domingo, 21 de outubro de 2012

Um poema de Manuel António Pina

Jorge Adelar Finatto

O poeta vive nas palavras
 e renasce toda vez que alguém lê o que escreveu. 
A nossa homenagem ao grande escritor Manuel António Pina.


Manuel António Pina (1943 - 2012). Foto: Alfredo Cunha.
Fonte: Jornal de Notícias, Portugal.


As Vozes
                  Manuel António Pina

A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

______________

Poema do livro Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, Manuel António Pina, Editora Assírio & Alvim, Lisboa, setembro, 1999.

sábado, 20 de outubro de 2012

Adeus a Manuel António Pina

Jorge Adelar Finatto

Manuel António Pina. Jornal de Notícias, Portugal.

Fazia mais de um ano que eu lia, diariamente, as crônicas do poeta, jornalista e escritor português Manuel António Pina, publicadas na página da internet do Jornal de Notícias de Portugal. Ao abrir o notebook, geralmente ia para o endereço eletrônico do jornal, guardado entre os favoritos. Para tristeza de seus muitos leitores, ele morreu ontem à tarde, sexta-feira, aos 68 anos, na cidade do Porto, onde vivia, e o corpo será cremado neste domingo.

Essa convivência começou quando ouvi falar dele pela primeira vez, ao receber o Prêmio Camões de Literatura em 2011. Na ocasião me interessei pelo autor, pesquisei a respeito e encomendei um livro seu de Portugal, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança.

Impressionou-me nesse período sua lucidez e sensibilidade ao tratar de assuntos que iam desde os meandros e mistérios da criação literária até os angustiantes temas da atualidade, na Europa e no mundo. A coragem do jornalista convivia nele com o poeta inventivo.

Em entrevista a Sérgio Almeida, do Jornal de Notícias, em 20 de julho de 2010, declarou Pina:

Não escrevo poesia como escrevo crónicas, profissionalmente. No caso da poesia, sou antes amador, isto é, aquele que ama. Só escrevo poesia quando não posso deixar de escrevê-la. Ou, como Borges diz (acho que é Borges), quando uma espécie de incomodidade, ou de remorso, me força a procurar a poesia. O facto de passar às vezes anos sem publicar poesia não significa que tenha deixado de escrever poesia. Tenho há muito um livro praticamente pronto, reunindo poemas dispersamente publicados aqui e ali, em jornais e revistas, e inéditos. Não tenho é tido tempo (nem pachorra) para trabalhar sobre alguns poemas que continuam à procura de si mesmos. Dois ou três deles estão há anos presos por um único verso; tenho, de alguns desses versos, inúmeras versões, ou tentativas, mas não são o que procuro. Embora não saiba o que procuro, sei que, quando o encontrar, o reconhecerei. Resta-me esperar; não tenho pressa.

No final de 2011, durante permanência em Portugal, eu ia todos os dias à banca comprar o JN só para lê-lo.

Desde agosto último procurava e não encontrava suas crônicas no Jornal de Notícias. Pensei que estava em férias prolongadas ou algo assim, escrever para jornal dia após dia é negócio de doido, precisa dar um tempo às vezes. Mas não, a doença o afastava do trabalho.

Ficamos agora, seus inumeráveis leitores, sem a referência diária de seu pensamento, seu espírito e seu talento.

A palavra solidária de Manuel António Pina fará muita falta.

_______________

Manuel António Pina:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/05/manuel-antonio-pina-premio-camoes-de.html

Manifestações dos leitores do JN:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=2838135&page=-1

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Polifonia da primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Vale do Olhar

 
Regressei há pouco da caminhada polifônica que fiz durante os dois últimos dias.
 
Colhi essas e outras imagens com a Coruja durante a andança.
 
O tempo bom de primavera foi ideal para a perambulação, anotações e fotografias nas cercanias do Vale do Olhar. Uma das visões mais bonitas que se tem aqui nas alturas de Passo dos Ausentes.

Me hospedei na Casa de Taipa, lá montei o escritório de campanha, também lugar de repasto e repouso.

photo: j.finatto
 
Nesses Campos de Cima do Esquecimento, habita uma das mais sensíveis e remotas paisagens que conheço, nem em revistas vi alguma vez coisa assim. Lugares povoados ainda com bichos e mata nativa.
 
Um surpresa que tive foi reencontrar o peixe da boca vermelha no Lago da Ausência. Há cerca de três anos tivemos nosso primeiro encontro, quando o descobri - ou ele me descobriu? - e fotografei pela primeira vez. Nunca mais nos encontramos.

photo: j.finatto
 
Como da outra vez ele surgiu do nada, do fundo das águas e veio até perto da margem onde eu estava. Deixou-se fotografar novamente. Conversamos um pouco na língua dos peixes, trocamos notícias e lembranças.
 
