domingo, 18 de maio de 2014

O cavaleiro invisível

Jorge Adelar Finatto

Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832-1883)

Um homem só, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido do cotidiano.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcinéia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida real é insuficiente. Falta vida à vidinha.

Dom Quixote, por Gustave Doré

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.

Montado no magro Rocinante ele vai ao mundo, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco como o amo, um pouco mais sensato talvez, montado em seu jumento. Lá vão eles pela solidão da estrada.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora do fundo da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre.

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam. O Quixote sonhou e tentou; o seu tentar valeu por tudo.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote. Essa afirmação vale um tratado de filosofia. Vale uma vida.

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¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações: Wikipédia.
Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O dinossauro postal

Jorge Adelar Finatto

 
As cartas são - ou foram - uma bela forma de comunicação entre as pessoas. Havia quase um ritual: pensar, sentir, escrever, pôr no envelope, levar ao correio. E depois a expectativa da resposta.
 
Era um mundo diferente com tempos diferentes. A vida era mais lenta. Com menos pressa, vivia-se a longo prazo. Amanhã todos seriam felizes. As coisas amadureciam, cada uma tinha seu momento.

Agora é só rapidez, angústia. Falta tempo pra viver. E faltam cartas perfumadas!
 
Durante muitos anos mantive uma caixa postal na agência dos correios em Porto Alegre. Era jovem, pobre e mudava de endereço com certa freqüência (mesmo detestando mudanças). Era o modo seguro de não extraviar a correspodência. 

Essa caixa postal foi a sala de uma morada espiritual, solta no espaço, de etérea arquitetura, lírica e afetiva. Uma espécie de caverna entre nuvens onde recebia amigos para conversar, trocar idéias, fazer projetos, compartilhar sonhos, saber da vida, do mundo.

Tudo isso, claro, em textos manuscritos com tinta azul. Vivia na luta do estudo e do trabalho, carregava muitas esperanças. Ia duas ou três vezes por semana no correio abrir a caixa.

Não havia outra maneira de trocar mensagens para a maioria das pessoas, além da carta. O telefone, caro e acessível a poucos, limitava-se a uso eventual e para conversas ligeiras.

Na caixa postal recebi cartas que encheram meu coração. Entre outras, de Carlos Drummond de Andrade, Ênio Silveira, Moacyr Félix, João Antônio, Ferreira Gullar. Mesmo escritores importantes como esses dispunham-se a escrevê-las a seus leitores. Hoje, mesmo com a facilidade do e-mail, essa troca pouco acontece. As distâncias, como as vaidades, aumentaram. Isso não há tecnologia que resolva.

Não vou falar mal do e-mail e de outros recursos eletrônicos. Cada um tem seu valor e ocasião. Vale lembrar que a troca de informações por celular (telemóvel) já salvou vidas em acidentes e tragédias. As novas tecnologias não são inimigas da comunicação postal. Outros fatores colaboram para seu desuso.

A carta demanda um tempo e um estado de espírito que talvez não existam mais.

Salvo se algo diferente acontecer, as cartas estão perto da extinção. Há uma geração inteira que não se utiliza delas. Os meios eletrônicos de comunicação ocuparam seu espaço: mensagens rápidas, curtas, sinais, abreviaturas, quase em código. Poucos, por exemplo, escrevem abraços e beijos: disparam abs. e bjs.

Com o fim das cartas perde-se importante fonte de pesquisa documental. Estudos culturais e literários valiosos foram feitos sobre correspondências de remetentes e destinatários.

As cartas lançam luzes sobre a vida de indivíduos, suas obras, e sobre as sociedades nas quais viveram. Com base em e-mails isso dificilmente será possível.

A correspondência de Van Gogh e seu irmão mais novo Theo (que o sustentou até a morte, sendo responsável, em boa medida, pelo aparecimento da obra do genial pintor holandês) é uma das mais ricas e reveladoras que vieram a lume. Nas cartas, Van Gogh abre sua alma, reflete sobre a existência e a arte com profundidade e sentimento.

Não sei há quanto tempo não escrevo nem recebo uma carta. As últimas foram no século passado. Talvez não volte a escrever nunca mais. Por isso guardo as velhas cartas com cuidado na gaveta. De vez em quando releio alguma e me enterneço. Me sinto testemunha de um tempo extinto. Sou um dinossauro postal.

