sexta-feira, 9 de setembro de 2016
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Taça de café, pão com manteiga e cinema
Olho a chuva pela janela do café da praça enquanto bebo a inefável taça de café com leite acompanhada de pão com manteiga. Agora chove grosso aqui em Gramado, abriram-se as torneiras do céu. É setembro e isto é sempre assim, fim de inverno.
Acabou no sábado o Festival de Cinema de Gramado. Tinha me programado para assistir filmes do Uruguai, Argentina, Chile e Cuba. Comprei os ingressos. (A chuva engrossou mais ainda.) Acabei indo ver o cubano Espejuelos Oscuros (óculos escuros, ou, numa outra acepção, armadilha, chamariz, ardil, trampa obscura), um filme muito interessante.
Escrito e dirigido pela jovem diretora Jessica Rodríguez, a história trata de uma mulher cega que mora numa casa isolada nas cercanias de Havana. Sozinha, ela tem apenas a companhia de um gato. Até o dia em que vê a residência invadida por um criminoso fugitivo do presídio. Para defender-se da indesejada visita, ela passa a contar-lhe histórias.
Escrito e dirigido pela jovem diretora Jessica Rodríguez, a história trata de uma mulher cega que mora numa casa isolada nas cercanias de Havana. Sozinha, ela tem apenas a companhia de um gato. Até o dia em que vê a residência invadida por um criminoso fugitivo do presídio. Para defender-se da indesejada visita, ela passa a contar-lhe histórias.
Espécie de Sherazade de As Mil e Uma Noites, distrai seu interlocutor com três casos, três sub-histórias em que os atores são os mesmos da trama principal. O recurso narrativo é bastante criativo, sendo que os três relatos contêm elementos da história cubana contemporânea.
Do território da imaginação ela traz histórias que vão tecer a teia deste inusitado encontro. O desfecho disso tudo é surpreendente. Os atores Laura de la Uz e Luis Alberto García são muito bons.
O filme não ganhou nenhum prêmio no festival, mas tem substância e mérito. A começar por ser um filme cubano que não fica restrito ao elogio da Revolução de 1959, seus personagens e suas conquistas, transformada numa ditadura que já dura (muito dura!) há 57 anos. Pelo contrário, revela até uma certa impaciência e repulsa com bordões revolucionários. Ou estarei vendo coisas?
A película tem mais de uma leitura e pretendo vê-la outra vez quando entrar no circuito das salas de Porto Alegre. Creio que o grande escritor e cinéfilo cubano Guillermo Cabrera Infante (presente no blog) gostaria do filme.
Pois este foi o único longa-metragem que assisti. Tive de viajar logo no segundo dia e não pude acompanhar mais nada. Os outros ingressos ficaram na gaveta, não deu tempo sequer de oferecê-los a alguém.
Escrevo essas linhas na tela do celular, novo brinquedo que me dei. Não utilizei o Word (deverei fazê-lo em breve). Escrevi com a canetinha que vem acoplada no aparelho, servindo a tela do celular como bloco de anotações. Mas não vou aposentar o calepino nem a caneta de tinta. Ainda sou um dinossauro da Era de Gutenberg.
Conversa entre pedras na rua.
- O planeta está lotado?
- Não, existe espaço pra todo mundo. Mas os donos de tudo cobram alugueres cada vez mais impossíveis.
sábado, 3 de setembro de 2016
Ó tu, que vens de longe...
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |
O LADO BOM da vida é que estamos sempre redescobrindo o mundo. Quando o coração desiludido pensa que já viu tudo, nada mais havendo que mereça um olhar, eis que algo ressurge da sombra, e é como a chuva fresca sobre a terra no estio.
Estava garimpando na estante do escritório quando encontrei o volume de poesias completas do jornalista e poeta Alceu Wamosy, que não lia há muitos anos. Peguei-o.
