quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hokusai e Drummond, passeio na livraria

Jorge Adelar Finatto


xilogravura de Hokusai: A grande onda de Kanagawa. Fonte: Wikipédia
 

A livraria é uma coisa viva. Cada livro é algo pulsante, todos têm um coração. O seu coração.

A internet está aí com toda a força. E, no entanto, os livros de papel não caem no esquecimento. As livrarias estão cheias de títulos e leitores. Pelo menos as grandes. Não sei o que se passa com as outras.

Na tarde nublada de Porto Alegre, resolvi visitar a livraria do bairro. Estou aqui entre as estantes, caminhando no bosque. Tem gente que compra livros e lê por obrigação. Eu leio por necessidade espiritual, encantamento, interesse estético, busca-vida.

Exposição de livros 
 
Li no jornal que as livrarias maiores estão cobrando para expor os livros. Cada espaço tem um valor, conforme a localização. A vitrine é o lugar nobre. Os demais suportes têm preços correspondentes ao destaque, à visibilidade no ambiente.
 
Está muito difícil a vida de autor novo ou desconhecido. Em geral, após o lançamento, a obra fica exposta por poucos dias e logo é retirada. Desaparece. E o escritor/escritora ficam amargando a frustração de não ver mais seu trabalho ao alcance do leitor, depois de ter conseguido - a duríssimas penas - o milagre da edição.

A oferta de autores é muito elevada e a fila anda, como se diz. Só que anda a uma velocidade terrível e sem noção. Enormes dificuldades se apresentam para divulgação das obras nos meios de comunicação. Não há mais espaço - com poucas exceções - fora do estrito interesse econômico da empresa.

Faz tempo que o mundo do livro perdeu a face humana e artesanal. Tornou-se um comércio como outro qualquer, feroz e frio.

Publicação

Os critérios que regem a publicação obedecem, quase sempre, a valores de mercado.  A margem de risco, isto é, de aposta em autores iniciantes, fora de catálogo, é cada vez menor.

Tenho dúvida se um autor como Guimarães Rosa seria editado atualmente, se fosse jovem. Isto porque a qualidade literária conta muito pouco e o senhor Rosa é considerado um autor difícil, desses que exigem maior entrega do leitor. Hoje o que importa  é se o escritor é bom de marketing. O resto é indiferença.

Não sei que futuro espera escritores que são bons de texto, mas não conseguem apoio de uma editora. Talvez não haja futuro algum.

Talvez o futuro da escrita esteja no livro eletrônico. No presente, a nuvem virtual é a saída para os que querem mostrar algo.

Sugestão: se cada editora fizer uma seleção anual para publicar, ao menos, um livro pelo valor literário, fora do conceito best-seller, já ajudaria.

No café da livraria

O que eu procuro entre as estantes, onde estou agora, é o prazer da leitura. Procuro bons autores, esses que resistem sem se entregar ao dono do inferno.

No café da livraria, é hora de folhear os livros colhidos no bosque. Numa mesa próxima, vejo uma leitora com rotundas lentes nos óculos virar as páginas de um volume de matemática. Faz isso com visível prazer.

Vida sexual dos leitores

Na mesa ao lado da minha, duas mulheres conversam sobre retiro espiritual, dieta, cuidados com a beleza e vida amorosa.

Ouço o que dizem não porque quero, mas porque elas falam como se estivessem em casa, sem nenhuma cerimônia e nenhuma timidez.

Uma delas se saiu com esta: "Estou tendo uma excelente vida sexual comigo mesma". Deve ser um tipo de self-service. Que tempos!

Confissões de Minas

Com esforço, volto aos meus livros. Confissões de Minas¹, de Drummond, está entre os eleitos de hoje. As primeiras páginas são daquelas de não largar mais o volume. "Simples traços de pena - mas tão densos, tão firmes e tão elegantes que nunca mais se apagarão", afirma Antonio Candido sobre a obra.


gravura Fuji Vermelho, de Hokusai. Fonte: Wikipédia


Pinturas de Hokusai

O outro escolhido é Hokusai, mountains and water, flowers and birds² (Hokusai, montanhas e água, flores e pássaros), livro com reproduções de imagens do grande mestre da pintura e da gravura japonesa Katsushika Hokusai (1760 - 1849). Vou viajar nessas pinturas. Uma maravilha.

Arte e navegações

A arte faz falta. É difícil viver longe dessas coisas que nos ajudam a prosseguir viagem.

Com a arte navegamos em nossos pequeninos barcos sobre a imensidão das ondas.
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¹Confissões de Minas. Carlos Drummond de Andrade. Cosac Naify, São Paulo, 2011.
²Hokusai, mountains and water, flowers and birds. Matthi Forrer. Prestel Publishing, New York, 2011.
 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ossos do vento

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. estrada Nova Petrópolis a Picada Café

 
Um silêncio dentro do silêncio
                             um novelo desfiado no vento
                                                      um arabesco gravado no tempo.
 
Caminhos dos Campos de Cima do Esquecimento. Vou pela curva da estrada, à sombra verde dos plátanos. Tão bom andar assim na beirada sinuosa dos precipícios, ouvindo o claro silêncio das nuvens.
 
No Contraforte dos Capuchinhos, visito Claudionor, o Anacoreta, que não via há muito tempo. No mosteiro onde vive, passei um dia em recolhimento espiritual na sua caverna mística. Enquanto olha - lá de cima - o distante Vale do Olhar, Claudionor me diz:
 
"Tem dias que escuto meus ossos sacolejando no bornal de Deus.
 
"Um dia, quando eu for só silêncio, Ele virá me buscar.

"Reunirá meus restos de humanidade, me carregará nos braços para outro lugar onde vou renascer. Sim, quero nascer outra vez, uma nova oportunidade. A vida é muito escassa. Vivi anos, décadas, decifrando o invisível em salas solitárias, folheando livros obscuros, tateando a sombra, orando.
 
"Na existência que me espera, vou passar os dias nas estradas. Um amanhecer em cada lugar, um amigo em cada canto, um olhar de cada vez."

Voltei a Passo dos Ausentes sentindo o cheiro da uva recém colhida dos parreirais. Comprei na beira da estrada dois cestos de vime cheios do bom fruto.

Volto mais leve - e menos só - depois de ter conversado com Claudionor.