quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O coração todo errado ou a coisa dolorida

Jorge Adelar Finatto


Nas manhãs de sábado, ele costuma ficar sentado perto da janela da sala do apartamento, tomando mate e lendo alguma coisa, como agora. Não olha pra nada em especial lá fora, não há o que ver,  só edifícios com gente sozinha dentro. Peixes vivendo no aquário. Começa a chover. Ele fecha o vidro.
 
Faz dois anos que ela foi embora, numa manhã assim.  Disse que não queria chegar aos 30 ao lado do cara errado. O cara errado. O último café juntos. Não consegue esquecer. Será talvez um número mágico, um prêmio de loteria, a pessoa certa?

Ficou esse frio no coração. A coisa dolorida. Antes de fechar a porta,  ela pediu que  ele cuidasse dos peixes. Havia comprado o aquário antes de se conhecerem. Qualquer dia volto pra buscar, ela falou, tchau. 


Às vezes ele olha os dois peixinhos de perto. Eles mexem a boca como se dessem beijos junto ao vidro. Ele percebe nos seus olhos o mesmo vazio de quando se vê no espelho.

O apartamento ficou grande demais para os três. Se ao menos o telefone tocasse.

O coração todo errado.

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Foto: J. Finatto sobre ilustração de Maria Machiavelli.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A volta do barco de papel

Jorge Adelar Finatto


Saí a navegar no meu barco de papel pra esquecer o mundo.

Eu, quando quero dar férias à realidade, entro no barco colorido e parto em viagem pelo Guaíba.

Dessa vez reforcei a embarcação. Tomei uma folha de papel mais resistente à intempérie, fixei melhor as dobras. Levantei mais a vela. Na parte interna, coloquei utensílios mais leves.

Um forte vento sul, porém, apanhou o barco no meio do rio. Agitou as águas de tal modo que as ondas começaram a jogar o barco pra cima. O pior era a queda livre na volta. O corpo ficou todo dolorido.

Pra piorar a situação, desabou uma tempestade.

Frágil, o barquinho foi se desmanchando. A vela foi a primeira peça a ruir.

Filipo, o papagaio que me acompanha nas navegações, achou que daquela não escaparíamos.

- Vamos morrer, capitán!

- Tenha fé, nobre Filipo -, disse-lhe eu. Não desanimemos numa hora dessas, amigo. As nuvens más haverão de dissipar-se.

O peixinho Moisés, nosso companheiro de aventuras, nadava aflito ao lado do pequeno veleiro.

Quando o barquinho, enfim, se transformou numa pasta branca de papel, eu respirei fundo antes de afundar no Guaíba.

Mas não era dia de morrer.

A ventania, na sua fúria, nos empurrara pra perto da margem.

Ao cair no rio, a água bateu na altura da cintura. Filipo, que estava encolhido e agarrado no meu esquerdo ombro, gritou animado:

- Conseguimos, capitán!

Moisés respirou aliviado, deu um salto de felicidade e voltou para o interior do rio.

A navegação em barco de papel é uma arte.

Como toda arte, tem sua ciência e seus segredos.

O que é preciso pra navegar desse jeito? Bem pouca coisa.

Uma folha branca, lápis de cor, imaginação e um coração quase feliz

 
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Imagem e foto: J. Finatto 
Publicado neste blog em 23/03/10.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Melodia sentimental

Juan Niebla


Sou cego e toco bandoneón na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. Escrevo essas linhas pelas mãos do amigo Nefelindo Acquaviva. Tinha quinze anos, em 1950, quando fui nomeado músico oficial da estação, é um cargo público. Pouco tempo depois de começar o ofício, acabaram com os trens. Jamais deixei de tocar meu instrumento. Um dia pode ser que a ferrovia volte e eu vou estar aqui para receber os passageiros com minha música.  

Esta é uma cidade perdida nos Campos de Cima do Esquecimento. Como os leitores do blog sabem, sequer no mapa do Rio Grande do Sul nós figuramos. Somos um mistério a 1800 metros de altitude. Passamos 300 dias do ano envoltos na neblina, no frio e sob os rigores da chuva. Nos 65 dias restantes, neva.

A música espalhou claridade dentro de mim e ao meu redor. Vivo nas brumas desde os seis anos de idade.  As melodias têm sido a minha salvação. A presença e o afeto dos amigos são meu refúgio. Faço dois concertos por semana na estação, às terças e sextas, no fim da tarde. Acquaviva inaugurou um café na antiga gare, ficou um ambiente muito agradável.

Recebi um inesquecível presente do Cavaleiro da Bandana Escarlate. Trata-se do cd Melodia Sentimental, de Gilson Peranzzetta e Mauro Senise, com participação de Silvia Braga.  Esse disco tem sido meu encanto e meu consolo nesses inícios de primavera, quando os ventos sopram loucamente em todas as direções, deixando os habitantes da cidade um tanto deslembrados e aflitos.

A música de Peranzzetta - piano e arranjos - e Senise - sax alto, soprano e flauta - é inaugural. É como sentar na beira do córrego e ouvir a doce e estranha melodia da fundação do mundo. Como quando fico só na estação vazia, escutando o vento que vem pela grande curva da chegada dos trilhos.

A participação de Silvia Braga com sua harpa é um passeio pelo inefável, herança que algum anjo nos deixou quando passou pela Terra.