Um dos grandes bardos do Rio Grande do Sul, nascido em Uruguaiana (fronteira com a Argentina) em 14 de fevereiro de 1895, deixou-nos um belo legado literário nos seus escassos 28 anos de vida.
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| photo: Alceu Wamosy |
Um dos grandes bardos do Rio Grande do Sul, nascido em Uruguaiana (fronteira com a Argentina) em 14 de fevereiro de 1895, deixou-nos um belo legado literário nos seus escassos 28 anos de vida.
Morreu em decorrência de um ferimento a bala em 3 de setembro de 1923, na batalha de Poncho verde, em Dom Pedrito, durante a Revolução de 1923. A morte ocorreria poucos dias depois, em Santana do Livramento (fronteira com o Uruguai), em 13 de setembro daquele ano.
Releio agora seus poemas com o mesmo encanto da vez primeira. O Alceu simbolista que colheu, em sua breve e bela obra*, ecos do parnasianismo, construindo poemas de delicada e profunda extração, atento à métrica, ao ritmo, à rima, sem nunca renunciar ao sentimento. Esta disciplina da composição é, como se sabe, muito difícil.
Em Alceu Wamosy, jovem e iluminado vate, a emoção nunca sai ferida no embate com a engenharia do verso. Antes, completam-se. Coisa rara.
A seguir, o soneto Duas Almas, o mais conhecido de sua lavra, porta de entrada para a poesia lírica e universal de Alceu Wamosy. Entre os admiradores do poeta, podemos lembrar o maestro soberano e também poeta (de lindas letras musicais e outros textos) Antonio Carlos Jobim.
Duas Almas
A Coelho da Costa
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...
___________
Poema extraído do livro Alceu Wamosy, Poesia Completa. Edipucrs, Instituto Estadual do Livro, Alves Editores. Coleção Memória, introdução de Cícero Lopes. Porto Alegre, 1994.
*Escreveu três livros: Flâmulas, Na Terra Virgem e Coroa de Sonho.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Setembro em prelúdio
Jorge Finatto
É setembro, raro leitor (se é que você está mesmo aí do outro lado. Os tucanos, a julgar pelas caras e bocas, acham que sim).
É setembro e o jardim começa a florir e a cheirar seus cheiros de primavera. Eu sempre sonhei ter uma casa com um jardim para cultivar e admirar. Sei bem que toda ideia de propriedade, nesta vida, é uma abstração. Ninguém é dono de nada. Só os tolos.
Um dia comprei uma casa. Com grande sacrifício, como acontece com as pessoas que têm a ventura de ter um trabalho e a garantia do salário no fim do mês (uma graça divina, neste tempo em que 12 milhões de brasileiros estão tragicamente desempregados).
A casa tinha um jardim. Um sonho realizado. Os sonhos sempre precisam de outras pessoas que nos ajudam a torná-los realidade.
O mais bonito foi a forma como o casal proprietário do imóvel nos fez a transmissão. Na verdade, mais que a casa, nos entregaram o sentimento que nela viveram ao longo de anos.
O mais bonito foi a forma como o casal proprietário do imóvel nos fez a transmissão. Na verdade, mais que a casa, nos entregaram o sentimento que nela viveram ao longo de anos.
Numa carta dentro da pasta com os documentos, contaram o quanto tinham sido felizes ali. Num anexo, relacionaram todas as plantas e flores que haviam cultivado, com os nomes de cada uma e informações sobre como mantê-las. Disseram esperar, sinceramente, que fôssemos tão felizes quanto eles naquele ambiente.
Não foi uma simples compra e venda. Foi uma relação espiritualizada entre pessoas que sabem que tudo é transitório. Um dia transmitiremos nossos bens a outros, nos desfazendo de tudo.
Sairemos da vida tão nus como quando nela entramos. Despidos de toda matéria e vaidade. Levaremos talvez a recordação de um jardim e de uma casa que, por certo tempo, cultivamos e amamos.