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Cartas perdidas:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/cartas-perdidas.html
O silêncio de Van Gogh:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/12/o-silencio-de-van-gogh.html
 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O sempre lembrado

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
O sempre lembrado saiu de cena sem dizer nada a ninguém. Não reclamou de dor no peito, falta de ar, não houve queixa de espécie alguma. O coração parou no meio da tarde diante da televisão. Estava com o gato no colo.

A empregada é quem notou o que tinha acontecido quando ouviu o barulho dos óculos pesados caindo no chão. Correu até a casa da cabeleireira, na esquina, para chamar a viúva.

O sempre lembrado partiu dessa para melhor na maior discrição.

Depois que o corpo foi sepultado, os membros da família começaram a procurar vestígios, reminiscências, pequenas memórias que falassem do sempre lembrado. Deram-se conta de que ele era um estranho para eles.

Havia alguns sinais, poucos, de sua presença espalhados pela casa. A cadeira do papai era um deles, na sala onde via televisão quase sempre só. Ele assistia aos jornais e geralmente dormia no meio. A cadeira conserva o formato de sua cabeça.

Um outro sinal era o guarda-chuva preto pendurado no hall, que ele chamava de Rocinante. Nunca ninguém entendeu por que ele gostava tanto de sair a caminhar pelas ruas do bairro nos dias de chuva.

A mulher foi vasculhar nos bolsos do marido. No íntimo, ansiava encontrar uma carta, um bilhete, uma anotação qualquer dirigida a ela. Poucas palavras dizendo o quanto a amava e como sentiria sua falta do outro lado. Quem sabe alguma orientação sobre como dispor dos poucos bens da família.

Nada encontrou além de algumas moedas, tíquetes de estacionamento de shopping e pedágio (era ele quem dirigia o carro para a praia duas vezes ao ano). Examinou também as gavetas, pastas, malas. Nada.

Como podia alguém retirar-se do mundo desse jeito, sem deixar uma despedida, um consolo, depois de quarenta anos vivendo junto na mesma casa?

Se ao menos o sempre lembrado tivesse sido mau. Seria um alívio e todos esqueceriam dele no outro dia, tocariam a vida. Mas era homem bom, atencioso, caseiro, embora de pouco falar.

Os três filhos embrenharam-se entre velhas fotografias para ter o pai de volta. Defrontaram-se com a incômoda realidade: o último retrato que tiraram com ele tinha mais de dez anos.

Nos primeiros dias, não sentiram tanto a ausência. Às vezes parecia que se ouviam seus passos lentos pela casa, comentando alguma coisa sem importância, falando praticamente sozinho.

O pai e marido era eterno até então, sempre por perto, não obstante invisível. Doméstico como o sol da manhã no pátio da casa. Embora ninguém percebesse, estava neste mundo.

O sempre lembrado ausentou-se de repente e só então fez-se perceber. Conseguiu com a morte chamar a atenção sobre sua pessoa, ignorada até ali.

Com o tempo, a família foi tentando assimilar aquele vazio. Havia um buraco no coração de cada um.

Ninguém quis ocupar a poltrona de couro da sala. Continuou a ser território cativo do ausente.

O gato, porém, procedeu como se o morto ainda existisse. De tarde, todos os dias, o bichano pula na poltrona e aninha-se no colo do invisível como se o dono ainda dormisse na frente da televisão.

O gato foi o ser mais próximo do sempre lembrado entre todos da casa. Com ele ficaram as melhores recordações.
 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Leitura no programa Tons & Letras

Jorge Adelar Finatto
 
 
No próximo sábado, 17/5, terei uma participação no programa Tons & Letras da Rádio FM Cultura de Porto Alegre (107.7). O programa começa às 11h e nele lerei o poema Presença, no momento dedicado ao Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.
 
O texto faz parte do meu livro O Fazedor de Auroras que o IEL publicou em 1990. Apresentado pelo jornalista e escritor Luís Dill, Tons & Letras transita entre música e literatura. 
 

Poesia, jazz e aquilo tudo (em Lisboa)


 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A hora do abraço

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
Como a vida é escassa, buscamos na arte a beleza e o sentido de que somos carentes.
 
A arte em geral, a literatura em particular, têm o dom de mostrar a vida em doses concentradas de movimento e emoção.
 
É mais vida o que se procura. Além de sobreviver, a pessoa quer viver. Com um pouco mais de  encanto, um pouco mais de alegria, um tanto menos de sofrimento e desespero.

A maioria das pessoas se ressente da falta de vida verdadeira. Hoje, quando a tecnologia nos remete a possibilidades nunca antes imaginadas de comunicação, existe no ar uma sensação de mal-estar, uma insatisfação com o mundo a nossa volta.

