segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O barco abandonado

Jorge Adelar Finatto
 
 
Bote Abandonado, 1850. Frederic Edwin Church.
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid. photo: j.finatto
 

Tive vontade de entrar nesse barco da pintura e sair por suas águas em viagem. Ou melhor, continuar a viagem, já que amanhã é dia de levantar âncora e ir adiante. Hoje foi dia de visitar o Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. Terminei a visita ao acervo permanente que comecei e não completei em 2007. Nos próximos dias começa no museu uma exposição de Cézanne que promete.
 
O Bote Abandonado do pintor americano Frederic Edwin Church (1826-1900) mexeu comigo.

Acho que vi nele transfigurado um momento de grande solidão do artista. Ou a minha própria solidão. Ou as duas. Sei lá. É uma solidão de menino triste, olhando o outro barco lá adiante com gente dentro, conversando e passeando. Sentimento, sentimentos.
 
Faz um frio seco, em contraste com os quase 35ºC de quando saí de Porto Alegre. Estou hospedado numa rua chamada Calle de Los Libreros. Se disser que escolhi a dedo o lugar, estarei desprezando o acaso, que foi quem de fato me trouxe a este hotel. Bem, o fato é que, mesmo estando a menos de 100 metros da Gran Vía, aqui é silencioso.
 
E a ruazinha é cheia de livrarias, um paraíso para qualquer bibliófilo. Encontrei dois livros do poeta catalão Salvador Espriu (1913-1985), uma descoberta recente e rara de que já falei no blog.
 
São edições bilíngües, catalão-espanhol. Um dos livros intitula-se La Piel de Toro, Editorial Lumen, Barcelona, 1983, tradução ao espanhol por José Agustín Goytisolo. A maioria das páginas ainda está grudada, vou procurar uma espátula ou abra-cartas para abri-las.
 
Há os seguintes versos de um poema, numa folha livre, que dizem:
 
Pouco a pouco saíam
do porto esguias barcas
de esperança.
 
Sim, que sejam carregadas de esperança as barcas que partirem do nosso porto. 

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photo de abertura do blog: grafite na estação de trem de Montreux

Os passos do andarilho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.es/2013/12/os-passos-do-andarilho.html
 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

La vie est belle

Jorge Adelar Finatto

Montreux. 28.01.2014. photo: j.finatto
 

Sim, a vida é bela. A frase não é nova, mas continua atual. Foi o que senti quando vi o Lago Léman com as montanhas nevadas dos Alpes ao fundo.
 
É bela a vida, mesmo quando uma vaga tristeza aparece no dia de inverno.  Mesmo quando sabes que não verás mais os olhos azuis da mulher que te fez feliz só por existir e pelo sorriso que te ofereceu como um presente em plena tarde na beira do lago azul.

Montreux. photo: j.finatto

A vida é bela apesar dos maus e dos loucos que fazem da vida dos outros muitas vezes um inferno.

É bela, sim, a vida, como o Lago Léman com os Alpes cobertos de neve em Montreux.

O que mais me chama a atenção na Suíça, além das belezas naturais e do alto padrão de vida, é a elegância moral das pessoas. São muito educadas, mas não afetadas. Gostam de ajudar os semelhantes, sejam pessoas do lugar ou estrangeiros, na rua, no trem, em qualquer lugar.

Montreux. 28.01.2014. photo: j.finatto *

Em Sierre, eu andava pela cidade como ilustre desconhecido, com uma câmera na mão, catando coisas, fazendo anotações. Pois quase toda vez que passava por alguém na calçada ou num café era cumprimentado como se fosse do lugar, da família. Porque eles são assim.

Presenciei atos de civilidade e respeito neste país que me fazem acreditar que um dia o ser humano poderá dar certo no resto do planeta. Deixaremos de nos tratar como inimigos e nos olharemos com estima social, como se fosse destino de todos ser feliz, e não só de uns poucos.

Na Suíça a cordialidade é certa como a precisão dos relógios e a pontualidade dos trens.

Montreux. photo: j.finatto
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*La fenêtre d'une chambre. Grand Hôtel Suisse Majestic, Montreux.