quinta-feira, 19 de maio de 2011

Hermeto Pascoal

Jorge Adelar Finatto



De menino eu quisera ser marinheiro. Mas depois, com medo do mar, eu fora é músico, uma orquestra inteira, no meu coração sonhador. A música é um jeito da gente trazer o mundo dentro de si, e todas as vidas, todos os barcos e todas as águas junto. Se alguém procura saber, no hoje (tão longe do menino que eu fui e dos sonhos que não aconteceram) que Villa-Lobos eu quisera ser, neste agora tão medonho da vida e do mundo, então eu dizia, sem remorso nem bazófia: quisera ser Hermeto Pascoal. Não medra esconso  o meu dizer. Quero os versos e os acordes do alvoroço. O amanhecer do humano esforço. Grande Sertão e estelares veredas. Algaravia de sons. Tudo voa e no ar se encontra. Os arranjos do engenho e da arte que o artista faz. Não faço enciclopédia, digo apenas o que sinto, e já não é pouco nessa quirera. Eu quero, sim, os espantos. O cheiro da flor da laranjeira de manhã. Eu quero a hermética, universal, pascoalina melodia.

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Foto: Hermeto Pascoal. Autor: Rique Barbo. 
Fonte: site oficial do artista: http://www.hermetopascoal.com.br/

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eugénio de Andrade

Jorge Adelar Finatto


Na vida, ter talento só não basta, é preciso trabalhar muito para chegar a algum resultado. Muitos talentos se perdem, nas mais diversas atividades, por falta de entrega e persistência.

Existe um poeta pouco conhecido no Brasil, que é dos grandes que temos na língua portuguesa: Eugénio de Andrade. Nasceu em 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, centro de Portugal, e morreu em 13 de junho de 2005, na cidade do Porto, onde hoje existe a fundação que leva seu nome.

Lê-se pouca poesia no Brasil e no mundo, de modo geral. Os tempos são duros. A poesia é o gênero literário que pede um leitor sensível, atento à beleza da palavra e da composição no seu grau mais elevado de elaboração (o poema), e, sobretudo, um leitor dotado de espiritualidade.

Um brutamontes dificilmente terá afeto pela poesia.

Eugénio de Andrade é um belo poeta. Lida com o poema de forma rigorosa e, ao mesmo tempo, com notável simplicidade. A simplicidade que só os mestres alcançam como resultado da dedicação cotidiana e obstinada ao trabalho.

Na vida, ter talento só não basta, é preciso trabalhar muito para chegar a algum resultado. Muitos talentos se perdem, nas mais diversas atividades, por falta de entrega e persistência.

A poesia de Eugénio de Andrade nos traz encanto e esperança. Como nestes dois poemas.


O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


A obra do poeta é rara. Para melhor conhecê-la é interessante uma visita ao site da Fundação Eugénio de Andrade¹ e, claro, a leitura de seus livros. Entre nós, onde Eugénio, infelizmente, é quase desconhecido, existe a antologia Poemas de Eugénio de Andrade², que oferece uma boa visão do conjunto de sua obra.

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¹Fotos e poemas de Eugénio de Andrade reproduzidos do site da Fundação Eugénio de Andrade:
http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/
² Poemas de Eugénio de Andrade, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
Texto publicado em 25 de maio de 2010.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Vivaldi e a noite fria de outono

Jorge Adelar Finatto


A vida é uma melancólica estação de trem onde todos estão só de passagem rumo ao esquecimento.

Escutava o Concerto em Mi Menor, "Il favorito", op.11. n. 2, andante, do veneziano Antonio Vivaldi (1678 - 1741) no começo desta noite fria de outono, de lua cheia, em Passo dos Ausentes. A música é muito sentimental, vai crescendo dentro da gente de um jeito calmo. Não sei por que, enquanto a ouvia, passei a recordar certos dias de outono na minha infância. A avó preparava doces, conversava e costurava. A casa de madeira de pinheiro ficava entre os plátanos, à beira do arroio.