A realidade está de tal modo dolorosa que nem mesmo a obra de arte mais iluminada tem o condão de nos trazer consolo.

O ser humano está valendo muito pouco no mercado. Nenhum computador, nenhuma internet e nenhuma rede social substituem o respeito e a consideração.

Estamos numa espécie de encruzilhada, uma perigosa encruzilhada. Ninguém sabe o que vem por aí. Um vendaval de angústia varre nossos dias.

As palavras perdem oceanos de significado em bocas vazias, os gestos são feitos e calculados no interesse egoísta de um ou de poucos.

Há ansiedade e medo diante das coisas que estão acontecendo. Por exemplo, aqui no Brasil. Assistimos desde linchamentos aterrorizantes e inaceitáveis até aos elevados níveis de corrupção, passando pela insuportável violência de nossas cidades.

Vivemos o esvaziamento do sentimento de justiça. Nada é mais devastador para uma sociedade.

As pessoas que dirigem o país são incapazes de nos transmitir, com atos e exemplos, a esperança de que amanhã será melhor. A ausência de atitudes concretas em direção ao interesse público, visto como regra e não como exceção, semeia a desesperança e o desamparo.

O Brasil está numa encruzilhada, precisa decidir o que quer ser. Cada um de nós precisa fazer mais pelo conjunto da sociedade. Um coisa, porém, parece clara: nenhuma pessoa de bem aceita o labirinto e a escuridão que estão instalados.

A quem interessa tudo isso que estamos vendo? É este o país que queremos para nós e para aqueles que estão vindo? Estou certo que não.
 
Viver honestamente custa uma existência de sacrifícios, mas é a única forma que vale a pena. Nenhum atalho, nenhuma malandragem, nenhum "jeitinho" podem se comparar à consciência limpa, à convicção de estar dando o melhor de si para o bem comum.
 
Se me perguntam que obra de arte considero urgente, essencial e superior neste momento, não tenho dúvida em dizer: o abraço. Respeitar, afagar o nosso próximo.

Nós, que somos o próximo do próximo, temos o poder de, como as estrelas, produzir claridade e calor, expulsando a treva, o frio e o isolamento. É só querer e lutar.
 

sábado, 10 de maio de 2014

Um fantasma quer conversar

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


Olha só pra mim. Quem me dera. Eu vivo no sumiço. Vento de maio me leva por diante.

Alberta de Montecalvino, a dama deste não-lugar, foi quem me deu a idéia de visitar essa efêmera página virtual.

Sou um dos fantasmas de Passo dos Ausentes, a cidade perdida nos Campos de Cima do Esquecimento, na serra do Rio Grande do Sul. Me chamo Heitor dos Crepúsculos.

Escrevo essas linhas sem muita fé de ser lido. Meu amigo Juan Niebla diz que escrever num blog é escrever na água.

Eu não ligo, sou só de passagem, não tem importância, nada tem muita importância. Não tenho idéia de permanência, compreende?
 
- Escreve alguma coisa, Heitorzinho. Te mostra um pouco, meu querido. Entre os mortos-vivos dessa cidade, és um dos mais sentimentais e engraçados - disse Juan, tocador de bandoneón da estação de trem abandonada.

Não pretendo me dar ares de escritor. Sou, talvez, um escrevedor póstumo, alguém que publica suas histórias no vento. Não escrevo, claro, pra publicar em livro.
 
Olha só pra mim. Não tenho mais a literária vaidade.

Passou o tempo e me levou.

Eu era poeta. Sempre vivi dentro do nevoeiro. Conversava, e às vezes me desesperava, com a folha em branco. As danações do criador.

Depois atravessei a ponte, depois vim para o invisível. Saí do mundo aos 27 anos por vontade própria. A vida era insuportável, não via saída, a esperança não entrava na minha alma. Eu poeta trevoso.

Quem me vê, hoje, pode dizer sem engano: ali vai o arrependido.

Apareço e desapareço, tenho as superiores autorizações. Um fantasma é um ser virtual. Ora está, ora não está. Às vezes choro de saudades da vida com a cabeça entre as mãos pelos telhados. O menino que eu era quando saltei!

Não moro no pequeno cemitério, porque nunca encontraram meu corpo. Me joguei do penhasco, no belvederezinho aprazível que tem na descida do Vale do Olhar.

Foi um momento de infinita angústia, nem queira saber. Cansei de ser gente (o menino que eu era!). Os tristes apressamentos. Cada coisa que se faz na vida.

