sexta-feira, 14 de maio de 2010

Un certain regard

Jorge Adelar Finatto


Um certo olhar. Tudo se resume ao modo como se olha a vida. E há infinitas maneiras de senti-la. Me perdoem os betas, os alfas, os ipsilones, gamas e zetas. Mas acho que o grande ora-veja da vida são  os filhos. Os filhos com seu afeto, sua doce presença, suas tosses e febres, seus medos do escuro, seus pesadelos, seus passos, alegrias e risadas. Os filhos que nos dão a chance de viver uma outra infância. Eles reinventam o mundo, não o sério, pesado e triste que enfrentamos todos os dias. Mas um outro, onde ainda existe calor humano, esperança, onde as células boas se reproduzem infinitamente, ao contrário das más, que desistem e desaparecem diante da beleza da vida. Se alguém está em dúvida: filhos. Biológicos, adotivos, pouco importa. Todos nascem no mesmo coração.

Em suma: as mulheres são os seres mais bonitos que Deus pôs no universo. Depois dos filhos, claro. O resto são nuvens e literatura.

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Foto: J.Finatto. Passo dos Ausentes. Vale do Olhar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A fala do Arlequim

Jorge Adelar Finatto


Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível. De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado. Os comedimentos.  A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado. As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Nem sabe de mim. Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira. Vivo no austero. Sinto no meu segredo. Amador. Ela não me vê. Eu a vejo. A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor. O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as faluas. Caminho nos meus penhascos.  Ruínas são coisas que habitam o íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias. Sentimento é o ora veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência. O ser sonhado tem certos olhares.  A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei.   A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico. A vida gira nos esconsos. Os trapos coloridos do meu coração dançam no vento. Amador, amador.

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Foto: J.Finatto. Cena veneziana.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

As origens do Nazismo

Jorge Adelar Finatto


O Nazismo foi uma das maiores atrocidades da história humana. Conhecer suas origens e o tipo de comportamento que o gerou é fundamental para reconhecer seus sinais e evitar que a experiência se repita. O filme A Fita Branca (Das Weisse Band), dirigido e concebido por Michael Haneke, reúne numa mesma história os diferentes elementos que podem nos fazer entender um pouco da gênese deste monstruoso episódio.

Premiado com a Palma de Ouro em Cannes em 2009, e recebendo duas indicações ao Oscar em 2010, nas categorias de melhor filme estrangeiro e fotografia, A Fita Branca se passa num lugarejo da Alemanha, às vésperas da eclosão da Primeira Guerra Mundial. A comunidade é formada por camponeses, por um Barão que emprega em suas terras a maioria das pessoas do lugar, e por figuras como uma parteira, um médico, um professor, um líder religioso e jovens adolescentes.

O ambiente se caracteriza por comportamentos extremamente rígidos e pela frieza e indiferença em relação ao outro, e nesse processo personagens como o líder religioso exercem importante papel. Estranhos acontecimentos começam a ocorrer, rompendo a rotina da pacata (na aparência) aldeia, e esses comportamentos começam a ser revelados em diversos níveis.

O filme é inquietante e nos leva a pensar e repensar sobre as diversas formas de violência contra o ser humano. Encontramos a dureza do autoritarismo em suas manifestações na família, nos relacionamentos do dia a dia, na política, na escola, na religião, no trabalho, e nos defrontamos com padrões morais socialmente tolerados, alguns aparentemente inocentes, mas profundamente cruéis. Um ambiente favorável à barbárie.

Trata-se de obra que proporciona várias leituras. O excelente trabalho foi produzido em preto-e-branco, com 144 minutos de duração, que passam rapidamente.

(Assisti no Instituto NT, em Porto Alegre, rua Marquês do Pombal, 1111 (sem estacionamento). É um casarão antigo transformado em centro de cinema e de cultura. O café é um dos pontos altos desse novo espaço, oferecendo uma boa variedade de aromas e composições de sabor.) 

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Foto: Reuters, divulgação do filme.

Inversos, novo livro de Ana Luísa Amaral

Jorge Adelar Finatto



Nessa terça-feira, 11 de maio,  na cidade do Porto, em Portugal, haverá o lançamento de Inversos,  novo livro de poemas de Ana Luísa Amaral. A edição  é da Publicações Dom Quixote. O evento ocorrerá na Biblioteca Almeida Garret, às 18h30min, e  a apresentação da obra será feita por Maria Irene Ramalho. Haverá leitura de textos por Paulo Eduardo Carvalho e pela própria autora. O convite é feito pela Câmara Municipal do Porto e pela editora.
 

