segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Promessa do Sol

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Estou vivo e lúcido

na tarde da América do Sul

entre palmeiras verticais
e andorinhas azuis

entre o que restou do teu jeito
e a promessa generosa do sol
batendo na minha cabeça

_____________

Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sábado, 21 de janeiro de 2023

O tempo das bonecas

 Jorge Finatto

Castelinho Caracol, Canela. photo: jfinatto

O tempo das bonecas ficou esquecido no sótão. Elas conversam e brincam entre si numa língua só delas.

Sabem que suas donas não voltarão, e às vezes choram.
Mas todo dia o Sol irradia entre as velhas telhas, botando a sombra pra correr.
A vida silenciosa e imóvel é iluminada, espantando um pouco a melancolia.
O mundo do sótão é um mundo de memórias e suspiros.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Maria Madalena

 Jorge Finatto

photo: Lugano, Suíça, j.finatto

Maria Madalena teve o privilégio de ser a primeira pessoa a ver Jesus após a Ressurreição. Nenhum dos apóstolos teve essa ventura.

Havia nas cercanias do lugar onde ele foi assassinado (Monte Gólgota, Jerusalém) um jardim e, neste, um túmulo novo ainda não usado. Foi nele que o sepultaram José de Arimateia (discípulo secreto de Cristo, homem influente e rico) e Nicodemos, envolto o corpo em fino linho.
Enquanto ela chorava diante do túmulo, onde o corpo não estava mais, Jesus apareceu-lhe. Era de manhã muito cedo. Num primeiro momento ela não o reconheceu. Até que ele diz: "Maria!". E a alegria de Madalena é infinita. Em lágrimas, ela toca o Senhor levantado dos mortos. Ele então lhe fala:
- Para de agarrar-te a mim. Porque ainda não ascendi para junto do Pai. Mas, vai aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus".
Impressiona o amor de Maria Madalena por Cristo e o sentimento que os unia. Ele tinha expulsado sete demônios dela e a partir de então ela passou a segui-lo e amá-lo, segundo o relato bíblico.
Em sua passagem pelo mundo, Jesus mostrou-se um ser espiritual num corpo humano. Um ser que valorizava por demais o afeto. Daí ter proclamado a importância de amarmos ao próximo como a nós mesmos. Teve o amor como algo primordial e urgente.
Relendo os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), dei-me conta de que, durante a vida, assim como nas horas finais e na Ressurreição, Cristo foi sempre acompanhado de perto, modo amoroso e atento, por mulheres.
O aparecimento de Jesus a Maria Madalena é revelador disso. É prova de gratidão e de um grande carinho. Mostra que ele não era indiferente à presença feminina em sua vida, mas tinha-a em elevada consideração.
Não há informes sobre Maria Madalena (da aldeia de Magdala, cuja existência foi comprovada por recentes escavações em Israel), além dos Evangelhos. Sabe-se, por exemplo, que assistiu a Cristo e aos apóstolos com seus bens como outras mulheres também o fizeram (Lucas 8: 1, 2, 3).
Quem foi essa mulher? O que fez e como viveu? Que momentos luminosos compartilhou com Jesus? Como se passaram seus dias depois da morte de seu amado Senhor? São mistérios a desafiar interpretações e especulações.
Uma coisa, contudo, parece certa: por ser quem era, e pelo seu imenso amor, ela conquistou o coração de Jesus.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Todos os dias

 Jorge Finatto


jfinatto


"A vida de todos os dias, a que eu sempre quis." 

            Do meu livro Claridade, 1983.

A todos muitas claridades nesse 2023. Ninguém "Do lado de fora", lembrando livro do querido amigo Henrique do Valle.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O povo subiu a rampa

                                              Jorge Finatto

     

photo: Agência Brasil, Tânia Rego

Nunca tinha visto cerimônia tão bela e comovente de subida da rampa do Palácio do Planalto como a do presidente Lula, recém empossado. O grupo de pessoas que o acompanhou representa uma parte importante e esquecida da sociedade brasileira (sem falar da cadelinha vira-lata Resistência).

De braços com o cacique Raoni, 90 anos, ao lado de um menino negro, entre outras pessoas, recebeu a faixa presidencial da catadora negra de materiais recicláveis Aline Sousa. Jamais se viu cena tão tocante e significativa de chegada de um político brasileiro ao poder.

Lula vai acertar e vai errar, porque é humano, tem defeitos e virtudes, e a política não é feita por anjinhos. 