Nunca quis morrer de verdade. Queria um pouco só, pra sentirem pena. Quando vi o que tinha feito, já era tarde. Agora só existo no oblívio.

Aqui em Passo dos Ausentes todos me aceitam do meu jeito neblinoso, não se incomodam com o lusco-fusco que eu sou. O interrompido. O volátil.

Na dimensão esvoaçante e nevoenta, tudo é muito em paz, mas é uma paz cinza e sozinha.

Escrevo esse breve apontamento na mesa perto da janela que dá para o Vale do Olhar, no Café dos Ausentes, na estação de trem abandonada.

Observo o vento nas palmeiras da tarde gelada de maio. Meu amigo Juan Niebla, músico cego, com seu bandoneón na gare vazia e silenciosa, espera um trem de passageiros que não virá. Agora está tocando As Quatro Estações Portenhas, do Astor Piazzolla.

O último trem partiu faz muito tempo. Esqueceram de desligar a esperança no coração do Juan. Feliz dele assim.

Só a música é eterna. O resto é bruma.

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Heitor dos Crepúsculos é fantasma e poeta em Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado antes em 30 de maio, 2011.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A hora do beija-flor

Jorge Adelar Finatto
 
beija-flor com névoa. photo: j.finatto
 
 
Observando com atenção, há um beija-flor na ponta do ramo da magnólia. Ele está pousado no galho pensador, os olhos semicerrados, pensando na sua vidinha. Um momento de pausa no seu dia. Ninguém é de ferro.

Há de ter lá os seus compromissos o beija-flor, uma casa pra voltar, filhos pra criar, contas a pagar, preocupações de quem vive neste mundo difícil.

Mas nesse momento ele precisa ficar sozinho e em silêncio. Precisa disso pra saber quem ele é. Porque, às vezes, na dura faina da sobrevivência, a gente esquece quem é.

A nossa face perde-se na multidão. Um estranho passa a viver através de nós.
 
Na maior parte da vida cumprimos deveres, tarefas, horários, saímos e chegamos apressados, dormimos sonos interrompidos por relógios e pesadelos, sonhamos um sonho alheio, corremos todo o tempo até a exaustão, e agradecemos por não perder o emprego nem levar um tiro.

Austeras solidões nos habitam. Rígidos papéis nos aguardam todos os dias, implacáveis, inadiáveis.

O mundo espera que ponhamos a máscara de granito ao nascer e não a retiremos nunca mais. Haja Deus!
 
No caso do beija-flor, querem que ele seja sempre e eternamente a mesma ave descrita pelos estudiosos nos tratados: apodiforme, penas pequenas, úmero robusto e cúbito curto, que se alimenta do néctar das flores e de insetos minúsculos.

Igual a milhões de outros beija-flores que vivem no planeta, também conhecidos por nomes estranhos como binga, chupa-flor, chupa-mel, cuitelo, guainumbi, pica-flor. E por aí.

O beija-flor personagem deste texto tem vida interior, seus próprios sonhos e pensamentos, não quer ser igual a nenhum outro existente no mundo.

No fundo, é um poeta o nosso beija-flor. Passa o dia procurando quintais, praças e jardins, não só para alimentar-se, mas para fugir dos predadores e da loucura das pessoas, e para ter um momentozinho de contemplação.

Sim, a nossa pequena ave interioriza-se para poder melhor observar a natureza e os seres, senti-los, talvez escrever alguma coisa.
 
Agora, calado e enovelado em si mesmo, no repousante galho da magnólia, o que o beija-flor quer é ficar só, distante, tentando reunir os fragmentos, reconstruir-se com o que sobrou (se é que ainda existem asas e cores suficientes do pássaro que um dia ele foi), longe dos olhares intrujões, das mesquinharias cotidianas e do fotógrafo abelhudo.
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Heráclito e o espelho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/02/heraclito-e-o-espelho.html
Texto revisto, publicado antes em 27 de fevereiro, 2013.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Quem seca um rio?

Jorge Adelar Finatto
jfinatto@terra.com.br 


 
A lágrima escorreu, borrou a paisagem. O tempo das despedidas. Ele tinha seis anos e não estava preparado pra ir embora de Passo dos Ausentes.

A serra é azul e o menino é feliz.

Limpou o vidro da janela com a manga do casaco.

O trem começou a caminhar, lenta, lentamente, sobre os trilhos de prata. A estação ficou pra trás, os plátanos, a torre da igreja, os amigos, a casa, a vidinha.

