sábado, 16 de agosto de 2014

A crônica de Nelson Rodrigues

Jorge Adelar Finatto

Nelson Rodrigues


Ah, é problemática a sorte de um velho "reaça", como me chama o Hélio Pellegrino.
                                                  Nelson Rodrigues
 
Um livro tem me cativado nos últimos tempos. É O óbvio ululante: as primeiras confissões, de Nelson Rodrigues (1912 - 1980). Foi publicado em 2007 pela Editora Agir. Não conhecia o trabalho literário do jornalista, escritor e dramaturgo nascido no Recife. O pouco que tinha visto de Nelson Rodrigues eram alguns filmes feitos sobre suas peças teatrais, e não gostava por me parecerem muito apelativos.
 
Mas bastou ler algumas linhas deste livro de crônicas, de pé na livraria, para ser fisgado por suas boas e saborosas histórias, entregues ao leitor em excelente escrita.

Em suma, descobri só recentemente a qualidade da literatura de Nelson Rodrigues.
 
Um senhor escritor. Não pode faltar na estante (ultimamente é um dos meus livros de cabeceira). As crônicas do Óbvio ululante foram publicadas no jornal O Globo, no período de dezembro de 1967 até junho de 1968, com exceção de duas, publicadas no Correio da Manhã em maio de 1967. Os parágrafos dos textos são numerados, numa espécie de evolução dos temas que vão surgindo.

Conforme diz a nota do editor, Nelson era, naquele época, uma personalidade cercada de frases lapidares por todos os lados.

Observo que ninguém estava livre de ser personagem das crônicas rodrigueanas, o que acontecia com certa freqüência inclusive com seus amigos e colegas. Nomes importantes da cultura e da política desfilam nas suas histórias, tais como Dom Hélder Câmara, José Lino Grünewald, Alceu Amoroso Lima, Olgário Mariano, Carlos Heitor Cony, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Proust, André Malraux e muitos outros.

"Era incômodo ser amigo e personagem do Nelson", afirma Cláudio Mello e Souza no prefácio da obra. E acrescenta:

Fui um deles. Sei do que falo. Tirava-nos de nossas realidades e nos transpunha para a sua imaginação, para o seu palco. Havia carinho? Talvez, mas tão impregnado de ironia que nunca soube, quando citado, se devia me humilhar ou me ofender. "Nem uma coisa nem outra", aconselhava o Otto [Lara Resende]. "Diga-se feliz e lisonjeado. Se reclamar, piora". Mais do que eu, ele sabia do que falava. Segui o conselho e me dei bem.
 
Há intimidade e originalidade na relação de Nelson Rodrigues com as palavras. Não à toa muitas de suas frases tornaram-se memoráveis, a começar pela própria expressão óbvio ululante, por todos conhecida. Muitas dessas criações traçam perfis sociológicos e psicológicos, como ocorre com o famoso complexo de vira-latas, para definir a baixa autoestima do brasileiro.

Mas Nelson não é apenas um fazedor de frases de efeito. Na construção do texto, percebe-se o capricho com que lapida a linguagem e o resultado, em geral, é de expressiva riqueza estética, apesar da circunstância de escrever para jornal.

Destaca-se nessas linhas o observador esmerado da vida, não obstante implacável, às vezes melancólico, às vezes bem humorado, quase sempre irônico, eventualmente injusto no julgamento de pessoas, mas ao mesmo tempo capaz de cálida ternura.

É difícil começar a leitura de uma crônica e não emendar logo em seguida na outra.

Veja o leitor algumas frases:

Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo.  (pág. 17)

Eis o que eu queria dizer: - para mim, o amigo é o grande acontecimento. (pág. 27)

O ônibus apinhado é o túmulo do pudor. (pág. 33)

A pior forma de solidão é a companhia de um paulista. (pág. 48)

Morte tão leve como a euforia de um anjo. (pág. 107)

Cada época sepulta uns tantos autores. (...) O que envelheceu em Dickens não foi o próprio Dickens. Não. Foi a sua ternura que desapareceu da nossa época. Olhem em torno. Não há mais o terno, o compassivo. Vivemos uma época feroz. (pág. 268)

Fazia um frio de rachar catedrais. (pág. 271)

Este mundo é a casa do ódio. (pág. 319)

Se querem saber, não sei francês. Não sei nenhuma outra língua, além da minha. As coisas só existem na minha própria língua. (pág. 333)

Na Rua do Ouvidor há um ceguinho que toca violino. Seu repertório é um tango único e, repito, sempre o mesmo tango. (371)

Eu me mato, não para pagar as dívidas, mas os seus juros. As dívidas permanecem maravilhosamente intatas. (idem)

São apenas fragmentos recolhidos de um rico manancial. No interior dos textos, na arquitetura com que o autor constrói as crônicas, revela-se o trabalho luminoso.

Nelson Rodrigues é um atento e perseverante leitor de costumes e comportamentos. Analisa com obsessão o modo de ser e a visão de mundo do brasileiro. Nesse caminho foi capaz de compor grandes e reveladoras sínteses.

Ele próprio tornou-se personagem da absurda realidade: tendo falecido na manhã de domingo de 21/12/1980, aos 68 anos, no final da tarde daquele dia Nelson faria os treze pontos da Loteria Esportiva, num "bolão" feito com o irmão e colegas de O Globo...

É por autores como Nelson Rodrigues que a leitura se torna um exercício de encantamento e instigante reflexão. Não podemos passar longe dessas crônicas, sem sofrer irreparáveis perdas.

Ler continua sendo o melhor antídoto para atravessar tempos tão secos e difíceis como estes.

A vida com literatura já é difícil, imagine sem ela...

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O óbvio ululante: as primeiras confissões, Nelson Rodrigues, 445 páginas. Agir Editora Ltda., Rio de Janeiro, 2007. A frase de epígrafe deste artigo está na pág. 271 do livro. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O escândalo das hortênsias

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


As hortênsias resolveram embelezar a cidade. Era só o que faltava.

