terça-feira, 14 de abril de 2015

O Landgrave

Jorge Adelar Finatto

designer: Deus. photo: jfinatto


A fala principial que lhe dirijo, ó, impossível leitor.

Eu, o Landgrave, me curvo diante da vossa alta ausência. Vivo no interior do ermo, habito as brumas dos Campos de Cima do Esquecimento.

Me esqueço no esconso do mundo. Meu revólver é o calepino.

Vento de julho quase me derruba.

As fraquezas do corpo. Nunca se sabe o que vem a contrapeito. Travessias a que os fados nos obrigam.

O sonho muito sonhado tinha nome: Cléria, Cléria dos meus suspiros. Invernos ao relento. A moça de papel e tinta, musa em solidão concebida, menos tida que havida. Só a conheci de vista, na janela da mansarda, quando lá embaixo ela passava. Eu poeta tímido e sufocado.

Sentimentos que teço no abismo dos dias. Dores que não têm conta.

O fosso profundo do fundo de cada um. Meu Deus.

Foi assim.

Os vazios dias, minhas tardes distantes, à beira do penedo. Hoje eu vejo tudo aqui de cima, na mansarda. Recolhido na grossa e comprida manta, atrás dos óculos de fundo de garrafa. Não vivo mais na borda dos penhascos. Saltei para dentro da lira. O consolo possível.

Esta página escrita no sótão, arrostando vento e solidão.

Fugazes as vaidades do mundo são. Mais vale um poema que um tostão. O frio glacial dessas alturas inóspitas.

Fui resgatado do evento proceloso pela mão de salvadoras prosopopeias. Eis-me de ponta cabeça no perau do texto.

São caminhos que se andam. Depois se aprende, depois se esquece. A vida.

O que não se tem se inventa. O mundo não tem bom coração. O delicado vive por teimoso e obstinado.

A humanidade enaltece a ruína, mata o humano. O que fizeram com esse texto as escuridões do mundo!

Cléria, sim, Cléria do capucho branco e do casaco azul claro. Cléria dos meus tormentos. Dos meus espantos e secretas ternuras. A que não se deixou amar. A desaparecida musa do vestido rosa com a fita lilás. Entrou e saiu do meu sonho sem saber.

Vivia lá no seu castelo, sem dar pela minha existência de bardo de arrabalde.

Eu o que quero agora é a solidão dos ventos gelados.

Meu olhar atravessando as névoas eternas.

Eu, o provedor das horas finitas, senhor de nadas, o catador de conchas de silêncio nos ares da infinita montanha.

Ela se foi pela estrada de ferro, sem dizer adeus.

Nas minhas saudades, ouço o ranger do velho trem saindo da estação.

A sintaxe é território que se conquista na dureza de batalhas cruentas. Palavras são coisas que criam asas e depois se lançam.

Agora sou o navegante. Viajor do tempo. Astrônomo de dicionários. O tal que restou com a bicicleta retorcida nas pedras.

 O sobrevivente, ridículo pierrô interiorano.

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Texto revisto, publicado antes em 13 de outubro de 2010.
 

domingo, 12 de abril de 2015

A descoberta da flor

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto, 11-4-2015
 
Caminhando pelo quintal, na tarde azul e suave do sábado de outono, eis que descobri, perto de um muro de pedra silencioso e abandonado, essa estranha flor. Nunca tinha visto nada parecido. Fiquei observando sua beleza. Terá caído de uma estrela? 
 
O mínimo que se pode dizer é que é diferente nos traços, criativa nas cores e na forma. Era para ser apenas uma singela caminhada no quintal. De repente, encontrei essa força da natureza. Quanto tempo ficará por aqui? - perguntou meu coração despetalado.
 
Então fui depressa ao escritório para apanhar a Coruja a fim de fotografar a insólita imagem. Isso foi lá pelas cinco e meia da tarde, quando o sol arrefece e os poetas românticos estalam os dedos álgidos e ansiosos, antes de ferir os primeiros versos enlouquecidos na página em branco.

Dizer que Deus estava inspirado quando a criou é pouco. Ele teve um sonho feliz.
 