Música instrumental de fina origem, esse cd, editado pela Biscoito Fino, nos proporciona encontros sublimes com Villa-Lobos, Gabriel Fauré, Claude Debussy, Bach, Jobim e outros do mesmo nível. Não me canso de ouvir esse belo e emocionante trabalho.

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Foto: Peranzzetta, Silvia Braga e Senise (direita). Por Ana Luísa Marinho, divulgação.

Notícias de Passo dos Ausentes nos posts de 24/9/10, 9/9/10, 25/6/10.

domingo, 17 de outubro de 2010

O Tega

Jorge Adelar Finatto


O arroio Tega
era um som
um toque
um fio ligeiro
de água limpa
escorrendo mundo afora
no fundo das casas
da gente humilde

certo dia
emparedaram
o Tega

um pedaço
da minha vida
afundou junto

agora flui invisível
no subterrâneo

carrega na sombra
as tardes que se foram
perdidos barcos de papel
os sonhos do menino

em rumo cego
segue o velho Tega

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

sábado, 16 de outubro de 2010

Lições do deserto

Jorge Adelar Finatto



O resgate de 33 mineiros do fundo de uma mina, a 700 metros de profundidade, no deserto de Atacama, no Chile, mostrou ao mundo, e a cada um de nós, o que podem a boa vontade, a união e a fé das pessoas. Dos 69 dias que passaram lá embaixo, 17 deles foram incomunicáveis. Na escuridão completa ou  na semiescuridão, durante todo o período, encerrado no último dia 13 de outubro, os mineiros nos deram uma demonstração de solidariedade, de crença em algo melhor, de obstinada determinação em seguir vivendo, contra toda adversidade.

Quantas vezes nos sentimos irremediavelmente solitários, incapazes de mudar qualquer coisa ao nosso redor e em nossas vidas? Pois aqueles 33 homens do povo - não havia nenhum com pós-graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado - nos ensinaram coisas esquecidas em tempos de louco egoísmo, consumo, cinismo e total falta de limites na busca de bens materiais e do prazer a qualquer preço.

Havia vários tipos humanos no interior daquele terrível poço. Líderes com incrível capacidade de lidar com a crise, indivíduos amorosos com a família e com os amigos, alguns religiosos,  outros mais sensíveis, uns mais otimistas e determinados, um ou outro mais triste, quem sabe até algum desesperado. Mas fizeram uma opção inarredável de continuar lado a lado, lutando até o fim, fosse qual fosse o desfecho.  

O ser solidário não significa a eliminação da individualidade. Pelo contrário, é essa rica afirmação de sensibilidades, inteligências e jeitos de ser que nos mantém  vivos sobre o planeta ao longo dos seis milênios em que nele habitamos. Mas não podemos  nunca perder de vista a importância do com-viver, da empatia, da capacidade de se comover com o nosso semelhante. 

A vida só faz sentido na partilha do pão, do sentimento, da esperança. Só assim podemos vencer o medo. 

Do fundo da mina, em pleno deserto, o espírito humano  demonstrou que pode ser mais forte do que a morte, que juntos somos capazes de sobreviver e ir além. 

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Foto: Resgate do último mineiro. Fonte: Ap (copiada do site ultimosegundo.ig.com.br)


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Adelar Finatto




A Ilha de San Michele repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima ínsula.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático, mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as cerca de 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros anos da era cristã.


Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia. Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele. Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.


As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais.

As cores são fortes como a música das igrejas ao entardecer, os concertos na via pública, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

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Fotos: J.Finatto
Publicado neste blog em 27-01-2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

«Sê plural como o universo!» Fernando Pessoa

Inês Pedrosa
  Escritora, Diretora da Casa Fernando Pessoa*


Lançamento do site da biblioteca particular de Fernando Pessoa, dia 21 de outubro próximo, às 18h, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa

A Casa Fernando Pessoa possui um tesouro único no mundo: a biblioteca particular desta figura maior da literatura. É muito raro conseguir-se encontrar a biblioteca inteira de um escritor com a dimensão universal de Pessoa. Os livros tendem a mover-se muito depressa: emprestam-se, perdem-se, vendem-se. Pessoa também vendeu alguns – mas deixou-nos 1140 volumes, de todos os géneros e em vários idiomas, densamente anotados e manuscritos.

Entendemos que uma biblioteca desta importância devia tornar-se património da humanidade – e não apenas dos que podem deslocar-se a esta Casa onde Fernando Pessoa viveu os últimos quinze anos da sua vida.

Graças à dedicação de uma equipa internacional de investigadores coordenada por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari foi possível digitalizar, na íntegra, toda a biblioteca. Graças ao apoio da Fundação Vodafone Portugal foi possível colocar online cada uma das páginas digitalizadas. Deste encontro de entusiasmos generosos resultou a disponibilização gratuita da preciosa biblioteca do autor de Livro do Desassossego, que agora pertence aos leitores em qualquer parte do globo. Procurámos tornar acessível e simples a compreensão da biblioteca no seu todo – que está classificada por categorias temáticas – e a consulta de cada livro. Destacámos as páginas que incluem manuscritos do próprio Pessoa – ensaios e poemas escritos nas páginas de guarda dos livros.

Trata-se de uma biblioteca aberta ao infinito da interpretação – bela, surpreendente e instigante, como tudo o que Fernando Pessoa criou. Usufruam-na.

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*Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

Notícia extraída do site da CFP.
A grafia é a de Portugal.