quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ulisses

Casa Fernando Pessoa, Lisboa

domingo, 27 de maio de 2012

Coração batendo na beira do lago

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


O sol mostra a cara entre as nuvens.

A pintura impressionista revela o traço leve, ligeiro, transparente.

Caminho ao redor do lago nesse dia de outono. Um momento de raro encontro.

As cores passam um sentimento de intimidade e delicadeza.

Não existe nada melhor do que esquecer os compromissos e andar na tarde de maio.

No outono, mais do que em outras estações, sentimos a transitoriedade das coisas.

photo: j.finatto

É um ritual de despojamento e recolhimento de seivas. A natureza guarda energia para os dias difíceis que virão. Um caminho de sombras a percorrer, uma passagem de frio e névoa.

Nunca a transformação fica tão clara.

Já não somos os mesmos que antes caminhavam ao redor do lago. O reflexo na água é de alguém que mudou.

A vida não pode ser levada tão a ferro.

É o que o outono nos ensina. Não vale a pena. Um pouco de leveza numa tarde de maio é o mínimo que devemos nos conceder.

Um pouco de distanciamento dos fantasmas.

Vamos entre as árvores, o silêncio, as cores.

Somos uma imagem dentro do lago, depois se apaga.

Tudo muda, tudo passa. Só ficará desse instante o leve traço do esforçado pintor.

Uma fotografia, um quadro, um poema, um rumor de folhas no vento.

Coração batendo na beira do lago.

photo: j.finatto

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photos: imagens de São Francisco de Paula, serra do Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Saramago, Caras e Pessoas

Marcelo Buainain
 
 


Para muitos, ao longo dos últimos 10 anos essa imagem do escritor José Saramago se tornou conhecida, porém poucos sabem da sua história e autoria. O autor não é desconhecido...

O ponto de partida é Lisboa, cidade onde vivi praticamente toda a década de 90. Foi nessa ocasião que tive oportunidade de formar uma parceria com a jornalista Cristina Duran que pautava os entrevistados e eu os fotografava. Momentos especiais foram vividos e compartilhados nas tascas e em nossas residências situadas no bairro de Alfama, quase à beira do rio Tejo. Deste elo profissional e amizade tivemos o privilégio de fotografar várias celebridades, entre elas Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci, Irène Jacob, entre tantas outras.

Tomado por uma certa insatisfação com os clichês fotográficos, concebi o projeto "CARAS E PESSOAS", cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra, a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein, o insólito, o inusitado.

Já em campo, empunhando uma Hasselblad e um estúdio ambulante, retratei o então presidente Mário Soares, a atriz Eunice Munhoz, o ator Joaquim de Almeida, o amigo e escritor Pedro Paixão, o pianista Bernardo Sassetti, o cineasta João Botelho, a cantora de fado Amália Rodrigues e, entre tantos outros, João Fiadeiro, Sérgio Godinho, Rui Chafes, Pedro Cabrita, Ana Salazar, Jorge Molder e Júlio Pomar.

Sensibilizado com o drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, idealizei para o projeto Caras e Pessoas um retrato do escritor Saramago, enfatizando os olhos, a cegueira, a visão.

Em 25 de fevereiro de 1996, no bairro de Alfama em Lisboa, na residência da jornalista Cristina Duran, tive a oportunidade de focar os olhos e a alma de José Saramago, expressos nesse retrato.

Saramago, a nossa gratidão por acreditar na possibilidade e realização desta imagem.

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Publicado no blog em 23 de junho, 2010.
Agradeço a Marcelo Buainain a generosa e preciosa autorização para reprodução desta matéria. J.Finatto

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Olhares de Granada

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. jardins da Alhambra


Entre a Alhambra e o bairro árabe do Albaicin, à margem do Rio Darro, onde nasceu a cidade de Granada, na Espanha,  o olhar viaja através do tempo.

