segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Melodia sentimental

Juan Niebla


Sou cego e toco bandoneón na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. Escrevo essas linhas pelas mãos do amigo Nefelindo Acquaviva. Tinha quinze anos, em 1950, quando fui nomeado músico oficial da estação, é um cargo público. Pouco tempo depois de começar o ofício, acabaram com os trens. Jamais deixei de tocar meu instrumento. Um dia pode ser que a ferrovia volte e eu vou estar aqui para receber os passageiros com minha música.  

Esta é uma cidade perdida nos Campos de Cima do Esquecimento. Como os leitores do blog sabem, sequer no mapa do Rio Grande do Sul nós figuramos. Somos um mistério a 1800 metros de altitude. Passamos 300 dias do ano envoltos na neblina, no frio e sob os rigores da chuva. Nos 65 dias restantes, neva.

A música espalhou claridade dentro de mim e ao meu redor. Vivo nas brumas desde os seis anos de idade.  As melodias têm sido a minha salvação. A presença e o afeto dos amigos são meu refúgio. Faço dois concertos por semana na estação, às terças e sextas, no fim da tarde. Acquaviva inaugurou um café na antiga gare, ficou um ambiente muito agradável.

Recebi um inesquecível presente do Cavaleiro da Bandana Escarlate. Trata-se do cd Melodia Sentimental, de Gilson Peranzzetta e Mauro Senise, com participação de Silvia Braga.  Esse disco tem sido meu encanto e meu consolo nesses inícios de primavera, quando os ventos sopram loucamente em todas as direções, deixando os habitantes da cidade um tanto deslembrados e aflitos.

A música de Peranzzetta - piano e arranjos - e Senise - sax alto, soprano e flauta - é inaugural. É como sentar na beira do córrego e ouvir a doce e estranha melodia da fundação do mundo. Como quando fico só na estação vazia, escutando o vento que vem pela grande curva da chegada dos trilhos.

A participação de Silvia Braga com sua harpa é um passeio pelo inefável, herança que algum anjo nos deixou quando passou pela Terra.

Música instrumental de fina origem, esse cd, editado pela Biscoito Fino, nos proporciona encontros sublimes com Villa-Lobos, Gabriel Fauré, Claude Debussy, Bach, Jobim e outros do mesmo nível. Não me canso de ouvir esse belo e emocionante trabalho.

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Foto: Peranzzetta, Silvia Braga e Senise (direita). Por Ana Luísa Marinho, divulgação.

Notícias de Passo dos Ausentes nos posts de 24/9/10, 9/9/10, 25/6/10.

domingo, 17 de outubro de 2010

O Tega

Jorge Adelar Finatto


O arroio Tega
era um som
um toque
um fio ligeiro
de água limpa
escorrendo mundo afora
no fundo das casas
da gente humilde

certo dia
emparedaram
o Tega

um pedaço
da minha vida
afundou junto

agora flui invisível
no subterrâneo

carrega na sombra
as tardes que se foram
perdidos barcos de papel
os sonhos do menino

em rumo cego
segue o velho Tega

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

sábado, 16 de outubro de 2010

Lições do deserto

Jorge Adelar Finatto



O resgate de 33 mineiros do fundo de uma mina, a 700 metros de profundidade, no deserto de Atacama, no Chile, mostrou ao mundo, e a cada um de nós, o que podem a boa vontade, a união e a fé das pessoas. Dos 69 dias que passaram lá embaixo, 17 deles foram incomunicáveis. Na escuridão completa ou  na semiescuridão, durante todo o período, encerrado no último dia 13 de outubro, os mineiros nos deram uma demonstração de solidariedade, de crença em algo melhor, de obstinada determinação em seguir vivendo, contra toda adversidade.

Quantas vezes nos sentimos irremediavelmente solitários, incapazes de mudar qualquer coisa ao nosso redor e em nossas vidas? Pois aqueles 33 homens do povo - não havia nenhum com pós-graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado - nos ensinaram coisas esquecidas em tempos de louco egoísmo, consumo, cinismo e total falta de limites na busca de bens materiais e do prazer a qualquer preço.

Havia vários tipos humanos no interior daquele terrível poço. Líderes com incrível capacidade de lidar com a crise, indivíduos amorosos com a família e com os amigos, alguns religiosos,  outros mais sensíveis, uns mais otimistas e determinados, um ou outro mais triste, quem sabe até algum desesperado. Mas fizeram uma opção inarredável de continuar lado a lado, lutando até o fim, fosse qual fosse o desfecho.  

O ser solidário não significa a eliminação da individualidade. Pelo contrário, é essa rica afirmação de sensibilidades, inteligências e jeitos de ser que nos mantém  vivos sobre o planeta ao longo dos seis milênios em que nele habitamos. Mas não podemos  nunca perder de vista a importância do com-viver, da empatia, da capacidade de se comover com o nosso semelhante. 

