sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O último boêmio de Porto Alegre

Carlos Alberto de Souza
 
Darcy Alves
 

O último boêmio de Porto Alegre repousa às margens do Atlântico, em Capão da Canoa. Já faz algum tempo que o professor Darcy Alves, virtuose do violão e dono de voz rebuscada nas velhas canções, teve de abandonar os bares da Cidade Baixa, a Lapa porto-alegrense.

Longe das noitadas em que encantava os mais velhos e os jovens admiradores da música de seresta, ele recupera-se de um percalço de saúde na Clínica Geriátrica Melhor Idade. “Hoje não tem show”, brincou ao telefone quando do outro lado da linha eu disse que era um admirador querendo saber do ídolo. 
As informações da atendente são animadoras. Desde que chegou à clínica, o professor tem melhorado progressivamente. Sua esposa também está morando na cidade litorânea, além dos dois filhos, um deles médico neurologista, especialidade que tem a ver com o estado de saúde do pai. O velho boêmio, agora compulsoriamente afastado do cigarro e da bebida, está bem assistido. E recomeça a dedilhar o violão e cantar, para a alegria de todos na casa de repouso.
A cuca do professor está boa. Perguntei-lhe se lembrava de Emerson Rosa, meu tio, excelente saxofonista, que tocou com ele em algumas ocasiões, acompanhando Lupicínio Rodrigues e também homenageando postumamente o grande compositor, em um espetáculo histórico. “Claro, o Emerson, meu amigo”, disse o professor. Certa vez, quando se apresentava no bar São Jorge e o Dragão, mostrou-me um álbum com fotos de sua carreira.

Além de Lupi, acompanhou Alcides Gonçalves, outro expoente da velha boêmia porto-alegrense, Beth Carvalho, Ângela Maria, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Francisco Egídio, Jamelão e Altamiro Carrilho, entre outros.

A noite de Porto Alegre segue viva, com mais bares do que no passado. Certamente, abrigam legiões de boêmios resistentes. Mas não têm o mesmo encanto sem o violão, a voz e a presença do professor Darcy Alves. Ele foi o último boêmio da cidade. E assim deve entrar para a história.  
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Carlos Alberto de Souza é jornalista em Porto Alegre.

smcsouza@uol.com.br


O crédito da foto será dado tão logo conhecido o autor. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O que vale na escuridão

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
Os gestos são os melhores professores, os mais autênticos, os que verdadeiramente podem ensinar algo de bom (ou mau) a alguém. Se queremos transmitir valores nos quais acreditamos, precisamos antes dar o exemplo.
 
Um gesto vale, não diria mil, mas um milhão de palavras. Palavras são feitas de ar e delas se ocupa o vento, levando-as. O que importa é o que se faz de concreto com as palavras que brotam sem parar da nossa boca. A teoria, isoladamente, não leva a lugar nenhum.
 
Nessas lucubrações não há nenhuma novidade. É assunto batido, velho (sempre atual embora), que mereceu inclusive tratamento na Bíblia.

Ouçamos o que diz Tiago, irmão de Cristo, na sua Carta: "Vedes que o homem há de ser declarado justo por obras e não apenas pela fé." E ainda: "Deveras, assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta." (A Carta de Tiago, capítulo 2, versículos 24 e 26).

Lembro essas coisas ao constatar (todos os dias, todos os lugares) o quanto estamos carentes de atitudes de bondade e civilidade, no dia a dia, nos relacionamentos, na rua, no trânsito, no trabalho, no interior das casas.

O quanto nos falta esse ato capaz de nos tornar mais humanos, mais fraternos, mais solidários, menos julgadores, mais em paz com o outro.

Chego sempre à invariável conclusão de que temos tudo para dar certo como pessoas, fazendo do mundo um lugar mais feliz, mas falta este passo que nos tornará melhores do que somos.

Nunca esqueço, a propósito, o ensinamento de Santo Agostinho, que certa vez ouvi, e que contém uma verdade pulsante como o sol:

"Os maus não são bons porque os bons não são melhores."

Como a maioria das pessoas, estou farto de tanta violência, de ver o sofrimento, a indiferença e o egoísmo tomarem conta.

O que vale é saber quem de nós vai acender a vela, o farol, a lanterna, o archote, a lâmpada para dissipar essa escuridão que nos cerca e que já vai longe demais.

É preciso se iluminar urgentemente.