O arroio tinha música viva. A bruma costumava andar a esmo nas redondezas e com ela o silêncio. Quando alguém abria a porta, um pouco daquela névoa entrava e tomava assento na sala, como um fantasma. O mundo era então um lugar muito pequeno.

Um dia a avó partiu na neblina, levando para sempre as costuras, as conversas, os doces. Não teve tempo de se despedir. A casa fechou-se como um coração que esfriou. Fui para a estação de trem. O que aconteceu depois foi uma longa história de partidas sem despedida.

A vida é uma melancólica estação de trem onde todos estão só de passagem rumo ao esquecimento.

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Foto: J. Finatto

Three poems

Jorge Adelar Finatto



Event

My face in the rain
in the wind
sad like a scarecrow

Evento
Minha cara na chuva
no vento
triste como um espantalho



Occupation

life is a horror that I allow myself

Ofício
 a vida é um horror que me permito



Tragedy

the moon has fallen over the crops

Tragédia
a lua caiu na plantação

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Poems from the book Viveiro, Edições Grupo Sanguinovo, São Paulo, 1981.
Foto: J. Finatto

segunda-feira, 16 de maio de 2011

José Carlos Oliveira, cronista

Jorge Adelar Finatto


Sou contumaz leitor de jornais. Nesse tempo todo, acho que tenho procurado não propriamente notícias do mundo que é, mas de um outro, mais delicado e venturoso, que infelizmente insiste em não aparecer nas páginas impressas.

Costumo guardar recortes de textos que me tocam, alguns deles nunca saem depois em livro. Há alguns dias peguei pra reler um desses papéis, uma crônica do saudoso jornalista e escritor José Carlos Oliveira (1934 - 1986), intitulada O livro dos analfabetos (Jornal do Brasil, Caderno B, 21 de janeiro, 1981).

Nela, lê-se o seguinte trecho:

Um verdadeiro homem é um poema torto. Um verdadeiro homem não é um santo nem um herói, porque esses são filhos diletos de Deus e neles Deus escreve certo; um verdadeiro homem não é um monge anacoreta, porque este corajosamente se furta à existência erradia, errante e errada que a nossa tribo se compraz em viver ou é induzida, ou conduzida, ou forçada a viver. O verdadeiro homem é experimental (...)

Estimulado por essa bela crônica, fui à livraria e comprei O homem na varanda do Antonio's, crônicas da boemia carioca nos agitados anos 60/70, publicação organizada pelo também jornalista e escritor Jason Tércio e editada pela Civilização Brasileira em 2004. 

O livro é encantador. Vale a pena ler o texto bem trabalhado, sensível, perspicaz e brilhante de José Carlos Oliveira (o Carlinhos Oliveira), um dos nossos grandes cronistas.
 

Manuel António Pina: Prêmio Camões de Literatura 2011

Jorge Adelar Finatto


O Prêmio Camões de Literatura 2011 foi atribuído, na quinta-feira, 12 de maio, ao poeta e escritor português Manuel António Pina, 67 anos. O resultado foi divulgado  na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e o júri justificou a premiação com fundamento na inventividade e originalidade da obra do autor. Ele publicou, entre outros, O país das pessoas de pernas para o ar (infanto-juvenil) e Aquele que quer morrer (poesia).

Manuel António Pina colabora diariamente como cronista  no Jornal de Notícias, de Portugal. É bacharel em Direito, tradutor e, no passado, também foi jornalista.

Em entrevista concedida a Sérgio Almeida, do Jornal de Notícias, em 20 de julho de 2010, declarou o poeta:

Não escrevo poesia como escrevo crónicas, profissionalmente. No caso da poesia, sou antes amador, isto é, aquele que ama. Só escrevo poesia quando não posso deixar de escrevê-la. Ou, como Borges diz (acho que é Borges), quando uma espécie de incomodidade, ou de remorso, me força a procurar a poesia. O facto de passar às vezes anos sem publicar poesia não significa que tenha deixado de escrever poesia. Tenho há muito um livro praticamente pronto, reunindo poemas dispersamente publicados aqui e ali, em jornais e revistas, e inéditos. Não tenho é tido tempo (nem pachorra) para trabalhar sobre alguns poemas que continuam à procura de si mesmos. Dois ou três deles estão há anos presos por um único verso; tenho, d e alguns desses versos, inúmeras versões, ou tentativas, mas não são o que procuro. Embora não saiba o que procuro, sei que, quando o encontrar o reconhecerei. Resta-me esperar; não tenho pressa.

