domingo, 29 de setembro de 2013

Xico, Vasco e Iberê

Jorge Adelar Finatto

O homem da flor na boca (Um ato de amor à vida).
pintura de Iberê Camargo, 1992.
 
Saber desenhar é um dom maravilhoso. Eu não sei desenhar um ovo. Por isso admiro quem domina essa arte. Amo a pintura e gosto de visitar exposições.
 
Conhecer desenho é fundamental pra quem quer ser pintor ou escultor. A arte abstrata contribuiu muito para o desprestígio da pintura no Brasil e no mundo. Abandonou-se o figurativo, caiu-se no risco tosco, nos espaços vazios, abusou-se do sem sentido. Com exceções que vêm de artistas que já tinham um trabalho anterior fincado na figura. Exemplo entre nós: Manabu Mabe.

O abstrato de Manabu tem beleza e espírito. Passa emoção.

A maior parte do que se chama de arte abstrata é coisa de gente que nunca aprendeu a desenhar. Faltaram às aulas, negaram-se a estudar. Não podia dar boa coisa.

Van Gogh, por exemplo, desenhava muito bem. Fazia figuras humanas e inanimadas com rigor. Ele nunca traía o objeto. Observei de perto algumas coisas que ele pintou na França. Concluí que ele as desenhou tais como eram, embora não fosse um mero copiador, um retratista.

Em Van Gogh os objetos ganham a forma que assumem em sua alma. O essencial da coisa está lá. O resto ele inventa.  A pintura emerge da carga emocional que coloca nos traços, da técnica refinada, da explosão das cores.

No vento e na terra, 1991. Iberê Camargo
 
Visitei na sexta-feira passada (27/9) a exposição Xico, Vasco e Iberê, o ponto de convergência, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. É uma mostra concisa e interessante para quem deseja ter uma idéia do trabalho desses importantes artistas gaúchos (embora nascido em Traun, na Áustria, Xico construiu sua vida e sua obra no Rio Grande do Sul).
 
Xico Stockinger (1919-2009) e Vasco Prado (1914-1998) foram escultores e Iberê Camargo (1914-1994), pintor.

Os três tiveram vidas longas que lhes permitiram construir uma obra singular. Cada qual a seu modo, marcaram a história da arte no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Colegas de ofício e contemporâneos, eles manifestaram através do trabalho sua visão de mundo, sua inquietação existencial, sua razão de viver, suas esperanças.

Na série Gabirus, Xico faz da arte instrumento de denúncia, mostrando em bronze criaturas massacradas por condições sub-humanas de vida no Brasil, gente com carência alimentar e que, devido à subnutrição, tem seu desenvolvimento biológico comprometido. Ele desvela a solidão desses seres profundamente sofridos, desarmados e impotentes diante da realidade, como a figura da mãe com a criança morta ao colo.


Gabirus, bronze. Xico Stockinger. 1996

Gabirus. Xico Stockinger. 1996

De Vasco estão expostas algumas esculturas em mármore, bronze e madeira, centradas na figura humana, composta e decomposta em traços expressivos numa composição que perpassa o tempo. O ser humano com sua herança genética e cultural permanece através dos séculos. É o tema do escultor.

Acrólito. 1965/1994.
madeira e bronze.
Vasco Prado.
 
Acrólito, detalhe.

Iberê apresenta suas figuras sombrias e atormentadas, vocacionadas à solidão, à melancolia, ao sofrimento, com poucas frestas para a esperança (quase nenhuma).

Parece que, para Iberê, só pode haver magia e claridade nos pátios da infância. O resto é duro e áspero itinerário no desespero. Uma obra implacável com a condição humana.

Num país e num Estado onde a arte ainda é um luxo para muito poucos, é preciso saudar iniciativas como as da FIC em proporcionar acesso gratuito às exposições e outras atividades, o que confere um caráter social ao trabalho da instituição. Na sexta-feira havia muitos estudantes adolescentes fazendo visitas guiadas aos acervos. Recebiam informação e formação preciosas. A isso eu chamo esperança.

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photos: j.finatto

Iberê Camargo e a escrita da solidão:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/ibere-camargo-e-escrita-da-solidao.html
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Os esquecidos e os lembrados

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto.Aparados da Serra, RS.
 