Ana Luísa Amaral figura entre os principais nomes da literatura portuguesa da atuallidade, com uma obra reconhecida pelo público e pela crítica. Além de poeta talentosa e premiada, leciona Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Universidade do Porto. Neste blog publicamos uma interessante entrevista com a autora, em 02 de março passado. Nela Ana Luísa nos dá uma bela ideia de literatura e de seu trabalho, e nos alimenta com seu conhecimento e sua inspiração.


Impedido pela neblina de sair de Passo dos Ausentes, não poderei fazer a travessia do Atlântico a fim de estar presente no lançamento. Os que puderem comparecer serão recompensados pelos ensolarados versos do livro, que reúne a obra poética de Ana Luísa.

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Foto: Ana Luísa Amaral.

Entrevista com Ana Luísa Amaral:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/o-tempo-de-construir-palavra.html
 

domingo, 9 de maio de 2010

Poetas e poesia*

José Saramago


Não será com todos nem será sempre, mas às vezes acontece o que estamos vendo nestes dias: que, por ter morrido um poeta, aparecem, em todo o mundo, leitores de poesia que se declaram devotos de Mario Benedetti e que precisam de um poema que expresse o seu desconsolo e talvez também para recordar um passado em que a poesia teve lugar permanente, quando hoje é a economia que nos impede de dormir. Assim, vemos que de repente se estabelece um tráfico de poesia que deve ter deixado perplexos os medidores oficiais, porque de um continente a outro saltam mensagens estranhas, de factura original, linha curtas que parecem dizer mais do que à primeira vista se crê. Os decifradores de códigos não têm mãos a medir, há demasiados enigmas para decifrar, demasiados abraços e demasiada música acompanhando sentimentos que são demasiados: o mundo não poderia suportar muitos dias desta intensidade emocional, mas tão-pouco, sem a poesia que hoje se expressa, seríamos inteiramente humanos. E isto, em poucas linhas, é o que está sucedendo: morreu Mario Benedetti em Montevideo e o planeta tornou-se pequeno para albergar a emoção das pessoas. De súbito os livros abriram-se e começaram a expandir-se em versos, versos de despedida, versos de militância, versos de amor, as constantes da vida de Benedetti, junto à sua pátria, aos seus amigos, ao futebol e alguns boliches de trago largo e noites mais largas ainda.

Morreu Benedetti, esse poeta que soube fazer-nos viver os nossos momentos mais íntimos e as nossas raivas menos ocultas. Se com os seus poemas saímos à rua – lado a lado somos muito mais que dois –, se lendo “Geografias”, por exemplo, aprendemos a amar um país pequeno e um continente grande, agora, segundo as cartas que chegam à Fundação, recuperaram-se momentos de amor que deram sentido a tempos passados, e quem sabe se presentes. Isso também o devemos a Benedetti, ao poeta que ao morrer fez de nós herdeiros da bagagem de uma vida fora do comum.
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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 19/05/2009.
A grafia é a de Portugal.

Imagem: Produzida pela Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, acerca da leitura de poemas de Mario Benedetti, por ocasião do primeiro ano de sua morte.

sábado, 8 de maio de 2010

Canção da bruma

Jorge Adelar Finatto




Senhor
quando chegar
          a minha vez
de cruzar a ponte
deixa eu levar comigo
no alforje de nuvem
          os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
                   nasci

deixa eu levar
o som do riacho

as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa    

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Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998. 
Foto: J. Finatto


sexta-feira, 7 de maio de 2010

O prisioneiro da torre

Jorge Adelar Finatto


O tempo é uma torre da qual somos prisioneiros.

A distração é, talvez, a melhor maneira de aproveitar cada migalha de segundo. Esse estado de alma em que só caminhamos no presente. Sentimos que é bom estar vivo, e vivemos.

Mas como fazer pra viver por inteiro o instante?

A obsessão com a passagem do tempo só gera mais tempo perdido.

A evasão de nós mesmos, um olhar em torno da nossa ilha, um passeio sentimental com o outro, o foco em algo diferente de nós.

A nuvem rosa é um pássaro voando contra o azul.

O relógio de pêndulo sem pêndulo, calado, na parede da torre.

A areia para de escorrer na ampulheta, ou escorre mais lentamente, quando convivemos com os companheiros de travessia.

Estamos a bordo do pequeno planeta azul.

Carregamos no alforje o suprimento das manhãs.

O coração pulsa no tempo.

Estamos vivos.

Assim seja.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Nefelindo e o aeroplano

Jorge Adelar Finatto


Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneom na estação de trem abandonada,  traz dentro de si uma luz que cresce e se projeta nos outros, sempre que coisas nefastas acontecem em Passo dos Ausentes.