O avô acenou na gare diante do vagão. Mais triste que a noite sem fim que se aproximava.

O rumor do vento nas folhas do pinheiro não dá pra esquecer.

A cidadezinha desapareceu.

Ele tirou os óculos (já usava as lentes de fundo de garrafa) e secou os olhos. Mas os olhos não secaram. Quem seca um rio?

O sol caía atrás dos flocos rosados de nuvens do outro lado das montanhas. Uma espécie de calabouço sem nenhuma fresta de claridade se inaugurava dentro de seu peito.

O menino desapareceu naquele fim de tarde dentro do trem noturno. Os olhos não secaram. Quem seca um rio? Chorou em silêncio até adormecer. Sumiu na paisagem rumo ao profundo, frio e traiçoeiro caleidoscópio da cidade grande.

A vida nunca mais seria a mesma.

No entanto, a vida estava apenas começando. Cinqüenta anos depois, ele recorda aquela tarde-noite irreparável nos Campos de Cima do Esquecimento. Mas nesse momento está a salvo ao lado dos amigos, no Café dos Ausentes, na estação de trem abandonada.

Estão todos ouvindo o bandoneón de Juan Niebla na tarde de outono com suas inumeráveis cores.

A velha casa de madeira está outra vez habitada por ele, suas recordações e a família que construiu. Os fantasmas conversam, jogam xadrez e bebem café preto sem açúcar no sótão.

Ali na vetusta estação de trem, com os amigos no café, ele descobre que a memória é sua Arca de Noé. Nela o mundo do menino está a salvo do desaparecimento.

As lentes de fundo de garrafa só têm olhos para a Estação Esperança, na transparência da tarde de outono.
 

domingo, 4 de maio de 2014

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Isola de San Michele ao fundo. j.finatto

 
A Ilha de San Michele repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima ínsula.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático, mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

photo: canal. j.finatto
 
Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as cerca de 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros anos da era cristã.

Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia.

Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

photo: gôndolas. j.finatto


Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele.

Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Um dos últimos estrangeiros ilustres a conseguir sepultamento na ilha foi o poeta russo, depois cidadão americano, Joseph Brodsky (Nobel de Literatura em 1987), que por mais de vinte anos se hospedou em pequenos hotéis da cidade, quase sempre em janeiro, e que como poucos amou e soube falar de Veneza.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.

As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais. 
 
photo: esquina veneziana. j.finatto
 
As cores são fortes e belas como a música das igrejas ao entardecer, os concertos na via pública, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela procura de beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

photo: Grande Canal. Ponte de Rialto. j.finatto

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Texto publicado  em 27 de janeiro, 2010.
 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

As breves eternidades do senhor Lobo Antunes

Jorge Adelar Finatto
 
photo: António Lobo Antunes*
 
Não sou especialmente simpático também, falo pouco, custa-me exprimir o amor que sinto, envergonho-me de, em certas alturas, me apetecer chorar. Claro que não choro: fico bravio, brusco, irónico, a liquefazer-me de afecto por dentro.*
                                                                     António Lobo Antunes

Às três horas dessa madrugada ventou forte. Tremeram as folhas dos plátanos e pinheiros em volta da casa. Eu estava recostado na poltrona do escritório, naquele instante de neblina entre o sono e a vigília.

Começaram uns trovões pros lados do Contraforte dos Capuchinhos. O som vinha de longe. Relâmpagos riscavam o ar sobre as montanhas. Agora chovia.
 
Na mesa estão os livros que leio nessas horas perdidas que me custam o peso de diamantes. As horas de lume intenso. As imperdíveis. Nos volumes está a vida inventada, concentrada, sem desperdícios, sem cinzas.
 
Entre o raio e o trovão, peguei o António Lobo Antunes pra ler. Nos últimos dias tenho lido crônicas, dando um tempo aos textos maçudos. Aproveitei a passagem por Lisboa, antes de voltar ao Brasil, em fevereiro, pra comprar livros de autores portugueses. Nessa leva vieram os volumes quatro e cinco das crônicas do romancista Lobo Antunes (escritor e psiquiatra, nascido em Lisboa em 1942), reconhecido em Portugal e no estrangeiro, lembrado para o Nobel.
 
Os textos curtos têm de ter a essência do relâmpago. Devem iluminar de súbito a escuridão, sem demora, afastando-se dos truques dos ilusionistas, porque o tempo urge, o do raro leitor em especial.

(Não sou nem tenho pretensão a ser crítico literário, Deus me livre. Mas também não sou um leitor vadio. Arrisco uns bacorejos de vez em quando.)
 