Não sei o nome da bela flor que do nada brotou. Desconheço sua origem, sua família, seus caprichos, seu destino. Mas gostava que ela não saísse nunca mais do meu quintal, ficasse para sempre perto do muro de pedra em ruína, iluminando a sombra do ocaso e a minha vida.
 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A segunda chance

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Eu acho que todo mundo devia receber uma segunda chance na vida. O teatro da vida acontece em apresentação única. É muito difícil, impossível aliás, representar o papel que nos cabe sem cometer erros.
 
O que você pensa disso, raro leitor?
 
O perdão é uma grande invenção. Está aí para ser usado. É dando que se recebe, diz o velho e sábio brocardo. Quem não precisa ser perdoado de algo?

Quando era adolescente, conheci de vista um oficial alemão nazista, que lutou na 2ª Guerra Mundial. Ele veraneava numa casa ao lado daquela onde eu estava. Não tinha a menor idéia do que ele fez durante a guerra.

Só sei que todas as tardes, quando o sol baixava, ele vinha se sentar no pátio. A mulher dele sentava em sua frente e lia a Bíblia em alemão, em voz alta, por cerca de uma hora. Todo santo dia. Ela falava um pouco de português. Ele era sempre calado.

Eu via aquela cena e ficava a imaginar o que aquele homem teria feito. E me perguntava se alcançaria o perdão.

Quando falo numa segunda oportunidade, me refiro a pessoas comuns, gente que erra porque é humana e também porque é cabeçuda e arrogante, mas cujos erros não são maquinações de lesa-humanidade.

Estava indo nessa linha de pensamento quando surgiu Filipo, o papagaio incherido que me acompanha nas navegações com o veleiro Solitário, e ele veio com esta:

- Muito bonito, capitán! Mas vamos aprofundar um pouco a questão. Você considera que Hitler e outros assassinos cruéis como ele merecem outra chance?

Essa é uma típica ponderação filipense, conforme já devem ter visto em outros textos aqui no blog. Respondi, então, à ave abelhuda:

-  Nobre Filipo. Eu penso que gente como essa, a que você se refere, não merece outra chance nem nessa nem em outra existência. Com exceção daqueles que cometem barbaridades sem saber o que estão fazendo (no caso de perturbações mentais graves ou desenvolvimento mental insuficiente). Também não fazem jus ao perdão aqueles que cometem violências como tortura e outras de extrema gravidade.

- Da mesma forma não devem merecer perdão os grandes ladrões da nação, tão em voga atualmente, que roubam ou deixam roubar o patrimônio público, lesando milhões e milhões de pessoas.

Respondi essas coisas assim, mas esclareci em seguida, ao entrudo papagaio, que só quem tem a última palavra no assunto é Deus, que não erra.

Que eu nada sei. Não imagino sequer se serei perdoado pelos erros cometidos. Do alto da minha ignorância, contudo, e em causa própria, espero que sim.
  

Museu Casa Natal de Cervantes



El Museo Casa Natal de Cervantes celebra durante 2015 los 400 años de la publicación de la segunda parte del Quijote. A partir del 7 de marzo, y hasta mayo, todos los sábados tendrán lugar animaciones teatrales destinadas a todos los públicos, Quixancho encadenado. Mes a mes, los asistentes podrán adentrarse en algunos de los episodios más emblemáticos de la segunda parte del Quijote. 

En dos pases, a las 11.30 y 12.30 h., narrador y público se entremezclarán para dar vida a tres historias enlazadas cuyo protagonista, Sancho, será el hilo conductor. El inmortal escudero del Quijote, su fiel compañero, acompañará a los asistentes a torneos de caballeros, a celebrar la boda de la bella Quiteria o se asomará con ellos al misterio de la cueva de Montesinos.

Para acudir no es necesaria inscripción previa. La entrada es libre, con aforo limitado. Durante las representaciones el acceso a la casa museo permanecerá cerrado.