Se existe algum valor em prêmios literários, e eles são poucos considerando os escritores existentes, é o de revelar autores de mérito (quando assim o fazem), independente de ações de marketing por parte da indústria do livro. Nunca li nada de Manuel Pina. Mas, diante desta sua declaração, reveladora de um escritor humano e dedicado, vou atrás de um livro seu para conhecê-lo um pouco mais. 

O Prêmio Camões é considerado a mais importante distinção em língua portuguesa e, em 2010, o vencedor foi o poeta brasileiro Ferreira Gullar.

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Foto: Manuel António Pina. Fonte: Jornal de Notícias, Portugal.

sábado, 14 de maio de 2011

Palavras com pássaros dentro

Jorge Adelar Finatto


Escrever coisa leve, talvez bonita. Eu gostaria de ver o mundo com bons olhos nessa manhã de maio. Uma frase, um verso com pássaros e arroios cantando dentro. A mesa posta para o café da manhã com os amigos, a conversa e o abraço depois de tanto, tanto tempo. Caminhei através dos segredos e das almas da noite. Vi coisas e precipícios de que não quero recordar. Arrastam-se sombras no átrio da aurora. Queria dizer um barco branco com uma vela lilás nas águas calmas do amanhecer. Queria encontrar a garrafa com a urgente e cálida mensagem para os habitantes das ilhas. Os moradores das ilhas foram viver na cidade, levando as ínsulas no coração, com seu isolamento, sua inocência perdida, a distante memória dos peixes. Estou entrincheirado na primeira claridade. Um farol iridescente desliza entre as nuvens, o pássaro inaugura o canto no galho invisível dessa manhã.


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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A vida com arte

Jorge Adelar Finatto




A arte é uma espécie de olho mágico que nos permite conhecer e viver outras vidas além da nossa. A obra que toca nossa emoção e nossa consciência é a mesma que nos retira do aqui e agora, nos faz transcender e ver além. Aí estão a música, os livros, os filmes, a pintura, a escultura, a fotografia, o artesanato (suas mil formas e materiais) e tudo o mais que as pessoas criam com desvelo e sentimento. Um prato de comida pode ser uma obra de arte, assim como uma casa limpa e arrumada com gosto, um jardim bem florido e cuidado, uma boa conversa. A natureza também está cheia de arte e graça. Por tudo isso, sou grato a Deus e aos que criam coisas capazes de aumentar nossa percepção sobre os seres e o mundo. Palavra após palavra, imagem após imagem, sentido após sentido, a gente vai se construindo a cada instante. 


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Foto: J. Finatto 

terça-feira, 10 de maio de 2011

A hora da solidão

Jorge Adelar Finatto



Porque a vida é breve, não há certeza de nada e a grande arte é levantar-se depois do tombo. Porque o amor roçou o coração como um vento frio e foi embora. Porque há uma casa na sombra e alguém abandonado lá dentro. Porque ele a procurou em muitos lugares. Porque sente que ela não voltará. Porque a noite chegou e ele não sabe o que fazer com o que restou da sua presença. Porque precisa vencer sozinho o medo do escuro. Porque é hora de varrer os destroços, reinventar a vida e não morrer de solidão.


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Foto: J. Finatto 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ausência

Jorge Adelar Finatto




Eu chamo teu nome
                            no escuro
no escuro meus olhos procuram
                                       procuram
até secar de tanta espera



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Poema do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.
Foto: J. Finatto
 

sábado, 7 de maio de 2011

Maureen Bisilliat: exposição de fotografias sobre o universo de João Guimarães Rosa



“Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração. Em livros como os de Diane Arbus (1923-1971), de Nan Goldin (1953), há essa orquestração: ritmos, silêncios, acordes, vazios. A palavra, escolhida da produção literária ou pinçada do testemunho biográfico, vem da fala íntima da pessoa, destilada. Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra.” (Maureen Bisilliat)