Em meio a tanta desilusão, tanta feiura das almas, tanta gente má e casca grossa, vêm agora as hortênsias e decidem distribuir beleza e graça.

Um negócio muito estranho.
 
photo: j.finatto

Um verdadeiro escândalo aqui em Passo dos Ausentes.

Quando achava que não tinha mais jeito, quando nada mais esperava diante do triste espetáculo humano, as hortênsias surgem em silêncio, espargindo cor e delicadeza sobre cinzas.
 
O que mais nos espera?, eu pergunto, e já ninguém responde.

Tanta beleza é mesmo uma violência contra a desolação.
 
O que será feito da nossa histórica descrença no Brasil e em nós mesmos?
 
E o que restará do nosso olhar melancólico sobre o sentido da existência? É o fim dos tempos.

Devia ser aberto, imediatamente, um inquérito contra as hortênsias por tamanho absurdo e desacato à ordem estabelecida, verdadeiro atentado violento ao pudor a céu aberto.
 
Mas ninguém faz nada, este é realmente o país da impunidade.

Nem maldizer a vida em paz a gente pode agora.
 
É o fim da picada.


photo: j.finatto

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O título podia ser A sagração da primavera, uma feliz recordação da música de Igor Stravinsky, diante da estação que se aproxima (chega em setembro).
Texto revisto, postado antes em 12/12/2011.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

No tempo do Cine Vogue

Jorge Adelar Finatto
 
Retratos de Ingmar Bergman. fonte: site oficial*
 
Teve um tempo em Porto Alegre que assistir a filmes de Ingmar Bergman (1918 - 2007) era uma religião. O diretor sueco era o pastor de almas de muita gente por aqui, principalmente estudantes, intelectuais, trânsfugas em geral e perdidos na vida .
 
Era na época da ditadura civil-militar. Eu andava pelos 19 anos em 1976. O general Geisel era o presidente de plantão com o apoio de parcela da sociedade civil brasileira e de parte da imprensa.  Os direitos e as garantias individuais estavam fora da ordem jurídica. Ter ideias e opiniões diferentes dos que ocupavam o poder podia configurar crime do pensamento. Sim, muito parecido com o "1984", de George Orwell.
 
Nos regimes em que a escuridão vigora, as nuances são proibidas e qualquer sutileza é vista como inimiga. Todos são suspeitos (de alguma coisa) até prova em contrário. Era assim.

O Cinema Vogue, na Avenida Independência, era, como os demais de então, um cinema de rua. Tinha uma programação especial, considerada "cabeça". Um território de resistência em meio à repressão, assim como os bares da Esquina Maldita. 
 
A delicadeza era uma ilha deserta a mil milhas do continente.
 
Ingmar Bergman não tinha nada a ver com a ditadura no Brasil. Não sabia que era o pastor daquelas almas abismadas em voos interiores e travessias espirituais. Não sendo possível mudar a realidade, muitos buscavam outras claridades. Havia um mundo intangível a ser descoberto, onde os donos do poder e os emissários da morte não entravam.
 
Apesar da pobreza material em que eu vivia, e do escasso tempo para os assuntos do espírito, apreciava os itinerários bergmanianos através da consciência, da memória  e, sobretudo, do inconsciente. A manhã seguinte aos filmes de Bergman era sempre o cru desafio da luta pela sobrevivência.

O Brasil de então era (e, sinto dizê-lo, ainda é) um lugar onde reina uma grande violência social baseada na exclusão e na indiferença. O acesso às coisas da arte continua um privilégio para poucos. O país conseguiu livrar-se da ditadura, mas não logrou o mesmo com a corrupção, responsável direta pelo atraso e pelo sofrimento da maioria.
 
Devo dizer, também, que gostava de filmes de Teixeirinha e Mazzaropi, que assistia em outras salas tidas como menos cult, do povão. Havia um grande preconceito da classe média, principalmente entre universitários, em relação a esses filmes brasileiros. Uma coisa idiota como todo preconceito.
 
Essas lembranças me vêm porque andei revendo Morangos Silvestres (1957) e Fanny e Alexander (1982), duas obras-primas do grande cineasta. Me lembrei de mim e de nós. Da vida que foi e da que poderia ter sido. Da vida que passou, tempo finito.

Olhei com esperança para a vida que é e para a que vem vindo logo ali.
 
Viver pode até ser difícil para quem leva o coração entre as mãos, sem omiti-lo nas suas ações e decisões. Mas é infinitamente melhor do que ser mais um a roubar, a dar porrada, a pisar na cabeça dos outros, a destruir a vida alheia, a não ter valores.
 
Muita gente se perdeu no caminho em sinistras direções. Eu inventei tempo para a poesia e a arte em minha vida e tentei compartilhar. Foi e é uma maneira de não me perder e de não enlouquecer em meio a uma realidade tão absurda, desumana e violenta como a do nosso país.

Ave, maravilha.
 
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Site Oficial de Ingmar Bergman:
 
Os direitos humanos em Cuba:

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Bibliotecas

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Tantos livros me assustam
trago uma ignorância milenar
guardada num lugar
claro do meu ser
uma ignorância - ou a sabedoria -
do sol às 7 da manhã

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Henrique do Valle: obra reunida*

Dia 21 de agosto, às 19 horas, na sede do Instituto Estadual do Livro (Rua André Puente, 318, bairro Independência, Porto Alegre), será lançado o livro Henrique do Valle: obra reunida (440 páginas, R$ 40,00), que traz textos publicados e inéditos do poeta Henrique do Valle (1958 - 1981), com organização, apresentação e notas de Paulo Seben.
 