FECHAS:
Sábados, 11, 18 y 25 de abril; 2, 9, 16, 23 y 30 de mayo de 2015

HORARIOS:
11.30 y 12.30h 

DURACIÓN:
20 minutos

ACTIVIDAD GRATUITA

AFORO LIMITADO

Calle Mayor 48, Alcalá de Henares, Madrid
+ INFO

museocasanataldecervantes@madrid.org


Museu Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/animacion-teatral-quixancho-encadenado/

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O passarinho na amendoeira em flor de Van Gogh

Jorge Adelar Finatto

Amendoeira em flor. pintura de Van Gogh, 1890. Van Gogh Museum
 
Não sei se fui eu que desisti da literatura ou se foi ela que desistiu de mim. Só sei que faz muito tempo. O fato é que cansei de bater numa porta de sombra impossível de abrir e que, no dia em que se abriu, revelou um castelo vazio, cheio de fantasmas e esqueletos de musas atirados em soturnas escadarias.

Eu não gosto de fantasmas nem de ossadas. Meu interesse literário se resume aos velhos livros que amo, e aos novos que vou encontrando pelo caminho. Trago comigo a dor antecipada pelos livros que não terei tempo de ler. O meu sentimento é este. Diante disso, prêmios literários e exposição midiática nada significam. Escrevo na medida da minha necessidade de expressão ou apenas na esperança de olhar para o que escrevi, tempos depois, e dizer: Ah, mas isto aqui  acho que ficou bem.

Um texto dos confins da alma num momento fugaz. Para ter prazer em revelar e ser por ele revelado. Se alguém gostar, seja bem-vindo. Se não gostar, seja bem-vindo também. O que vale é a palavra e sua tentativa de comunicação entre duas pessoas: a que escreve e quem lê. O leitor, aliás, é aquele que realmente dá sentido a todo o processo.

A palavra, e nossa alegria nela desvelada. Palavra escrita no gosto do primitivo artesanato. Para o instante valer a pena. Uma espécie de memória do farelo. O resto é silêncio das cavernas oceânicas.

Solidão da folha em branco que cai da árvore do pensamento. O que muitos entendem por literatura já não me interessa. Mais vale o passarinho cantando no galho da amendoeira em flor de Van Gogh. Eu escutando.
 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A manhã expulsa a escuridão

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

É muito triste andar só, embora a gente esteja quase sempre sozinho.

Nunca nos falte essa luz, Maria, a do espírito. Sim, essa que nos guia pelos caminhos sombrosos do treva-mundo.
 
Pode faltar o pão, mas não nos falte a luz interior. A escuridão mata, porque através dela nada podemos encontrar e já não somos encontrados.
 
A escuridão é o oposto do respirar claro, Maria, é o contrário do sol, do calor humano e da presença de Deus.
 
O que eu mais quero na vida é claridade, como a que eu sentia quando pegava na tua mão naquela hora em que tudo em volta era motivo de aflição.
 
Procuro luz para admirar as coisas do mundo, para enxergar o semelhante, para ter encanto na vida.
 
Luz pra desviar das armadilhas, dos monstros noturnos e diurnos, dos abismos.
 
Noite é bom pra conversar na varanda, olhar a luz das estrelas e da Lua. Sonhar e esperar o amanhecer.

É muito triste andar só, embora a gente esteja quase sempre sozinho.

Se tiver que caminhar no escuro um dia desses, que pelo menos os vaga-lumes apareçam. 
 
De tanta escuridão neste mundo estou bem farto.

Por favor, Maria, não deixe que anoiteça sobre mim. Mas se tiver que acontecer, me dê a tua mão na hora de apagar a luz e fechar a porta.
 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A bruma de que somos feitos

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 

Nestes tempos de Quaresma, existem muitas razões para ter esperança na vida futura, já que é esta a mensagem que está inscrita, a sangue, na trajetória luminosa de Cristo.
 
A Ressurreição, no domingo de Páscoa, é a culminância do sentimento cristão, e universal, de uma vida melhor, infinitamente melhor, do que essa que vivemos no fundão chamado mundo.
 
Quando fui juiz na cidade de Rio Grande, lá nos idos de 1991, escolhi esta passagem bíblica, que muito me encanta e faz refletir, para inscrever em cerâmica: Porque sois uma bruma que aparece por um pouco de tempo e depois desaparece. Trata-se do trecho 4:14 da belíssima Carta de Tiago, irmão de Jesus. Após, fui a um ateliê perto do foro e fiz a encomenda.
 
O trabalho foi feito com talento por uma artista local, cujo nome está escrito na parte inferior à direita (meus óculos de fundo de garrafa não conseguem decifrar). Levei a peça para o meu gabinete.
 
