muito, infelizmente, pois os parentes de Blob continuam sendo alvo de pesca predatória.

Frotas de traineiras que utilizam redes de arrastão, na Austrália e Nova Zelândia, ameaçam de extinção a família blobfish. Na ânsia de pescar sem limites, acabam capturando peixes como ele, que sequer é comestível. Em princípio, portanto, não interessa à pesca, mas é preso no embalo das redes.

Blob não entende, e eu muito menos, por que, sendo tão parecido com os humanos, foi justamente ele escolhido como animal mais feio do mundo.

- Mas como?, pergunta ele incrédulo. - Será que as pessoas não gostam de se olhar no espelho, será que têm vergonha de sua aparência, não se acham suficientemente belas? A autoestima do ser humano anda assim tão baixa?

Difícil entender, amigo Blob. Creio que a maioria não atenta para o que realmente importa, que está no coração e nos valores de cada um, e não na fachada. Triste mundo. Mas se serve de consolo, Blob, digo que, pra mim, tu és um dos seres mais bonitos que eu já conheci.

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*Ugly Animal Preservation Society
http://uglyanimalsoc.com/

Biodiversidade
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1463377-5603,00.html

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Um Van Gogh guardado no sótão

Jorge Adelar Finatto

Pôr-do-sol em Montmajour. photo: Reuters
 
Nesta segunda-feira (9/9), o Museu Van Gogh¹, de Amsterdam, anunciou a descoberta de mais um quadro de Van Gogh (1853-1890). Trata-se de Pôr-do-sol em Montmajour (Sunset at Montmajour), pintado pelo artista em Arles, sul da França, em 1888.

A pintura revela uma natureza abundante, colorida, com plantas retorcidas e a ruína de uma parte da vetusta abadia de Montmajour, ao alto, situada a poucos quilômetros de Arles, onde o pintor gostava de ir. A cena se passa ao entardecer, sob um céu em que predominam os tons claros.

A obra foi apresentada pelo diretor do museu, Axel Rüger (à esquerda na foto abaixo). Ele disse que um achado desta importância ainda não havia ocorrido na história do museu (inaugurado em 1973), tratando-se de um acontecimento raro.

A pintura pertence a um colecionador particular, que prefere não se identificar. Mede 93,3 centímetros de comprimento por 73,3 de altura. Será exibida ao público no MVG a partir de 24 de setembro próximo.

photo: apresentação do quadro no Museu Van Gogh
fonte: AFP

A informação mais curiosa que li é que o quadro estaria guardado no sótão da casa do proprietário. Segundo divulgado, um industrial norueguês teria adquirido a obra nos anos 1970. Ela chegou a constar do catálogo de Theo Van Gogh, irmão do artista. Submetida a exame nos anos 1990, sua autenticidade foi rejeitada pelo MVG.

Agora, porém, ao refazer o estudo, dois peritos da instituição analisaram a pintura durante dois anos, numa pesquisa aprofundada que levou em conta o estilo do pintor, o material por ele utilizado, a técnica, bem como sua correspondência com Theo.

Nas numerosas cartas, ele sempre abordava com Theo os trabalhos que estava desenvolvendo. Numa missiva de 5 de julho de 1888, Van Gogh descreve ao irmão o cenário que a tela ora descoberta mostra:

"Ontem, ao pôr-do-sol, estive num matagal pedregoso em que cresciam carvalhos muito pequenos e retorcidos, tendo ao fundo uma ruína sobre a colina, e campos de trigo no vale. Uma cena que não poderia ser mais romântica, à la Monticelli, o sol despejava seus raios muito amarelos sobre os arbustos e a terra, numa verdadeira chuva de ouro (tradução livre)."² Na mesma carta, o pintor diz ter feito um estudo pictórico do local, mas que ficou abaixo do que desejava fazer.
 
Conforme o MVG, a obra se insere num período muito importante, considerado por alguns o auge de sua produção, no qual compôs quadros como Os girassóis, O quarto e A casa amarela.
 
Van Gogh não tinha ateliê nem alunos. Era um artista solitário e errante, andava para cima e para baixo com sua caixa de pintura às costas. Costumava levantar cedo para o trabalho (queria aproveitar a luz) e nada na sua vida importava mais do que pintar. A pobreza sempre esteve a seu lado. Ironicamente, hoje seus quadros estão entre os mais caros do mundo e museus importantes sonham em realizar uma exposição com seu trabalho.
 
Autorretrato com chapéu de feltro, 1888

Morto aos 37 anos, num suposto e nunca esclarecido suicídio³, em Auvers-sur-Oise (cidadezinha perto de Paris), Van Gogh trazia o arco-íris dentro do peito. Em sua breve passagem pela Terra, revelou ao mundo a beleza das cores, as quais libertou em força e luz. Na sua mão, as formas e sentimentos ganharam outra dimensão.

O traço de Van Gogh é único como única foi sua solidão e sua dedicação à arte. Uma vida profundamente sofrida que, no entanto, só retribuiu com felicidade.
 
Em cada obra que nos legou, Van Gogh entregou um pedaço de seu coração.
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1.Museu Van Gogh:
http://www.vangoghmuseum.nl/vgm/index.jsp?page=330698&lang=en
2.Carta:
http://www.vangoghletters.org/vg/letters/let636/letter.html
3.O último quarto de Van Gogh (The last bedroom of Van Gogh)
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2009/12/o-ultimo-quarto-de-van-gogh.html