A vida só faz sentido na partilha do pão, do sentimento, da esperança. Só assim podemos vencer o medo. 

Do fundo da mina, em pleno deserto, o espírito humano  demonstrou que pode ser mais forte do que a morte, que juntos somos capazes de sobreviver e ir além. 

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Foto: Resgate do último mineiro. Fonte: Ap (copiada do site ultimosegundo.ig.com.br)


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Adelar Finatto




A Ilha de San Michele repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima ínsula.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático, mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as cerca de 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros anos da era cristã.


Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia. Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele. Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.


As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais.

As cores são fortes como a música das igrejas ao entardecer, os concertos na via pública, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

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Fotos: J.Finatto
Publicado neste blog em 27-01-2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

«Sê plural como o universo!» Fernando Pessoa

Inês Pedrosa
  Escritora, Diretora da Casa Fernando Pessoa*


Lançamento do site da biblioteca particular de Fernando Pessoa, dia 21 de outubro próximo, às 18h, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa

A Casa Fernando Pessoa possui um tesouro único no mundo: a biblioteca particular desta figura maior da literatura. É muito raro conseguir-se encontrar a biblioteca inteira de um escritor com a dimensão universal de Pessoa. Os livros tendem a mover-se muito depressa: emprestam-se, perdem-se, vendem-se. Pessoa também vendeu alguns – mas deixou-nos 1140 volumes, de todos os géneros e em vários idiomas, densamente anotados e manuscritos.

Entendemos que uma biblioteca desta importância devia tornar-se património da humanidade – e não apenas dos que podem deslocar-se a esta Casa onde Fernando Pessoa viveu os últimos quinze anos da sua vida.

Graças à dedicação de uma equipa internacional de investigadores coordenada por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari foi possível digitalizar, na íntegra, toda a biblioteca. Graças ao apoio da Fundação Vodafone Portugal foi possível colocar online cada uma das páginas digitalizadas. Deste encontro de entusiasmos generosos resultou a disponibilização gratuita da preciosa biblioteca do autor de Livro do Desassossego, que agora pertence aos leitores em qualquer parte do globo. Procurámos tornar acessível e simples a compreensão da biblioteca no seu todo – que está classificada por categorias temáticas – e a consulta de cada livro. Destacámos as páginas que incluem manuscritos do próprio Pessoa – ensaios e poemas escritos nas páginas de guarda dos livros.

Trata-se de uma biblioteca aberta ao infinito da interpretação – bela, surpreendente e instigante, como tudo o que Fernando Pessoa criou. Usufruam-na.

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*Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

Notícia extraída do site da CFP.
A grafia é a de Portugal.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Landgrave

Jorge Adelar Finatto


A fala principial que lhe dirijo, oh, impossível leitor.

Eu, o Landgrave, me curvo diante da vossa alta ausência. Vivo no interior do ermo, habito as águas profundas do meu calepino. No esconso do mundo. Vento de outubro quase me derruba. As fraquezas do corpo. Nunca se sabe o que vem a contrapeito. Travessia a que o fado nos obriga.

O sonho afagado tinha nome: Cléria, Cléria dos meus suspiros e invernos ao relento. A moça de papel e tinta, musa na solidão concebida. Sentimentos que se tecem no abismo das horas. Dores não se evitam.

Os fossos profundos no dentro de cada um.

Os vazios dias, as tardes no penedo. Hoje eu vejo tudo aqui de cima, na mansarda. Recolhido na grossa e comprida manta. O frio glacial dessas alturas sul-americanas ao sul. Esta página escrita na face do vento.

Fugazes as vaidades do mundo são. Mais vale um barco pronto pra partir. Fui resgatado do evento proceloso pela mão de salvadoras prosopopeias. De ponta cabeça no perau. São caminhos que se andam. Depois se aprende, depois se esquece.

O que não se sabe se inventa. O mundo não tem bom coração. O delicado vive por teimoso e obstinado. A humanidade enaltece a ruína e mata o humano. O que fizeram com esse texto as escuridões da vida.

Cléria, sim, Cléria dos meus tormentos. A que não se deixou amar. A desaparecida musa do vestido azul com a fita branca. Entrou e saiu do meu sonho sem saber. Vivia lá no seu castelo, sem dar pela minha existência de bardo de arrabalde.

Eu, o provedor das horas finitas, senhor de nadas, o catador de conchas na praia deserta. Ela se foi pela estrada sem dizer adeus.

Nas minhas lonjuras, ouço  o ranger de velhos barcos no cais.

A sintaxe é território conquistado no coração dos ais. Palavras são sentimentos que criam asas.