Mas é um ser humano sensível, capaz de se comover com o sofrimento dos esquecidos e por eles lutar e trabalhar.  Que tenha juízo, bom senso e que se deixe iluminar por Deus no caminho.

Não sou nem nunca fui petista, nem de qualquer outro partido.  Mas ainda vejo e sinto.

Temos, enfim, um ser humano na presidência da República e isso faz toda diferença.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Mutações

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

Raízes firmes na terra, pensamento mirando as estrelas, braços abertos ao azul de outros abraços, respeito ao próximo, à democracia, sabendo que tudo pode mudar, como de fato mudou nas últimas eleições (e continuará a mudar, se nós assim quisermos). 

Nada será como nos últimos quatro anos.

2023, tempo de mutações. 

Que o universo seja o nosso quintal.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Do jardim


 

Da série Quem tem um jardim tem um mundo.

Composição e photo: Clara Finatto

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Deixa andar


 Jorge Finatto


Agapanto.photo: jfinatto


Por que a arte existe? Porque a vida dói. Seja como for, a vida dói. Cada um sente o sofrimento de um jeito. A arte é uma maneira de sublimar a dor e o medo.

Às vezes o príncipe é, afinal, mais triste que o mendigo. Este pode alegrar-se com uma simples moeda e um sorriso sincero, o príncipe nem isso. 

Tem gente que já se matou vivendo num castelo. 

Tem gente que fica feliz ao ver o dia amanhecer, só isso. 

A felicidade está no coração de quem sente.

E, no fim, ter uma casinha pra morar, o pão de todo dia e uma família é o maior tesouro. Felicidade total não existe, talvez em outra galáxia. 

Viver dói e é lindo, viver é tudo que temos. O jeito é ir sendo feliz alguns minutos ao dia. O resto deixa andar, como disse Zé Keti no samba Opinião.

domingo, 27 de novembro de 2022

A dança misteriosa

 Jorge Finatto


photos: jfinatto


A paleta de cores é infinita. Não há limite para as formas e expressões. É difícil imaginar que não haja uma inteligência por trás de cada traço, cada tom, cada som.

A beleza é uma construção de razão e sentimento. O Criador não é um jogador de dados, como salientou Einstein. E segue a dança misteriosa do universo numa flor de hortênsia...

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Ávido

 Jorge Finatto


photo jfinatto


Tanta beleza, tanto perfume, tão breve manhã. 

Colhamos o instante com coração ávido.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O chafariz e eu

 Jorge Finatto

Teatro Nacional São Carlos e o chafariz.
Wikipédia. Autor: Thomas


ERA UMA TARDE de inverno em Lisboa. Saí do hotel Dom Pedro, no bairro Amoreiras, e me dirigi a pé à Livraria e Editora Cotovia, no Bairro Alto, para me inteirar dos lançamentos. Enquanto examinava a estante, um gato preto apareceu e se pôs sobre os livros em minha frente. Na verdade, uma gata bonita, cujo nome era Maravilhas. Até aí, maravilha.

Conversei com Maravilhas como sempre faço com gatos. Escolhi os livros e parti, agora em direção ao café A Brasileira (aquele freqüentado por Fernando Pessoa), no Chiado. Depois do pastel de nata e do café, rumei para a Livraria Bertrand, a mais antiga do mundo, na Rua Garrett, outra perdição.

Em seguida, caminhei até o Largo do Teatro Nacional São Carlos, um lugar bonito onde está situado o edifício no qual nasceu Fernando Pessoa. Me vali do celular (telemóvel) pra fazer algumas fotos. Havia um ruidoso grupo de italianos por ali (eu acabara de chegar de uma temporada na Itália). Até que decidi atravessar o largo e entrar no teatro.

Dei um passo em frente e... mergulhei no chafariz (a água pelas bordas). Mergulhei com capote, mochila, chapéu, manta, sacola, com tudo. Vim à tona ensopado, com tocos de cigarro enfiados nos óculos, e pedaços de papel pelo casaco.

Fiz um grande esforço pra sair. Torci pra que ninguém viesse me ajudar, queria evitar mais constrangimento. De fato, ninguém veio. Quando, enfim, consegui sair do chafariz, uma gargalhada geral ecoou na praça. Os malditos italianos não me pouparam. Um gaiato entre eles gritou que era tentativa de suicídio.

Fiz de conta que não era comigo. Saí andando meio de banda, meio tonto, gelado, molhadíssimo, pingando, com a mão e o ombro direitos machucados, sem entender o que tinha acontecido.

No fundo não havia mistério. Óculos com lentes de fundo de garrafa, visão mais ou menos (menos, menos), pensamento caçando borboletas. Fui ao fundo.