O tempo passou como voam os pássaros.

Jurisdicionei depois em outras comarcas. Esta bela obra de arte (e do espírito) sempre me acompanhou e acompanha até hoje. Compartilho seu conteúdo.
 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Deixai livres as crianças

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
As crianças são como anjos: podem voar por aí, correr e brincar sobre nuvens de sonho, porque carregam no coração a força da inocência e da bondade. Se para os grandes não existe salvação, para as crianças todas as portas e janelas do céu estão abertas.
 
O mundo faz tudo que pode para cortar as asas da infância. Os adultos, com seus maus modos e sua rematada ignorância afetiva e espiritual, querem a todo custo arrancar das crianças a capacidade de ser livres e de sonhar. Esse é um dos piores crimes que se perpetram contra o ser humano.
 
Mercê dessa violência, alguns que, em pequenos, foram angélicos transformam-se com os anos em seres monstruosos. Alguma dúvida? Olhemos as manchetes dos jornais. A fábrica de verdugos e assassinos está funcionando a pleno vapor.
 
Por isso, uma sugestão a todos os que foram criança um dia: não se deixem amedrontar e violentar pelos porta-vozes da escuridão e pelos emissários da morte.
 
A criança que vive em nós viverá enquanto não desistirmos dela e não permitirmos que a matem.
 
Salvemos as nossas crianças. Salvemo-nos. A resistência será a nossa salvação.
 

sábado, 28 de março de 2015

O mundo explodiu e ninguém disse adeus

Jorge Adelar Finatto

local da queda do avião, nos Alpes franceses. photo de Thomas Koehler (EFE)

Em memória dos passageiros do voo GWI 9525
que se espatifou contra os Alpes franceses
na terça-feira, 24/3/2015
                   
Não havia sobreviventes quando Deus chegou na rude e negra montanha alpina e viu de perto o que acontecera. Nenhum pra contar o que se passou quando o airbus explodiu em milhões de fragmentos repartidos no ar irrespirável.
 
Um anjo, numa solitária nuvem, olhando lá de cima, dissera antes ao Senhor: pulverizaram-se os sonhos. Não temos corpos a quem velar. Consumou-se a terrível travessia que ninguém ousara imaginar.

E, no entanto, estava tão evidente desde sempre o previsível gesto de loucura, fundado no mais primitivo egoísmo, na dureza de espírito que gera a nauseante repetição da covardia, tecedora de sórdidas mortandades. Previsível, sim, porque o mundo tornou-se um hospício geral.

Se acontecesse na África, na América do Sul ou em qualquer outro "lugar bárbaro", "estaria explicado". Mas o fato se deu no suposto centro da inteligência, da ciência, da tecnologia, da cultura e da boa educação.

Não há justiça nem existe bondade além das aparências. Ninguém está seguro em parte alguma. E não se alimentem falsas ilusões: em alguns dias tudo estará esquecido, porque assim decidem os insensíveis deuses do mercado e do poder.

Quem fez caso das crianças e de todos os passageiros que embarcaram na triste nave sem destino?

Quem se importa com a dor dos outros no mundo em que vivemos?
 
Entre as partículas havia minúsculos estilhaços vermelhos e cintilantes a correr pelo vácuo noturno (em pleno dia). Em todas as direções e sentidos eles se deslocaram na escuridão do cosmos.

Em cada um deles havia uma lembrança, uma emoção, um resto de amanhecer. Em cada mínimo fragmento, um pedaço de coração pulsando em absoluta perda, silêncio, espanto e dor.
 
Um raio brilhante de luz incandescente encontrará um lugar novo do universo para germinar. Quem sabe poderá haver vida outra vez. Quem sabe dos estilhaços vermelhos nascerá, um dia, uma vida, e depois outra e mais outra.

A luz germinará sem a porção atávica da crueldade, distante do horror, da loucura dissimulada e dos sombrios desvãos que habitam a alma humana.
 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os passos no telhado

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
A casa estava sempre lá, no mesmo lugar, a qualquer hora a gente podia voltar. Os mais velhos eram os guardiões do templo cujo maior tesouro era o sentimento. Eles eram os troncos velhos da ponte que ligava o passado com o presente e o depois.
 