Agora sou o navegante. Viajor da aurora. Astrônomo de dicionários. O tal que restou com o barco retorcido nas pedras.  O sobrevivente. Esse quê.

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Foto: J. Finatto

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Gentileza

Jorge Adelar Finatto


A vida é assim. As mãos que plantam nem sempre são as que colhem. O semeador cultiva o alimento e a beleza que muitos vão aproveitar. Quantos se beneficiam do aroma das flores que mãos anônimas semearam na via pública? E quantos matam a fome graças ao trabalho imenso dos que  vão ao campo deitar sementes à terra?

Os anônimos fazem o moinho do mundo girar.

Na minha rua, por exemplo, alguém teve a  grande gentileza de plantar primaveras.  Nesta época, os arbustos cobrem-se de pequenas flores azuis e brancas, exalam o denso perfume que faz a felicidade de quem caminha na calçada.


Na mesma minha rua, existem também palmeiras. E buganvílias, sim, buganvílias.

Agora o vento chega do rio. Traz notícia de barcos e peixes em movimento. Carrega junto a vontade de viajar e esquecer, que às vezes aparece como sol entre nuvens.

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Fotos: J. Finatto

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A feira

José Saramago


Este ano não irei à Feira do Livro de Lisboa. Que não é como a de Frankfurt, ou a de Guadalajara, no México, nem sequer como a de Madrid, mas que é a nossa e está num lugar bonito, onde antes havia uma colina e agora menos, porque a fúria urbanística reduziu encostas, mas ainda assim vê-se o rio ao fundo, e há uma bela imagem da cidade pombalina, a que ia ser moderna e racional e o foi, basta passear por ela para ver que a razão esteve presente quando se desenhou, embora logo tivessem vindo outros que preferiram o obscurantismo às luzes e quase deram cabo dela.

Dizem-me que faz bom tempo e que a Feira este ano está mais animada, como se por esse mundo fora não lavrassem coisas terríveis, crise, pobreza, depressão. Diz-se que em épocas de crise se lê mais, e parece que os contabilistas comprovam esta afirmação. A mim agrada-me pensar que em épocas de crise as pessoas querem saber por que chegámos a isto e acercam-se aos livros como se estes fossem fontes de água fresca e os leitores gente sedenta.

Gosto da Feira do Livro. Gosto de estar horas sentado assinando exemplares de pessoas que chegam com um recado, em geral discreto. Gosto de levantar os olhos e ver as pessoas circulando entre os pavilhões, talvez procurando o ser humano que os livros levam dentro. Gosto do calor da primeira parte da tarde e da frescura que virá depois, sinto que certo lirismo me percorre o corpo, em mim que não sou lírico, mas sentimental. E penso que os livros são bons para a saúde, e também para o espírito, e que nos levam a ser poetas ou a ser cientistas, a entender de estrelas ou encontrá-las no interior da vontade de certas personagens, essas que às vezes, algumas tardes, se escapam das páginas e vão passear entre os humanos, talvez mais humanas elas.

Sinto muito não poder estar este ano em Lisboa, na Feira do Livro.
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Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Postado originalmente em 08 de maio, 2009.
A grafia é a de Portugal.


Foto de José Saramago (1922 - 2010) : Acervo da FJS

domingo, 10 de outubro de 2010

Mônica Salmaso

Jorge Adelar Finatto


Uma voz absolutamente íntima numa modulação  limpa  e sentimental. A cada canção que ouvimos, mais próximos nos sentimos de Mônica Salmaso. De onde vem a suave epifania, esse caminho aberto para o  centro da emoção? Muito ela nos oferece na pura voz consoladora. Muito nos conta da vida e dos  sentimentos. Ouvi com grande prazer seu  cd Noites de gala, samba na rua (2007),  que gravou pela Biscoito Fino. O mínimo que podemos dizer diante de tanta beleza é muito obrigado, Mônica Salmaso, por seu inefável canto. Nunca nos falte.

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Foto: Mônica Salmaso por Dani Gurgel. Fonte: site oficial da cantora: www.monicasalmaso.mus.br

sábado, 9 de outubro de 2010

Menestrel virtual

Jorge Adelar Finatto


O blogueiro é como o menestrel de antigamente. Leva na mão o alaúde. Entrega seu verso e sua prosa a quem quiser, em troca de um pouco de atenção.

Escrever num blogue tem virtudes. A principal delas é, talvez, evitar a derrubada de árvores para publicação de livros. O blogue se constrói no meio imaterial, não agride a natureza. É abstrato como um fantasma.

Ninguém cheira nem toca as páginas do blogue. Nesse sentido (como em muitos outros), o livro é insubstituível. A utilização do ambiente virtual é uma necessidade e uma saída diante da profusão de pessoas que estão escrevendo.