SOBRE O AUTOR

Foto:
Ana Maria Lopes
de Almeida Bastos
Quem tem mais de cinquenta anos, frequentou o Bom Fim no final da década de 70, gosta de poesia e acompanhou os movimentos culturais daquele período, certamente já ouviu falar de Henrique do Valle, ou "Ike", como era conhecido. Quem tem menos de cinquenta, certamente vai se interessar pelo mais marginal e radical poeta da cena boêmia porto-alegrense dos Anos de Chumbo, morto aos 22 anos. Sua obra é agora resgatada pelo Instituto Estadual do Livro, juntamente com originais inéditos perdidos durante trinta anos.

Sobrinho do presidente deposto João Goulart, Henrique do Valle passou pela traumática experiência do exílio. Já por seu primeiro livro, A espessa verdade/La espesa verdad, publicado em Buenos Aires em 1973, aos 15 anos, foi considerado uma das grandes promessas da poesia no Rio Grande do Sul. Ike publicou ainda mais dois livros em vida: Vazio na carne (1975) e Anotações do tempo (1979); Do lado de fora é obra póstuma, publicada em 1981.

O poeta atormentado mergulhou fundo no álcool e nas drogas, todas elas, em especial o LSD e a maconha, que o levaram a várias internações e até à prisão, vivências transmutadas em poesia amarga, delirante - porém, paradoxalmente, capaz de alcançar uma consciência que superou o maniqueísmo daqueles tempos conflagrados.

Henrique do Valle conseguiu “expressar as aflições, os desesperos, as dúvidas de uma juventude sufragada num mar de acontecimentos convulsos que se debate entre o desejo de encontrar um rumo e a depressão de precoce desengano”, segundo Pedro Vergara. Nesse sentido, Ike era representante da chamada geração de “poetas marginais”, desencantada com o sistema e reprimida pela ditadura militar. Sua poesia está marcada pela denúncia social.
 
No entanto, Jorge Adelar Finatto, amigo do poeta, afirma: “a poesia de Ike é muito mais do que um depoimento de geração, relato de um tempo mau. A obra que deixou tem força interior e qualidade, vale por si, não é datada”.

A obra de Henrique do Valle vem agora a público acrescida de inéditos encontrados com amigos e familiares, numa edição conjunta IEL/Corag, com organização, apresentação e notas de Paulo Seben, professor de Literatura Brasileira na UFRGS.
 

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*Notícia publicada no site do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul:

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A boneca de trapo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Era uma dessas tardes que antecedem o outono em Passo dos Ausentes. O ar outonal nos deixa mais sensíveis diante das mudanças nas cores e das primeiras quedas de folhas. As seivas reúnem e concentram a força da natureza, evitando qualquer desperdício. Em dias assim, é uma sorte estar vivo.
 
Enquanto atravessava a Praça da Ausência, encontrei uma boneca de trapo caída no chão. Era feita de velhos panos coloridos. Os olhos eram dois botões verdes.
 
Os cabelos, fios de lã repartidos em duas tranças. A boca, um pequeno risco vermelho e sorria.
 
Apesar de perdida, a boneca não parecia muito triste. Apenas carregava um toque de melancolia no semblante, que desapareceu quando a levantei.  Acomodei-a no banco da praça, embaixo de um salgueiro, ao lado do lago.

Fui embora, não sem alguma dor. No início quis levá-la comigo, dar-lhe novo lar. Mas desisti ao pensar que quem a perdeu (uma criança tudo leva a crer) voltaria para buscá-la. Seria de cortar o coração não encontrar a sua boneca de trapo.

Viver tem dessas coisas. Nem sempre podemos ter o que nos encanta. Nem sempre, como no outono, a vida se exalta em delicadas mutações. Num dia, o céu azul nos ilumina, habitado aqui e ali por nuvens cor-de-rosa, o coração bate harmonioso. Noutro, pensamentos escuros, pesados, se espalham e a gente só imagina besteira.

A boneca de trapo me lembrou coisas que perdi na vida. Perdi e me conformei. Porque nada, absolutamente nada, nos pertence verdadeiramente nesse mundo.
 
Tudo que temos é emprestado. Um dia teremos de devolver. Nada é nosso.

Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.

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Boneca artesanal da região serrana do Rio Grande do Sul. Texto revisto, publicado em 16 de março de 2011.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Homem é tudo frouxo

Jorge Adelar Finatto
 
Estrela Antares, rodeada por nebulosa amarelada (esquerda). Nasa
 
Em um domingo absolutamente banal, procuro alguma coisa que fuja ao absurdo trivial. Devia haver mais solenidade num dia desses na vida de um ser humano. Um pouco mais de tempero. Um pouco menos de tédio e cansaço.
 
Olho para os lados e o que vejo? Os semelhantes vivem momentos de grande intensidade filosófica, estética e emocional. Nada parecido com o enfado que é a minha jornada dominical.
 
Aposto que na casa ao lado os vizinhos celebram, entre acordes de Bach, a descoberta da cura contra a mediocridade e a melancolia. Por isso os vejo andar pelo quintal, quase flutuando, com aquele ar de quem encontrou as respostas.
 
O sujeito escondido e antipático da casa da esquina, o qual desconfio faz coisas inconfessáveis, não parece nem um pouco preocupado com o vírus ebola, com os terríveis ataques de Israel a civis em Gaza e com o medo ancestral da morte que me assolou a noite inteira, agravado pelo fato de ter que usar bengala nos últimos dias, porque o joelho esquerdo me dá dores rasgadas a cada passo e nem dormir consigo porque dói também deitado.

O preço a pagar pelas caminhadas nas montanhas atrás de destroços de estrelas cadentes nos Campos de Cima do Esquecimento.
 
A minha mãe diz ao telefone, pra me "consolar", que homem é tudo frouxo. "Se tivessem de parir, morriam todos na véspera. De enjoo." E assim parece ser.
 
Se ao menos eu pudesse subir num raio de luz até Antares e de lá admirar como são felizes, nas tardes de domingo, os habitantes dessa que é a estrela mais brilhante da Constelação de Escorpião.
 
