quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Andança

Jorge Adelar Finatto


De tempo em tempo
converso com Deus
na esquina

de tempo em tempo
ardo no frio
da memória

de tempo em tempo
choro como uma estátua
não pode fazer

de tempo em tempo
ressuscito
em teus braços

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Casa de Villa

Jorge Adelar Finatto

A poesia cotidiana e quase imperceptível da vida comum na música de Guinga.
 

O compositor, cantor e poeta Guinga é uma das melhores revelações da música brasileira nos últimos 20 anos. Em meio ao prato feito (e muitas vezes insosso) dos modismos e imposições da indústria do disco, é raro o aparecimento de um artista com o preparo técnico, a inspiração e a intuição deste carioca nascido no subúrbio. Músico compenetrado em seu ofício, com conhecimentos de música erudita e popular, Guinga prepara  e serve requintadas iguarias com seu violão, seus versos e sua voz.

O cd Casa de Villa foi gravado entre novembro e dezembro de 2006, no estúdio da gravadora Biscoito Fino, e lançado em 2007. É um grande prazer ouvir as sonoridades e harmonias criativas e inusitadas, que fogem muito ao fácil posto. O que se espera de um artista é que seja inventivo e nos abra novos portões no casarão da sensibilidade. Pois surpresa é o que nos reserva este disco do senhor Carlos Althier de Souza Lemos Escobar.

De tempo em tempo, ponho-me a escutar essas trilhas de  encantadora luminosidade. São caminhos que nos levam para um Brasil que existe cálido nas casas humildes, sobrados, quintais e ruas dos bairros das nossas cidades. A poesia cotidiana e quase imperceptível da vida comum está viva na obra deste grande músico.

Guinga aparece como compositor em todas as doze faixas, às vezes só, às vezes em boa companhia. A reverência a Villa-Lobos é uma promessa e um compromisso que se confirmam ao longo do disco. O refinado letrista (poeta) revela-se em versos carregados de simbolismo como: o fogo da refinaria é boitatá (Maviosa).

Mar de Maracanã, a primeira música, é a feliz  abertura disso tudo que faz deste trabalho algo original e belo que merece a nossa atenção do início ao fim.

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Foto: 1) Guinga. Autor: Adriano Scognamillo. Fonte: site oficial do artista: www.guinga.com 2) capa do disco.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Pra que servem os poetas?

Jorge Adelar Finatto


Na oficina invisível onde trabalham os poetas, as portas e janelas da percepção estão sempre abertas.  O artesanato é difícil. Encontrar poesia nos seres e nas coisas,  com o imenso cuidado de não diminuí-la, é tarefa que exige sensibilidade, entrega, perseverança, humildade. É ofício de uma vida inteira.

A que serve o poeta? Ele tenta descobrir e revelar a poesia errante. A rara essência que existe além do que os olhos podem ver. Procura o poeta, com desvelo, colher a revelação através da construção do poema. O fracasso acompanha esse esforço, temperado, aqui e ali, por um feliz achado.
 
A arte desse silencioso artesão é trabalho não remunerado, clandestino, à margem da agitação e do tempo. Quando um novo poema acontece, é a própria maravilha que se desvela à mente e ao coração dos homens.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Alguém visitou

Jorge Adelar Finatto


Alguém visitou
minha tristeza
soltou as gaivotas
no azul insular

não quero ser doido
desmemoriado
habitante
do penhasco

embora só
quero estar junto

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J. Finatto

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Caso Cesare Battisti

 Jorge Adelar Finatto


Ainda não consegui entender a decisão do governo brasileiro de negar a extradição de Cesare Battisti para a Itália. Na sexta-feira passada, 31/12/10, no último dia de seu mandato, o Presidente Lula decidiu não extraditar o ex-ativista político italiano, condenado à revelia por quatro homicídios em seu país. A Justiça Italiana aplicou-lhe a pena de prisão perpétua pelos assassinatos ocorridos entre 1977 e 1979, época em que Battisti (que nega as acusações) integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo.