Integração
 
tem dias que me sinto
tão em tudo
que me parece que não vou morrer
construo-me a cada instante
no próprio ar que respiro
me pouso longe
tranqüilo
onde no olho do pássaro
o vôo já está completo
onde no pouso do pássaro
fica vibrando a distância
que a ave traz inserida
ao repentino do vôo
duma iminente partida
são as pequenas coisas
que fazem a nossa vida
eu vivo o que deslimito *
 
                            Heitor Saldanha
 
Nunca entendi bem os motivos que fazem de certos escritores ilustres desconhecidos. Embora tenham um bom trabalho literário, permanecem na sombra. Ao passo que outros, com pouco ou nenhum mérito, são convidados para almoçar todos os dias no Olimpo dos deuses das letras e  ocupam generosos espaços nos meios de comunicação.
 
O livro, na minha visão, é um objeto espiritual, antes de qualquer coisa. Quanta ingenuidade! Na visão dominante, livro é negócio como outro qualquer. Existe uma luta de facão, no mundo editorial, para impor autores no mercado. Tudo ou quase tudo passa pelo departamento comercial.

O que se vê é que não há mais divulgação desinteressada em jornais, revistas e meios eletrônicos. Tudo tem um preço. A começar pela colocação de livros nas livrarias, onde cada setor tem um valor, dependendo da localização. Provavelmente existem exceções, poucas.

Torna-se cada vez mais comum ver detentores de espaços escritos/falados/televisados, na imprensa, propagandearem, sem nenhum pudor, suas próprias produções, de forma insistente. Apropriam-se dos veículos de informação como se fossem algo pessoal e não social.

Claro que há escritores de qualidade que conseguem furar o bloqueio. Mas o sistema em vigor é altamente excludente e privilegia a homogeneidade autoral em vez da diversidade. Trocam-se os nomes dos escrevinhadores, mas o texto é sempre o mesmo.

A tal ponto a mesmice se instalou, que dificilmente veremos surgir, hoje ou no futuro próximo, no Brasil, um escritor com a sintaxe genial de João Guimarães Rosa. O ambiente é totalmente desfavorável à literatura enquanto invenção.
 
Criadores de talento, em todas as áreas, amargam na úmbria do anonimato. O fenômeno não começou agora. Mas atualmente está muito pior do que há 20 anos.

O tempo, às vezes, faz justiça e resgata alguém que ficou esquecido na álgida furna. Mas o tempo é um senhor muito velho, de longas barbas de nuvem, e tem lá seus muitos lapsos de memória.

O que restou de democrático, no fim das contas, é a internet, pelo menos enquanto não vier um marco civil criando uma internet ruim para pessoas comuns como nós e uma outra, rápida e poderosa, para os grandes meios de comunicação.

Na literatura, como na vida, uma atitude é essencial: persistência. Um escritor apenas razoável talvez não se torne um escritor brilhante. Mas, com trabalho e coragem para evoluir, poderá melhorar muito o resultado de sua escrita.

O que importa é não publicar qualquer coisa, e não desistir nunca. Além disso, temos a eternidade pela frente, porque ninguém se importa mesmo.

Não falo essas coisas por mim, que já fui inscrito no livro-tombo do esquecimento em vida, escritor interiorano, cronista de temas pastorais, correspondente do fim do mundo. Falo por autores de real importância que não têm voz. E pelos leitores que não os conhecerão.

Lembro alguns deles, aqui do Rio Grande do Sul, mas existem outros: Jorge Jobim, pai de Tom Jobim; Heitor Saldanha, Henrique do Valle e Paulo Corrêa Lopes, todos excelentes poetas, todos encobertos pela névoa da indiferença.

Se você leu ao menos um deles, parabéns. Se não, procure descobrir em algum livro-velheiro, pois não são editados há muitos e muitos anos (já falei sobre cada um deles no blog). O que escreveram é da melhor qualidade, mas nenhum escritor, crítico, professor ou jornalista se ocupa deles (com raríssimas exceções). Por quê? Eu me pergunto e não sei a resposta. Simplesmente não estão entre os eleitos. Habitam a caverna dos esquecidos.

Alimento meu coração de leitor e minhas estantes com o que vasculho nos sebos. E que as musas não nos abandonem nunca.

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*A Hora Evarista, Heitor Saldanha. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1974. p. 18.
 
Escrever em língua portuguesa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/05/escrever-na-lingua-portuguesa.html