quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tara McPherson, a persistência do coração

Jorge Adelar Finatto


 A artista desenha figuras femininas e masculinas com um buraco no peito em forma de coração. São os rompimentos amorosos, as duras perdas, o dilaceramento dos afetos, num mundo que se esforça por afastar o sentimento da vida cotidiana.


Sempre me surpreende a capacidade das pessoas de fazer arte, apesar da estrovenga em que o planeta está mergulhado, mercê do grande empenho destrutivo dos senhores do poder e do dinheiro em todos os países do mundo.

Conheci uma breve mostra do trabalho da americana Tara McPherson. Ela nasceu em São Francisco, Califórnia, em 1976.

Quando surge uma artista como Tara, em condições de observar as coisas do mundo e traduzi-las para nós em forma de arte, devemos agradecer a Deus por isso.

A absurda cultura do consumo, a imposição de personalidades patéticas como referência de valor artístico e sucesso midiático, deixam pouca margem ao pensamento crítico e criativo. É raro alguém desenvolver criatividade em meio a padrões tão rígidos de valorização do pueril.
 
 
Tara desenha figuras femininas (e, às vezes, masculinas) com um buraco em lugar do coração no peito. São os rompimentos amorosos, as duras perdas, o dilaceramento dos afetos, num mundo que se esforça por afastar o sentimento do cotidiano.

Os corações ausentes das musas podem significar, também, entrega, estão batendo em outra parte, no corpo dos seres amados, nessa viagem incandescente e visceral pelo cosmos  à procura do outro que nos enxergue na multidão, nos acolha e nos salve das geleiras da solidão.

Às vezes, a figura feminina flutua leve pelo ar, com aquele buraco no lugar do coração, numa espécie de felicidade.


Em outras pinturas, os corações femininos aparecem sangrando.

A artista desenvolve uma estética pop com raízes na história da pintura universal. Não despreza a tradição, pelo contrário, aproveita-a. E segue seu caminho.

Tara costuma falar do amor aos amigos e do respeito ao próximo comos valores essenciais em sua vida. Gosto muito disso, pois revela um ser humano sensível ao seu semelhante e não preocupado apenas com o próprio umbigo.

Visitei o site oficial dela e o coloquei entre os meus favoritos.
 

A obra em construção de Tara McPherson revela traços em busca de sentimento, claridade e beleza. 
 
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Reproduções de pinturas de Tara McPherson a partir do site oficial da artista:

Leia entrevista com ela na revista Zupi:
http://www.zupi.com.br

Texto revisto e atualizado, publicado antes em 6 de agosto, 2011.
 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bullock e Clooney perdidos no espaço

Jorge Adelar Finatto

Sandra Bullock, no filme  Gravidade. photo: divulgação
 

Gravidade é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, com roteiro dele e de Jonás Cuarón, estreou em outubro passado. Tem nos papéis principais os atores George Clooney e Sandra Bullock, que interpretam astronautas num vôo nas cercanias da Terra, com a missão de reparar o telescópio Hubble.

As coisas transcorrem normalmente. O comandante Matt Kowalski (Clooney) e a engenheira biomédica Ryan Stone (Bullock) trabalham fora da espaçonave, quando, de repente, uma chuva de detritos provoca a destruição da nave e a morte dos demais tripulantes. Inicia-se então uma terrível luta pela sobrevivência por parte de Matt e Ryan.

A construção das imagens é impressionante. A seqüência das cenas nos leva ao pleno sentimento de desamparo causado pelo fato de se estar a cerca de 400 km acima da Terra, sem qualquer comunicação com os técnicos da Nasa. Os dois viajantes estão perdidos no espaço, soltos no vácuo, sem gravidade, numa região escura, povoada de silêncio. Longe do mundo num ambiente inóspito.

Ali um pedaço de metal, submetido à luz solar, chega facilmente a 260º Celsius, obrigando a utilização de espessas luvas e isolantes térmicos. Na região de sombra, a temperatura despenca para -100º C.

Nesse território obscuro, as estrelas são remotos pontos de luz. A única coisa que brilha, em suaves cores, é o nosso planeta, que surge como um doce jardim em meio ao abismo celeste. Ryan e Matt têm apenas um ao outro.

O resto é solidão e isolamento.

Bullock e Clooney. photo: divulgação

As imagens em três dimensões transportam o espectador àqueles confins, fazendo com que se sinta também perdido, olhando com profunda nostalgia a distante Terra. O cenário é maravilhoso e assustador.

Os astronautas estão à deriva no espaço. Náufragos do infinito, sem galho ou corda em que se segurar. Com a proximidade do fim do oxigênio armazenado no interior do equipamento e com a iminente perda de propulsão que lhes permite deslocamento, a situação torna-se dramática.

Isto é apenas um pálido rumor do que acontece. Tem muito mais.

A história faz pensar tanta coisa.

Entre os possíveis sentidos que o drama sugere, está o da imensa nuvem de solitude e precariedade que cerca aqueles que estão fora do nosso planeta, presos por um fio à vida. Fica a forte sensação de que, sozinhos, não vamos a parte alguma.

Precisamos uns dos outros em nossa precária condição de seres frágeis e pequenos num universo tão vasto quanto difícil. A aventura de viver na Terra e de explorar o espaço exige coragem e solidariedade. Não temos mais do que o outro, que, mais do que algoz, pode ser a nossa inspiração e salvação.

O filme lembra que talvez pior do que passar dificuldades aqui no planeta azul, cercado de gente por todos os lados, é ficar abandonado lá em cima, onde viver é, nas atuais condições, impossível.