quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aquarelas de vida

Jorge Adelar Finatto

Aquarela de Nathaniel Marques Guimarães, 2001

O tempo de vida de uma aquarela é pequeno, se comparado a outras técnicas de pintura. A cor e os traços vão esmaecendo aos poucos até sumir. Isso foi o que um pintor amigo me disse, referindo que se trata de uma pintura muito volúvel à passagem da bruma dos dias.

As imagens vão gradualmente desaparecendo.

As pinturas a óleo duram muito mais. Ninguém imagina, por exemplo, que a Mona Lisa, do Leonardo da Vinci, criada entre 1503 e 1517, vá se apagar um dia.

O artista que me fez essa triste revelação era um mestre aquarelista. Seu nome: Nathaniel Marques Guimarães. Falou do assunto com uma tranqüilidade que me espantou e me deu dó ao mesmo tempo. Ele amava a aquarela e a ela dedicou muitos dias de árduo trabalho. Estava conformado com o destino efêmero de sua criação. Essa humildade diante do eterno será talvez uma das virtudes dos gênios.

Acho que pressenti na sua visão a dura verdade daquilo que faço: escrever palavras em folhas de papel ou luminosa tela de computador também é trabalhar para o oblívio. As palavras vão desaparecer não por desgaste físico das letras e páginas, mas por ausência de leitores. E a posteridade, como se sabe, é uma ilusão longínqua e absurda demais para ser levada a sério.

De certa forma, fazemos aquarelas quando escrevemos. E nada devemos esperar além da alegria da criação.

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Nathaniel Marques Guimarães foi um dos grandes aquarelistas brasileiros, além de um querido amigo.
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Que os raios não nos partam

Jorge Adelar Finatto

Imagem: site da Secretaria Nacional de Defesa Civil:
http://www.defesacivil.gov.br/desastres/recomendacoes/raio.asp
  
 
Entre os dias 7 e 9 de outubro caíram cerca de 500 mil raios no Rio Grande do Sul, conforme dados divulgados pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.* 
 
O Estado ocupa o primeiro lugar em descargas elétricas  por quilômetro quadrado no país. Isto mostra aos pessimistas que pelo menos neste tema alcançamos uma posição de destaque, não havendo razão para tanto negativismo de sua parte.
 
Trovões, chuvaradas e relâmpagos tomaram conta dos ares nas últimas duas semanas. Haja coração pra suportar tanto clarão e tanta explosão vindos dos confins dos céus. O negócio acontece de dia e de noite.

Só peço a Deus que os raios não nos partam, que passem bem longe de nossos frágeis corpos e côncavos telhados.
 
Na quinta da semana passada, estava tomando uma taça de café com leite com pão e manteiga, ao mesmo tempo em que tentava ler um livro no Café da Ausência, quando um enorme estrondo estremeceu tudo, até a mesa. O coração disparou.

Fiquei em dúvida se seria o início de uma guerra ou  de um terremoto. Felizmente, nem uma coisa nem outra. Era só um entre os 500 mil raios.
 
O tempo anda com os nervos à flor da pele.
 
Dizem os calendários que a primavera já começou neste lado do mundo. Mas não existem evidências de que isto de fato aconteceu. Na realidade, a primavera ainda não desembarcou entre nós. Resta nesta hora esconder-se dos trovões debaixo das cobertas, como na infância, e rezar.
 
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