Depois encontrei o pássaro amarelo que eu não conhecia. Uma beleza de cor. E ainda por cima canta com uma voz sublime.

photo: j.finatto
  
Muitas outras coisas e seres vi, registrei e oportunamente virão para cá.

Os ventos de outubro sopram viagem em todas as direções.

Um tempo de celebração das seivas.

______________________

O peixe da boca vermelha:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/08/o-peixe-da-boca-vermelha.html
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Por quem choras, Maria Filipa?

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. Amsterdam

 
Choravas à beira do canal na tarde de domingo.

Me olhaste com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco, numa cidade distante e povoada de labirintos, eu nada podia fazer.

Eu estava de passagem entre um cais e outro, um quarto e outro, um deserto e outro.
 
Devia talvez ter me jogado nas águas turvas daquela tarde de domingo em Amsterdam. Nada era mais importante do que ir ao teu encontro.

Devia ter passado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada dizer (palavras só atrapalham).

photo: j.finatto. Amsterdam
 
Quem mastigou teu coração, pisou em cima e depois jogou no fundo das águas?

Por quem choras, Maria Filipa?
 
A cara de anjo, o capuz azul da solidão, os olhos mais tristes acompanhando o barco que passava, me olhavas.

Da minha solidão eu te acenei.
 
Foi tudo que fiz dentro do barco inútil. Mas por um instante tuas lágrimas secaram e teu olhar seguiu a embarcação. Depois tua cabeça caiu sobre o colo outra vez, onde tuas mãos pálidas repousavam.

photo: j.finatto. Amsterdam

O barco sumiu sob as pontes. 
 
Entre dois cais, entre dois nadas.
  

domingo, 14 de outubro de 2012

Julio Cortázar e Porto Alegre

Jorge Adelar Finatto

 
A literatura passa um sentimento de permanência das coisas. Nós passamos, as palavras escritas ficam. A maior parte dos livros dura muito mais tempo do que as pessoas.

Os escritores que escolhemos para nos acompanhar na travessia são fundadores dessa eternidade de papel. Os livros fazem parte do que somos.

A lembrança mais remota que associo ao nome do escritor argentino (que escritor!) Julio Cortázar (1914 - 1984) é dos primeiros tempos de estudante universitário em Porto Alegre. O ano 1976, tinha dezenove anos. Estava lendo Histórias de Cronópios e de Famas e As Armas Secretas.

A fila do restaurante universitário era torturante pra quem tinha que ir pro trabalho cedo da tarde como eu. Estudante pobre, precisava trabalhar pra sobreviver, como muitos. Nas filas do r.u., lia Cortázar. Então, aquele era também um bom momento do meu dia. Depois li outros livros dele.

Agora, lendo Papéis Inesperados (tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), livro de 490 páginas, com textos inéditos do escritor, publicado originalmente em 2009, vinte e cinco anos após sua morte, reencontro Cortázar. No Brasil, o livro foi lançado em 2010 pela Civilização Brasileira.

Os textos - encontrados em uma velha cômoda, na casa onde morou o autor, em Paris, por sua viúva Aurora Bernárdez - são poemas, contos, outras histórias de cronópios e de famas, outros episódios de Um tal Lucas, um capítulo de O Livro de Manuel, discursos, prólogos, artigos de arte e literatura, crônicas de viagens, etc.

A felicidade de encontrar material novo do autor, tantos anos depois, é muito grande.

O dado inusitado e, para nós que amamos a literatura de Julio Cortázar, muito gratificante foi descobrir uma menção a Porto Alegre no texto Never stop the press, onde se lê a frase "uma vista escolhida do Tirol e/ou de Bariloche e/ou de Porto Alegre" (pág. 117).

Sei que Cortázar gostava do Brasil, onde esteve pelo menos em duas ocasiões, e que admirava, por exemplo, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, além de apreciar nossa música, especialmente Caetano Veloso, mas ignoro se alguma vez esteve em nossa cidade.

De qualquer forma, ver Porto Alegre nesse texto de Cortázar, ainda que só de passagem, dá o que imaginar. Pensando bem, acho que ele tinha muito a ver com essa cidade povoada de barcos e crepúsculos, jardins escondidos no fundo de casas desaparecidas, silenciosos gatos caminhando sobre muros cobertos de hera, ruas esquecidas, fantasmas.
_______

Publicado em 11 de agosto, 2010.
Fotos: capa de Papéis Inesperados e Julio Cortázar (
http://www.juliocortazar.com.ar/)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

No café do tempo com Ruy Belo

Jorge Adelar Finatto

 

Ruy Belo
Estou aqui no café, esta velha casa serrana de madeira, com suas mesas cobertas com toalhas coloridas de tecido xadrez. Hoje é quarta-feira, 18h, 10 de outubro de 2012.