A alma da cidade andaluz resiste a isso que o apressado observador chama esquecimento. As janelas iluminam o imemorial encontro do antes e o agora.


photo: j.finatto


As plantas verdes, verdes, carregam as seivas vivas, vivas, sobre as paredes descarnadas e vielas escondidas, que perduram ao sol, à chuva, aos ventos, aos séculos.

photo: j.finatto. fonte no Albaicin


As vetustas paredes cochicham entre si, vozes ancestrais aparecem e se perdem no interior dos pátios dos velhos casarões. O silêncio monta guarda nos caminhos estreitos. Vultos habitam sótãos.

photo: j.finatto


Na tarde gitana, acende um violão flamenco atrás das brancas cortinas.

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A casa de Federico García Lorca em Granada:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/01/casa-de-federico-garcia-lorca-em.html

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Música na estação de trem

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Às vezes, quando vejo alguém sentado no velho banco da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, me lembro dos que partiram dessa cidade fantasma.

Tenho vontade de sair por aí e recolhê-los, ampará-los na infinita solidão de quem perdeu seu lugar no mundo.

Algumas palmeiras cercam a pequena estação. O último trem está lá parado. Agora os cáquis - maduros - douram as manhãs de outono perto dos trilhos.

Juan Niebla, 86 anos, costuma chegar pelas quatro da tarde para tocar seu bandoneón. O músico cego assumiu o posto em 1941, aos 15 anos, por concurso público.

Desde então não faltou um dia sequer. Acomoda-se no banco de peroba-rosa e toca algumas músicas. Transita entre Chopin, Debussy, Villa-Lobos, Ravel, Piazzolla e outros.

photo: j.finatto

A função de músico da estação começou com Honoratto Santos, que ocupou o cargo até a morte, em pleno trabalho, aos 80 anos. Tocava instrumentos de sopro como virtuose, especialmente o trompete.

Dizem que Honoratto era natural de Moçambique; alguns afirmam que veio menino ainda de São Tomé e Príncipe. Mas no documento de identidade consta como natural de Passo dos Ausentes.

O músico da estação tinha por ofício alegrar aqueles viajantes que chegavam à nossa cidade e amenizar a tristeza dos que partiam.

O trem acabou em 1950.

Juan Niebla diz que não importa: - Continuo tocando na estação porque quero estar aqui no dia em que o trem voltar. Um dia ele voltará a subir e descer essas serras.

- Enquanto isso, toco para os fantasmas.  E para os amigos que vêm me visitar nas quintas-feiras.


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Mais sobre o músico Juan Niebla:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/07/conversa-na-estacao.html

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um mundo invisível

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



O inconsciente é como o fundo de certos rios.

Sob a tênue linha que o protege do mundo, existe um espaço habitado, povoado de seres, histórias, descobertas, sentimentos. Há lugares ocos também, medos do escuro, sonhos que não viram a luz do sol.

Somos filhos da claridade atravessando a sombra.

Não existe outra saída além de abrir as janelas para a aurora entrar, tirar a casa da escuridão. Raízes profundas nos ligam ao intangível.

Aqui um riacho com água corrente, seixos, vozes; ali o pássaro, uma borboleta; adiante um pinheiro, um plátano, depois uma ponte de pedra. Depois, a névoa.

Magnólias e buganvílias habitam o jardim.

O passado imóvel, o tempo amarelecido nos retratos. 

A lágrima quente verte no escuro.

Como o fundo de certos rios, carregamos tesouros secretos, peixes vivos. Andorinhas cruzam a altura dos penhascos submersos.

A luminosidade oblíqua clareia o recanto onde o menino sonha.

Não há escuridão indevassável. O medo da travessia é só um breve instante.

A palavra salva o que ficou calado no porão.

Nunca se esquece o vento esculpindo a dura face do basalto. Nunca se olvida a partida da cidade pequena.

No alforje do coração, todos os que ficaram caídos no alçapão do oblívio. 

Entre ruínas procuramos o menino que respira sob destroços.

Esse que a tortuosa estrada jogou na cidade grande. Esse que perambulou por ruas mortas, entre desvalidos, que habitou quartos fétidos e sinistros, em longas noites de espera.

É preciso acolher o menino que se levantou da noite fascista, esse que pensávamos afundado no esquecimento.

Um círculo de luz ilumina a sombra da sala.

O presente é infinito, gosto de nuvem na boca, porcelana côncava azul acima da cidade e seu cais.

É tarde de outono. O mergulhador sai do fundo do rio. O lampião ainda quente nas mãos.

