terça-feira, 26 de novembro de 2013

O caçador de flores

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. nov. 2013


O caçador de flores, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.

Sou amador na arte de caçar flores, alguém que se dedica ao ofício por puro prazer estético, sem fazer disso meio de vida ou por espírito de emulação com outros caçadores.

Em setembro, lanço-me mais uma vez na delicada faina, mesmo sabendo que imagens conservam apenas a aparência do que foi belo um dia e depois deixou de ser.

Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada. Esta é a época perfeita.

E haja corola para satisfazer a sanha insana.

O gesto é egoísta, reconheço, típico de quem dá valor excessivo ao deleite das formas, cores e aromas, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se os campos, jardins e pomares. Tal é a índole do caçador.

photo: j.finatto. nov. 2013

O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar flores em fotografias, escondendo-as em secreto compartimento. Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado. Só isso torna completa a alegria da caça.

Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas imagens. Será essa, talvez, a possível atenuante para a conduta violenta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.

Na cidade grande quase não há flores ao ar livre. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo as imagens floridas. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto, para suavizar o feio e o triste.

Nos Campos de Cima do Esquecimento, de onde escrevo essas frágeis linhas de primavera, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente em todo lugar e a caça é abundante.

O retrato é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero, alguém dirá. Pode ser. Mas o que não é patético nessa vida, não é mesmo, raro leitor?

photo: j.finatto. nov. 2013
 

sábado, 23 de novembro de 2013

Pescadores limpam as águas

Jorge Adelar Finatto

photo: Luciano Lanes. Divulgação da Prefeitura de Porto Alegre
 
Se queres limpar o mundo, começa limpando a tua casa. 
 
A Ilha da Pintada é uma das ilhas que habitam o rio Guaíba em Porto Alegre. Como todas as ilhas, tem seus pescadores, e os pescadores têm suas histórias. Eles escreveram uma bela página na última quinta-feira. Saíram para o rio em 150 barcos, a fim de recolher a sujeira das águas.
 
O resultado desta "pescaria" foi o recolhimento de 20 toneladas de lixo. Havia de tudo: aparelhos de televisão, sofás, colchões, pneus, tanques de plástico, garrafas pet, para-choques de carro e muita coisa mais.
 
A ação dos pescadores - que incluiu também a limpeza de um fragmento dos rios Jacuí e Gravataí - tem o nome de Pescando Lixo. Trata-se de um mutirão organizado pela Colônia de Pescadores Z-5, da Ilha da Pintada, com a participação de órgãos dos governos estadual e municipal.
 
O diretor da Colônia de Pescadores, Vilmar Coelho, observou que esta foi a nona edição do projeto. Disse ele ao jornal Correio do Povo, de Porto Alegre: "É uma maneira de o pescador aproveitar o tempo parado para retirar o lixo do rio, pois com menos lixo vai ter mais peixe". Acrescentou que falta mais apoio ao mutirão, pois os pescadores não recebem sacos para o lixo nem luvas se proteger. 
 
O "tempo parado" por ele referido decorre de ser época em que a pesca é proibida em face da desova dos peixes, período conhecido como do "defeso".
 
O material recolhido foi entregue ao Departamento de Limpeza Urbana de Porto Alegre para reciclagem. O restante irá para aterro sanitário.
 
Se queres limpar o mundo, começa limpando a tua casa. É a idéia que me ocorre ao ver o gesto dos pescadores da Ilha da Pintada, com sua população formada por descendentes de açorianos e africanos.

Se os habitantes do continente ainda são capazes de desatinos como jogar esse lixo nas águas (até quando?), o ato que nos redime tem que vir dos ilhéus.
 
A salvação virá talvez das ilhas... Nelas o rio limpo e o peixe vivo são o mais importante. Esses barcos em movimento carregam a nossa esperança.