sábado, 4 de maio de 2013

A vida breve dos pássaros

Jorge Adelar Finatto

Saíra-preciosa (Tangara preciosa) photo: j.finatto
 
A observação das aves e das nuvens é uma das atividades que mais me cativam. Nesse sábado, raro leitor, vamos falar sobre eles, os pássaros.

Todos os dias eles vêm à sacada do escritório comer as frutas que lhes sirvo. Às vezes reúnem-se vários ao mesmo tempo nos galhos das árvores que quase encostam na casa. Em seguida, vão aos potes. Nunca contei, mas são dezenas durante o dia.

De vez em quando, tenho de repor as porções. No entorno, há árvores frutíferas que também fornecem alimento para eles.


Sanhaço-cinza (Thraupis sayaca) photo: j.finatto

As aves que visitam os potes no escritório preferem a banana. Não há entre elas uma só que não goste. Apreciam também mamão, maçã, cáqui, laranja, figo, melão, etc. Mas banana tem que ter sempre e é a que mais sai.

Ter pássaros por perto é um encanto. A observação cotidiana desses seres é fonte de lições e inspiração. Por exemplo, aprendi que eles são felizes ao natural. Vivem com o que tem e sentem-se bem assim. Não querem mais do que a natureza lhes oferece. Existem. A vida é breve. Ponto.

Saí-azul fêmea (Dacnis cayana) photo: j.finatto

Não permitem que a metafísica e as encucações lhes roubem instantes preciosos.

A vida, para os pássaros, é bela demais para se perder com preocupações menores, raivas, angústias desnecessárias, invejas, ruminações sem sentido.

Pouco antes de amanhecer, eles soltam os primeiros gorjeios. Ao clarear, vão-se ao mundo. De ramo em ramo, de flor em flor, de fonte em fonte, de céu em céu, cuidam de viver.

Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) photo: jfinatto

Pode ser que tenham lá seus momentos de reflexão em torno da finitude do ser, da consumação do tempo, da origem e da finalidade da existência. Mas isso não deve durar mais que o  breve momento de descanso num galho, no intervalo do vôo.

Saí-azul macho photo: j.finatto

Os pássaros tratam de viver, ao contrário de nós, ocupados demais com a morte.

Eu bem que tentei olhar a vida como eles, mas ainda não consegui. Talvez porque me faltam asas.

Saíra preciosa photo: j.finatto

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Identificação das aves: Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre, ao qual agradeço.
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O cavaleiro invisível

Jorge Adelar Finatto


Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832 - 1883)


Um homem só, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido da realidade.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcineia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida cotidiana é insuficiente. Falta vida à vidinha.


Dom Quixote, por Gustave Doré

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.

Montado no magro Rocinante ele vai, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco e meio sensato como o amo, montado em seu jumento.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre. 

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós, à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote.

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¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações: Wikipédia.Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.