Os pequenos textos precisam pegar o coração do leitor de forma ágil e inesperada, com simplicidade e energia.
 
O senhor António é um lobo solitário na sua arte. Não existem muitos de sua espécie na natureza.

Pelo jeito que escreve, é um sujeito recolhido, de pouca fala, algo nele permanece ausente de si e dos outros. Está sempre noutro lugar. A sua medida no mundo é a escrita, esta é sua aldeia, ali estão tudo e todos.

O tempo do escritor se desdobra em muitos tempos, em vidas inumeráveis.

O senhor Antunes tem urgência de escrever, aflige-se no intervalo entre um romance e outro. Tamanho desconforto semelha-se a uma combustão espiritual na ausência da palavra criadora. Talvez nesse interstício habite o cronista. 
 
O senhor Lobo é um animal ferido, sofrido, esquivo, como o são de resto os de sua estirpe, escritores que trabalham enfurnados no sofrimento feliz que é escrever, e daí afloram diamantes. Esses que, uma vez descobertos, não paramos mais de olhar. Não há embromações na sua prosa nem maneirismos de estilo.

Diz direto e concreto, mas sem perder a poesia. Coisa difícil. As possíveis levezas estão envoltas na bruma da condição humana, na cerração da circunstância que recorta o indivíduo, todo indivíduo, no tecido da realidade.
 
Enquanto escreve, o senhor António vai matando a sua e a nossa morte, criando territórios de eternidade, efêmeros embora, para suportar o deserto, desde que fomos expulsos do Paraíso.
 
Falei aqui, mais de uma vez, da mala de livros que trouxe, do peso e da trabalheira de andar com ela em trens, táxis, hotéis e aeroportos. Mas eu afinal estava certo ao sofrer assim. No frio dos quartos de hotel, antecipava já a espécie particular de felicidade que é ler o Lobo.
 
António Lobo Antunes é dessa família de escritores que nos fazem varar madrugadas de chuva e relâmpago em busca de suas pegadas na areia da praia ventosa. Ele nos deixa a sensação de que podemos ser e sentir sempre mais. A seu lado, vivemos um tempo que não nos destrói.
 
A breve eternidade das palavras.

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*photo reproduzida do site do jornal rascunho, em matéria sobre o autor:
http://rascunho.gazetadopovo.com.br/vozes-da-rua/#exlibris

Quarto livro de crônicas. Editora Dom Quixote, Portugal, 22ª edição. Trecho da crônica O António a dar corda à esperança, p. 286, grafia portuguesa.
 

terça-feira, 29 de abril de 2014

A invasão dos balões misteriosos

Jorge Adelar Finatto

photo de balão*


Um estranho balão singrou os ares e montanhas de Passo dos Ausentes em junho de 2010. O fato provocou um grande alvoroço na pequena cidade. Não estamos acostumados com coisas voando por cima das nossas cabeças.

Porém, o que no início foi motivo de admiração e espanto, depois tornou-se razão de preocupação.

Outros balões e dirigíveis, de cores e formas variadas, passaram a cruzar, nos últimos tempos, nosso espaço aéreo, vindos sabe Deus de onde. Demoram-se em voos lentos e circulares, a observar-nos sem a menor cerimônia, e depois desaparecem pelos lados do Contraforte dos Capuchinhos.
 
As aparições misteriosas dos aerostatos começam a causar apreensão, principalmente entre os fantasmas, que transitam livremente pelas nossas ruas, habitam os sótãos, telhados e as copas de árvores. Eles vivem por aqui desde tempos imemoriais sem ser incomodados. Sempre conviveram bem com os vivos. Se forem descobertos por olhos indiscretos, seus dias entre nós estarão contados.

Palomar Boavista, astrônomo-mor, e Claudionor, o Anacoreta, foram convocados para explicar as possíveis razões das incômodas e coloridas visitas, em reunião extraordinária da Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Geológica, Astronômica, Teatral e Antropofágica de Passo dos Ausentes, que tem na presidência Don Sigofredo de Alcantis, o velho filósofo guardião da nossa memória.

Somos uma cidade invisível a 1800 metros de altitude na região serrana a nordeste do Rio Grande do Sul. Condições atmosféricas intratáveis nos isolam do resto do mundo, desde que por aqui chegaram nossos antepassados, um grupo de índios guaranis e padres jesuítas que conseguiram fugir e sobreviver à destruição dos Sete Povos das Missões, levada a cabo por exércitos espanhóis e portugueses no século XVIII. Os sobreviventes fundaram Passo dos Ausentes em 1759.