O autor do blogue pode alterar o que escreveu a qualquer tempo, e isto é importante para melhorar a qualidade do texto (principalmente em se tratando de blogue literário). O texto está em permanente construção.

No momento em que se pressiona a tecla "publicar", o conteúdo vai para o espaço infinito e pode ser lido por qualquer habitante deste e de outros planetas.

A solidão compartilhada dá um sentimento de companhia na dura vida da escrita.

Haverá, de fato, leitores interessados no que escrevemos? Ninguém sabe. O que importa é que o recado está na rede. As palavras estão à procura de quem as leia e, quem sabe, também as ame.

O blogueiro, tão parecido com o ancestral troglodita, vive ruminando e anotando na sua caverna virtual, em busca de comunicação.
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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Não me abandones

Jorge Adelar Finatto

a Chet Baker


Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença

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Poema do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 
Foto: J. Finatto
 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Edgar Morin

Jorge Adelar Finatto


Viver, para mim, é também inconcebível, incrível, maravilhoso e horrorizante. A mosca, a borboleta, a viúva- negra, e também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão e nosso espírito; ele está na vida cotidiana. Edgar Morin *

O filósofo francês Edgar Morin, 89 anos,  afirma que não teme que o chamem de traidor. Isto já aconteceu quando defendeu os direitos humanos, em prol da vida com dignidade e liberdade.  Seus acusadores foram injustos, obtusos e sectários.

Em julho do ano passado, ele esteve no Brasil, onde proferiu a palestra Pensar o Sul, no Sesc de São Paulo. Na ocasião, presenciou ao lançamento da página a ele dedicada  na internet pelo Portal SescSP.

Mesmo sendo judeu de origem, Morin, que também é sociólogo, historiador e economista, declara que Israel tem uma postura colonizadora e dominadora. Não se mostra otimista em relação a uma solução para o impasse entre israelenses e palestinos. Manifesta "compaixão pelos palestinos que sofrem as misérias e humilhações de uma ocupação", segundo afirmou em entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho, publicada no caderno Cultura do jornal O Estado de S. Paulo, em 02 de agosto de 2009.

Não existe qualquer traição em denunciar o injusto, como faz Morin. O cerco de Israel aos palestinos é abusivo e violento. O comportamento ético do estado judeu é inaceitável e não aponta qualquer  solução.  Israel pensa em manter a dominação e a humilhação dos palestinos pela violência e isso é tudo.

É preciso ficar claro, também, que muitos judeus, em todo o mundo, são contra a política israelense. Não deixa de ser contraditória a atitude do estado de Israel, considerando a história de perseguições e terríveis violências contra o povo judeu, sendo a mais recente o holocausto promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, com o extermínio de seis milhões de judeus em campos de concentração.

Na França, Morin também foi chamado de traidor por se manifestar contra a guerra da Argélia (1954 - 1962), em que os argelinos lutaram pela independência do país diante da dominação francesa, o que só ocorreu em 1962. Também aqui nenhuma razão assiste a seus detratores, mais uma vez a história lhe deu razão.

Antes ainda, o filósofo foi considerado traidor por alguns socialistas, por resistir à sedução e dominação do regime stalinista, na União Soviética e seus apêndices. A extrema violência da era Stalin, a negação dos direitos humanos, da democracia e da vida dos opositores são fatos conhecidos. Aqui, mais uma vez, prevaleceu a lucidez de Edgar Morin em suas observações.

O pensamento totalitário chama de traidor aquele que enxerga de modo diferente, ao olhar que aponta o erro, a ignorância, o assassinato como meio de luta. Nas vezes em que o acusaram de traição, Edgar Morin opôs-se corajosamente às investidas fascistas e homicidas contra o ser humano.

O pensador francês acredita num futuro humanista para o mundo, baseado numa reforma educacional e moral, em que o fator dominante seja a solidariedade planetária, construída por pessoas de boa vontade decididas a criar uma nova civilização.  Neste processo, acredita, o Brasil poderá ter papel importante e até decisivo, levando em conta sua miscigenação cultural e a biodiversidade da Amazônia. Considera que o Brasil pode ser o país do futuro, desde que enfrente seu maior obstáculo: a corrupção, conforme declarou na brilhante entrevista a Antonio Gonçalves Filho.

Ouçamos Edgar Morin.

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* Excerto do texto de introdução ao site Edgar Morin, criado pelo Sesc de São Paulo.
Vale a pena conferir este excelente trabalho:
http://www.edgarmorin.org.br/
Foto: Edgar Morin, no Rio de Janeiro, por Lila Rodrigues. Fonte: Portal Sesc SP, no site dedicado ao filósofo.