quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Cantiga de mar e vento à moda de Camões

Jorge Adelar Finatto
  
photo e barco: j.finatto

"Saudosa dor, eu bem vos entendo" *
Luís de Camões

Navegar é despedir-se um pouco cada dia.
 
No mar da terrível procela, vinha eu no meu desditoso barco, enfrentando a fúria sem compaixão do trovão, do raio, do vento e da melancolia.
 
Vinha pelejando nas altas ondas contra a dor e o pó do esquecimento.
 
Só eu e meu coração à mercê de tudo que fere a alma e endurece o tempo. 
 
A bordo da frágil nau do sonho me lancei ao mundo. Entre feros e mortais penedos, procurei descortinar-vos, Açores e Madeira, nos rigores do profundo oceano. Mas nada encontrei, só mais abismo, medo e desengano.
 
O tenebroso rugido da ventania arremessava as vagas contra tão despojada embarcação.  
 
Triste fado meu que fez de mim o solitário do rochedo.
 
De repente, no horror da tempestade desumana, vi surgir na polpa salgada, álgida e insana das águas o brilho marfim e rosa de um búzio. A custo recolhi-o. 
 
Escutei então aquela voz que de longe vinha.
 
Era a voz da minha amada que por encanto eu ouvia. Uma voz moça e já extinta.

Queria saber de mim, onde eu andava, com quem estava, o que fazia. Imaginava se eu ainda sorria. 
 
Disse-lhe que não fizesse cuidado do vazio em minha alma. Eu era só mais um barco seguindo em meio à solidão do grande mar, desviando a fraga imensa. Era tudo o que em mim havia.
 
Quisera nunca ter perdido do seu abraço a moradia, musa minha que partiste mal surgia a aurora em nossa vida.
 
Viver pra mim, hoje, é despedir-se um pouco todo dia.
 
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*Lírica. Luís de Camões (1524-1580). Verso do poema Cantiga (2), p. 28. Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1982.
 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A canção do efêmero

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
O jardim explode em pétalas, aromas, caules, ramos e cores em novembro dos prodígios.

As flores que aparecem na capa do blog por esses dias são do jardim aqui de casa. Nessa época são muitas e variadas, de rosas a orquídeas, de belas e humildes hortênsias a ternos e sorridentes gerânios, sem falar nas primaveras, nas cerejeiras, nos copos-de-leite e tantas outras.

Nunca, como neste ano, a flora caseira esteve tão iluminada. Uma celebração de vida e de fecundidade. O jardim canta a canção do efêmero: tudo nele é transitório. Mas há, também, no seu território, um contínuo renascer.


photo: j.finatto

Sinto-me bem ao conviver com as flores, ao observá-las, fotografá-las, ao aspirar-lhes o perfume suave.

É uma espécie de terapia floral o querer bem a esses seres tão passageiros, generosos e delicados.

As flores do meu jardim renascem todos os dias com a promessa e a esperança das novas seivas. Que seja assim também em nossas vidas.

photo: j.finatto