Lugar íngreme, difícil de sair e mais ainda de chegar, está situado no topo de antiquíssimo maciço de montanhas de rude basalto na Serra da Ausência.

O açoite implacável dos ventos nos fustiga o ano inteiro.

Vivemos na região conhecida pelo nome de Campos de Cima do Esquecimento. Não estamos no mapa do Rio Grande do Sul (nem ao menos um pontinho).

Não existimos oficialmente. Tramita um processo junto aos órgãos da administração do Estado, desde o ano de 1805, no qual pedimos o reconhecimento da nossa comunidade, com sua história e cultura, e a inclusão nos mapas.

As respostas sempre foram negativas. Dizem que não há provas concretas da existência desse lugar e menos ainda de que aqui vivem pessoas. Não fosse patético, seria cômico. 

photo de balões e dirigíveis. autor: Jean-Pierre Clatot (AFP)

Nos tomam por seres imaginários, de tinta e papel. O governo mandou, no passado, duas expedições para nos localizar, uma em 1936 e outra em1989, isso depois de muita insistência de nossa parte.

Ao comando de geógrafos e historiadores de gabinete e muy pouco engenho, as tais expedições perderam-se no caminho, desistiram e foram embora.

O lugar é quase inacessível devido à acidentada topografia que envolve os imensos paredões de basalto, cobertos de verde mata, córregos e pinheirais. Além das névoas eternas, as chuvas recorrentes e o frio intenso nos separam do mundo dos vivos lá embaixo.

Claudionor e Palomar, após alguns dias de estudos e observações, expuseram à ansiosa assistência as duas prováveis explicações para os balões e dirigíveis.

Com voz grave e pausada, Palomar disse que a primeira hipótese é a de que estamos sendo visitados por seres de outro planeta, que consideram Passo dos Ausentes a melhor porta de entrada na Terra, um lugar invisível que não chama de ninguém a atenção.

- A segunda, menos plausível - acrescentou Palomar, figura magra, alta e de farta barba branca -, é que se trata de observadores aéreos do governo para nos localizar. Diante do fracasso das expedições terrestres do século passado, estariam enviando novas equipes para investigar. Essa hipótese beira a quimera, diante da incompetência e desinteresse dos homens que dirigem o Estado, ontem como hoje.
Don Sigofredo de Alcantis após tomou a palavra. Para ele, a primeira explicação seria a menos perigosa.

- Se forem seres de outra esfera cósmica, não haverá qualquer problema ou dificuldade, porque alguns esquisitos a mais por aqui não vão fazer a menor diferença. Estamos habituados a toda sorte de estranhamento. Mas se for gente do governo querendo nos espionar, aí tudo de ruim pode acontecer. No dia em que o asfalto e a política chegarem a Passo dos Ausentes, será o nosso fim. A invisibilidade ainda é a nossa melhor arma contra o desaparecimento.

O silêncio que se seguiu fez com que se ouvisse o espesso rumor do vento nas folhas das altas palmeiras da Praça da Ausência.

Para espantar o frio e os arrepios interiores, Mocita de La Vega, secretária-geral e musa amantíssima dos bardos presentes, serviu-nos seu licor de leite com noz-moscada.

Somos poucos. Somos invisíveis. Não nos vêem e não nos sentem. Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento.

Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada da cidade, executou Adios Nonino, de Astor Piazzolla, ao final da sessão. Com tanto sentimento que até mesmo Claudionor, o Anacoreta, não pôde evitar o brilho de uma lágrima.

photo: j.finatto
 
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Outras referências de Passo dos Ausentes:
Alberta de Montecalvino:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/07/alberta-de-montecalvino.html
A cidade perdida: as origens
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/09/cidade-perdida-as-origens.html
A misteriosa expedição da Nasa a Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/08/misteriosa-expedicao-da-nasa-passo-dos.html
A viagem do balão vermelho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/06/viagem-do-balao-vermelho.html
*O crédito da photo do balão será dado quando conhecida a autoria
Texto revisto, publicado originalmente em 9 de julho, 2010.
 

domingo, 27 de abril de 2014

Arroz doce

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 
O mundo já foi um lugar mais doce de se viver. Havia mais brandura nos corações, nos gestos. A realidade não era esse poço de incertezas e angústias.

Caminhar pelas ruas de Porto Alegre, de madrugada, não era um ato de loucura como hoje. É só um exemplo entre tantos. 
 