O caderno escrito com o toco do lápis.

Vida, teu sopro é agora.
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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um blogue de capa e espada

Jorge Adelar Finatto
 
Guy Williams, como o Zorro
 
 
Um dia desses alguém escreveu que os blogues fazem parte da pré-história da internet. É sempre assim. Quando acho que estou fazendo algo moderno, esse algo ou não existe mais ou saiu de moda. 

Pensando bem, porém, o blogue tem ainda lá seu interesse. Se tiver um conteúdo honesto, pode atrair leitores. Uma apresentação legal também ajuda.

Um leitor imaginário enviou-me um e-mail. Observa que este é um blogue primitivo, não tem filmes, nem sons, nem recursos técnicos que o tornem atrativo. Os textos não comentam fatos do momento nem são de autoajuda.

Tem razão. O que sei fazer, mal e mal, é publicar algumas linhas, em geral acompanhadas de fotos. As matérias tratadas não destacam temas específicos nem obedecem a critérios de atualidade, nascem da subjetividade do autor. No mais, não sei ou não quero fazer outras coisas.

Um autêntico blogue de capa e espada, que acredita na luta do bem contra o mal, da beleza contra a fealdade, do sentimento e do pensamento contra a brutalidade, bem ao estilo do velho e invencível Zorro, interpretado pelo notável ator americano Guy Williams.

As pessoas não vêm aqui para ver as últimas novidades. Uma razão que não alcanço faz com que visitem esta página. De qualquer forma, a presença é um estímulo.

Tenho o hábito do silêncio e aprecio o texto impresso. O notebook, pra mim, é uma velha máquina de escrever com luzinhas. Mas o fato é que escrever no blog tem sido uma boa experiência.

A internet é um território trevoso, pelas armadilhas que esconde. Mas é, sobretudo, uma alternativa democrática, uma porta que se abre para a comunicação e a liberdade de expressão. Como tudo na vida, o que é bom acaba permanecendo, e o ruim desaparece no buraco da própria ruindade que semeia.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A casa do anjo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Colonia del Sacramento. Uruguai



Hoje, antes de começar a chover, arredaram uns móveis bem pesados lá no céu. Um barulho espesso me fez pensar que talvez fosse a mudança de um anjo. Um anjo bom e humano com suas asas de perfumadas plumas, levando com ele seu chapéu, suas estantes de livros, bicicleta, cama, armários.

Um anjo, quando se muda, deve ter muita coisa pra carregar: cartapácios com registros e fotografias de quem ele protege, cadernos de milagres, álbuns de recordações, aquarelas com paisagens dos campos do Senhor.

As roupas do anjo devem ser brancas como nuvem, inclusive as suas botas.

Gostava que o meu anjo da guarda viesse mais pra perto de mim.

Meu coração anda necessitado de amigo com sabedoria e consolação. Ele podia até ficar morando aqui comigo. Se quisesse, podia subir no telhado, sentar perto da chaminé, lugar calmo e iluminado, de onde se tem uma boa vista do mundo.

O meu anjo da guarda. Há de expulsar a solidão que toma assento na sala. Nunca mais nenhum mal vai me acontecer. Quando de noite o medo se acercar de mim, o anjo me dará sua mão forte. Então eu dormirei como um menino. E vou sonhar outra vez.

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Texto publicado em 10 de dezembro, 2010.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Juiz e réu, encontro extra-autos

Jorge Adelar Finatto


Era quase meia-noite quando saí do consultório do dentista. Tinha viajado cerca de 500 quilômetros até Porto Alegre, dirigindo o valente Monza. Cheguei e fui direto para a consulta.

Na época, 1996, jurisdicionava a vara criminal da comarca de Santo Ângelo, na Região das Missões do Rio Grande do Sul, perto da Argentina. Os compromissos e a grande distância da capital faziam raras essas viagens.

Tinha deixado o carro no estacionamento de um posto de gasolina, do outro lado da rua. Era preciso encher o tanque. Havia apenas um funcionário àquela hora tardia e ele veio me atender. 

Enquanto o veículo abastecia, ele se aproximou e disse que me conhecia. Ah, sim?, de onde - perguntei-lhe.

