quarta-feira, 29 de maio de 2013

Recém-nascido resgatado com vida

Jorge Adelar Finatto


photo: AFP
 

Um bebê recém-nascido foi resgatado com vida da tubulação do esgoto de um prédio na China. O fato aconteceu na cidade de Jinhua, na província de Zhejiang. Conforme ontem noticiado, a mãe seria uma jovem solteira de 22 anos, que deu à luz e, após, a criança teria sido arrastada com a descarga do banheiro.
 
Moradores do edifício ouviram choro nos condutos e alertaram os bombeiros. A criança - um menino - estava entalada no cano de apenas 10 centímetros de diâmetro. Os bombeiros tiveram de cortar parte do conduto no qual estava, levando-o em seguida ao hospital, onde os médicos retiraram o bebê, que agora está na incubadora.

A polícia ainda não sabe os detalhes do caso e desconhece a extensão da responsabilidade da mãe. A jovem explicou que escondera a gravidez por temor.
  
A lei do filho único, em vigor na China desde o final da década de 1970, para controlar a natalidade em face da superpopulação, impõe sanções, como multas, a casais que têm mais de um filho. Isso fez aumentar o número de abortos e de abandonados após o nascimento, sendo as crianças do sexo feminino o alvo principal.
 
O fato aconteceu na China, mas ocorre, infelizmente, em toda parte. É das coisas mais tristes que podem suceder. Não me refiro apenas ao sofrimento do bebê, vítima indefesa, mas ao trauma da própria mãe, não raro de pouca idade, em situação de profundo abandono e perturbação mental.
 
Pelo que se pode ver nas manifestações pela internet, há uma exigência de punição em relação à mãe (o pai, neste caso, como em muitos outros, é desconhecido).
 
É compreensível a dor e a revolta que um fato como esse provoca. Mas é preciso, antes do julgamento sumário da mãe, da condenação moral sem direito a recurso, tentar entender as circunstâncias que cercam o evento (até o momento pouco se sabe).
 
Na minha visão, é necessário buscar explicações para o abandono cada vez mais freqüente de crianças recém-nascidas, aqui e acolá. 
 
O abandono de bebês revela a face cruel da sociedade em que vivemos. É, a princípio, um problema de quem comete o terrível ato, mas é, também, uma sinalização de que a sociedade está muito mal. Para além da idéia da punição, simplista e que nada resolve, que quer apenas infligir castigo a quem pratica o fato, é preciso conhecer de perto a situação em que vivem essas gestantes.

A solução, com certeza, não está no Código Penal. Existe por trás, quase sempre, uma realidade de rejeição familiar, afetiva e social que, dependendo de cada pessoa, pode levar a um gesto de loucura.
 
O pai do recém-nascido abandonado não costuma estar por perto, aliás não está nem aí na maioria das vezes, escondendo-se como se não fosse com ele.

Em vez de sair pedindo a cabeça da mãe, é conveniente examinar com cuidado, sob pena de confundir frios criminosos com pessoas desesperadas, entregues à própria solidão, sem nenhum preparo psíquico e material para enfrentar a situação em que se encontram.

Não se faz justiça nem se previne o mal com ódio. O respeito ao próximo, de que tanto está carente nossa sociedade, é, ao lado do amor, o caminho para evitar que estas tragédias aconteçam. E para remediar as conseqüências, quando elas ocorrem.
 
O nenê chinês passa bem, graças a Deus, haverá de sobreviver. Quem sabe ajudará a China a rever a sua política de controle da natalidade, humanizando-a. E cabe a todos os países, a toda sociedade, tratar melhor as gestantes em situação de desamparo, dando-lhes o imprescindível apoio, importante para elas, para o nascituro e para a vida em comunidade.
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A volta ao mundo num barco de papel

Jorge Adelar Finatto


Arroio Tega no Moinho da Cascata, Caxias do Sul.
photo: Nereu de Almeida, ClicRBS

 
O Arroio Tega passava no fundo do quintal da casa onde nasci. Entre os pinheiros e a horta, me iniciei na arte da navegação em barcos de papel, que construía com folhas de caderno escolar.
 
O Tega era uma extensão do nosso pátio e um caminho de água doce que se ia pelo mundo. Nele partiam as minhas pequenas embarcações em viagem por aquelas águas ligeiras e claras.

Um dos possíveis significados da palavra tega, no italiano antigo, é pragana (barba ou fios de espigas de cereais), que ondula ao vento, acepção tão em acordo com a sinuosidade da correnteza. Um outro é vagem.

Lá em casa a natureza fazia parte da vida. Além de bichos comuns (na época) como galinhas, cabritas, peixes, gato, cão, havia também um macaco. E uma vez apareceu por lá um pingüim que o avô trouxe da praia de Torres.

O nosso pingüim deu-se muito bem no clima temperado da serra. Gostava de ir caminhando ao lado do avô até a Praça Dante Alighieri, coração da cidade. O assunto virou destaque numa matéria especial do velho jornal Correio do Povo, numa página perdida do final da década de 1950.
 
De tantos barcos de papel que soltei no Tega não sei o destino. Talvez algum tenha conseguido seguir o trajeto até o Rio das Antas, depois ao Taquari, chegando mais tarde ao Guaíba, à Lagoa dos Patos e, por fim, ao mar-oceano. 
 
Tinha eu seis anos quando chegou a hora de dizer adeus e partir das margens do Tega. Nunca mais voltei ao arroio em que me tornei navegador.

A vida me levou por águas distantes e revoltas. Às vezes fui feliz como um peixe. Outras me senti triste e só como um capitão que perdeu a bússola e se extraviou no mapa rasgado.
 
De qualquer forma, de tanto ver o arroio passar e ir ao mundo, ganhei gosto de conhecer outros lugares e gentes. E o mundo é uma viagem de onde nunca mais se retorna.
 
Ouvi dizer que o Tega, importante patrimônio ambiental da cidade, onde brincávamos e perto do qual, nos fins de semana, as famílias colocavam mesas para as refeições e encontros, está agora poluído, quase morto. Mas ouvi, também, que estão fazendo obras de tratamento de esgoto e outros efluentes para livrá-lo da morte atroz.
 
Não pode morrer o arroio que fornece água boa de pura nascente rochosa, que foi cenário inesquecível das brincadeiras de meninos e meninas antigos que ali viveram talvez os melhores dias de suas vidas.