Sairemos da vida tão nus como quando nela entramos. Despidos de toda matéria e vaidade. Levaremos talvez a recordação de um jardim e de uma casa que, por certo tempo, cultivamos e amamos.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Deve ser primavera
Jorge Finatto
| photo: jfinatto, 25.8.2016 |
DEVE SER a chegada da primavera. E com ela os ares de um novo país.
Devem ser os primeiros sinais, quase uma promessa, de um setembro em flor com sua luz à flor da pele e da alma. Renasceremos do fundo das trevas.
Deve ser o avesso do ódio e do sectarismo.
Deve ser o avesso do ódio e do sectarismo.
Deve ser a urgente necessidade de transformação da vida ante o insuportável asco provocado pela podridão dos últimos anos.
Deve ser o cansaço absoluto diante do cinismo e da hipocrisia postos em palanque, todos os palanques, da nação.
Deve ser a réstia de esperança que insiste em brotar no coração. A teimosia do sentimento sobre a indiferença, da sinceridade sobre a mentira, da vida sobre o sofrimento.
Deve ser porque os pássaros voltaram a cantar e a comer bananas na sacada do escritório, entre eles os plumiluminosos tucanos. Regressaram após sentida ausência para reafirmar o milagre da existência.
Devem ser essas passagens secretas que atravessam o invisível para um bosque de silêncio e paz.
Devem ser essas passagens secretas que atravessam o invisível para um bosque de silêncio e paz.
Deve ser essa luz amiga a magoar a escuridão.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Por quem choras, Maria Filipa?
Jorge Finatto
| photo: jfinatto. Amsterdam |
Por quem choras, Maria Filipa?
Quem mastigou teu coração e depois cuspiu no fundo das águas?
Estás sentada ainda à beira do canal, na tarde de outono, em Amsterdam?
Me olhaste com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco casual, numa cidade distante e povoada de ausência, eu nada fiz naquela hora.
Eu estava de passagem entre um cais e outro, um canal e outro, um deserto e outro.
Quem mastigou teu coração e depois cuspiu no fundo das águas?
Estás sentada ainda à beira do canal, na tarde de outono, em Amsterdam?
Me olhaste com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco casual, numa cidade distante e povoada de ausência, eu nada fiz naquela hora.
Eu estava de passagem entre um cais e outro, um canal e outro, um deserto e outro.
Devia ter me jogado nas águas turvas da tarde de domingo. Nada era mais importante do que ir ao teu encontro.
Devia ter ficado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada esperar. Exceto talvez dizer e receber um pouco de consolo.
| photo: j.finatto. |
Devia ter ficado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada esperar. Exceto talvez dizer e receber um pouco de consolo.
A cara de anjo, o capuz azul da solidão, os olhos mais tristes do mundo, me olhaste.
Da minha solidão eu te acenei.
Foi tudo que fiz, um gesto na garoa fina. Por um instante tuas lágrimas diminuíram e pude perceber que teus olhos me seguiram. Depois tua cabeça caiu sobre o colo outra vez, onde as mãos pálidas repousavam.
O barco sumiu sob as pontes atravessadas pelos ventos de novembro. Eu dentro dele.
O barco sumiu sob as pontes atravessadas pelos ventos de novembro. Eu dentro dele.
Entre dois cais, entre dois nadas.
| photo: j.finatto |
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Texto revisto, publicado antes em 16 de outubro, 2012.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
A música espiritual de Myriam Alter
Jorge Finatto
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| Myriam Alter* |
FAZ ALGUNS ANOS encontrei o disco Where is there (2007) da compositora e pianista belga Myriam Alter. Desde então está entre meus álbuns favoritos. Não me canso de ouvir. Parece que as músicas nunca são as mesmas.
Trata-se de artista de talento original e brilhante. Há algo de espiritual e misterioso em sua obra. As melodias dialogam com a interioridade de quem as ouve.