Mas, afinal, quem inventou de colocar aquele chafariz encavado no chão ali, na minha frente? E quem teve a infeliz ideia de trazer aqueles maledettos justo naquela hora?

Livros molhados, telefone molhado, passaporte molhado, ânimo e alma molhados, roupas, tudo molhado. Isso aconteceu em fevereiro de 2018.

Restou o consolo: pelo menos fiz rir a malta maledetta com a minha commedia dell'arte.

Baixa o pano.

domingo, 30 de outubro de 2022

Nova Aurora

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Viva a nova Aurora, Brasil!

Viva a sobrevivência da democracia!

Viva a convivência civilizada! 

O amanhã se abre para ser recriado com muito trabalho, compromisso com todos e responsabilidade!

Venham os livros, venha o amor! Chega de armas e de ódio!

Viva a esperança!

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Duros dias

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


No Brasil de hoje o humanismo é um sentimento distante dos corações e mentes. Vivemos dias duros, sem ternura e sem perspectiva. A democracia entre nós está por um fio. Ameaças às instituições, atitudes desrespeitosas contra o Judiciário, cultivo do conflito e da cizânia. 

A inaceitável mistura de política e religião, do obscurantismo com a boa-fé das pessoas, atingiu níveis nunca antes vistos. Deus, que não tem nada a ver com isso, deve estar indignado com os falsos profetas. (Marcos 12:13-17) 

Eu, que acredito num Deus justo e bondoso (e que reconhece as reais intenções por trás das aparências), eu não gostaria de estar na pele dessa gente "esperta" quando a indignação Dele se fizer sentir. 

Enquanto isso lutamos pela paz com as armas da palavra, do entendimento, do respeito ao próximo, da rejeição a qualquer forma de ódio e violência.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Abacaxi-rei

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


VALEI-NOS, Abacaxi-Rei, Soberano Ananás, do alto da tua coroa espetada. A ti, em última instância, recorremos.

Quem vai embraçar a bromeliácea? Quem terá a fineza de arrancar-lhe a injusta crosta para que possamos, todos, após o generoso gesto, degustar a doce infrutescência à mesa solidária?
Enquanto não aparece a alma gentil pra fazer o serviço, ficamos todos a admirar a fruteira sobre a mesa com o hermético fruto dentro. Como um bebê em berço esplêndido.
De novo e sempre, a indigesta pergunta nos assola: quem vai empalmar o rude naná e desvelar-lhe a dolce polpa?
Valei-nos, Magnífico Abacaxi! Não nos deixeis à mercê do canto solerte e fatal de sectárias sereias, pois não passamos de indefesas criaturas à sombra de solenes palmeiras nessas praias onde o mar verde balança.
Mostrai-nos, Augusto Ananás, o caminho da obscura e indizível doçura por trás da terrível realidade que nos fecha ao paladar da dignidade, da esperança e da alegria.

___________
excerto do texto publicado no livro Navegador de barco de papel.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

A ninfa

 Jorge Finatto

Ninfa. photo j.finatto

Ninfa. Escultura em mármore de Carrara de 1866, feita pelo arquiteto italiano Giuseppe Obino. Por muitas décadas esteve instalada na Praça Dom Sebastião, ao lado do Colégio Rosário, em Porto Alegre. Hoje, devido a atos de vandalismo, foi transferida para a praça da hidráulica do bairro Moinhos de Vento.

Às vezes uma lágrima escorre de seus olhos. Pelas mutilações de que foi vítima. Por todos os adolescentes que um dia viu cheios de ternura nos bancos da Praça Dom Sebastião.

______________

Esta escultura faz parte de um conjunto de quatro criadas por Obino, representando o Guaíba e seus afluentes.



terça-feira, 4 de outubro de 2022

Rosa é uma rosa é uma rosa

  Jorge Finatto


Escreveu Gertrude Stein:
"Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa".

A rosa é um mundo em si, digo eu, em comunicação permanente com nosso mundo interior. Não se deixa aprisionar em definições nem precisa disso. É uma rosa...

O poeta Rilke amava as rosas acima de tudo.

Essa rosa fotografei no meu jardim.

Me recuso a colher rosas. Uma rosa não pertence a quem a planta e cuida. Ela é de todos.

O seu perfume inundou meu coração e está sempre comigo.

domingo, 25 de setembro de 2022

Primavera no Brasil

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


A primavera deixa a gente mais, digamos assim, feliz (até onde é possível ser feliz do jeito que o país ficou nos últimos anos).