A exposição A João Guimarães Rosa permite um olhar simultâneo sobre a produção fotográfica e a produção editorial de Maureen, revelando tanto a fotógrafa como a editora de imagens e textos nesta exposição sobre Guimarães Rosa e o universo do sertão brasileiro e dos seus personagens. Os seus ensaios fotográficos foram sempre concebidos e apresentados em fortes sequências visuais que sintetizam a visão da autora sobre os universos do real e do imaginário, compondo aquilo que denomina de equivalências fotográficas das obras literárias que nortearam o seu trabalho.

Maureen Bisilliat nasceu em Englefieldgreen, Surrey, Inglaterra, em 1931. Estudou pintura com André Lhote em Paris (1955) e no Art Students League em Nova Iorque (1957) antes de se fixar definitivamente no Brasil em 1957, na cidade de São Paulo. Trabalhou como fotojornalista para a Editora Abril entre 1964 e 1972. Autora de importantes livros fotográficos inspirados em obras de grandes escritores brasileiros, expõe em 1985 em sala especial na 18ª Bienal Internacional de São Paulo. Em Dezembro de 2003, a sua obra fotográfica completa, composta por cerca de 16.000 imagens, foi incorporada no acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles (IMS) no Rio de Janeiro em função da sua inquestionável relevância no âmbito da fotografia e da cultura brasileiras.

A Casa Fernando Pessoa e o Instituto Moreira Salles sentem-se honrados em trazer esta exposição para Portugal, pois entendem que a síntese entre imagem e texto que Maureen Bisilliat realiza nesta mostra em homenagem a Guimarães Rosa possibilitará ao público português aproximar-se ainda mais deste autor da língua portuguesa que reflecte e regista na sua obra aspectos profundos e determinantes da cultura brasileira, evidenciados igualmente nas marcantes imagens de Maureen aqui reunidas.

A exposição conta ainda com o apoio do Bairro Alto Hotel.


Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato

Notícia e imagem reproduzidas do site da Casa Fernando Pessoa. A grafia é de Portugal.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O cão vermelho

Jorge Adelar Finatto


Na seção de classificados do jornal, leio o anúncio: procura-se cão, cor vermelha, cego de um olho, que atende pelo nome de Pirata. Gratifica-se quem devolvê-lo ao dono.

Pirata, cego de um olho, vermelho, imagino que só pode pertencer a um velho homem do mar, alguém que, aposentado das artes da navegação, fixou-se no continente com o animal de estimação.

Provavelmente o cão fez a volta ao mundo várias vezes com seu capitán.

Pirata estranhou, talvez, a vida em terra, viu-se tão perdido que se perdeu na cidade. O pobre cachorro deve estar mareado com tanta violência, indiferença e falta de horizonte. No navio ele era único, o cão do seu capitán. Aqui é apenas mais um desconhecido, ninguém se importa.

A cidade não presta atenção em quem vai, em quem chega, em quem desaparece. Tudo some em suas ruas, em seus dramas, em seus obscuros labirintos. Anônimos, cada um de nós carrega sua solidão, sua dificuldade de viver, sua falta de abraço. Ainda que nos pintássemos de vermelho, como Pirata, decerto ninguém ia notar. Muitos não teríamos sequer um dono para reclamar por nós num anúncio de jornal.

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Foto: J. Finatto. Porto Alegre, vista do barco.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Don't leave me

Jorge Adelar Finatto
to Chet Baker




Don´t leave me
provide the night
with your suplly
of affection

fill the desert
with your steps

in secret
give me back
the daintiness
of those days

give me once again
the diamond
of your
presence

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Poem from the book O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Foto: J. Finatto

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bin Laden e o silêncio da justiça

Jorge Adelar Finatto

Somente a realização da justiça é capaz de estabelecer a paz e a verdade. Execuções sumárias, por mais eficazes e espetaculares que pareçam ser, não têm este poder.

A morte de Osama bin Laden por um comando militar americano, no Paquistão, foi divulgada e celebrada pelo presidente Barack Obama. Disse o governante dos Estados Unidos que o mundo está mais seguro agora. Será tão simples assim?

