quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

El olor a lluvia

Jorge Adelar Finatto

Vale do Olhar. Passo dos Ausentes. photo: jfinatto
 

O cheiro da chuva. O aroma de terra molhada. O jornal El País, da Espanha, publicou matéria sobre estudos de cientistas do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) a respeito do característico odor que fica no ambiente após a chuva cair sobre a terra.
 
Os experts dão até nome ao aroma inconfundível: petricor. Vem das palavras gregas  petros, que significa pedra, e ikhôr, que é o líquido que flui pelas veias dos deuses, conforme a mitologia grega.
 
Segundo os cientistas, o contato das gotas de chuva com a terra gera bolhas de ar que se projetam para cima (feito bolhas de champanhe) e explodem, liberando a fragrância captada da terra que é carregada pelo vento.
 
Está bem. Não vou discutir com quem sabe mais de ciência do que eu. Mas, por favor, ninguém vai me ensinar o que é o cheiro de chuva e da terra molhada. Este assunto eu conheço bem.
 
O cheiro de terra molhada acontecia quando os adultos saíam para o trabalho e eu ficava em casa com a avó. Começava a chover e eu corria até a janela. E via a chuva caindo sobre o pátio e o jardim.
 
Então subia aquele aroma de terra molhada misturado com madressilva, ou com rosas ou cravos molhados. Uma mistura doce e suave.

A vida cheirava a esperança.

O perfume imemorial que a chuva deixa na atmosfera vem desde o início do mundo. Foi mais um dos presentes do Grande Perfumista a homens e mulheres (sempre tão distraídos da existência Dele).
 
Nenhum cientista vai me traduzir o que é este cálido perfume, porque pra mim ele é, antes de tudo, um sentimento.
 
O cheiro de chuva e terra molhada (olor a lluvia y tierra mojada) carrega toda minha infância dentro dele.

Uma bolha perfumada de felicidade.
 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Um olhar habitado

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
A exposição Sáez, un mirar habitado, no Museo Nacional de Artes Visuales, em Montevideo, é uma das gratas revelações desses dias montevideanos. Carlos Federico Sáez (1878-1901) nasceu em Mercedes, no Uruguai, e ainda na infância mostrou um grande talento para o desenho e a pintura. Um talento precoce e autodidata, que recebeu, do governo uruguaio, aos 14 anos, uma bolsa para estudar na Europa...
 
Instalação do ateliê do artista, no MNAV, por Osvaldo Reyno
photo: jfinatto
 
Na Itália buscou formação, inicialmente, na Academia de Belas Artes de Roma, mas logo se envolveu com as correntes artísticas italianas de fins do século XIX, de postura antiacadêmica. Passou a freqüentar ateliês de vários artistas.
 
Estudio, 1899, Sáez.*
 
O fato é que Sáez trazia em si o vigor e o refinamento do fazer pictórico. A viagem serviu para ampliar informações e enriquecer a visão de mundo. Mas a intuição profunda das formas e cores, a sensibilidade, o sentimento fecundo do artista já estavam com ele desde antes do nascimento...
 
Impressionam os retratos impecáveis, as naturezas mortas, as cenas, todos marcados pelo traço firme, generoso, inconfundível, numa sintaxe delicada.
 
Flores, 1892, Sáez. photo: jfinatto
 
Sáez instalou seu ateliê na Via Margutta, nº 32, lugar boêmio de Roma, em 1896, onde passou a trabalhar, receber amigos, modelos, fazer reuniões, e também recolher-se em solidão. Regressa a Montevideo em 1900, já doente, para o derradeiro convívio com a família que tanto amava. Continua a pintar até os últimos dias. Morre aos 22.
 
Do porto velho, 1897, Sáez. photo: jfinatto
 
Como alguém tão jovem conseguiu desenvolver-se e produzir tão admiravelmente?  Difícil saber. Mas uma coisa sabemos: Deus fala aos homens através dos grandes artistas. 
 
Parvas, 1893, Sáez.*
 
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* Imagem do site oficial do Museo Nacional de Artes Visuales, Montevideo: