quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um barco atravessa a alma da cidade

Jorge Adelar Finatto
 
photos: j.finatto
 
No sábado saí pelo Guaíba de barco. Esse rio é a alma de Porto Alegre. Entre a cidade e o rio, uma coleção de embarcações, pequenas ilhas e crepúsculos.
 
Poucas cidades têm um rio assim para espelhar-se, matar a sede e tomar banho. Mas o esgoto é uma página difícil que teima em não se resolver.
 
As gaivotas povoam a solidão, voando sobre os navios que partem no rumo do mar. São cerca de 300 quilômetros de água doce que remetem Porto Alegre ao Atlântico pela Lagoa dos Patos.
 

Fiquei um tempo olhando o azul do céu, sentindo o balanço das ondas, avistando o continente ao longe. Na altura da antiga chaminé, no Parque Harmonia, muita gente caminhava, corria ou andava de bicicleta pela via que margeia o rio (nos fins de semana interrompe-se ali o tráfego de veículos). Alguns biguás sobrevoavam o espelho.
 

A luz de começo de outono se derrama sobre a paisagem. A delicadeza das cores espalha-se no enlace de céu, vela e cais.
 
Tenho a impressão que fico alguns anos mais moço toda vez que navego pelo Guaíba.
 

Os aguapés divagam solitários, soltos e vivos nas águas.

Eu sou o efêmero capitão de um barco que atravessa o cartão-postal.
 

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Texto revisto, publicado originalmente em 4 de abril, 2011.
 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Noturno da minha rua

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
Essa é a hora em que os olhos se fecharam e todos dormem. Só eu não dormi na minha rua. Não posso dormir. Existe muita coisa calada querendo falar. 

No edifício da esquina uma luz se acende, não sei se numa sala ou num quarto. Talvez seja outra insônia igual a minha. Talvez uma sede em busca de um copo dágua. Talvez uma saudade da infância. Talvez um remorso. Talvez um medo. Talvez uma perda (isso que eu e meu silêncio conhecemos bem a essa hora).
 
Há uma luz que nunca se apaga no edifício daquela colina do outro lado. Pode ser alguém doente naquele apartamento, ou alguém conversando com fantasmas, ou que ficou só e acontece que não consegue dormir sozinho.
 
Muitas coisas eu vejo da minha janela noturna.

Uma mulher atravessa a rua fumando, a brasa vermelha flutua na escuridão em direção ao desconhecido, desaparece.

O olhar tem vida efêmera na furna.

As únicas realidades da noite que são belas e não têm fim são os sonhos das crianças.
 
Eu sinto uma falta absurda de alguma coisa que não está mais aqui. Queria de volta o meu anjo da guarda pra conversar nessa hora despida e inerme, em que não há defesa possível, porque estamos muito sós, já é muito tarde, e todos na casa e na rua dormem. Como falar dessas coisas com alguém, se nem ao menos sabemos do que se trata? 
 
Vou até a janela velar a estrela que brilha solitária acima da minha rua. Peço a ela que não me deixe sozinho na furna fria.