As formas e as cores iluminam a paisagem. Os seres esquecem a tristeza por um momento. Até o sofrimento fica um pouco contente.

As flores do meu jardim não me deixam mentir e acho que perdoam um certo exagero sensorial da minha parte...

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

A mulher do retrato

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

"A eternidade só existe como ilusão. Mas é uma bela ilusão."
(Do Livro de Horas do Monge Jorge, Contraforte dos Capuchinhos)

E, no entanto, ela está ali viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias da Feira de Antigüidades da Plaza Constitución, em Montevideo.
A brisa, um pouco fria às cinco da tarde, conversa com as folhas dos plátanos. O sol calmo espia entre os galhos.
Bela, ali está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará?
Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a primitiva fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.
O retrato caiu do toucador no casarão abandonado da Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da linda mulher.
O que é uma fotografia? Um instante que não se deixa apagar.
Um fragmento de vida congelado no tempo.
Uma face de mulher que não se perdeu graças ao registro.
Pequena eternidade de luz.
_______
Texto revisto, publicado em 14.2.2015.

sábado, 3 de setembro de 2022

Horizontes

 Jorge Finatto

foto: jfinatto. Pocitos. Montevideo.


O bom de viver 

é que nunca alcançamos 

o horizonte. 

A navegação é infinita. 


Os horizontes são efêmeros. 

Só o tempo é eterno.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Medialunita de manteca calentita

Jorge Finatto




a Dimitri e Cony


Montevideo es una ciudad grande com hábitos de cidade pequena. Aqui existe a siesta sagrada depois do almoço. Em cada esquina uma fruteira, um mercadinho, uma banca de jornal. Em comparação com Porto Alegre, não existe violência.

O Café Brasilero é parada obrigatória. De 1877, foi lugar cativo de Mario Benedetti e Eduardo Galeano, entre muitos outros poetas, escritores, artistas e livres pensadores em geral. Atendimento cordialíssimo, há anos me sinto da casa. Não existem no mundo melhores medialunas, sucos de laranja e cafés cortados.

Nesta cidade as pessoas encontram tempo para dar-se um tempo. E as livrarias são uma perdição. Não é à toa que nela viveram Juan Carlos Onetti e o Conde de Lautréamont.

______

photo: jfinatto

terça-feira, 16 de agosto de 2022

O caminhante

 Clara Finatto

Minha filha Clara, habitante de Montreux

(Eu sou suspeito pra falar, mas achei o texto da Clara lindo e generoso. E confirmo que a experiência mais importante da minha vida foi e é a paternidade. Bjs., filha querida, e pros meninos Lorenzo e Lucas também. Amo vocês. JFinatto)


cruzou oceanos e conheceu continentes.
Com seus tênis nos pés, a mochila nas costas e a máquina nas mãos ele caminha pelas ruas com o olhar sempre atento e curioso.
Quem o observa logo percebe que a cada passo dado ele parece estar mais próximo de uma incrível descoberta.
Ele não tem pressa, observa cada detalhe da paisagem com uma paixão madura...sem ilusões, mas com esperança.
O caminhante já viveu grandes aventuras pelos caminhos percorridos, porém, segundo seus relatos, a grande aventura de sua vida foi ser pai. Conta que ser pai mudou tudo e trouxe sentido a sua existência.
O Caminhante é pai do Lorenzo, do Lucas e da Clara!
Pai, muito obrigada pela vida!

sábado, 13 de agosto de 2022

Salve, Jorge

 Jorge Finatto

foto: Jorge Amado, 1972. Fundo documental: Correio da Manhã,
 Wikipédia

Nos 110 anos do nascimento de Jorge Amado (1912), comemorados em 10 de agosto passado, reproduzo este depoimento. Salve, Jorge.

Antes de enveredar para o Direito e depois para a magistratura, trabalhei como jornalista, após fazer a faculdade de jornalismo. Em dezembro de 1984, tive oportunidade de entrevistar Jorge Amado (1912 - 2001). A entrevista foi marcada através de carta e telefone. Na época eu escrevia a biografia do poeta, cronista, radialista, editor de grandes revistas e teatrólogo porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888 - 1964).*

Jorge Amado concordou em dar um depoimento. Fiquei feliz com a atenção do grande escritor baiano, que na ocasião veio a Porto Alegre autografar o romance Tocaia Grande, lançado naquele ano. Aproveitei e pedi que assinasse o exemplar do livro que havia comprado especialmente para o encontro.