- O senhor é o juiz que me julgou e me condenou no processo criminal em que fui réu.

Era tarde, uma noite fria de agosto, quase ninguém na rua. Eu não sabia o rumo que aquela conversa ia tomar. Não recordava daquele rosto, por mais que me esforçasse. O homem falava pausadamente.

Não sabia o que dizer, então falei:

- Mas então, como vai a vida? Vejo que estás trabalhando, isso é muito bom.

Impassível, ele limpava o vidro dianteiro. Continuou:

-  Eu andava perdido, tinha problema com drogas, vieram os furtos. O senhor não se lembra de mim. Sabe por que eu não esqueci? Porque me tratou com respeito nas audiências, durante todo o processo. Me tratou com educação. Quando alguém na sala começou a me agredir com palavras, mandou que cessassem as agressões e que todos ficassem calmos. Nunca vou esquecer.

Depois, paguei a gasolina, agradeci o serviço, desejei-lhe sucesso na vida e fui embora.

Este fato me impressionou pelo tipo de percepção que revela. O que mais marcou aquele indivíduo não foi tanto a condenação (talvez esperasse o resultado), mas a maneira como foi tratado no ambiente judicial.

A instrução de processos criminais costuma ser penosa para os acusados e especialmente dolorosa para as vítimas.

O processo é instrumento de realização de justiça e, portanto, de humanização da sociedade. Nele não pode haver espaço para vingança, humilhação, maus-tratos. O que se busca é a aplicação da lei e dos princípios que movem o Direito, visando restaurar a ordem jurídica.

Nesse sentido, o respeito entre todos os envolvidos na relação processual é fundamental.

Para muitos dos que chegam ao Judiciário na condição de réus, em ações penais, a sala de audiência é a escola que faltou lá atrás, infelizmente. O dever mínimo do Estado, em tal situação, é garantir um tratamento digno às pessoas, respeitando cada uma nas suas circunstâncias.

O modo como nos tratamos uns aos outros define o tipo de sociedade em que queremos viver e o país que estamos construindo.

O fato de sentir-se respeitado durante o andamento do processo talvez tenha contribuído para aquele homem refletir e mudar seu comportamento. É o que espero, do fundo do coração.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Adelar Finatto

 photo: Walt Whitman, em 1887 . Autor: George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.


O trabalho mudou minha vida de lugar  muitas vezes. Faz muitos anos morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, duas escolas, um hospital e pouca coisa mais nas ruas e casas. Em volta, a mata. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de chão, solitárias e com aroma silvestre.

Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio, eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os altos plátanos que se erguiam nos dois lados da estrada, apareceu um homem. Quando nos cruzamos, ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um gentil aceno de cabeça, que eu retribuí. Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso e feliz de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt.

Seria o espectro do poeta que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas ocasiões. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrava num desvio lateral da estrada, subia uns cinquenta metros em direção a uma pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação no breve jardim em volta.

Walt entrava pela porta dos fundos e desaparecia.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado.

Pensei em conversar com o poeta na última vez em que o encontrei. Talvez ele até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou a hora de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
Walt Whitman


Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.

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Texto publicado no blog em 17, abril, 2010.

domingo, 6 de maio de 2012

Pintura de outono

Jorge Adelar Finatto

photos: j.finatto. Passo dos Ausentes, Rio Grande do Sul


Um leve sol espalha transparência na viva aquarela.

Caminho entre árvores na pintura da tarde de maio. Sou um traço de luz em composição à beira de um lago.

Faço parte da paisagem que o outono pintou.

Não tenho pressa. Habito a efêmera cena que brilha por um instante e depois se apagará.

A branca borboleta navega pelo ar em seu silencioso voo e atravessa o lago.

A impossível quimera: transcender o transitório, entender o suave movimento das águas, nunca mais sair desta pintura à margem do tempo.