Tudo acontece no domingo fora do meu território irrisório. Sinto uma inveja perversa da felicidade estampada na cara dos viventes da minha rua. Nenhuma angústia, nenhum remorso, nada. Todos sabem o que fazer, para onde ir, o que ler, o que ouvir e o que dizer, nenhum desassossego ou fastio.
 
Enquanto eu fico aqui com a bengala, diante da janela, esperando por uma magia que, sinceramente, acho que nunca vai acontecer.
 

domingo, 3 de agosto de 2014

Elegia 1975

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

O vento não traz
notícias de longe

todos foram dormir
depois do vinho
 
só nós permanecemos
incomunicáveis
debaixo das estrelas

e do frio

um que outro fantasma passa
fugitivo na calçada
não perguntamos pela vida
passada ou futura


habitamos cada momento
com olhos de prisioneiros violentados

escutamos o silêncio que vem do rio


a fome imensa de liberdade
que nos anima e nos faz fortes
na tempestade que nos enlaça
nos joga contra a parede

nosso rosto parece

ao de toda gente
mas trazemos

segredos inviolados
noites de lobos feridos

olhamos a cidade morta
nenhum anjo nos acalanta

estamos vivos
e nunca doeu tanto


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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Composição

Jorge Adelar Finatto 
 
Van Gogh (Girassóis, 1888)
Van Gogh Museum, Amsterdam, 20 digital highlights
 
O anjo tombou morto
na terra alheia de uma tela


Van Gogh imagina Gauguin
asfixiando o anjo no jardim
com as mãos queimadas de sol

Dali encoberta a face de granito
com o manto de brilhantes
os brilhantes despojados do anjo

Di Cavalcanti entristece: era uma mulata
o anjo assassinado nas cores do jardim?

Portinari retira-se melancólico
Picasso adentra a gruta de um olho

A noite cai pesada de remorso

Nesse instante todos dão-se as mãos
e cantam a canção predileta do anjo
em volta do corpo estendido no chão


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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

The last bedroom of Van Gogh
O último quarto de Van Gogh
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2009/12/o-ultimo-quarto-de-van-gogh.html

 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A expedição da Nasa a Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto 

photo: j. finatto

 
Condições atmosféricas peculiares fazem de Passo dos Ausentes uma estação climática e astronômica única no planeta. Estranhos fenômenos costumam ocorrer nesse longínquo lugar ao sul do mundo.

 
Esta foi uma das conclusões do relatório assinado pelo cientista norte-americano John Joseph de la Rosa, que comandou memorável expedição científica a nossa cidade em 1959.

Uma cópia do documento está arquivada na Sociedade Artística, Literária, Filosófica, Histórica, Geográfica, Astronômica, Geológica, Antropológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes.

A expedição foi organizada pela Agência Espacial Americana (Nasa) por razões que nunca foram esclarecidas. A equipe de seis cientistas ficou hospedada durante 40 dias na pensão Ao Viajante Solitário, conforme consta dos registros daquele estabelecimento.

As coisas se passaram de maneira obscura, a começar pela forma como aqui chegaram os viajantes ianques. Vieram num enorme dirigível da força aérea dos Estados Unidos.

Num dia de maio, o objeto voador azul-marinho com uma águia branca desenhada surgiu da bruma e pousou o cesto com a tripulação do lado do coreto da Praça da Ausência, amassando um luminoso canteiro de margaridas amarelas.

Segundo se apurou na ocasião, o dirigível teria partido de um navio de guerra ancorado na costa gaúcha, na altura do Farol da Solidão.

A população reuniu-se na praça para saber o que acontecia. De la Rosa apresentou suas credenciais a Don Sigofredo de Alcantis, nosso filósofo-mor, presidente da SALFHGAGAA. Pediu-lhe permissão para fazer estudos espaciais, astronômicos e atmosféricos nas cercanias da cidade.

Don Sigofredo indagou se tinham autorização do governo para entrar no espaço aéreo de Passo dos Ausentes, o qual, como devia saber o comandante, pertencia ao território brasileiro.

O americano esboçou um sorriso irônico e devolveu:

- O senhor tem certeza de que este lugar pertence ao Rio Grande do Sul e ao Brasil? Não vimos nada no mapa nem identificamos qualquer registro oficial. Viemos em paz, Don Sigofredo, não existe razão para envolver as autoridades brasileiras nisso. Estamos em missão científica. Viemos com espírito desarmado e em secreto. Não vamos levar nada, não queremos fazer nenhum mal. Pedimos sua compreensão para que evitemos formalidades desnecessárias que só atrasariam importantes descobertas para a humanidade. 

- Não vou discutir o assunto da nossa invisibilidade oficial com o senhor - disse com voz grave e calma Don Sigofredo. - Já nos bastam os problemas que enfrentamos, há mais de cem anos, com a burocracia do governo, que insiste em não conceder existência jurídica a nossa aldeia. Se vêm em paz, podem ficar o tempo que quiserem. Apenas um aviso: façam por merecer a nossa hospitalidade.

Sobre os acontecimentos que sobrevieram e como aquela expedição mudou a vida da nossa esquecida cidade trataremos em breve.

Convém recordar que tramita desde o final do século XIX, nos órgãos burocráticos do Estado do Rio Grande do Sul, o processo que trata do pedido de reconhecimento de Passo dos Ausentes como cidade. Até hoje nada conseguimos.

O último parecer da comissão foi ofensivo à nossa pretensão. Afirma-se no tal documento que a Equipe de Estudos Antropológicos para Verificação da Existência de Comunidades não conseguiu sequer subir até nosso lugar de viver, ante as péssimas condições de acesso por córregos, imensos paredões de pedra e estradas de chão a pique, quase verticais em alguns trechos, culminando em densas nuvens de neblina e neve, com austeras trovoadas consequentes a raios que explodem ameaçadoramente perto dos forasteiros que se aproximam.

