sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Adelar Finatto 

photo: Walt Whitman, em 1887 . Autor: George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.


O trabalho mudou minha vida de lugar  muitas vezes. Faz muitos anos morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, duas escolas, um hospital, algumas ruas e casas e pouca coisa mais. Em volta, a mata. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de chão, solitárias e com aroma silvestre.

Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio, eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os altos plátanos que se erguiam nos dois lados da estrada, apareceu um homem. Quando nos cruzamos, ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um gentil aceno de cabeça, que eu retribuí.

Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso e feliz de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt.

Seria o espectro do poeta que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas ocasiões. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrava num desvio lateral da estrada, subia uns cinquenta metros em direção a uma pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação no breve jardim em volta.

Walt entrava pela porta dos fundos e desaparecia.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado.

Pensei em conversar com o poeta na última vez em que o encontrei. Talvez ele até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou a hora de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
                                                      Walt Whitman

Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.
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Texto revisto, publicado no blog em 17, abril, 2010.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ventos da primavera

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
 
A primavera traz, nas malas recém-abertas da longa viagem, roupas leves e coloridas. Nos últimos dias tem chovido e faz frio. Os inícios da primavera eu conheço bem. Por isso não me espantam os ventos andarilhos de outubro quase novembro. Quando se aproxima o Dia dos Mortos, 02 de novembro, é sempre assim.

Finados sem vento não é Finados.
 
Acordei no fim da madrugada e estou no escritório. Escuto música, leio alguma coisa antes que amanheça. Ainda é noite nas montanhas, o verde das árvores ainda dorme no escuro. Nenhum pássaro, nenhum canto. É hora de pálpebras fechadas. Mas a luz não tarda e todos os olhos se abrirão novamente para a vida e seu difícil ofício, a vida e seus mistérios.
 
Por mais que se queira ficar imóvel (tem dias que tudo que se quer é ficar calado num canto, mastigando silêncio, ruminando assombros, observando o invisível ), os ventos de primavera nos empurram, exigem movimentos, atitudes, escolhas, passos.
 
Se somos uma obra em progresso, toda vontade de inércia é uma ilusão. É isso que tenho de me lembrar a cada manhã.

Nunca é fácil sair do aconchego do ninho, mesmo depois de ganhar penas e envergar asas. Os primeiros e os últimos vôos do dia são um salto sobre abismo. Penso, às vezes, que viver é contornar precipícios.

O que resta é repousar algumas horas por noite, acordar, lavar o rosto, vestir a roupa e ir pra estrada. Partir na dança dos abismos.

As horas de contemplação são raras e compradas a peso de diamantes.

Por isso, bem-vindos aqueles que vêm a esta página em algum momento do seu dia. Espero que não saiam de mãos vazias.

O melhor a fazer a esta hora inaugural, quando a claridade emerge do leste e aponta entre os galhos e as folhas, é sair com esses ventos que cheiram à flor, sair com eles pelo amanhecer afora.

Deus é grande e viver é sempre bom.
 
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A grafia que utilizo, como se percebe, é a antiga, que ainda está em vigor, juntamente com a do acordo (?) ortográfico, que, ao que parece, fez água. Sobre o assunto:
O acordo ortográfico fazendo água:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/03/o-acordo-ortografico-fazendo-agua.html