A decisão condenatória foi tomada nas três instâncias da Justiça Italiana. A Corte Europeia de Direitos Humanos, à qual recorreu Battisti, entendeu que no julgamento não houve ofensa ao seu direito de defesa e nem nulidades processuais  por perseguição política (ver, a propósito, comentários no blog do jurista Walter Fanganiello Maierovitch, em 22/02/10 e 03/01/11: maierovitch.blog.terra.com.br).

Não encontro justificativa jurídica ou humanista para a decisão do Presidente Lula, adotada com base em argumentos da Advocacia-Geral da União (AGU), entre eles o do alegado risco para a integridade  da vida de Battisti no caso de ser extraditado.

A Itália é um país democrático, uma das grandes democracias do mundo, e o seu Poder Judiciário é uma instituição respeitada. Não se trata de uma ditadura na qual se restrinjam direitos humanos dos cidadãos. Nem existe notícia de que o Judiciário daquele país aja movido por vingança ou perseguições de qualquer espécie, pelo contrário.

Não cabe ao Brasil, portanto, negar à Itália o direito de executar uma decisão soberana. Como em nosso país não existe a pena de prisão perpétua, a extradição, se concedida, restringiria a sanção a 30 anos de prisão, máximo permitido pela legislação penal brasileira.

As nações democráticas devem-se respeito e colaboração entre si, sob pena de favorecer a impunidade e o avanço do crime organizado, que hoje, como se sabe, opera além fronteiras.

Cesare Battisti encontra-se preso na Penitenciária da Papuda, em Brasília, à espera de uma definição do caso, que agora foi remetido para deliberação ao Supremo Tribunal Federal. As autoridades italianas estão indignadas com a decisão e pretendem dela recorrer junto ao STF e à Corte Internacional de Justiça, com sede em Haia, na Holanda, mesmo que esta não tenha força vinculante.

Hoje é a Itália que exige respeito a uma decisão soberana e democrática. Amanhã poderá ser o Brasil.

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Foto: Cesare Battisti na Penitenciária da Papuda, em Brasília, em 17 de novembro de 2009. Autor: José Cruz, da Agência Brasil. Fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A viagem da umbela

Jorge Adelar Finatto


Agora todos estão dormindo. Escuto o sino que bate na pequena igreja ao longe. Gosto desse som pela música ancestral que ele traz. Estou sentado diante da janela do escritório. Não leio nem escrevo nada. Respiro o ar fresco da noite e é uma ventura esse respirar.

Em certos dias o coração fica seco. Não navego nenhum mar. Nenhum barco me leva. Parado no cais noturno.

Um guarda-chuva passa voando sobre os telhados de Passo dos Ausentes. A mão invisível o carrega pelo ar. De onde veio, pra onde vai? Outras coisas mais pesadas que o vento voam nos Campos de Cima do Esquecimento a essa hora.

Uma aquarela serrana surge em silêncio. Pinceladas de um delicado pintor. A cálida pintura se compõe e se desfaz a cada instante. Nenhum traço jamais se repete. A vida se transforma. A dor acontece e passa.

O guarda-chuva vai perdendo altura e cai no jardim abandonado na neblina. Calado e feliz como um viajante que acabou de chegar. O dia amanhece.
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Foto: J.Finatto

domingo, 2 de janeiro de 2011

Miséria e corrupção

Jorge Adelar Finatto


No discurso de posse, a Presidenta Dilma Rousseff disse, ontem, que seu governo combaterá a corrupção e empenhará todos os esforços pelo fim da miséria em nosso país. Não sei se as alianças políticas feitas para sua eleição permitirão um ataque frontal à corrupção e à má utilização do dinheiro público, que são, de longe, os maiores problemas do estado brasileiro. Partidos políticos retrógrados e conservadores integram a administração que ora se instala. Só o tempo e os atos concretos de gestão dirão a face que terá o governo da sucessora de Lula.