Como a borboleta, sinto que é belo estar vivo nesse momento único, entre a eternidade do céu e o agora do lago. Sim, é belo.

photo: j.finatto


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os buquinistas de Paris

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Catedral Notre-Dame

Jamais me senti solitário nas margens do Sena.*
Ernest Hemingway

Um belo passeio, em Paris, pra quem gosta de livros, é sair a pé pelas margens do Sena. Gosto de começar na altura da Notre-Dame em direção ao Museu do Louvre, com tempo para ir parando nas bancas de livros dos buquinistas (bouquinistes), os conhecidos vendedores de livros usados.

photo: j.finatto

Eles são muitos e estão instalados ao longo dos muros nas margens do rio, com sua cor verde. Dizem que eles estão ali desde o século XVIII.

photo: j.finatto

Os alfarrabistas da beira do Sena fazem parte do cartão-postal da cidade. Seu pequeno comércio de livros velhos, cartazes e souvenirs habita a paisagem parisiense e se apresenta ao olhar atento ou distraído de qualquer pessoa, nativo ou turista. Em geral são gentis e há entre eles alguns que gostam de uma conversa à toa, dessas que fazem a gente se sentir em casa.

photo: j.finatto

O que se procura no buquinista? Ora, vamos ali buquinar, verbo que, no Aurélio, significa procurar livros em sebo, catar obras literárias. Uma busca que, às vezes, rende preciosidades. Um bouquin (livro) raro, talvez.

photo: j.finatto


Numa caixa encontrei e adquiri um pequeno e encantador exemplar do livro Une Saison en Enfer (Uma estação no inferno), de Arthur Rimbaud, publicado em 10 de fevereiro de 1945, pela Mercure de France, trigésima primeira edição. As 90 páginas estão já um tanto amarelecidas, mas em bom estado. A capa está coberta por um delicado e fino plástico incolor. O antigo proprietário tinha um carinho especial pelo volume. Um achado.

photo: j.finatto

Vale a pena passar uma tarde na beira do Sena, sem pressa, intercalando o passeio com um cappuccino e uma baguete, na mesa de um aconchegante café, na calçada de preferência, se não fizer muito frio.

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*Paris é uma festa. Ernest Hemingway. Tradução de Ênio Silveira. Editora Bertrand Brasil, 15ª edição, 2011, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Uma decisão para reescrever o Brasil

Jorge Adelar Finatto

Ministro Joaquim Barbosa, STF. Autor: Antonio Cruz, Agência Brasil.


A abolição da escravidão no Brasil, em 1888, não foi acompanhada de políticas para incluir, minimamente, a comunidade afrodescente na vida social, econômica e educacional do país. As pessoas de origem africana saíram de quase 400 anos de escravatura e foram jogadas à própria sorte, à margem de tudo, sem nenhum amparo.

O Supremo Tribunal Federal declarou, na última quinta-feira, em decisão unânime, a constitucionalidade do sistema de cotas para o ingresso de pessoas negras e pardas nas universidades. A partir do julgamento, prevalece o entendimento de que, ao contrário de ferir o princípio constitucional da igualdade de todos perante a lei, tal sistema surge para reparar a imensa dívida que a nação tem com os negros, estes sim tratados desigualmente durante séculos até os dias de hoje. O que se busca, na verdade, é corrigir a brutal injustiça que pesa contra a comunidade negra.

Na Universidade de Brasília (que foi ré na ação julgada), vinte por cento das vagas destinam-se a pessoas que se autodeclaram negras ou pardas. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ré em outra ação), trinta por cento das vagas são para negros e egressos de escolas públicas.

A política de cotas, de acordo com o pensamento dos juízes do STF, é um começo apenas e não um fim, e não deverá prolongar-se indefinidamente. Medidas como as adotadas pelas duas universidades servem para promover a igualdade, tratando-se de modo diferente um grupo humano tão discriminado e desfavorecido.

O holocausto da escravidão é dívida impagável. O que se pode fazer é trabalhar com as consequências, através de ações afirmativas como essas. O número de indivíduos negros no ensino superior, como todos sabem, está muito aquém do que seria razoável, considerando a importante presença desta comunidade na formação e na vida social do Brasil.

Um dos argumentos que mais tenho ouvido contra o sistema de cotas é o de que a melhor solução seria aperfeiçoar o ensino público e eliminar a pobreza, com o que já não só os negros mas toda a população sairia beneficiada. Para os que assim pensam, a eliminação do abismo que separa os afrodescentes dos demais virá logo ali, depois do Armagedom e do Juízo Final. Para essa gente, a discriminação racial contra o negro não existe. Séculos de escravidão, indizível sofrimento e humilhação não são nada e os descendentes podem esperar na fila mais um pouco, isto é, pelo restante dos tempos.