O aeroplano está destruído no chão da Praça da Ausência. O pouso forçado aconteceu na tarde de sábado. As pessoas estavam em suas casas, encolhidas em volta do fogão a lenha, quando ouviram o forte barulho.

Nefelindo Acquaviva foi encaminhado ao hospital, onde se recupera do infortúnio. Um milagre, segundo o médico. Foi a oitava queda nos últimos dois anos. Quando o colocaram na cama, depois dos procedimentos de urgência, estava com a cabeça e o tórax enfaixados. Através de gestos demorados, pediu lápis e papel.

"Ninguém alimente ilusões. Eu não vou desistir", escreveu com a letra trêmula.

O pioneiro da aviação de Passo dos Ausentes é obcecado pela ideia de ir até Porto Alegre num aparelho mais pesado que o ar por ele próprio inventado no galpão-oficina do fundo do quintal. A aeronave de Nefelindo é uma espécie de motociclo voador pintado de branco com uma águia negra desenhada nas laterais. O piloto fica dentro de um tipo de casulo. Na parte de trás tem uma chaminé e um pouco mais à frente um par de asas. Ao lado do casulo existe um pequeno bagageiro acoplado.

Como essa coisa voa é um mistério que somente Nefelindo conhece.

Naquela trágica manhã, ele decolou da pista improvisada perto do galpão, alçou voo rasante sobre as cercas, árvores e telhados. Quando contornava a torre da igreja, em direção ao sul, o motor soltou estouros e começou a falhar. O objeto voador identificado como Águia Negra perdeu altura rapidamente. Mergulhou na copa de um velho plátano e, em seguida, veio abaixo. Quem assistiu à queda – houve algumas testemunhas - não entende como Nefelindo sobreviveu. Saiu cambaleando da Águia Negra antes de desabar no chão.

A história é sempre a mesma. Trabalha durante meses na preparação da aeronave. Um belo dia fecha a casa onde vive sozinho, coloca a mala de couro no bagageiro, liga o motor e parte. Poucos minutos depois, cai.

Nefelindo usa o capacete de couro marrom e a manta branca que pertenceram ao avô, piloto na Primeira Guerra Mundial.

- As pessoas não se dão conta do que está acontecendo, costuma dizer. Estamos cada vez mais solitários e perdidos. Não temos sequer estrada em condições de chegar e sair daqui. Nem no mapa do Rio Grande do Sul nós aparecemos. Estamos cercados pela neblina e pelo mato. Ninguém sabe da nossa existência. Somos ruínas vivas.

Na noite que se seguiu ao desastre, Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneom na estação de trem abandonada, foi até o jardim do hospital e executou canções perto da janela do quarto do invencível aviador.

Juan Niebla traz dentro de si uma luz que cresce e se projeta nos outros, sempre que coisas nefastas acontecem em Passo dos Ausentes.

Longe do mundo, caminhamos na névoa. Precisamos do calor uns dos outros. Somos poucos e invisíveis.

Nefelindo tem a nossa têmpera. Luta para atravessar as brumas da solidão. Como todos nessa cidade perdida, carrega a vocação para os altos vôos.

O resto, como diz, são os riscos de estar vivo e sonhar.

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Foto: J. Finatto

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Os desolados

Jorge Adelar Finatto




As manhãs fogem do escuro. A solidão é um negro capuz que se veste nos retirados da dor.

Tive medo de ver os escombros. Os difíceis haveres do abandono. Havia uma mulher chorando. Quem? Não divulguei.

O coração humano gira em tristes remoinhos. O traçado torto da vida. Quem puder se segure, senão cai no perau. Eu, quando escuto gente chorando, sinto breu andando à volta.

Coisas que vi. Meu coração barroco.

Aquele choro me doeu. Mas eu fui. Foi quando meus olhos a divulgaram. A mulher era uma visão sob a pérgula. Eu não sabia o que era beleza até aquele dia. Estava sentada num banco de pedra cercado de camélias vermelhas, ao lado da fonte. Havia uma escada com seis degraus que terminava no ar. Ligava lugar nenhum a parte alguma.

A casa desmoronada no íntimo da pessoa.

A mulher, sua tristeza na alma, aquela ruína. Me aproximei no cuidadoso jeito. Era uma tarde de junho como essa. E fria, fria. A mulher - a visão - fez sinal para eu parar e esperar. O que fiz nos respeitos. Ela se levantou, arrumou o vestido, olhou o céu. Entre as duas mãos largou a face molhada, os cabelos de linho, depois seguiu sozinha. Eu fui ao mundo.

Eu vivia num lugar perdido, arrostando sol e vento, sem eira nem beira. Os loucos dias no sanatório do mundo. Os ermos.

Caminhos que se andam.