Os medrosos e pouco diligentes funcionários públicos não chegaram, ao menos, perto do Contraforte dos Capuchinhos. Assustaram-se com as alturas e clima hostil.

Não satisfeitos com o fracasso da incursão, puseram uma placa absurda no início da Estrada da Ausência, 90 km a leste e 100 km acima de São Francisco de Paula, escrevendo em letras vermelhas sobre fundo branco os dizeres:

Passagem temerária.
Valhacouto de fantasmas.

Habitamos entre nuvens.

Somos voláteis e invisíveis para o mundo oficial. Nenhum registro, nenhum apontamento. Não figuramos nos mapas, nos roteiros turísticos, culturais e históricos do Rio Grande do Sul. Os jovens muito cedo vão-se embora em busca de oportunidades.

Somos poucos. Sobrevivemos por pura teimosia neste fim de mundo, agarrados à memória e a uma inexplicável esperança.

Somos uma página caída no desvão do tempo, escrita à mão pelo Criador num momento de distração e enfado com as coisas tristes desse mundo.

O Senhor cultivava um instante de poesia quando desenhou estas montanhas perdidas nos Campos de Cima do Esquecimento.

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Texto revisto, publicado antes em 1º de agosto de 2011.
 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O dia, a dádiva

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto
 
Um dia desses não se encontra todo dia no calendário. Céu azul, sol amarelo, frio, um cálido frio de blusa e casacão. A praça tem muita gente e pouco cachorro (criaram um cachorródromo ali, até que enfim).
 
É um dia pra se guardar num cartão-postal no álbum da memória. Pra recordar num daqueles momentos em que tudo em volta parece triste e sem sentido.

Vou caminhando pela tarde azul.

photo: j.finatto
 
À beira do Guaíba, a cidade se deixa embalar - às vezes até sonhar - nas ondas. Vista assim desde a margem, é uma fotografia que emerge de um tempo antigo com personagens de chapéu, bengala, vestido comprido, sombrinha. E faetontes flutuam nas ruas.

Agora é outra coisa. Cimento e vidro, avião furando nuvem, janelas abandonadas, lixo (muito lixo). Solidão.

instalação de Nuno Ramos. photo: j.finatto
 
Vamos em frente.

A cidade e seus sobreviventes. A cidade e seus barcos. A cidade e seus sonhadores no fim da tarde. A cidade e seus ciclistas que resistem. A cidade e seu cais. A cidade e seus ais.
 
Depois uma esticada até a Fundação Iberê Camargo, o bonito edifício branco brilha na tarde de sol, à
beira
do
rio. 

instalação de Nuno Ramos. photo: j.finatto

Mas o famoso arquiteto Álvaro Siza, que projetou o moderno prédio, esqueceu que janelas foram feitas pra sonhar e admirar e, reduzindo-as a pouco e poucas,  sonegou do olhar, na falta de outras finestras, a amplidão das águas, a face clara da cidade, as gaivotas, o pôr-do-sol.


restam
nesgas.

O que é puro desperdício de beleza (na modestíssima opiniãozinha deste anônimo transeunte).
 
A instalação do artista Nuno Ramos¹, no último pavimento, Ensaio sobre a dádiva, é a possibilidade de poesia e construção de sentidos no imaginário do observador.
 
A arte é dádiva. A cidade é dádiva. A janela é dádiva. O olhar é dádiva.  A mão estendida,
o silêncio
são
dádivas.

A troca humana imanente, urgente. A oferta e a recepção do que não tem preço em dinheiro.

"Um cavalo por um pierrô. Um violoncelo por um copo dágua."²
  
vídeo da instalação de Nuno Ramos. photo: j.finatto
 
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¹.² Ensaio sobre a dádiva. Instalação de Nuno Ramos na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre. Para maiores detalhes, acesse:
 
Foto de abertura do blog: vista da Fundação Iberê Camargo. As fotos de abertura mudam a cada dois dias, em média.
 

domingo, 27 de julho de 2014

O pintor do pôr-do-sol

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Quantos lápis de cor são necessários pra pintar o pôr-do-sol?

Não tenho idéia. Mas uma coisa eu sei: que há uma grande arte nas mãos de quem o faz, lá isso há. Tamanho engenho, arte tamanha.

Estava pelo entardecer quando olhei em direção às montanhas. Aqueles traços e cores me invadiram o coração.

Na ilusão - sempre ela - de aprisionar aquele efêmero instante de luz e forma, peguei a velha Coruja e fui até a varanda do escritório fotografar. O caçador de imagens em busca de novas e urgentes revelações do Grande Artista.

O sol caía atrás das nuvens. Os últimos pássaros retornavam aos ninhos.

A breve hora do adeus de mais um dia.


photo: jfinatto


As imagens, sem qualquer retoque, aí estão.

O mérito de tanta beleza é de quem inventou o cenário e pinta diariamente as cores do crepúsculo. Um artista caprichoso e único.

Em todos os finais de tarde ele senta-se diante da tela com seus lápis, régua, compasso, esquadro, pincéis e tintas e constrói as linhas e as cores de mais um pôr-do-sol.

O Grande Artista distribui sua arte amorosamente para quem quiser e souber ver, pobres e ricos, felizes e infelizes, bons e maus.

Observadores fugazes e privilegiados, a inefável pintura penetra fundo nosso espírito, nos sentimos parte de algo maior e mais belo. Salve o Grande Artista!

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Texto revisto, publicado em 19 de dezembro, 2012. 

sábado, 26 de julho de 2014

Ariano, um sábio sem ostentação

Jorge Adelar Finatto
 
Ariano Suassuna. autor: Eder Chiodetto. Folhapress
 
 
Em seu blog Interesse Público, da Folha de São Paulo, o jornalista Frederico Vasconcelos, repórter especial da Folha, reproduziu o texto que publiquei aqui sobre Ariano Suassuna. Na matéria, é transcrito trecho da notícia que deu origem ao poema.
 