O julgamento é especialmente relevante para as universidades públicas federais, as mais procuradas seja pelo bom ensino que oferecem, seja em função da gratuidade.  Como o estado não consegue garantir ensino público e gratuito para todos, penso que, além das cotas, está mais do que na hora de as universidades públicas brasileiras assegurarem a gratuidade somente aos que realmente dela necessitam, cobrando daqueles que têm condições. Enquanto em nosso país o ensino superior não for gratuito para todos, quem pode deve pagar.

Não é justo que a sociedade pague o estudo daqueles que não precisam disso, enquanto se prejudicam alunos carentes (de diversas origens étnicas) que, sem condições de um bom preparo para enfrentar o exame vestibular, se veem obrigados a parar de estudar ou a ingressar em faculdades particulares, contraindo dívidas e arcando com sacrifícios desumanos.

A decisão do STF começa a resgatar o Brasil diante de si mesmo através da única maneira de se fazer justiça: promovendo-a. É um pequeno passo, um início. Um bom começo, porque representa o reconhecimento do problema por parte do estado-juiz, ao mesmo tempo em que protege ações para resolvê-lo.

sábado, 28 de abril de 2012

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A Ilha de San Michele repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima ínsula.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático, mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as cerca de 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros anos da era cristã.

Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia. Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

photo: j.finatto

Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele. Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.

As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais.

photo: j.finatto

As cores são fortes e belas como a música das igrejas ao entardecer, os concertos na via pública, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

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Texto publicado pela primeira vez em 27 de janeiro, 2010. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A fala do Arlequim

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível. De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado. Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Nem sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira. Vivo no austero. Sinto no meu segredo. Amador. Ela não me vê. Eu a vejo. A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as gaivotas.

Caminho nos meus penhascos. Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico. A vida gira nos esconsos. Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador.


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Photo: Cena veneziana.
Texto publicado em 30 de outubro, 2010.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sejamos sinceros ao pôr-do-sol

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Escrever poemas é traduzir em palavras a poesia errante do mundo. O poema é uma construção verbal que se faz com intelecto e sentimento.

Mas atenção: poetas não fazem poesia: fazem poema, que é um objeto de linguagem. A poesia existe solta no mundo, independente dos poetas. Esta a lição nunca esquecida que aprendi com o grande Heitor Saldanha¹.

Poeta é, portanto, quem vê e sente a poesia que existe livre por aí. Nem todo poeta, contudo, faz versos. A maior parte das pessoas vive a poesia em estado bruto simplesmente, sem atentar para versos e livros de poemas.

Entre os que escrevem, há poetas que custam a aparecer em livro, não obstante produzam textos de qualidade. Outros existem que têm muita pressa e cedo se lançam em página impressa, apresentando composições de escassa realização poética.

Na estirpe dos primeiros, quero destacar um autor que até hoje não publicou um livro de sua lavra. Rigoroso no escrever e no mostrar, apenas raramente nos deu a conhecer, de forma esparsa, o produto de seu trabalho.

O bardo em questão escreveu luminosos versos entre os 16 e os 19 anos, em meados da década de 1970. Um poeta adolescente de rara extração, que se construiu entre os pinheirais do planalto do Rio Grande do Sul e as movimentadas e solitárias ruas de Porto Alegre.

O ofício da medicina, talvez, fez do homem um poeta recluso. Sei que nunca abandonou a lira, apesar das ingentes exigências do consultório. Continuou a escrever. Mas o fato é que o persistente ineditismo, a esta altura, produz um vazio de difícil compreensão.

Eis alguns poemas de Paulo Ricardo Fabris².


Solidão

acho que nunca
verei o sol varar
o casarão e penetrar
na sala-de-estar
e almoçar conosco
na mesa-de-jantar

Aviso tardio

No silêncio corria
um vagão de estrelas
pela cidadezinha...
Só não viu quem não quis!

O vento é um louco

Não sei há quanto tempo...
sei que os vaga-lumes dançavam
e as amadas eram cata-ventos!