Um dia de fina luz de primavera ela apareceu, veio em minha direção, pegou no braço meu esquerdo. Caminhou, caminhamos. Em silêncio. Palavras que se dizem sem falar.

A brilhante estrela caiu no meu caminho.

O punhal que me rasgava por dentro, vermelho, foi saindo, saiu.

Nos acolhemos, reunimos as raras pertenças.

Me tornei sentimento. Sentimentos.
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Foto: J. Finatto. Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

domingo, 2 de maio de 2010

Palavras para uma cidade

José Saramago



Mexendo nuns quantos papéis que já perderam a frescura da novidade, encontrei um artigo sobre Lisboa escrito há uns quantos anos, e, não me envergonho de confessá-lo, emocionei-me. Talvez porque não se trate realmente de um artigo, mas de uma carta de amor, de amor a Lisboa. Decidi então partilhá-la com os meus leitores e amigos tornando-a outra vez pública, agora na página infinita de internet e com ela inaugurar o meu espaço pessoal neste blog.
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Palavras para uma cidade


Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…

Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.

O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.

Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar umas quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.

Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.

Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.


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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago

http://www.josesaramago.org/

Texto extraído do blog O Caderno de Saramago

http://caderno.josesaramago.org/.

Publicado originalmente em 17/09/2008.

A grafia é a de Portugal.

Foto: J. Finatto - Castelo de São Jorge, visto desde o Rossio, Lisboa.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Poética

Jorge Adelar Finatto


Ninguém lê meus poemas
sequer a família
com meus versos se amola

os outros têm afazeres diversos
toda hora

recebo o poema
como um ser
que apareceu
na minha porta
nesse dia

eu escrevo para uma sala vazia

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

Foto: J. Finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Os voláteis de Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto


A invisibilidade não é um dom de quem habita Passo dos Ausentes.

É antes a falta de luz nos olhos de quem não nos vê e não nos sente.

Às vezes venho para o escritório muito cedo, como hoje, antes mesmo de amanhecer. A água esquenta no fogão a lenha. Passo o café e subo. Entre a mesa de trabalho e os livros, fico  isolado do mundo por uma escada de madeira a pique.

Olhar os longes, os campos, as araucárias, é prazer reservado às auroras em que a neblina dá trégua. Os dias de sol amarelo e transparência azul são raros.

Os horizontes são provisórios e despencam sobre rigorosos penhascos.

O telescópio tem pouca serventia nessas alturas do escritório, fica parado num canto, embora as janelas olhem em todas as direções.

O silêncio da manhã é uma sala de concertos vazia. Ouvir os ruídos emergentes da casa na medida em que o dia avança, sons da madeira fabricados pelo movimento dos passos, é ainda habitar a harmonia.

Um dia desses aconteceu de entrar pela janela do escritório, junto com o ar frio do outono, uma nuvem. Era tão branca e densa que desapareci. Não vi mais nada. Esperei duas horas até  se dissipar. Enquanto isso, fiquei sentado no sofá sem enxergar o próprio corpo.

Pensei que tinha chegado a hora das despedidas. Um sofrimento pra quem não fez nada de importante na vida. Mas não. A nuvem foi embora e eu continuo aqui, me equilibrando entre a cruz e a caldeirinha.
 

Pra quem não sabe, Passo dos Ausentes fica a 1.800 metros acima do nível do mar e possui condições meteorológicas muito particulares. Como o Estado não reconhece juridicamente este lugar como cidade, apesar dos nossos inúmeros pedidos nesse sentido, não estamos no mapa do Rio Grande do Sul.

Em suma, não existimos. Somos seres invisíveis. Não somos vistos nem lembrados. As pessoas não sobem até aqui. O trem parou de funcionar no início dos anos cinquenta do século passado. A estrada de chão é insegura, íngreme, contorna a risco os paredões de basalto. Os mais jovens vão embora cedo, tentam a vida noutro lugar.

Somos poucos.

As cidades dos Campos de Cima da Serra ficam, em média, de oitocentos a mil metros abaixo de Passo dos Ausentes.

Quanto a nós, vivemos nos Campos de Cima do Esquecimento.

Fizeram uma brincadeira (só pode ser isso) estranha no início  do Contraforte dos Capuchinhos, que é onde a estrada deriva numa inclinação ascendente de 45º na nossa direção. Puseram no local uma placa, em forma de seta, com a inscrição: Valhacouto de Fantasmas. Não entendemos.

Além de invisíveis, também nos acusam de voláteis.

As nuvens são nossas testemunhas.

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Fotos:  Eduardo Tavares (ete@terra.com.br)
Imagem dos Campos de Cima da Serra, Rio Grande do Sul. O último livro lançado recentemente pelo Eduardo, Pharol de Santa Martha, é imperdível.