domingo, 10 de fevereiro de 2013

Fados de Lisboa

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Bairro Alto, Lisboa
 

O fado é uma música boa de ouvir, cantar e recordar. É uma das razões que me fazem gostar de Lisboa, perambular pelas ruas do Rossio, da Alfama, do Chiado, do Bairro Alto e da Mouraria.
 
Nesta época de frio em Portugal, é bom comer castanhas quentes vendidas nas ruas em cones de papel. E visitar cafés como o Martinho da Arcada, inaugurado em 1782, na Praça do Comércio, à beira do Tejo.

Nele Fernando Pessoa escrevia, recebia amigos, bebia, comia, ficava só. Ainda hoje sua mesa está lá, sempre com uma flor no vaso que a enfeita. O Martinho é monumento nacional português e tem em sua direção a pessoa gentilíssima e especial que é Antóno Souza. Além de oferecer o melhor da cozinha portuguesa, é importante referência em eventos culturais.


photo: j.finatto


Há uma certa melancolia na alma portuguesa. E há também ternura, calor, esperança. Nenhuma arte fala disso tão bem como o fado.

O fado são as marcas deixadas no coração de alguém que viveu, amou, se emocionou, sofreu e não desistiu do sentimento.

Amália Rodrigues está para o fado como Fernando Pessoa para a poesia. São dois expoentes que mostraram ao mundo o modo de ser e de sentir português.

Nos últimos dias tenho ouvindo discos de jovens fadistas. Katia Guerreiro, Ana Moura, António Zambujo, Mariza, Dulce Pontes, Camané, entre eles. Essa geração de artistas dá novos ares ao gênero, sem virar as costas para a tradição.

Existe uma renovação em curso nas letras das músicas, que expressam uma visão de mundo atual, e no uso de outros instrumentos e também no jeito de cantar.

Não posso estar em Lisboa por agora. Sinto falta das noites passadas na Tasca do Chico, no Bairro Alto, a beber um vinho e ouvir o fado. Me transporto para lá nas asas das canções.

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Alma de fadista:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/11/alma-de-fadista.html

Fado, um modo de sentir o mundo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/11/fado-um-modo-de-sentir-o-mundo.html

A pátria da língua portuguesa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/01/a-patria-da-lingua-portuguesa.html
 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Heráclito e o espelho

Jorge Finatto
 

photo: j.finatto. vôo sobre o Guaíba
 

Heráclito de Éfeso (540 - 480 a.C) disse que ninguém entra ou se banha no mesmo rio duas vezes. Na aguda percepção de pensador, que não só pensava como vivia o pensamento, tudo muda incessantemente, o homem, o rio e todas as coisas.
 
Para o filósofo, tudo está em movimento. O mundo é a unidade dos opostos. Dia e noite, sol e chuva, doença e saúde, agudos e graves, macho e fêmea, inverno e verão, guerra e paz fazem parte de um todo. Um só existe diante do seu contrário. 
 
Heráclito acredita, porém, que um pensamento sábio governa tudo. Há uma justiça no cosmos que orienta o destino dos seres e dirige a vida. Os eventos ocorrem na hora certa.
 
Nós não somos sempre os mesmos, mudamos. O nosso corpo muda constantemente através das células, o pensamento ganha altura por meio da contemplação, da meditação e da ação.

Esperemos, digo eu, que as mudanças nos levem a ter mais sabedoria e mais bondade (que a maldade, o seu oposto, está sempre de prontidão e agindo).
 
O rio não é o mesmo. O tempo escorre, eterna mutação, a alteridade sempiterna das águas, o vôo premonitório das aves.
 
Nada é o mesmo. Não paramos de mudar. Só na morte não há transformação. O outro que vai ali adiante sobre o antigo esqueleto somos nós.
 
Às vezes, diante do espelho, pergunto quem é aquele que me observa do outro lado. Será mais feliz do que todos os que vieram antes dele? Estará mais só? Será mais humano?

Ninguém se vê duas vezes do mesmo modo no espelho. É sempre outro que está lá.
 
Essa manhã ele nem sequer me olhou nos olhos. Tomou café, escovou os dentes, fez a barba automaticamente, passou a mão nos cabelos e foi por seus caminhos. Passou o dia distante de mim. Longe, longe. Um perfeito estranho mora no espelho. 
 
Num momento em que ele se distraiu, olhei através da janela do gabinete e vi um pássaro atravessando o céu sobre as águas do Guaíba.

E vi belas nuvens brancas cruzando o rio. À medida que passavam, sua forma, sua cor e seu interior foram mudando, até que veio a chuva. O outro sentiu desalento. Eu fiquei feliz, porque a chuva me dá felicidade. Sim, felicidade.
 
É impossível deter esse rio, essas nuvens, esse pássaro, esse outro que me escapa no fundo do espelho e teima em me levar por caminhos onde não quero ir.

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Dados sobre Heráclito em Dicionário dos Filósofos. Denis Huisman. Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2004.
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