Trata-se de artista de talento original e brilhante. Há algo de espiritual e misterioso em sua obra. As melodias dialogam com a interioridade de quem as ouve.
As músicas de Myriam são refinadas, líricas e sedutoras ao mesmo tempo. Com elas viajamos por desconhecidas esferas e para dentro de nós mesmos. O jazz se faz presente em sua arte, mas existem outras influências.
Há uma aura de estranhamento nessas adoráveis e por vezes hipnóticas composições. Piano, contrabaixo acústico, sax, acordeom, flauta, bateria, entre outros, criam uma infinita dança de notas que se entrelaçam no ar.
Há uma aura de estranhamento nessas adoráveis e por vezes hipnóticas composições. Piano, contrabaixo acústico, sax, acordeom, flauta, bateria, entre outros, criam uma infinita dança de notas que se entrelaçam no ar.
A artista não produz em grande quantidade, no que faz muito bem. Ao contrário, prima pela qualidade. No site oficial encontrei seis discos. No youtube há peças de tirar o fôlego, como as dos discos If (2002) e CrossWays (2015). A inspiração e a construção altamente elaborada andam juntas em seu trabalho.
Não sei onde Myriam Alter vai buscar seus sons de diamantes e galáxias distantes. É um segredo. Mas o que importa é que, no retorno, ela nos entrega o melhor e mais profundo de sua viagem às estrelas e ao fundo do coração.
_________
Myriam Alter, site oficial:
http://www.myriamalter.com/
Myriam Alter, "If":
https://www.youtube.com/watch?v=-s5HNoooXEA
*Myriam Alter: Cross Ways
http://jazzdagama.com/cds/myriam-alter-cross-ways/
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Where is there
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
O calepino de Dante
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto. Venezia |
O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.
O VENTO geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode as placas na rua, portas, janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.
Um lamento emana do interior do sino da igreja da praça.
Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo.
Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.
Lá fora, a chuva molha a solidão da rua. Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.
Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.
Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.
Os poetas sabem do que eu falo, não digo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana condição e não mais do que isso: quireras.
Neste território pequenino existem coisas de espantar.
Um dia, não me lembro quando, andava eu numa fondamenta (caminho que vai à beira de um canal) distante e perdida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, isto é, olhando as coisas de perto por causa da difícil visão (óculos fundo de garrafa).
Naquela cidade tudo é insondável, úmido labirinto, e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.
As janelas das casas daquela fondamenta, onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas estendidas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.
Descobri, então, o vetusto casarão de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e muito pesada, difícil de empurrar.
Sentei numa cadeira de couro marrom diante de uma mesa. Ao lado um pequeno vitral amarelo e azul deixava penetrar um sopro de luz solar. Estantes repletas de livros se projetavam para o interior.
Descobri sobre a mesa um calepino de capa lilás.
Abri o caderno, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.
Só então percebi do que se tratava, o tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.
A música que o vento tocava lá fora, me dei conta quase sem poder acreditar, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.
O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.
Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele insólito evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei esta história.
(Às vezes me pergunto se isso de fato aconteceu ou terá sido um sonho, o espírito aturdido por esses ventos andarilhos de Passo dos Ausentes, nas longas e inóspitas madrugadas.)
O calepino de Dante é o consolo que trago na vida. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha diante da mesa do escritório, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.
Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.
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| photo: jfinatto. Venezia |
Os poetas sabem do que eu falo, não digo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana condição e não mais do que isso: quireras.
Neste território pequenino existem coisas de espantar.
Um dia, não me lembro quando, andava eu numa fondamenta (caminho que vai à beira de um canal) distante e perdida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, isto é, olhando as coisas de perto por causa da difícil visão (óculos fundo de garrafa).
Naquela cidade tudo é insondável, úmido labirinto, e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.
As janelas das casas daquela fondamenta, onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas estendidas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.
Descobri, então, o vetusto casarão de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e muito pesada, difícil de empurrar.