O tio Alberto retornou depois de 40 anos vivendo noutros países, noutros planetas. Trouxe baús cheios de quinquilharias e livros em línguas estranhas. Trouxe principalmente muita solidão no semblante calado. 
 
Foi habitar no sótão da casa, dizia que a mansarda era o melhor lugar pra se ver o mundo. Quase não descia de lá. Abria a porta no alto da escada estreita apenas pra receber e devolver as coisas indispensáveis.

- O mundo só é suportável aqui em cima. Vivo em solidão mas quero a companhia do andar de baixo. Amo todos vocês.

E lá ficou com seus livros velhos e uma luneta holandesa do início do século XX.

De raro em raro, quando a porta se abria, a gente corria pra ver a cabeça branca do tio Alberto. Às vezes nos abanava e voltava a se fechar no seu mundo.

Em certas noites, ouvíamos barulho de passos e vozes no telhado. A vó dizia que não precisava ter medo, era só o nosso tio esticando as pernas e conversando com seres que só ele via.
 
O aroma dos cravos (havia cravos) e das rosas perfumava o entorno da casa. Tinha também o cheiro amarelo das margaridas e o branco dos lírios.
 
Era bom dormir olhando para o teto alto de madeira, na certeza de que o dia ia amanhecer na voz do galo, e de que tudo seguiria como sempre.

No inverno as nuvens raspavam nos galhos altos dos pinheiros.

Nos dias de chuva a casa recendia a pão, doces e bolos produzidos no fogão a lenha.
 
Viver era eterno. Todos os córregos e pássaros cantavam para iluminar a nossa vida. 
 
A saudade que estou sentindo agora não é uma coisa triste.

Tudo está vivo dentro de mim.
 
Estou só na madrugada de outono. Mas escuto passos no telhado.
  

Revista Orpheu: 100 anos



A partir de hoje, com a inauguração da exposição de Pedro Proença, Os testamentos de Orpheu, iniciam-se na Casa Fernando Pessoa as comemorações dos 100 anos da revista Orpheu.

Sobre Os Testamentos de Orpheu, patente até dia 26 de Setembro, diz Proença: “A revista Orpheu é um fantasma que já há muito tempo vou digerindo e não cessa de ser uma fonte de entusiasmo. (…) O apetite por celebrar os de Orpheu vai aqui traduzido em obras (...) onde abundam textos seus, colagens e abusos sobre eles, ou pequenos ensaios da minha lavra.(…).”

Do programa, transversal e atento aos ecos de Orpheu hoje, faz ainda parte Café Orpheu, a partir de 28 de Março, um ciclo de performances e leituras a que se chamam actores, performers e textos que convocam o espírito do grupo. A Brasileira, o Fábulas, o Vertigo e o Kaffeehaus, pontos centrais no Chiado contemporâneo, deixam-se assim ocupar por Andresa Soares, Filipe Pinto, Lígia Soares e Miguel Castro Caldas, Miguel Loureiro, Sara Graça e Victor d’Andrade, Sílvia Real, Sérgio Pelágio e Mariana Ramos e Os Possessos surpreendendo quem está e quem passa.

Orpheu é também o ponto de partida para Almada em Pessoa, a partir de 28 de Março, uma visita-experiência na qual o visitante é convidado a, por momentos, fazer parte da obra de Almada Negreiros Retrato de Fernando Pessoa.

As comemorações fazem-se ainda com a exposição itinerante Nós, os de Orpheu, desenvolvida em parceria com o Camões, IP, que circulará internacional e nacionalmente. Um alargado trabalho de investigação e imagem que reuniu e pôs em diálogo documentos, cartas, manuscritos para que, em primeira pessoa, falassem Os de Orpheu sobre si e sobre os outros, a respeito da construção do projecto colectivo que foi a essa revista e do modo como foi recebida pelo meio que veio tomar de assalto.