A entrevista durou cerca de uma hora e meia no saguão do Hotel Plaza São Rafael. Zélia Gattai, sua mulher, também escritora, deixou-nos à vontade para a conversa. Naquele tempo, o casal Amado residia uma parte do ano em Paris e outra no Brasil. Jorge gostava de modo especial do outono parisiense. Em Salvador encontrava dificuldade de escrever devido à procura dos leitores, jornalistas e mesmo turistas, que queriam conhecer a casa onde morava o criador de Gabriela, cravo e canela.

Não tenho dúvida de que o que o levou a concordar com a entrevista foi o respeito, a admiração e o carinho que nutria pelo amigo Alvaro (sem acento) Moreyra, cuja casa passou a frequentar desde que chegou ao Rio de Janeiro, ainda muito jovem.

Pedi-lhe que falasse, entre outros assuntos, sobre o que representou a casa de Alvaro e Eugênia Moreyra (primeira repórter brasileira), na rua Xavier da Silveira, 99, em Copacabana, na qual o casal passou a morar a partir de 1918. Assim respondeu (apenas parte do longo depoimento):

"A casa de Eugênia e Alvaro Moreyra, ali em Copacabana, é um dos centros da vida literária e cultural do país. Essa casa, na rua Xavier da Silveira, número 99, era uma espécie de estuário onde desembocavam as inquietações culturais da época, sobretudo na literatura. Ali compareciam os jovens escritores, principalmente aqueles ligados à esquerda, ao Partido Comunista, à juventude comunista (aquilo que depois foi a Aliança Nacional Libertadora). Ali vinha todo mundo. Aquela casa aberta foi minha casa naquele tempo. Para os escritores que, como eu, chegaram ao Rio no início dos anos 30 - eu tinha então dezoito anos - a convivência com Alvaro e Eugênia foi muito importante. Quase todas as noites eu ia lá. Esse convívio foi bastante intenso até por volta de 1935. Depois, com o Estado Novo, as coisas se modificaram. A atmosfera do 99 estava de acordo com a calma e a bondade de Alvaro e com a enorme energia de Eugênia, que ao lado de suas atividades como mãe de família, atriz e militante política da esquerda, encontrava tempo para fazer aqueles panelões de lentilha para alimentar os visitantes. Como Alvaro era um homem de poucos recursos, havia sempre num canto da sala uma espécie de caixa onde cada um colaborava com alguns vinténs para comprar a comida."

A imagem que guardo de Jorge Amado é a de um homem extremamente talentoso e simples, afável no trato, preocupado em preservar a memória cultural e histórica do país, e mais aquela capacidade que ele tinha de ser afetivo mesmo com um desconhecido como eu.

O importante escritor que ele foi, é e sempre será se explica, também, pela sua grande figura humana.

________ 
*Alvaro Moreyra. RBS, Editora Tchê, 1985.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Ditadura de novo não

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

Eu passei a juventude em meio à ditadura militar (1964-1985). Trabalhava duro de dia, estudava à noite. Filho de família pobre, lutei muitos anos para conseguir alguma coisa na vida, como a maior parte das pessoas. O mais difícil, além de viver num país profundamente desigual, foi viver num clima de medo, acuado por um sistema opressivo que não admitia contestação nem protestos.
O tempo e a experiência me ensinaram que não existem ditaduras boas. De direita ou de esquerda, ditaduras são infernais. Nenhum governo ditatorial presta.
Ao impor pensamento único, vedar liberdades democráticas, cercear direitos políticos, suprimir habeas corpus, censurar a imprensa e a arte, as ditaduras remetem a existência geral ao calabouço existencial.
Não tenho nem nunca tive partido político, embora entenda sua importância. Voto em candidatos que têm compromisso com a democracia e a liberdade e que lutam pela distribuição de renda, pelo ensino público, pelo SUS, pela ciência, pela causa antirracista, pelo meio ambiente, contra a fome, a corrupção e o preconceito.
Não me apaixono pelo fanatismo de lado nenhum e estou sempre disposto a rever minhas posições (poucas, aliás) em termos de política. Respeito as ideias políticas dos outros, desde que não tentem me aprisionar em camisa de força ideológica assentada na mentira e na força bruta.
Detestaria viver sob um regime de força novamente. Quero que todos - principalmente os mais jovens - tenham direito a um presente e um futuro sem medo, mordaças, ameaças, violências, mortes.
Os defensores do estado democrático de direito, da democracia plena com eleições livres, Justiça Eleitoral atuante e urnas eletrônicas, eles devem ser ouvidos e acompanhados em sua luta, sem outras armas além da força moral das ideias, das palavras, do direito à vida e à livre expressão do pensamento e do sentimento.