segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A viagem na viagem

Jorge Adelar Finatto
 
cegonha saindo do ninho. Salamanca, Espanha. photo: j.finatto

Quando o caderno de viagem está completo e não há mais espaço para escrever uma só palavra, é sinal de que a travessia está no fim. É hora de voltar. Cumpriu-se o tempo de vôo e de paisagens vistas da janela.
 
As mais de três mil photos enchem o computador. As duas malas estão cheias de livros. Um mês passou voando. Meu prazo de validade para quartos de hotel, estações de trem, aeroportos, check-in, check-out, táxis, chegou ao limite.
 
É preciso, como a ave, ao ninho regressar. E de lá continuar a viagem.
 
Para mim Portugal é sempre porta de entrada e de saída da Europa (sim, o velho e combalido continente que a senhora Angela Dorothea Merkel, no melhor e no pior estilo germânico de ser, conduz com mãos e garras de aço).

Cada vez mais vivo esta verdade clara como o sol, que Fernando nos revelou no seu Livro do Desassossego: a nossa pátria é a língua portuguesa.
 
Quiseram os fados que o único país da América a falar português fosse o Brasil. Somos um estranho país americano. Poderia ter sido o espanhol, o holandês, o francês, o inglês. Mas não.

A árvore plural, colorida, cheia de referências culturais e étnicas que é o Brasil, escolheu a língua de Camões para ser.
 
Operou-se entre nós o milagre da unificação do imenso território em torno de uma única língua, essa que nos lambe desde o berço: o português.
 
Desde o mais remoto povoado amazônico até a rua mais erma da pequena cidade do Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul, entrando no Uruguai, temos o mesmo idioma.
 
A árvore não pára de botar ramos, folhas, flores, frutos e espinhos. País formado por índios, colonizadores e imigrantes, muitos guardam ainda a memória de outras línguas, outros falares. Mas o português é a pátria de todos.
 
O Brasil continente pensa, sente, escuta, fala, lê e escreve português desde 1500. 200 milhões de almas nas pegadas do Padre Vieira e de Guimarães Rosa.

O que nos falta talvez é dar as mãos aos países lusófonos - todos darem-se as mãos - para juntos alcançarmos uma projeção econômica e cultural única no mundo. Naturalmente, sem essa bobagem de acordo ortográfico, que mais nos separa do que nos aproxima.

Deus nos livre da síndrome da mesquinharia, da inveja, do ciúme e da vileza cultural entre nossos países, e do abismo do grande umbigo, buraco negro das augustas vaidades que corrompem a nossa "mátria" comum.

Ando mesmo com saudade de ouvir Baden Powell tocando seu violão, dedilhando maravilhas como Pastorinhas, Inquietação, Molambo, Dora e todo o resto.¹  Ando mesmo precisado de caminhar pelas ruas escondidas de Passo dos Ausentes.
 
É hora de voltar, raro leitor. E começar outra viagem. A viagem na viagem.

A hora do antropófago, da deglutição de tudo o que foi visto, percebido, sentido. Tempo da intuição, da elaboração, da criação.

O eterno retorno ao pajé Oswald de Andrade.² 
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¹Disco Lembranças, ano 2000.
²Manifesto Antropófago, 1928. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Livros perdidos e achados

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Eugénio de Castro


Fiz uma relação de livros de escritores portugueses antes de sair do Brasil. São obras que não encontro na Terra de Vera Cruz.  Achei quase todos, com duas exceções. Lisboa, livro de bordo (crônicas, 1997), de José Cardoso Pires (1925-1998), e Constança (poesia, 1900), de Eugénio de Castro (1869-1944).
 
Percorri cerca de 20 livrarias e alfarrabistas, entre o Porto e Lisboa, e nada. Na terça passada encerrei a busca visitando velhos alfarrabistas do Bairro Alto. A resposta foi a mesma: não existem mais.
 
Esses livros não podem faltar na livrarias.

photo: José Cardoso Pires

A Lisboa de Cardoso Pires é a cidade vista a partir da alma do grande escritor, capaz de traçar notáveis sínteses em poucas linhas com seu olhar penetrante e sensível.
 
Constança foi uma indicação de Don Miguel de Unamuno quando li, ainda em Salamanca, o seu Por tierras de Portugal y de España.* Diz o genial e valoroso filósofo espanhol:
 
Portugal parece a pátria dos amores tristes e dos grandes naufrágios.
 
(...) nenhuma obra (de Eugénio de Castro), a meu entender, e sobretudo a meu sentir, sobrepuja Constança, publicada em 1900. Constança é sua obra mais profundamente portuguesa, aquela em que sua alma conseguiu vibrar mais em uníssono com a alma de seu povo. É como se sua mão ao escrevê-la se houvesse convertido na arpa eólica de seu povo, vibrando ao sopro da alma deste. A lírica de Constança é a mais alta e mais nobre lírica, aquela que, sendo profundamente coletiva, é, por isso mesmo, profundamente pessoal.
 
Constança foi a mulher do infante D. Pedro, aquele da infeliz Inês de Castro, cujos trágicos amores imortalizou Camões.

Vindas de Don Miguel, imaginem o significado destas palavras.

Aí estão as duas sentidas faltas na mala dos portugueses que levarei comigo.

Manuel António Pina. Wikipédia

Nunca entendi por que estamos tão distantes da literatura e da cultura dos países de língua portuguesa. Vivemos no Brasil uma espécie de isolamento dentro da lusofonia.

Autores como José Saramago, Mia Couto e, depois, António Lobo Antunes começaram a desembarcar em terras brasileiras nos últimos anos. É muito pouco diante da pluralidade de autores lusófonos.

Em Portugal, percebo que há também um distanciamento do Brasil, pouco se conhece.

Estou levando a mala pesada de livros, mas o esforço compensa. Entre outros, levo comigo Lobo Antunes, Alexandre O'Neill, Eugénio de Andrade, Agostinho da Silva, Herberto Hélder, Maria Gabriela Llansol, J. Cardoso Pires, Fernando Pessoa, J. Saramago, Maria Velho da Costa, Ruy Belo, Vitorino Nemésio, Manuel António Pina, Eduardo Salavisa.

Na Suíça consegui encontrar as obras de Rilke que perseguia. Em Madri, completei a biblioteca básica de Ortega y Gasset, graças à generosidade da Fundação Ortega y Gasset que me repassou, sem cobrar por isso, volumes fundamentais do filósofo.

Dos espanhóis tratarei em texto próprio. Os discos também merecem um post à parte.

De que vale, afinal, uma viagem, se não for para procurar aquilo que nos faz falta em nossa paisagem espiritual?  
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*Por tierras de Portugal y de España, Miguel de Unamuno, Biblioteca Unamuno, Alianza Editorial, Madrid, 2011. Tradução do trecho acima: J. Finatto.