O texto vai datado, um tempo de clepsidra, para que os arqueólogos literários, daqui a 50, 100 anos, possam se situar, se por acaso chegarem com seus instrumentos de escavação nesta página carcomida pelo tempo. Peço desculpas, antecipadamente, porque não estarei aqui para recebê-los.

Estou com os sapatos molhados de andar na chuva. Molhados de sonho, de distância. Olho agora através da janela do café, o frio molhado, espelhado, que faz na rua. Um pouco de neblina, vento.
 
Que raio de primavera, diz alguém. Eu não digo nada, só quero curtir o clima, acho isso uma beleza, dia pluvioso, gris. Porque além do frio, as flores dos arbustos fluem em azul e branco, mais o perfume, pena não se possa, ainda, reproduzir aroma na página luminosa.

As primaveras - assim chamam-se esses arbustos - florescem nos pátios, terrenos baldios, calçadas da pequena cidade.
 
O rastro de chuva, gotas prateadas, sobre o capote azul que penduro na cadeira ao lado, não quero arriscar um resfriado, uma gripe. Um espirro sobre o texto seria uma indelicadeza com o raro leitor.

Hoje me sinto trinta anos atrás (a idade, nessa altura, pouco importa, tantas vezes já morri e tantas outras ressuscitei), o que importa é que cheguei até esse dia de chuva luminosa, meio sem eira nem beira, talvez,  mas profundamente agradecido por poder andar na chuva e por estar agora aqui no café, num dia assim de fria, úmida, cálida primavera.

Um dia assim enfaruscado, quando tudo parece perdido para alguns, mas aí acontece de poder sentar nesta mesa, numa velha casa serrana, numa quarta-feira de tarde.
 
Escrevo essas coisas na folha branca do guardanapo, o café fumega na xícara, tem cheiro e um certo gosto de anis-estrelado.
 
No bolso do capote (azul-marinho), encontro um papel dobrado, o que será?

Uma folha de calendário marcando o dia 7 de abril de 2003, uma segunda-feira. Nela está escrito um texto do poeta português Ruy Belo (1933 - 1978), o poema se chama O valor do Vento (do livro Todos os Poemas). Ouçamos o que diz o bardo:
 
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto 
 
É belo o poema, belo o poeta Ruy Belo na sua busca do inefável, da emoção além das palavras. Tão belo como este dia de inverno na primavera. O calendário, lembro, comprei numa livraria em Lisboa, dele tirei esta página e guardei no bolso do capote para que o poema esteja sempre por perto, para que a poesia não me abandone, para que possa conversar com o poeta Belo enquanto caminho por aí em dias de chuva e vento.

Trazer poemas no coração é uma maneira de tentar parar o tempo, ainda que por um ínfimo instante. 
 
Agora escureceu, o tempo escorreu na clepsidra. A garoa miúda escorre no vidro do café. Gotas de luz deslizam nos óculos.
 
____________________
  Foto: Ruy Belo. O crédito da imagem será dado tão logo conhecido. Fonte:  http://norastoderuybelo.blogspot.com.br/

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Encontro macabro

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: j.finatto


Na verdade, eu não devia ter feito a primeira pergunta: "Como vai teu pai?" O amigo de infância, que não via há muitos, muitos anos, respondeu que o pai tinha morrido. Constrangido, perguntei, então, pela mãe, uma senhora querida, que me acolhia com gentileza. "A mãe também morreu, foi logo depois do pai."
 
Desconfortável, resolvi indagar por alguém muito mais jovem, a irmã, que certamente estaria viva e com saúde. "A Fernanda? Morreu no ano passado, uma doença fulminante, deixou marido e dois filhos."

A situação tornou-se insustentável. Notei que ele franzia a testa a cada resposta e me olhava fixamente, como a estudar minha reação diante da hecatombe.
 
Para amenizar, doce ilusão, perguntei se estava casado. "Sim, casei mas me separei. Tivemos um filho. Um menino, que morreu com um aninho."

Devastado, não consegui continuar a conversa. Lamentei sinceramente as perdas, desejei-lhe felicidades, despedi-me, atravessei a praça, fui embora o mais rápido que pude.

Aquele encontro foi um desastre. O curioso é que não senti de parte do infeliz um estado de consternação. Falava como se estivesse conversando a respeito do clima. O tempo todo me olhando como quem examina um ser ao microscópio. Quanto a ele, não sei, mas eu fiquei mal.
 
Depois daquele dia, não faço mais esse tipo de pergunta.