Perdeu-se, na verdade, uma boa oportunidade de avançar na construção de uma ordem jurídica e judicial internacional. Osama era tido como terrorista número um do planeta, líder da Al Qaeda, grupo responsável, segundo fontes norte-americanas, pelos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, que fizeram cerca de 3.200 mortos.

As terríveis cenas dos ataques terroristas contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, falam por si. Poucas vezes no mundo se viu tamanha monstruosidade. Jamais se apagarão da memória humana as imagens dos aviões com passageiros sendo jogados sobre os edifícios e explodindo. A revolta da sociedade americana e mundial contra os atos de barbárie é perfeitamente compreensível e aceitável.

Todavia, o enfoque dos Estados Unidos e de outros países que também foram atingidos pelo terror, como Espanha e Inglaterra, deveria ser sempre o da persecução, prisão e julgamento dos responsáveis. A vingança, seja entre particulares ou aquela perpetrada pelo Estado, não se confunde com justiça.

A separação dos poderes do Estado foi uma das mais importantes conquistas da humanidade. Cabe ao Judiciário o julgamento, dentro das regras legais, entre as quais o direito de ampla defesa e a publicidade do processo. Não existe qualquer dúvida de que culpados por crimes de terrorismo devem ser punidos com absoluto rigor, mas isso deve ocorrer observando-se a lei.

O que houve, neste caso, foi o julgamento midiático de Osama bin Laden, baseado, fundamentalmente, em informações e conclusões das autoridades americanas. A opinião pública se formou em torno disso. Não houve empenho por um julgamento judicial, como se requer de nações ditas civilizadas e do Estado democrático de direito.

A captura e o julgamento de Bin Laden eram fundamentais para desarmar os espíritos, apontar um novo rumo nas relações internacionais, além de ser um marco no enfrentamento do terrorismo que se articula em várias regiões do mundo. Alguns arguem que seria impossível capturá-lo vivo. Será mesmo? Ao menos se tentou? Informações ontem divulgadas pelo porta-voz da Casa Branca dão conta de que o terrorista estava desarmado no momento do ataque.

O que este episódio revela, na essência, é a concretização de um ato de execução contra quem foi considerado responsável por uma das mais tristes tragédias de que se tem conhecimento na história. Isto, contudo, não é fazer justiça e dificilmente tornará o mundo um lugar mais seguro e melhor para se viver.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ernesto Sabato: morre o grande escritor e humanista argentino

Jorge Adelar Finatto


A vida é tão curta e o ofício de viver tão difícil que, quando se começa a aprender, se tem de morrer. 
                                             Ernesto Sabato

A arte é uma forma de construir afetos. Através da criação artística nos aproximamos de pessoas que nunca vimos e com as quais jamais mantivemos contato. O criador passa a fazer parte da nossa íntima família espiritual. No caso da literatura, escritores e leitores irmanam-se na convivência dos livros. Um não existe sem a presença (e a atenção) do outro. Ernesto Sabato, membro importante desta família invisível, acaba de nos deixar.

O grande escritor argentino morreu na madrugada de sábado (30 de abril) em sua casa na cidade de Santos Lugares, perto de Buenos Aires. Sabato tinha 99 anos e completaria o centenário no próximo dia 24 de junho. Ele sofria de bronquite. Ontem, domingo, ele foi homenageado na Feira do Livro de Buenos Aires.

Ernesto pertencia a um grupo reduzido de escritores cuja obra guarda estrita coerência com a vida, desses que têm nos valores éticos e no senso de justiça a sua maior referência.

Um lutador pelos direitos humanos, preocupado com os problemas de seu tempo, ele presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep) na Argentina. Nomeado por Raúl Alfonsín, primeiro presidente democrático após o fim da ditadura militar, Sabato conduziu os trabalhos da equipe que elaborou o informe "Nunca Más", também conhecido como Informe Sabato. O documento minucioso apontou 8.960 desaparecidos, além da existência de 340 centros ilegais de detenção e tortura. O relatório deu origem aos processos que resultaram na condenação dos responsáveis pelas ações da ditadura. Sabato sempre se opôs à elaboração de leis que visavam ao "ponto final" nas responsabilizações.