Sejamos sinceros ao pôr-do-sol

Sejamos sinceros ao pôr-do-sol
beirando o milharal
beirando a paixão que cresce
como a barba longa do luar.
Sejamos sinceros ao pôr-do-sol
beirando o cais
beirando o forte aperto de mão
com que os verdadeiros amigos nos recebem.
Sejamos sinceros
indo até o bar beber mais um pouco
até beirar a sempre-viva verdade.
Sejamos sinceros
ao pôr-do-sol
ao pôr na mesa
o coração e o sangue.

Um dia, talvez, ainda vamos ler o livro com os poemas deste autor discreto e talentoso. E será uma revelação para a poesia.

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1. Sobre Heitor Saldanha:

2. Paulo Ricardo Fabris, médico, poeta. Estes poemas foram extraídos da antologia Paisagens, Editora ML Ltda., Porto Alegre, 1977.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Jorge Luis Borges e a névoa do tempo

Jorge Adelar Finatto

photo: J.L.Borges. Fonte: Fundación Internacional JLB


Gradualmente, o aprazível universo o foi abandonando; uma insistente névoa apagou as linhas de sua mão, a noite se despovoou de estrelas, a terra era insegura sob seus pés. Tudo se afastava e se confundia. Quando soube que estava ficando cego, gritou; o pudor estóico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem menoscabo. "Não verei mais (sentiu) nem o céu cheio de pavor mitológico nem este rosto que os anos vão transformar." ¹

Jorge Luis Borges


Buenos Aires, calle Tomás Manuel de Anchorena, 1660. Neste endereço está a Fundación Internacional Jorge Luis Borges.

Aqui se encontram objetos de uso pessoal e documentos que pertenceram a Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, entre eles duas bengalas, manuscritos, fotografias, talismãs, medalhas, títulos, coisas curiosas como uma vestimenta de samurai, e livros, muitos livros, como as primeiras edições de suas obras, e publicações preciosas de outros escritores, entre elas Os Lusíadas, de Luís de Camões.

O lugar é silencioso. Os iniciados na obra de Borges vêm a esta casa numa peregrinação em busca da memória do mestre. Querem ver algum sinal, algum vestígio, saber se Borges de fato existiu ou se foi só um sonho sonhado pelo outro Borges, o fantasma que vaga pelos espelhos e bibliotecas.


photo: fachada da FIJLB (j.finatto)

Na escadaria da antiga casa, paira o seu retrato. A senhora que atende o visitante é atenciosa. Informa que no andar superior será montado, em breve, o quarto do autor de Fervor de Buenos Aires (1923), Historia Universal de la infamia (1935), Ficciones (1944), El Aleph (1949), Los Conjurados (1985), entre tantos textos. Neste espaço todos os detalhes passam pelo exame da guardiã da memória de Borges, María Kodama, viúva do escritor.

A fundação foi criada em 1988 e situa-se ao lado da casa número 1670, na qual Borges viveu com sua família de 1938 a 1943. Nela escreveu Las ruinas circulares.

photo:j.finatto
 
A funcionária esclarece que o acervo muda de tempos em tempos. Conheceu Borges em palestras, não teve contato pessoal com ele. As peças às vezes viajam para exposições em outros países.

Pergunto-lhe se há livros do escritor e sobre ele para vender. Ela providencia alguns exemplares. A Fundação não faz comércio das obras como uma livraria comum, embora ofereça alguns títulos, dentro da finalidade de preservar o legado e a história de Borges. Há livros para casos de urgência, como o meu, que - devoto inconveniente na biblioteca do mosteiro - pretendo folheá-los, cheirá-los, acariciá-los, ler trechos, adquiri-los ali mesmo.


photo: fachada da casa onde viveram Borges e sua família (j.finatto)

Jorge Luis Borges nasceu em 24 de agosto de 1899, na casa 840 da calle Tucumán, na capital da Argentina, filho de Jorge Guillermo Borges, advogado e professor de psicologia, e de Leonor Acevedo. Morreu em 14 de junho de 1986 em Genebra, Suíça, onde está enterrado no cemitério de Plainpalais. No ano da morte, em 26 de abril, casou-se com María Kodama, cerca de trinta e cinco anos mais jovem que ele. Há muito tempo María o acompanhava, tendo auxiliado Borges na escrita, na leitura, na organização de seus trabalhos, em viagens.