É uma honra ser lembrado no espaço democrático e cidadão deste grande jornalista brasileiro. Eis o acesso:
 
Sob o título “Ariano”, o juiz e poeta Jorge Adelar Finatto, do Rio Grande do Sul, publicou em seu blog (“O Fazedor de Auroras“) a seguinte homenagem a Ariano Suassuna:
 
 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ariano

Jorge Adelar Finatto
 
Ariano Suassuna. fonte: www.paraiba.com.br
 

Em 1985, recebi um telefonema do grande Ariano Suassuna, falecido nessa quarta-feira (23/7/14), aos 87 anos. Motivo: ele recebera o meu livro Claridade, que lhe enviara alguns dias antes. Queria manifestar seu agradecimento pelo poema que lhe dediquei.
 
Fiquei feliz com o gesto. Passei a admirar ainda mais o autor do Romance da Pedra do Reino, um clássico brasileiro que figura entre os melhores romances publicados na Terra de Vera Cruz no século passado e em todos os tempos.
 
Um livro impressionante em invenção, criação de linguagem, sintaxe, desenvolvimento. Penso que não exagero colocando-o ao lado do Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Dois monumentos de língua portuguesa com raiz brasileira.
 
O poema que escrevi dá conta dos impasses que o atormentavam e que ele revelou em notícia publicada na Folha de São Paulo em 1981. Ao lê-la fiquei desolado e impactado com sua idéia de abandonar a escrita. Logo ele, autor de obras tão reveladoras do Brasil. Felizmente, o momento de desalento foi superado e o escritor trabalhava com entusiasmo quando conversamos.

Seja nos textos para teatro, seja em obras como a Pedra do Reino, o que encontramos é uma literatura impregnada com uma rica visão de mundo a partir de vertentes fortemente sustentadas no modo de ser, sentir, pensar e criar dos brasileiros do nordeste. Ariano era paraibano e foi morar com a família em Recife, Pernambuco, em 1942.
 
Uma parte de sua obra foi vertida para televisão e cinema, tornando-o um autor conhecido e respeitado em todo o país. 
 
Ele foi um dos poucos que souberam ver o Brasil real e o imaginário, o país profundo com longas raízes na cultura popular.
 
Não tive o prazer nem a ocasião de assistir a uma de suas famosas aulas-espetáculo, que tanto deliciavam quem as assistia pelo saber e pela alegria que transmitiam. Com grande simplicidade e um intenso sentimento pelas coisas do nosso povo, ele foi um professor caminhando ao lado dos alunos, nunca acima, e um sábio sem ostentação.

Eis o poema, tendo por epígrafe a notícia que lhe deu origem:
 
Aos 54 anos, o escritor se despede "para tentar reunir os estilhaços" em que se despedaçou com o passar do tempo, na tentativa de "ver se ainda é possível recompor com eles alguma unidade". Longe dos livros - "sobretudo dos melhores" - e também das cartas, jornais, revistas, televisões, dos amigos e da própria família, Suassuna tentará livrar-se dos "sonhos, quimeras e visões às vezes até utópicas da vida e do real", que o atormentam há algum tempo. (Folha de São Paulo, 16.8.1981)

Abro o jornal de manhã
com aquela notícia: Ariano Suassuna
calou-se pro mundo

o silêncio enche os corações
lota os teatros
embrenha-se entre as anotações
invade as estantes

felino
enovela-se a um canto da sala
gotejando sangue pelos ouvidos

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Poema do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Saudade da crônica

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Oceanário de Lisboa
 
Por que se gosta de um autor? Gosta-se de um autor quando, ao lê-lo, tem-se a experiência de comunhão. Arte é isso: comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles. Ao lê-lo eu me leio, melhor me entendo. Somos do mesmo sangue, companheiros no mesmo mundo. Não importa que o autor já tenha morrido há séculos... 
                                                                             Rubem Alves*

Como leitor de jornais e revistas, quero partilhar uma falta. Não encontro hoje nenhum grande cronista na imprensa brasileira. Assim como o futebol, a nossa crônica passa por momento de pungente anemia.

O mais que se lê, com poucas exceções, são textos de autoajuda ou de rasa interpretação da realidade, escritos por jornalistas ou escritores que, apesar do esforço, não encontram na crônica sua melhor forma de expressão.
 
O bom cronista, na minha opinião, é aquele cuja arte nos encanta. Sentimos sua falta quando não o lemos. Esse que nos faz sonhar e ver o mundo de um modo diferente. Nele encontramos o prazer da leitura. Um certo mal-estar nos invade na ausência de seus textos.

Quando vou à banca da esquina, hoje, não tenho mais a quem procurar.

O cronista de que sinto falta é o que cultiva a minha sensibilidade, apurando-a. Pela mão dele as pequenas coisas do cotidiano ganham relevo. Ele ilumina a vida comum com sua lente sensível e, assim procedendo, me ilumina. É o artista que sabe ver os fragmentos que fazem da existência esse curioso, difícil e belo caleidoscópio.

Agora, para encontrar um cronista de fé, tenho de recorrer a velhos jornais e velhas revistas, ou aos livros. Menciono alguns deles, mas existem outros: Tarso de Castro, Nelson Rodrigues, Alvaro Moreyra, José Carlos Oliveira, Rubem Braga, Drummond, João do Rio, Rubem Alves (este, infelizmente, falecido no último sábado).

Todos grandes talentos, todos mortos. Os meios de comunicação prestariam um relevante serviço aos leitores se republicassem, de vez em quando, alguns de seus textos. E se os lessem em rádio e televisão.

Estarei exagerando? Não estou fazendo justiça aos cronistas da praça? Caso o leitor conheça algum, terei prazer em registrar aqui a informação.