Todos os detalhes em
www.casafernandopessoa.pt

Esperamos ver-vos por cá.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Apenas um vago rumor

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Apenas um vago
rumor
de folhas
se soltando
dos ramos

teu jeito:
risco
vermelho
ferido
em meu
peito

o poema
escrito
sem qualquer
esperança
nem mágoa

cálidas
palavras
em torno
da uma
ausência

(irremediavelmente
presente)

a dor
como as folhas
se espalha
no oblívio

escuto 
o impossível
rumor
de teus
passos

silêncio
ocre
do meu coração
na tarde
de outono
 

sexta-feira, 20 de março de 2015

No caminho de Walden

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Ser filósofo não é simplesmente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver de acordo com seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, generosidade e confiança.
                              Henry David Thoreau, in Walden ¹
 
Nem toda literatura do mundo vale essa manhã de outono. Por isso, hoje fechei os livros e saí por aí caminhando pela natureza. Um pouco como Henry David Thoreau (1817-1862), que trouxe para o centro da vida a experiência sensorial e transcendente, e não apenas livresca e intelectual, das coisas do mundo. Vida real, respirada, pensada, sentida, suada de todos os dias.
 
A filosofia, qualquer que seja, só tem razão de ser se serve para vivermos melhor, em mais harmonia com o semelhante, com o ambiente, com nossas emoções, sabendo que para chegar a isso existem limites que precisam ser respeitados e preconceitos que devem ser superados.

Não se trata de desprezar os livros, mas de saber que, para além deles, é preciso viver, ir para a vida, observar, aproximar-se, conhecer, praticar o que sentimos e pensamos.

Respirar o ar do dia. Tão importante quanto ler um bom livro é andar numa manhã azul (ou cinza, não importa) de outono como essa, entre árvores, pássaros, córrego, pinheiros. A música do vento nos galhos e nas folhas.

Eu passei a maior parte da vida entre edifícios sufocantes, ruas cinzentas e violentas. Num país onde o que menos importa é a dignidade da pessoa. No qual a corrupção com o dinheiro público se institucionalizou nas altas esferas de determinados grupos. Onde pessoas que deveriam dar exemplo são as piores referências possíveis. O triste retrato do que vai na alma de alguns: acumular riquezas e privilégios a qualquer custo.

Henry David Thoreau
fonte: Wikipédia

Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa.
H.D. Thoreau²

 A vida inteira lutei por essa manhã de outono.

Thoreau, o grande poeta e pensador americano (ensaísta, filósofo e naturalista), nasceu e viveu no interior, na pequena cidade de Concord, Estado de Massachusetts, Estados Unidos. Foi ao encontro da natureza interna (o espírito) e externa (amoroso da vida natural e dos seres vivos, bem antes de falar-se em ecologia).

Um belo dia decidiu construir uma cabana à margem do Lago Walden e viver longe da civilização, fazendo a vida com as próprias mãos. Ali permaneceu por 2 anos e 2 meses, solitário mas sem se tornar um ermitão, pois mantinha e gostava de contatos eventuais.

Dessa maravilhosa experiência de aprendizado e meditação nos dá notícia no livro Walden, de 1854. O ensaio mais famoso que escreveu, A desobediência civil (1849), resultou de uma noite passada na cadeia em 1846. O motivo da prisão: negou-se a pagar impostos em protesto contra a escravidão e a guerra do México.

Sua obra é marcada pelo apreço aos direitos individuais, à simplicidade, às emoções, ao bem-estar físico e espiritual dos indivíduos. Sua vida influenciou gente como Martin Luther King e Gandhi, entre outros.

Celebro a chegada do outono fazendo, modestamente, meu caminho de Walden, visitando a natureza aqui nos Campos de Cima do Esquecimento e lembrando esse grande ser humano que foi Thoreau. Se ele conseguiu viver perto da natureza, e sentiu a existência como um nativo que olha o mundo pela primeira vez, nós também podemos chegar lá.
 
Enquanto desfruto a amizade das estações, sinto que nada conseguirá fazer da vida um fardo para mim. A chuva mansa que hoje rega meus feijões e me mantém dentro de casa não é tristeza nem melancolia, e é boa para mim também.
H.D.Thoreau³

Lago Walden, congelado. Concord, USA
fonte: Wikipédia
___________
 
¹-²-³Walden. H.D.Thoreau. L&PM Editores. Porto Alegre, 2010. Tradução de Denise Bottmann. Trechos transcritos das págs. 27/28, 34, 131.