Em 1956, por determinação médica, o escritor não pôde mais ler nem escrever. A nuvem da cegueira invadia sua existência. Uma ironia para quem passou a vida no meio dos livros e teve nas bibliotecas seu ambiente natural. O pai do escritor, Jorge Guillermo, ficou cego ainda mais jovem do que o filho, interrompendo uma sonhada carreira de escritor.

photo: j.finatto

Jorge Luis, porém, não desistiu da leitura nem da produção literária. Registrava na memória os poemas e textos. Depois os ditava para alguém chegado a ele. Da mesma forma passou a ouvir a leitura dos livros.

A espessa névoa não o impediu de construir uma obra única. Tornou-se um dos maiores escritores do século 20.

Um escritor raro, culto, dotado de humanismo e notáveis recursos técnicos.

Um homem, como todos, contraditório, com dificuldades de lidar com o mundo real.

As contradições levaram-no a não receber o Prêmio Nobel de Literatura. A mais importante distinção dada anualmente a um escritor é concedida levando em conta critérios não apenas de mérito literário como, e talvez principalmente, políticos. Borges foi recusado, na década de 1970, por sua simpatia, no momento inicial, pela ditadura argentina e pelo governo não menos ditatorial de Pinochet, no Chile.

Mais tarde revisou suas posições, reivindicou a volta ao estado democrático de direito, insurgiu-se diante da questão dos desaparecidos na ditadura, posicionou-se contra a Guerra das Malvinas.²

O tempo passou, o escritor foi capaz de rever conceitos, mas jamais receberia o Nobel. Esse foi um grave equívoco cometido pelo comitê que outorga a premiação. Tanto ou mais do que outros, Borges merecia o galardão.

Ele não apenas construiu uma importante obra literária como teceu para si uma biografia de escritor, mosaico de fatos cuidadosamente recolhidos do cotidiano e da imaginação. A invenção, mais do que a realidade, ocupa o centro do seu universo.

Ele sentia-se inglês, embora com nome de origem portuguesa. A avó paterna nasceu na Inglaterra. Por isso, aprendeu a ler primeiro em inglês e só depois em espanhol. A condição de argentino e latino-americano lhe doía, às vezes, pelo atraso cultural.

Borges teve o tempo necessário para fazer uma obra, tornando-se um escritor universal. Era alguém a quem as idéias de morte e suicídio visitavam com alguma freqüência.

Sempre buscou amparo e refúgio nos livros.

Identificado o câncer que lhe sobreveio já octogenário, negou-se ao tratamento convencional. Saiu da Argentina. Viveu os últimos tempos em Genebra, cidade de sua devoção, ao lado de María Kodama.

Passou por um constrangimento desnecessário ao postular, e não obter, por essa época, a nacionalidade suíça. Não tinha como preencher os requisitos, tais como 12 anos de residência continuada naquele país.

Morto, foi enterrado em Genebra... Não voltou para sua Buenos Aires.

Não há talvez muita esperança na obra de Borges. Mas há uma cálida compreensão do humano destino. Existem livros, bibliotecas, espelhos, claros e sombras num casarão povoado de memória e espectros.

Uma súbita manhã costuma emergir dos textos de Jorge Luis Borges.

Ele alcançou o maior reconhecimento que um escritor pode sonhar: sua obra continua lida e amada por sucessivas gerações.

Silenciosamente desesperado, escreveu as histórias do nosso mundo pequeno, no qual se movem criaturas feitas de sangue e névoa.
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1. Trecho do texto O fazedor, do livro O Fazedor (El hacedor - 1960). Companhia das Letras, São Paulo, 2008. Tradução de Josely Vianna Baptista.
2.Informações extraídas do livro Jorge Luis Borges, El tejedor de sueños. Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 1a. ed., Buenos Aires, 2006.
Foto: J.L.Borges. Fonte: site da Fundación Internacional Jorge Luis Borges
http://www.fundacionborges.com/
Texto revisto, publicado em 22 de janeiro, 2010.