domingo, 26 de janeiro de 2014

Rilke na gelada e pacata Sierre

Jorge Adelar Finatto
 
Sierre, Suíça, 26.01.2014. photo: j.finatto

 
Há pouco andava pelas ruas calmas de Sierre numa temperatura de - 1ºC. Para este domingo - agora é pouco mais de meia-noite-, está previsto um frio que pode chegar a - 7. É o rigoroso inverno, gelado e branco, que me faz levar sobre o esqueleto a manta e o grosso capote que trouxe de Passo dos Ausentes. Só tiro as mãos do bolso na hora de fazer as fotografias com a velha e intrépida Coruja. 
 
De manhã, logo mais, a palestra em que será abordada a obra de Rilke, talvez um pouco da vida do grande poeta de língua alemã (nascido em Praga, atual República Checa), e sua atividade como tradutor de si mesmo para o francês. Evento da Fondation Rilke de Sierre.
 
No hotel onde estou hospedado, passaram o próprio Rilke e Goethe, entre outros. O vetusto prédio do Hôtel de La Poste está reformado, mas continua o mesmo na essência. Não duvido que, no silêncio da madrugada glacial, encontre pelos corredores com fantasmas de artistas, poetas e escritores que por aqui andaram no passado. Pode ser, tudo pode ser nessa vida.
 
Como meus óculos são no estilo fundo de garrafa, às vezes me pregam peças com reflexos nas lentes, que me remetem a figuras fantásticas, carnais ou evanescentes, reais ou imaginárias. Nunca sei. Se cruzar com alguma assombração por aí, não me darei conta. É bom assim, que cada um viva na sua dimensão, no seu recolhimento, sem fazer estardalhaço nem atrapalhar os outros.

Sierre, 26.01.2014. photo: j.finatto
 
Rilke viveu nessa região os últimos seis anos de sua vida em que muito produziu. Morreu com 51 anos em dezembro 1926. Habitou na ocasião o pequeno castelo de Muzot, nas cercanias de Sierre, alugado para ele e depois adquirido por um mecenas do escritor. Ainda hoje é propriedade privada, só se pode observar por fora.
 
O poeta cuidava de rosas no seu jardim pouco antes da morte causada por leucemia. O que o levou a vir morar em Sierre, em solitude e branco silêncio, entre majestosas montanhas e o vale povoado de videiras que produzem um vinho excelente? Acho que, como sempre fez, andava atrás de si mesmo e do ser profundo que vive em cada um e em todos (muitas vezes adormecido).
 
Talvez venham algumas respostas no encontro de amanhã.
 
Se pudesse recomendar um livro aos leitores do blog, indicaria que lessem, mais de uma vez,  Cartas a um jovem poeta, uma obra profunda que, a pretexto da tratar de literatura, cuida mesmo da formação e da alma do ser humano, de uma maneira simples e transcendente ao mesmo tempo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Montanhas cobertas de sol e neve

Jorge Adelar Finatto
 
 
montanha gelada com sol, Suíça, 24.01.2014. photo: j.finatto
 

No aeroporto de Lisboa, antes de embarcar para Genebra ontem, escolhi o jornal Público no balcão da TAP para leitura de bordo e a revista Sábado, esta ainda não conheço. Além do Público, gosto também do Jornal de Notícias e só eu sei a falta que sinto das crônicas do Manuel António Pina (1943-2012) nas páginas do periódico.
 
Poeta, escritor e jornalista de grande talento, lúcido e criativo, Pina faz muita falta à língua portuguesa e a nossa vida. O olhar crítico do escritor sobre a realidade temperado com a partilha do sonho nos dava esperança, esse sentimento que nos mantém vivos e nos empurra para frente.
 
Tenho uma relação de livros dele que vou comprar antes de retornar a Passo dos Ausentes, no Porto ou em Lisboa. Até onde sei, nada se publicou dele no Brasil até agora, o que é uma ausência imperdoável.
 
Venho à Suíça em função de um evento envolvendo o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926), uma de minhas devoções literárias. Ele viveu no cantão do Valais os últimos anos de sua vida e ali concluiu a notável obra. Era um homem de temperamento contemplativo, brando, sentimental, calmo, a ponto de agüentar o mau gênio de Auguste Rodin quando foi seu secretário, ainda nos anos de juventude, em Paris, sendo um bom amigo.
 
A notícia é que mal cheguei aqui e já sinto saudade de Portugal. Poucas cidades são tão belas como Lisboa. E as pessoas são especiais em todo lugar.

A julgar pela têmpera, alma, valores e criatividade do povo português, acho que o país sairá desse difícil momento muito fortalecido, e virão dias grandiosos pela frente. Digo isso a partir da observação que faço nos últimos anos. Alguma coisa muito boa está sendo gerada no sal desse silêncio.
 
Como essas montanhas que a neve cobriu, congelando as seivas. A vida está lá, latente, invisível, e vai explodir na primavera.