terça-feira, 6 de agosto de 2019

Quatro conversas com Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem dera. Mas talvez a face Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro? Há algo espiritual que não se explica só pela razão.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, acredito que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Selecionei quatro conversas com Deus. Repare bem em cada uma delas. Creio, sim, que Deus gosta de boas conversas (não deve ser fácil ser Todo Poderoso... imagine como isto deve ser solitário...) E às vezes se diverte com elas...

photo: jfinatto
 
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Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes?
(Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. pág. 181. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.)

Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes.
(A Hora Evarista. Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, pág. 49. Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento. Porto Alegre, 1974.)

Se me perdoardes, Senhor,
as pequenas peças que Vos preguei
eu Vos perdoarei
a enorme peça que Vós me pregastes.
(Poemas Escolhidos. Robert Frost. pág. 135. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.)

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho


as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa
 

(Poema Canção da bruma, do livro O habitante da bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.) 

sábado, 3 de agosto de 2019

Horacio Quiroga num dia frio

Jorge Finatto
 
photo: Horacio Quiroga. Wikipédia.
 
Um velho rádio de válvulas que funciona como se fosse ontem. Um pouco do noticiário, desligo. É muita realidade demais. Um dia frio, muito frio, nesses inícios de agosto. Com a bênção de um fogão a lenha. Depois, no toca-discos, a Suíte Popular Brasileira, de Heitor Villa-Lobos. 
 
Lendo o Diário* do jovem Horacio Quiroga (1878-1937), a viagem de Montevideo à Europa, de navio, 24 dias entre céu, mar e saudade. Os dias passados em Paris, assim assim. O olhar do escritor em formação:
 
Abril, 30, 1900. 2.30 p.m. En Notre Dame. La misma impresión general que el Pantheon, La Madaleine, y de todos los monumentos de París, muy pobre, debido al color oscuro, sucio y manchado de todas las paredes. El interior, gótico puro (...) Estoy en la cúspide de Notre Dame, después de subir 345 escalones en caracol. Lo primero que me ha llamado la atención han sido los canalones para el agua - en forma de pescuezo de bicho raro,  rectos e avanzando a la calle (...)
 
A falta de dinheiro torna sem graça os dias vividos em Paris:
 
Sábado, 09, junio. 9 p.m. Un poeta griego de la decadencia dijo: 'La patria está donde se vive bien.' Es un gran pensamiento. Por qué he de decir yo que no hay como París, si no me divierto? (...) estoy en lo verdadero diciendo que Montevideo es mejor que París, porque allí lo paso bien; que el Salto es mejor que París, porque allí me divierto más.
 
A literatura é feita por gente de carne e osso, que sente frio, cansaço, alegria, dor de dente, fome. Às vezes tudo junto. Os livros são depoimentos de passagens pelo mundo. Embora às vezes não pareçam. Eu desconfio de autores que não esbarram nessa coisa difícil, faminta, suja, flébil, encantadora.

A morte é só um suspiro. Uma lágrima que seca. Impostergável ausência. Depois passa.

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* Diario de París. Horacio Quiroga. pp. 58/91. Faro Ediciones. Montevideo, 2018.