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| Canal veneziano. photo: j.finatto |
Sentei numa cadeira de couro marrom diante de uma mesa. Ao lado um pequeno vitral amarelo e azul deixava penetrar um sopro de luz solar. Estantes repletas de livros se projetavam para o interior.
Descobri sobre a mesa um calepino de capa lilás.
Abri o caderno, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.
Só então percebi do que se tratava, o tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.
A música que o vento tocava lá fora, me dei conta quase sem poder acreditar, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.
O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.
Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele insólito evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei esta história.
(Às vezes me pergunto se isso de fato aconteceu ou terá sido um sonho, o espírito aturdido por esses ventos andarilhos de Passo dos Ausentes, nas longas e inóspitas madrugadas.)
O calepino de Dante é o consolo que trago na vida. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha diante da mesa do escritório, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.
O medo de morrer não encontra asilo nessa hora quase solene.
Nem tudo é solitude nesses caminhos.
Passagens luminosas habitam o breu.
Tem orquídeas e magnólias povoando o jardim lá fora. Ramos novos brotam entre as folhas secas.
Um tempo de busca-vida, este.
Esta página, notícia do invisível.
Passagens luminosas habitam o breu.
Tem orquídeas e magnólias povoando o jardim lá fora. Ramos novos brotam entre as folhas secas.
Um tempo de busca-vida, este.
Esta página, notícia do invisível.
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Texto revisto, publicado anteriormente em 10/12/12.
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domingo, 14 de agosto de 2016
A sombra da esfinge
Jorge Finatto
| photo: jfinatto, 14.8.2016 |
COMO ELE NUNCA teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro, nem ouro, nem diamante, nem qualquer outra, mas um abraço de pai.
Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros de sua idade. Na rua e na escola, as pessoas faziam perguntas, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço, uma perna.
A sombra da esfinge o perseguiu pela vida. No dia dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos seus sonhos e pesadelos.
Um dia descobriu que muitas outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que, na realidade, não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente figura paterna, que mais atrapalha que ajuda.
Um dia descobriu que muitas outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que, na realidade, não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente figura paterna, que mais atrapalha que ajuda.
Os sem pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.
Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o mundo funcionar. São pais e mães de seus filhos.
Na verdade não chegava a ser um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação social. Sim, falta o pai afetivo em grande parte das famílias brasileiras. Às vezes, havendo pai, é como se não existisse, por falta de aptidão para o papel.
Por causa disso, muita gente é seqüelada, inclusive eu - ele pensa enquanto caminha com o filho pela mão, na praça do bairro, na tarde de domingo.
Pra ele, agora, todo dia é dia dos pais.
___________
Texto revisto, publicado em 16 de maio, 2013.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Livro da solidão (parte I)
Jorge Finatto
Solidão não é
uma ilha
solidão
são muitas
ilhas
solidão
amarela
do girassol
solidão
verde
da couve-flor
solidão
indecente
do corpo
solidão
unânime
dos juízes
solidão
na fila
do amor
solidão
na fila
do pão
solidão
na fila
do emprego
solidão
na fila
da justiça
solidão
na fila
da fila
solidão
decomposta
do morto
solidão
batom vermelho
da garota de programa
solidão
manta de lã
na mansarda
solidão
mais real
do presídio
solidão
do radinho
de pilha
solidão
atrás
da porta
solidão
atrás
da janela
solidão
atrás
do óculos
solidão
em ascensão
no elevador
solidão
no fundo
do espelho
solidão
na tarde
de inverno
solidão
de quem ficou
na estação
solidão
do avião
sobre o mar
solidão
todas as cores
do domingo
solidão
do espanto
de existir
solidão
de quem diz
tchau
solidão
de quem ouve
adeus
domingo, 7 de agosto de 2016
A festa e a realidade
A festa de abertura da Olimpíada Rio 2016 encheu os olhos e o coração. Me emocionei várias vezes, como a maioria dos brasileiros. Uma bela síntese do Brasil multirracial e multicultural, criativo, inspirador. O espetáculo mostrou um país rico em sua humanidade, capaz de notáveis realizações.
