domingo, 24 de setembro de 2017

Beija-flor, a persistência da primavera

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


O PEQUENO BEIJA-FLOR cumpre o ofício de cortejar a flor. No caso da foto, a flor amarela do ipê. Vai em busca do sagrado néctar, o seu alimento. É um trabalho árduo para um ser tão pequenino. Também é conhecido por colibri, cuitelo, chupa-flor, pica-flor, chupa-mel, binga, guanambi, segundo diz o Wikipédia.
 
A viagem da breve ave é uma odisseia no jardim. Faz 20 anos que os beija-flores habitam meu quintal fazendo ninhos nas árvores. Provavelmente já existiam neste ambiente muito antes de eu chegar aqui.
 
As flores em abundância durante o ano, entre elas os sininhos, são fonte diária de alimento para eles. São seres encantadores: na cor, no voo, no canto de algumas espécies. As asinhas batem sem parar, gastando muita energia que precisa ser reposta durante o dia. A grande velocidade do bate-bate de asas faz com que possam ficar parados no ar e até mesmo voar de ré. Mágica estripulia.
 
O que me causa admiração nos beija-flores é a persistência destes minúsculos seres em sua luta diária pela sobrevivência. Porque o ambiente está cada vez mais hostil para eles: poucas casas, poucos quintais, poucas flores. Resistem bravamente.

Vida de pássaro é a coisa mais complicada nestes tristes tempos. Por isso há várias espécies em risco de extinção, beija-flores inclusive. O próprio homem está em risco de extinção como sabemos. Dizem os sábios que "evoluímos" ao longo dos tempos. Evoluímos, evoluímos, e demos nessa enorme enrascada. Um buraco trevoso. 
 
Apesar de tudo, a primavera chegou. Enquanto eu estiver por aqui, o meu jardim vai ser a casa dos beija-flores e outros passarinhos. Não faço nisso nenhum favor. Apenas respeito essa gente miúda que espalha beleza no quintal da minha alma.
 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Rua sem sol

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
Os antepassados
negros e italianos
rasgaram o oceano
para que eu estivesse

aqui no futuro
olhando o fim de tarde
no horizonte dos muros

não possuo do imigrante branco
a esperança eldorada
nem a saudade triste do preto
em pranto mastigada

sou apenas um homem mestiço
olhando o movimento dos barcos

agora que a noite cai
sobre a cidade
e me surpreendo sonhando
com a fuga
por uma rua sem sol

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.