Mas a questão é que ninguém pode viver no passado (aliás, se examinar bem, nunca foi essa maravilha). Digamos que há coisas boas que deixam saudade. Como o arroz doce.

Quando a avó morreu, há séculos, levou para o céu a receita de arroz doce que só ela sabia fazer no fogão a lenha.
 
A ausência da dona Maria faz-se sentir de muitas maneiras ao neto. Seus bonecos de pano, suas histórias, a casa impregnada com o cheiro claro das roupas lavadas e secas ao sol. Os passeios pela rua central da cidadezinha (nem um ponto no mapa).
 
Havia muitos doces na indústria caseira da avó. O meu eleito sempre foi o arroz doce. Com aquelas mínimas raspas de casca de laranja e a porção de canela na dose exata. O prato de arroz doce era uma das portas de entrada no paraíso.

Sim, ainda existia o paraíso.
 
Num dia muito distante, resolvi estudar engenharia química. No fundo, talvez eu procurasse, de forma inconsciente, a fórmula mágica do arroz doce da avó. Era mais importante que a pedra filosofal para os alquimistas. Contudo, nunca  a descobri. Abandonei o curso.
 
Encontrei sabores que lembram vagamente o arroz doce da infância. No início deste ano, comi algo um pouco parecido (não mais do que parecido) num restaurante em Lisboa, o Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, diante do Tejo.

(No Martinho da Arcada, Fernando Pessoa jantava todas as noites, entre 1920 e 1935. Sabendo da difícil situação financeira do poeta, o proprietário, que também era seu admirador, nada lhe cobrava. A mesa que ele ocupava, e onde recebia amigos, está lá no mesmo lugar, sempre com uma flor recém colhida no vaso). 
 
Costumo pedir arroz doce quando vou a restaurantes (hábito, aliás, cada vez mais raro diante da inflação que nos maltrata). A maioria dos garçons sequer ouviu falar, como se se tratasse de uma iguaria extinta da Idade Média.
 
A dura verdade é que não existe mais o arroz mais doce deste mundo. Pelo menos pra mim. A receita deve estar escondida em algum livro numa biblioteca entre as nuvens.

Eu levo a vida em busca do arroz doce perdido...
 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Apontamentos sobre direitos das vítimas no Brasil

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
A vítima, no Brasil, é aquela pessoa a quem coisas ruins acontecem por culpa dela ou por força do destino, ao contrário dos que ainda não caíram, e que se julgam protegidos no interior de uma cápsula indevassável.

A vítima tem direito de saber que dificilmente será tratada como merece pelo Estado e pela sociedade, porque há poucos recursos disponíveis para dar-lhe a necessária e urgente atenção. Ela deve entender que o tempo é curto e a vida continua. No caso, a vida dos outros.

A vítima tem direito de ficar só com seu sofrimento.
 
A vítima tem o inalienável direito de respeitar, até o fim de seus dias, os direitos humanos de seu carrasco.

A vítima tem direito de ser informada que os presídios estão superlotados, não há mais vagas para quem comete crimes.

A vítima, real ou potencial, tem direito de viver aprisionada dentro de si e de sua casa, enquanto os criminosos andam soltos, sabendo que, agora ou num futuro próximo, farão outras vítimas.

A vítima tem direito de entender que aquilo que levou uma vida inteira para construir pode ser destruído em poucos segundos por alguém que não está nem aí para ela e sua família.

A vítima tem todo o direito de fazer um resumo do que lhe aconteceu, desde que evite detalhes desagradáveis  e, principalmente, controle sua emoção, porque as pessoas em geral, e algumas autoridades em particular, têm um milhão de coisas para fazer e se chateiam com relatos emocionais. Às vezes, prefere-se acreditar que os fatos não aconteceram bem assim, ou são peças de ficção.

A vítima tem o irrecusável direito de carregar na alma o insuportável sentimento de invasão, impotência, fragilidade e tristeza pelo que passou.

A vítima tem direito de levar sozinha seu trauma pelo resto da vida, com poucos, raros seres humanos para dividir a angústia da violação sofrida.

A vítima tem o direito de permanecer em silêncio para não importunar a indiferença dos outros.
 
A vítima tem direito de ouvir que seu caso não é o único e que, por isso, deve ter paciência. Dramas como o seu acontecem todos os dias. Seria até melhor poupar-se de falar contra a ineficiência dos públicos poderes.
 
A vítima tem todo o direito de saber que o principal direito humano que lhe assiste é o recato na dor.
 
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Texto publicado em 22 de março, 2010.