Ao mesmo tempo, é duro saber que o custo da festa, somado à de encerramento, será de R$ 270 milhões (cerca de 90 milhões de dólares), suportado pelos governos federal e municipal do Rio de Janeiro, conforme divulgado nos órgãos de imprensa.²
A rigor, o Brasil não poderia gastar com a realização dos Jogos Olímpicos neste momento. Poderia, talvez, se não tivesse afundado numa enorme crise provocada por péssima gestão e imensos desvios de dinheiro público com corrupção avassaladora dos últimos anos.
Em nenhuma hipótese, deveria ter assumido dois megaeventos, Copa do Mundo e Olimpíada, em curtíssimo espaço de tempo (2014-2016). Enquanto isso, "faltam recursos" para coisas essenciais. Grande parte dos brasileiros padece sofrimentos intoleráveis.
Em nenhuma hipótese, deveria ter assumido dois megaeventos, Copa do Mundo e Olimpíada, em curtíssimo espaço de tempo (2014-2016). Enquanto isso, "faltam recursos" para coisas essenciais. Grande parte dos brasileiros padece sofrimentos intoleráveis.
As populações do Rio e do Brasil (somos 205 milhões de habitantes) trocariam de bom grado as cores e o brilho dos Jogos Olímpicos por mais saúde, segurança, educação, bem-estar social, emprego, saneamento (a poluição assustadora da Baía de Guanabara é nosso cartão de visitas). A realidade brasileira é desumana.
Evidente que a Olimpíada não é culpada de nada. É apenas um passo errado no momento errado, que encerra um custo altíssimo e espelha uma nação sem rumo.
Evidente que a Olimpíada não é culpada de nada. É apenas um passo errado no momento errado, que encerra um custo altíssimo e espelha uma nação sem rumo.
De modo que, junto com lágrimas de emoção, correm lágrimas de tristeza por constatar, mais uma vez, que, depois da festa, a casa voltará à sombra.
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1. foto: site revista Veja:
http://veja.abril.com.br/mundo/festa-da-abertura-da-rio-2016-empolga-imprensa-internacional/
2. Abertura e encerramento custarão R$ 270 milhões
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2016/08/abertura-e-encerramento-custarao-r-270-milhoes-ao-rio-e-governo-federal.html
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
O palhaço fugiu do circo
O pequeno circo Il sorriso della vita passa por momentos difíceis. Motivo: o palhaço Gilles resolveu abandonar a companhia. 2º Motivo: foi atrás da mulher que o abandonou, a trapezista Lara.
Don Sigofredo de Alcantis noticiou o fato na semana passada, durante reunião da Sociedade Literária, Filosófica, Histórica, Geográfica, Artística, Astronômica, Geológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes. Todos ficaram surpresos e abalados com a notícia. A aldeia não será a mesma sem o circo mambembe de lona vermelha, que se aquerenciou por aqui faz cinco anos. As crianças, os velhos, todo mundo ia lá para ver as momices de Gilles, os saltos e a graça de Lara.
A assembleia deliberou enviar pombos-correio às três cidades mais próximas (São Francisco de Paula, Canela e Gramado), solicitando que procurem o palhaço e a trapezista nas ruas, praças e telhados. Se alguém os encontrar, peça que voltem logo a Passo dos Ausentes.
A estrada de chão que nos liga ao resto do mundo está intransitável depois das últimas chuvas de julho. Ninguém pode descer a serra, serpenteando pelas encostas das montanhas do Contraforte dos Capuchinhos, pena de cair em algum dos inúmeros abismos.