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Ostra feliz não faz pérola, Rubem Alves, Editora Planeta, pp. 178/179, São Paulo, 2012.
 

domingo, 20 de julho de 2014

O impossível voo de Francisco Orange Junge Mit Flügeln dos Santos Passos, neto de Francisca Hände Guter von Geburt, parteira, viúva e vidente, em direção a Lisboa, de onde nunca mais voltou nem mandou notícias

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto



De como Francisco Orange caiu com seu balão em pleno Terreiro do Paço, em Lisboa, após sobreviver a uma tempestade no Oceano Atlântico. Do que sucedeu depois que foi preso pelas autoridades portuguesas e por que decidiu  ir viver na aldeia de Carvalhal e cantar o fado no Bairro Alto.

O nome é longo e misterioso como os pensamentos do personagem desta insólita história: Francisco Orange Junge Mit Flügeln dos Santos Passos. Era um dos loucos da cidade.

Em Passo dos Ausentes, a palavra louco foi expulsa dos dicionários e das falas. Não é pronunciada em respeito a ilustres antepassados e a alguns dos atuais habitantes. Para o Dr. Fredolino Lancaster, único médico da cidade, 92 anos, ainda no pleno exercício do ofício:
 
- A expressão deve ser evitada. As palavras têm fio cortante, são capazes de rasgar mesmo tecidos mais rijos. Com palavras reabrem-se facilmente velhas feridas. Com palavras até mesmo se mata. Chamar alguém de doido, em Passo dos Ausentes, é rematada crueldade, conhecendo nossas origens e nossos ancestrais. De resto, quem é inteiramente são neste mundo, quem não cometeu uma loucura alguma vez, em pensamento ou ação? Quem não guarda no ermo de si um difícil remorso? Apontar alguém como maluco é uma leviana redução do outro.
 
- Digamos que temos aqui temperamentos sensíveis, insondáveis, determinados, brilhantes às vezes, herança de séculos de isolamento e ruminação do nada.

- O oblívio e a solidão produzem seus frutos - pondera o sábio esculápio.
 
Francisco Orange, o menino com asas, passou a infância calado, morando com a avó no Sobrado dos Espelhos. Contam os que alguma vez viram seu corpo imaculado que o infante nasceu com um par de asas azuis sobre os ombros. A octogenária Francisca Hände Guter von Geburt, parteira, viúva e vidente, que criou o neto na ausência dos pais, nunca fez segredo sobre suas asas, embora nunca as mostrasse a ninguém.

Até o dia em que Francisco Orange, aos 10 anos, proibiu-a de tocar no assunto, sob pena de jogar-se do Penhasco das Almas que Voam. Exatamente como fizeram seus pais, de mãos dadas, 10 dias depois do seu nascimento. Nunca ninguém soube por quê. Falou-se (aqui ninguém nos ouça) que foi caso de incesto entre irmãos, que resultou em inesperada e oculta gravidez.

Como se recusasse a conviver com outras crianças, aprendeu a ler, escrever e fazer contas em casa com um preceptor germânico. Oscar Edouardt Mann nasceu em Lübeck, Alemanha, em 1905. Veio parar em Passo dos Ausentes em 1930 com sua misteriosa mala preta de couro. Nunca mais saiu daqui. Muitos dizem que o convívio com Oscar tornou o menino ainda mais recluso e ausente. O mestre conseguiu incutir no espírito do aluno suas duas grandes paixões: a antimatéria e os mundos paralelos.

A adolescência encontrou Francisco Orange fazendo projetos mirabolantes de viagens espaciais e construindo coisas que voam. Primeiro foram as enormes pandorgas azuis, as maiores e mais bonitas que iluminaram estes céus.
 
Depois vieram as minúsculas e coloridas borboletas de papel de seda. No início de maio, costumava jogá-las do alto da Torre do Relógio, em quantidade tal que se espalhavam por toda a cidade.
 
Nefelindo Acquaviva, construtor de aeroplanos, dirigíveis e balões de fundo de quintal, com vários desastres no currículo, convidou o menino para aprender a arte da navegação pelo ar. Daí em diante iniciou-se uma longa parceria entre o jovem incomunicável e o mentor nefelibata. Vários aparelhos foram construídos pelos dois. Pilotados por Acquaviva, todos vieram ao chão, sendo incompreensível que a morte ainda não o tenha colhido.

Aos 20 anos, Francisco Orange construiu sozinho um primeiro e pequeno dirigível, que deixou o mestre orgulhoso. Com a geringonça, aventurou-se aos ares até desaparecer nas alturas e lonjuras das montanhas azuis dos Campos de Cima do Esquecimento no frio glacial de julho. Não retornou. Uma expedição de busca foi organizada na Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Musical, Geológica, Astronômica, Antropológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes, por iniciativa de seu presidente, o filósofo Don Sigofredo de Alcantis.
 
A expedição encontrou o navegante dez dias depois, no Contraforte dos Capuchinhos, magro, esquálido, enrodilhado no alto de um cipreste, a poucos metros de um penhasco. O arvorista Guilherme Tadeus Baum salvou-o, utilizando um complicado sistema de cordas e polias.

Momentos após o salvamento, o dirigível afundou no abismo.
 
Acostumado a terríveis desastres com suas estrovengas voadoras, Acquaviva sentiu imenso júbilo pela frieza e determinação de seu discípulo, quando o viu descer estropiado do Jeep da Sociedade Histórica na Praça da Ausência, onde um grupo de ruidosos admiradores o esperavam.

Francisca disse então a um incrédulo Don Sigofredo de Alcantis:
 
- É o modo que ele encontrou de ser feliz, quer ficar mais perto dos anjos, de Deus e dos pais. Deixem o Francisco em paz. Deus sabe o que faz. Ele tem a proteção de São Francisco. Nasceu com as duas asinhas azuis sobre os ombros. Eu sempre soube que o meu menino ia voar um dia. 
 
