domingo, 20 de agosto de 2017

Leão da Metro no Festival de Cinema de Gramado

O Cavaleiro da Bandana Escarlate

pinheiro e montanhas no Vale do Quilombo. photo: jfinatto
 
Alguns hão de sentir encanto em sair do cálido quarto de hotel, abandonar a leitura de Em busca do tempo perdido, mergulhar na paisagem gelada e nevoenta de Gramado, e assistir filmes no famoso Festival de Cinema serrano. Não é, sinceramente, meu caso. Prefiro o aconchego do grosso cobertor de lã, um café quente e a vista para o Vale do Quilombo. Assumo que, como correspondente do blog no festival, sou um fracasso. Só faço o que me dá na veneta.
 
No hotel onde estou hospedado há tantos astros, estrelas, diretores e gente envolvida com cinema, que até um anônimo como eu chama a atenção.
 
Tenho participado, involuntariamente, de variadas rodas sobre temas relacionados ao mundo da grande tela. Não que eu faça questão. Sou ao natural um sujeito tímido e pouco falante. Prefiro sempre ouvir a falar. Não por modéstia, não, mas por falta do que dizer.
 
Ocorre que me pegam pelo braço no corredor, no café, no jardim, como se fosse um deles, e me levam pra lá, pra cá, em salas temáticas da Sétima Arte. Talvez o cabelo branco, os óculos com lentes de fundo de garrafa, a aparência vetusta façam presumir alguém que não sou.  

A vida me ensinou que, neste ambiente cinematográfico, não é de bom tom perguntar-se o nome das pessoas. Supõe-se que, entre nós, celebridades, existe o sempre desejável, esperável e jamais desprezível reconhecimento.
 
A mim deram para chamar, nos últimos dias,  de Carlos, o Carlinhos do 707. Eu, que até então era um ilustre ninguém, pertenço agora à malta.

Sou um peixe navegando nessas marés montantes, adapto-me com certa facilidade às vicissitudes. Sobrevivo no festival como o leão da Metro, um leão idoso, desses de circo, que nenhum risco oferece e talvez por isso desperte simpatia ou pena. E sempre gostei deste nome, Carlos! Já agora me sinto à vontade com a nova identidade.
 
Num desses encontros, um diretor famoso (no festival todos os diretores brasileiros são, na falta de melhor definição, famosos) cismou de achar que, no início da carreira, trabalhou como meu assistente num filme. Disse aos presentes - pedindo que eu levantasse da cadeira, no fundo da sala - disse que eu lhe dei a primeira oportunidade.

Espantado, eu quis dizer que não, que não era assim, ele estava me confundindo com outra pessoa. Mas o famoso diretor imediatamente me interrompeu e retrucou:
 
- O velho e digno companheiro Carlinhos de sempre! Além de tudo, um homem humilde!
 
A assistência aplaudiu de pé, com grande entusiasmo. Limitei-me a esboçar um breve aceno e, falso modesto, deixei a sala, curtindo o momento de glória. Aproximaram-se repórteres querendo a entrevista fatal. Eu disse que ia passar no quarto e já voltava. Não saí mais.

photo: j.finatto
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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue. Como não tem mecenas, paga as suas despesas, inclusive o ônibus.
Texto revisto, publicado antes em 10.8.2011. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um quadro de Chagall

Jorge Finatto
 
Over the Town, Marc Chagall, 1918. Tretyakov Gallery, Moscou.
 
UM LEITOR observa que os personagens das minhas fotos aparecem sempre ou quase sempre soltos no ar, muito acima do território chão dos mortais. Parecem fugir do mundo e nesse querer revogam a força da gravidade.
 
Os seres e coisas dos meus textos e imagens falecem de peso para estar no mundo. Têm dificuldade de pisar os duros caminhos da realidade. Anelam viver além daquilo que os aprisiona e faz sofrer. Anseiam pela liberdade e amplitude dos altos voos. Mas sabem que, para merecer o sonho, é preciso uma lúcida revolta contra o hospício.
 
Lembram aquelas figuras esvoaçantes das pinturas de Chagall, levitando acima dos vilarejos pobres. Quem não desejou,  alguma vez, pairar sobre os nadas da existência como um personagem lírico de Chagall? Voar desse mundo. Habitar outra esfera. Quem não quis rasgar as grossas correntes que nos prendem ao calabouço do cotidiano, sem janelas para a vida?
 
O que eu sei, raro leitor, é que é preciso dar um chute no traseiro da morte, bater a porta na cara da morte, expulsar a presença-morte. Acho que é isso que os meus personagens, voláteis ou não, querem dizer.