Gilles é um palhaço triste. Levou a tristeza para dentro do casamento, deixou a alegria no picadeiro. Lara é leve como o vento e quer alegria na vida. Quer um homem que saiba rir. Como era Gilles quando o conheceu. A tristeza sem nome que ele trouxe da infância tomou conta de seu coração de menino que não cresceu. Tornou-se calado e distante. Lara quer o Gilles que conheceu outrora de volta. Ele não vem. Ela vai embora. O mundo do palhaço desaba. Ele parte à procura da mulher. O circo desce a lona.
Don Sigofredo de Alcantis noticiou o fato na semana passada, durante reunião da Sociedade Literária, Filosófica, Histórica, Geográfica, Artística, Astronômica, Geológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes. Todos ficaram surpresos e abalados com a notícia. A aldeia não será a mesma sem o circo mambembe de lona vermelha, que se aquerenciou por aqui faz cinco anos. As crianças, os velhos, todo mundo ia lá para ver as momices de Gilles, os saltos e a graça de Lara.
A assembleia deliberou enviar pombos-correio às três cidades mais próximas (São Francisco de Paula, Canela e Gramado), solicitando que procurem o palhaço e a trapezista nas ruas, praças e telhados. Se alguém os encontrar, peça que voltem logo a Passo dos Ausentes.
A estrada de chão que nos liga ao resto do mundo está intransitável depois das últimas chuvas de julho. Ninguém pode descer a serra, serpenteando pelas encostas das montanhas do Contraforte dos Capuchinhos, pena de cair em algum dos inúmeros abismos.
Gilles é um palhaço triste. Levou a tristeza para dentro do casamento, deixou a alegria no picadeiro. Lara é leve como o vento e quer alegria na vida. Quer um homem que saiba rir. Como era Gilles quando o conheceu. A tristeza sem nome que ele trouxe da infância tomou conta de seu coração de menino que não cresceu. Tornou-se calado e distante. Lara quer o Gilles que conheceu outrora de volta. Ele não vem. Ela vai embora. O mundo do palhaço desaba. Ele parte à procura da mulher. O circo desce a lona.
Como um abandono leva a outro, a maior atração cultural da nossa aldeia está à beira de nos abandonar. O que será uma tristeza nesse cenário de frio, neblina e ausência.
Volta, Gilles! Volta, Lara! Tragam outra vez o sorriso da vida para nossas vidas!
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sábado, 30 de julho de 2016
Nara Leão, opinião e arte
Jorge Finatto
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| Nara Leão. fonte: site oficial da artista* |
Há muito tempo quero escrever alguma coisa sobre Nara Leão (1942-1989), a quem acompanho desde sempre ouvindo seus discos. Tenho grande estima pela obra que construiu, pela grande arte que legou ao Brasil e ao mundo.
Por alguma razão que não sei bem, toda vez que ponho um disco de Nara para tocar, vivo um instante de emoção e elevação espiritual. A voz linda e a interpretação personalíssima nos dizem que viver vale a pena, que a existência é muito mais bonita do que isto que se vê nos noticiários todos os dias.
Toda vez que cantou uma canção, Nara Leão criou uma obra de arte. Na sua voz única e delicada, algo sempre nasce, diferente e melhor. Porque ela fazia um trabalho de recriação quando cantava e tocava seu violão. Uma coisa é a música na voz de outros. Outra, diversa e extremamente refinada, é a que ela nos transmite com seu dom, sua alma e seu sentimento.
Da bossa nova ao samba do morro, tudo que cantou foi com absoluta verdade e sensibilidade. Mulher de opinião, corajosa na oposição ao autoritarismo, não deixou de se posicionar contra a ditadura e contra a pequenez das mentes e dos gestos. Talentosa e discreta, avessa a frivolidades, sua presença qualificou e arejou nosso ambiente social e cultural.
Nara Leão faz parte de um Brasil em que a arte, a dignidade e a justiça devem ser partilhadas entre todos. Um país que ainda não existe, por certo, mas com o qual sonhamos e pelo qual lutamos inspirados no seu exemplo.
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*Nara Leão:
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