segunda-feira, 9 de julho de 2012

Everything is fine

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


A névoa passeia lá fora. O relógio de madeira, na calçada, marca quinze para as cinco da tarde. O termômetro aponta cinco graus.

Estou num café em Gramado. Uma pausa na viagem a Passo dos Ausentes. As luminárias começam a acender aos poucos. Flores de inverno povoam os vasos da rua. 

Converso com a taça de cappuccino, que sabe a canela. Contra a opinião do médico (que está bem longe), saboreio uma fatia de torta.

Afinal, neste breve momento, tudo está bem. Everything is fine, diz o cantor, na música ambiente que toca no café.

Há vida na violeta rosa que enfeita o vaso sobre a mesa. Há vida em mim, nas poucas pessoas das mesas vizinhas, em todos os que caminham na rua fria. Simplesmente estamos vivos.

As humanas marés do pequeno planeta azul.

Para que não se diga: vida é o que acontece numa galáxia distante.

Como diz a música, tudo está bem.

Uma espécie de leitmotiv da tarde de inverno.

Sou um peixe sob a fina garoa que agora cai. Um peixe feliz no aquário.

Uma manta xadrez cobre as pernas da moça na cadeira de rodas. Ela sorri ao posar para a fotografia ao lado do relógio de madeira.

Este momento de felicidade pertence à moça bonita da cadeira de rodas e ao peixe que a observa no aquário.

Ela fala com a menina que a acompanha, empurrando a cadeira. Tiram outras fotografias.

Entrementes (bonita palavra numa tarde assim), o cantor abre o coração: darling, i love you; baby, i want you; all is true.

As palavras são as mesmas de sempre. Mas o que dizer se o cantor está apaixonado e quer gritar isso ao mundo?

Afinal, tudo está bem na tarde de julho.

A moça da cadeira de rodas desaparece na névoa com seu sorriso.

sábado, 7 de julho de 2012

A busca, nos livros, do ora-veja da vida

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Na tarde chuvosa e fria, entro na livraria. A procura persistente, e vã talvez, de encontrar, nos livros, o ora-veja que falta na vida. Essa busca renova-se a cada nova obra que levamos para casa.

Escritores e poetas são seres que habitam a nossa sensibilidade. Fazem parte do que somos e do que queremos ser. Ajudam-nos a caminhar na estrada em meio a tanta treva.

Costumo levar um livro na bagagem, para diminuir o banzo e a solidão das viagens. O livro traz, em si, um pouco da casa que ficou distante. O fato de sabê-lo por perto, ao alcance da mão, no quarto de hotel, proporciona o aconchego das coisas íntimas.

Hoje os meus livros estão mais sossegados nas estantes. Mas nem sempre foi assim. Eu, que detesto mudanças de endereço, perdi a conta de quantas vezes tive de mudar de casa neste mundo de Deus.

Nunca me acostumei a esses movimentos que trocam tudo de lugar. Um sofrimento sair da casa, da rua, da cidade. No meio do caos emocional que isso traz, os livros nos acompanham, passando um sentimento de permanência.

Os livros são nossos confidentes e amigos espirituais.
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Texto publicado em 19 de julho, 2011.