Sou um simples escritor que viveu atormentado pelos problemas de seu tempo, em particular pelos de sua nação. Não tenho outro título (E.S.)

Filho de pai italiano e mãe albanesa, o escritor doutorou-se em Física em seu país em 1938.Trabalhou em pesquisas no Instituto Curie, em Paris. Na década de 1940 renunciou à ciência por considerá-la amoral, passando a dedicar-se integralmente à literatura e à pintura.

Estava quase cego, sofria de depressão e nos últimos anos passava recolhido em sua casa. Pintava às vezes e encontrava alento escutando música. Autor de obras importantes como O Escritor e Seus Fantasmas, A Resistência, Sobre Heróis e Tumbas e O Túnel, ele se considerava uma espécie de anarquista cristão que só crê na paz e na justiça social.

Pelo tanto que fez neste mundo e neste tempo conturbados, pelos valores que cultivou e praticou, o nosso reconhecimento ao escritor e humanista Ernesto Sabato. 

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Texto elaborado a partir da leitura das obras O Escritor e Seus Fantasmas, Sobre Heróis e Tumbas e A Resistência e de informações colhidas, no domingo, no site do jornal espanhol El País: http://www.elpais.com e do jornal argentino Clarín: http://www.clarin.com/
Traduções do blog.
Foto do escritor Ernesto Sabato: El País.

sábado, 30 de abril de 2011

Fuga y misterio

Jorge Adelar Finatto



Depois das gaivotas, dos barcos e do Guaíba, retornei a Passo dos Ausentes, meu chão no mundo. Na noite de outono, na Praça da Ausência, as pessoas olham o bordado das estrelas com a lua e sentem o perfume branco e azul das flores das quaresmeiras. Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneón na estação de trem abandonada da nossa pequena cidade, apresenta-nos o Primeiro Concerto do Outono. A noite está muito fria, a temperatura caiu aos dois graus, informa o termômetro ao lado do chafariz. Com o capote preto descendo até as canelas, o boné de lã com as abas caindo sobre as orelhas, sentado numa cadeira de palha, Niebla executa peças de Astor Piazzolla. A abertura foi com Fuga y Misterio, comovente como as restantes músicas do programa.

Umas trinta pessoas estamos diante do coreto da praça onde o músico toca. Cada um trouxe sua cadeira de casa. Alberta de Montecalvino usa o lenço azul claro ao redor do pescoço de gazela; sobre o casaco cor-de-rosa, o camafeu de prata na altura do coração. A grande dama está na primeira fila e não faz questão de esconder as lágrimas, no que é acompanhada por muitos da assistência.

Aos poucos a névoa vai tomando conta do lugar. A luz amarela dos postes de iluminação mergulha na brancura azulada da bruma. Ao final do concerto, Mocita de la Vega sobe ao coreto e entrega um arranjo de rosas amarelas a Juan Niebla, enquanto se ouvem aplausos e gritos de bravo. Claudionor, o Anacoreta, ergue as mãos ao céu em agradecimento.

Quem nos visse reunidos nesse cenário pensaria, talvez, tratar-se de uma página de romance do século XIX. Mas não. Somos seres de carne e osso. Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento. Comove-nos a música de Piazzolla, recriada magistralmente pelas mãos de Juan Niebla. Nessa hora aberta, fria e vazante.

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Foto: J. Finatto

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Fernando Pessoa, Cartas Astrológicas



A partir da interpretação das cartas astrológicas de Fernando Pessoa sobre personalidades mundiais, Portugal e dos seus heterónimos, Fernando Pessoa – Cartas Astrológicas, de Paulo Cardoso e Jerónimo Pizarro, explica, de modo acessível e rigoroso, como a astrologia se insinua na obra de um dos maiores poetas portugueses.

Apresentação da obra por José Blanco: 03 de maio, às 18h30min, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.
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Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

Reprodução de notícia da Casa Fernando Pessoa. A grafia é a de Portugal.