Juan Niebla, músico cego, tocador de bandoneón na estação de trem abandonada, observador atento das histórias da cidade, relatou o último voo de Francisco Orange durante uma reunião da Sociedade Histórica:
 
- Foi numa manhã de novembro de 1975. Os ventos de finados andavam loucos por aí. Francisco Orange tinha então 25 anos, batizou o balão recém-construído de Terra dos Ausentes, no qual ele e Acquaviva trabalharam por 4 anos. Disse que ia embora para Portugal, de onde viera o trisavô materno, natural de Carvalhal.

- De nada adiantaram os nossos apelos como sabem. Desamarrou as cordas e ganhou os ares no quintal de Acquaviva, sumindo em direção ao Oceano Atlântico. Não mais se soube dele até o dia em que o nosso astrônomo, Palomar Boavista, pesquisando na hemeroteca Biblioteca Pública de Porto Alegre, deparou-se com aquela notícia do Correio do Povo, gerada pela France-Presse.
 
- A foto de um enorme e remendado balão azul caído no Terreiro do Paço, em Lisboa, à margem do Tejo, com aquele homem magro, vestindo mastigada roupa preta, com barba negra abundante e olhos fundos, não deixava dúvida. Ali estava o menino com asas de Passo dos Ausentes. O aparelho - o que restou dele - foi recolhido pelas autoridades. O insólito viajante teve de explicar-se à polícia durantes alguns dias - contou Niebla.

- No dia em que partiu de Passo dos Ausentes, os tristes ventos de novembro o empurraram rapidamente para o Atlântico. Cinco dias depois uma tempestade o derrubou em Cabo Verde. Sobreviveu por milagre. Com auxílio de gentis almas, após um ano de trabalho, consertou a nave e levantou âncora novamente. Dois dias mais tarde, foi colhido pelo mau tempo em pleno deserto do Saara, no sul do Marrocos, vindo a cair outra vez. Acolhido por beduínos, sobreviveu. Ficou dois anos no deserto com aquela tribo, arrumou o aparelho e alçou voo para Portugal.
 
- As pessoas do deserto foram as melhores que conheci na vida. Com elas não sentia o gelo da solidão me queimando por dentro. Não sei o que vai ser feito da minha vida. Provavelmente vou desaparecer entre as nuvens qualquer dia, ou afundar num penhasco - declarou à repórter da France-Presse, encerrando a entrevista, enquanto a polícia o levava.

A esperança de que Francisco Orange volte um dia para casa com seu solitário balão vai se dissipando com o passar dos anos. Afinal, tudo envelhece no mundo e as coisas passam.

Nunca mais tivemos notícia do nosso menino com asas. Informes distantes dão conta de que foi viver na aldeia de Carvalhal e que, em certos dias de saudade das montanhas azuis dos Campos de Cima do Esquecimento, vai cantar o fado na Tasca do Chico, no Bairro Alto, na ensolarada Lisboa.

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Texto revisto e ampliado, publicado originalmente em 6 de agosto, 2012.
 

sábado, 19 de julho de 2014

Não me abandones

Jorge Adelar Finatto
 a Chet Baker*
 
Chet Baker (1929-1988)

Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença

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*Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O impossível voo de Francisco Orange Junge Mit Flügeln dos Santos Passos, neto de Francisca Hände Guter von Geburt, parteira, viúva e vidente, em direção a Lisboa, de onde nunca mais voltou nem mandou notícias

Jorge Adelar Finatto

Francisco Orange, o menino com asas, passou a infância calado, morando com a avó no Sobrado dos Espelhos, em Passo dos Ausentes. Contam os que alguma vez viram seu corpo imaculado que o infante nasceu com um par de asas azuis sobre os ombros.
 
De como Francisco Orange desabou com seu balão em pleno Terreiro do Paço, em Lisboa, após sobreviver a uma tempestade no Oceano Atlântico, e do que aconteceu depois que foi preso pelas autoridades, e sobre o que se passou quando decidiu viver na aldeia de Carvalhal e cantar o fado no Bairro Alto.
 
Amanhã à noite, nesta página elétrica.
 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O postigo de Deus

Jorge Adelar Finatto

Contraforte dos Capuchinhos. photo: j.finatto


As manhãs amadurecem no coração da treva.
 
Como pode alguém tão pequeno querer voar tão longe, sonhar tão alto?

Em meio a portulanos e cartapácios, Claudionor, o Anacoreta, alimenta o sonho.

A quimera do grande encontro o habita.
 
Ah, as horas passadas entre os livros na caverna, no Contraforte dos Capuchinhos. A cela espiritual onde ele se retira em torno da vetusta mesa, viajando nas páginas, no telescópio, na bruma de estrelas.
 
Ah, as travessias desoladas através do invisível. Os altos vôos onde ele se queda a duvidar.
 
As místicas visões o perseguem desde menino nestes Campos de Cima do Esquecimento.

A mirada do infinito saber, a vertigem do pensar, a busca da unidade com o cosmos. Não ser apenas mais um estrangeiro no universo.

Os mistérios do vir-a-ser. O terrível peso do aqui e agora. As fomes do corpo.

Um dia - Claudionor bem sabe - a face de Deus iluminará o postigo e ele então irá embora da caverna para a casa dEle. Então tudo o mais será pó de luz iluminando a estrada.

Por enquanto, o trevamundo. Escuridão a galope pelo mundo. Coração pulsando no oblívio.

Urgentes prosopopéias o ajudam a povoar o silêncio, a construir o neblinoso itinerário.

Ah, as solitárias caminhadas pela Rua do Farelo, em Passo dos Ausentes.

Prisioneiro do efêmero, Claudionor se lança na antieternidade do instante fugaz.

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Claudionor, o Anacoreta, é místico e astrônomo amador. Vive numa caverna no Contraforte dos Capuchinhos, em Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado antes em 09 de março, 2011.