Espero que a primeira Presidenta eleita do Brasil consiga fazer valer o seu projeto e a sua sensibilidade, enfrentando as tristes forças que, insaciáveis comensais da mesa do poder, continuarão a trabalhar pelo atraso e pela injustiça. Não tenhamos dúvida: no momento em que a má aplicação dos  recursos for corrigida e a corrupção for arrostada com seriedade, o Brasil dará um salto, um belo salto pra fora do buraco. Peixe vivo.

Um país tão rico em recursos humanos e naturais não pode prosseguir tão mesquinho com seu povo.

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Foto: Dilma Rousseff. Reuters. Fonte: www.terra.com.br

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Velas e remos

Jorge Adelar Finatto


Tem livro novo na praça. É um livro diferente porque as páginas ainda estão em branco. No lugar do nome do autor, aparece o teu nome. A história está por ser escrita. As imagens, cores, tipo de papel, formato da letra, colofão, são as nossas escolhas que  os definirão.

Com nossas velas e remos (velis et remis), encontraremos o amanhecer.

Espero que os queridos leitores escrevam belas histórias de vida em  2011. Um tempo de luz, bondade e saúde é o que desejo a todos.

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Foto: J. Finatto. Céu de Passo dos Ausentes, dezembro, 2010.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bibliotecas

Jorge Adelar Finatto



Tantos livros me assustam
trago uma ignorância milenar
guardada num lugar claro do meu ser
uma ignorância - ou a sabedoria -
do sol às 7 da manhã

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

Foto: J. Finatto

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A carta

Jorge Adelar Finatto


O carteiro trouxe
muitas notícias
menos aquela
que ia me salvar

esperei dias
                 meses
                           anos
por urgentes palavras
que nunca chegaram
e se viessem
mudariam
a biografia

perdi tempo precioso
aguardando a mensagem
que nunca se confirmou

poucas palavras
dizendo o essencial

a carta que não recebi
extraviou-se no mar
na mão do náufrago
distraído

não cumpriu o destino
de salvar do extermínio
a esperança vazada
em silêncio
a juventude que se perdeu

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Poema do livro O Fazedor de Auroras. Instituto Estadual do Livro, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1990.
Foto: J. Finatto

domingo, 26 de dezembro de 2010

Convivência e livros na parada de ônibus

Jorge Adelar Finatto


O nosso erro é que temos delegado nossa felicidade para os governantes, para o time de futebol, para os espetáculos, para a loteria, para esse outro que fará por nós as indispensáveis e inadiáveis mudanças que precisamos construir.

 A rua é lugar perigoso.

Os espaços públicos, em Porto Alegre como em outras cidades brasileiras, são sinônimo de insegurança, violência, medo.

As pessoas acautelam-se de sair à rua. Esse território que era de todos passou a ser área de livre circulação de gente que comete toda sorte de atos contrários à vida em sociedade.

Ninguém, em sã consciência, sai à rua sem temer por sua segurança e pela segurança das pessoas que ama. Estar fora de casa, longe do abrigo provisório, significa entrar na zona de conflito. Vivemos lutas encarniçadas, no trânsito e na selva do cotidiano, que ferem e ceifam vidas todos os dias.

A nossa alegria de viver se empobreceu, porque não há viver que não seja conviver.

Antigamente, era comum ocupar as calçadas. As pessoas colocavam cadeiras na frente da porta e aproveitavam para conversar, saber do outro, as crianças brincavam, e todos conviviam. Festas juninas e carnaval aconteciam no meio da rua. Essas cenas urbanas desapareceram.

A cidade, porém, possui reservas de vida.

 Surge um oásis simbólico no corpo ferido da cidade.

Instalou-se em Porto Alegre, por esses dias, o projeto Estante Pública em paradas de ônibus. Criação de artistas do grupo Estúdio Nômade, a ideia foi premiada pela Funarte.*

A parada de ônibus - que costuma atrapalhar o bom humor das pessoas, pela espera em situação de desconforto, pelo movimento atordoante da rua, pela falta de educação dos condutores de veículos - ganha vida com a iniciativa.

Um lugar inóspito, sem atrativo, no qual, normalmente, as pessoas não têm face, transforma-se num recanto interessante. Os livros ali estão ao alcance da mão de quem quiser ler. Poemas, crônicas, contos, novelas e outros incorporam-se através de doações espontâneas.

A inusitada visão dos livros provoca emoção. Faz com que, anônimos passageiros em trânsito, nos sintamos melhor, conversemos, quem sabe até troquemos endereços de e-mail.

Muito além de ser uma pequena biblioteca ao ar livre, sem nenhum tipo de vigilância, a estante pública torna a parada de ônibus um lugar de convivência.

A incomunicabilidade do indivíduo abre-se para a possibilidade do encontro.

Surge um oásis simbólico no corpo ferido da cidade. Pura criatividade.

É preciso investir na convivência humana, numa cidade que vai perdendo gravemente a sua alma.

Penso no quanto precisamos voltar a ocupar calçadas, praças, parques, ruas. No quanto precisamos voltar a conviver e conversar, sem ter vergonha pelo fato de necessitarmos companhia, do olhar de quem está próximo, uma palavra, um sorriso talvez.

As pequenas estantes públicas são enormes em significado. Ensaiam um jeito de mudar as coisas e de sair da escuridão.

O nosso erro é que temos delegado nossa felicidade para os governantes, para o time de futebol, para os espetáculos, para a loteria, para esse outro que fará por nós as indispensáveis e inadiáveis mudanças que precisamos construir.

A cidade pode ser mais bela, mais humana. Ler e conviver faz bem ao coração e à mente.

Espero que permaneça e cresça entre nós essa beleza que é encontrar livros, convivência e consciência em meio à solidão instantânea da parada de ônibus.

A rua é lugar perigoso?

A rua é lugar do bem.

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*Estante Pública: http://estantepublica.com.br/site/sobre-o-projeto/

Foto: vista de Porto Alegre a partir do Guaíba. J.Finatto

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A vida é mesmo amanhecer

Jorge Adelar Finatto


A minha porta nunca se fecha para a dúvida. O que parece definitivo é, quase sempre, e apenas, provisório. As certezas do mundo são verdades passageiras. Estar aberto a mudanças, quando isso é o melhor a fazer, reconsiderar diante  de novas evidências, significa andar pra frente.

Não se trata de mudar ao sabor do vento.  Mas de querer  ser melhor. Como é que um ser transitório, de limitada capacidade de compreensão, pode ter a pretensão de achar que tem a verdade absoluta? Temos a verdade, sim, até que outra mais verdadeira se apresente. A rigidez excessiva não é boa conselheira.

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Agora, por ser Natal e véspera de Ano Novo (fim da linha pra 2010), há esse simbolismo de nascimento, luz e renovação.

Os livros do Novo Testamento têm impressionante significado literário e espiritual. Há força ativa naquelas palavras, além do insuperável valor estético que lhes é inerente. Essa força é capaz de gerar vida (transformação) dentro de nós.

Acredito que todas as histórias, todos os livros, nasceram da Bíblia, de algum dos 66 livros que a compõem. Está tudo lá, revolta, beleza, drama, esperança, luta, justiça. Quantos livros terão a sensualidade, a delicadeza e o trato da palavra de O Cântico de Salomão?

Cristo está acima das religiões (organizações humanas e, como tal, cheias de falhas) e não é monopólio de nenhuma delas.

Que cada um aproveite da melhor maneira esse período e que a bondade, a justiça e o perdão sejam mais que simples palavras em nossas vidas.

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Foto: J. Finatto