segunda-feira, 4 de abril de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
Como habitar o dia sem freqüentar a morte (I)
Jorge Adelar Finatto
| photo: jfinatto |
Que a escrita seja sempre um ato de
vida e esperança. Clara luz de uma estrela
atravessando um tempo mau.
& & &
Em vez de
proibir os beijos com batom (no túmulo de Oscar Wilde, Cemitério de
Père-Lachaise, Paris), deviam acolher esses beijos, recebê-los como uma
dádiva, como luminosa manifestação de carinho a quem, em vida, foi condenado criminalmente por amar.
Ao invés de preocupar-se em proteger a integridade
fria do mausoléu, deviam dar abrigo a esses lábios amorosos, dar-lhes o aconchego
que bem merecem.
Os cálidos beijos sobre a dura pedra
teciam o monumento imaterial a ser preservado acima de tudo, em tempos de
pouco afeto e escassa demonstração de calor humano.*
& & &
Os pássaros
tratam de viver, ao contrário de nós, ocupados demais com a morte.
Eu bem que tentei olhar a vida como eles, mas ainda
não consegui. Talvez porque me faltem asas.
& & &
Aprendi com os pássaros que eles são felizes ao
natural. Vivem com o que têm e sentem-se bem assim. Não querem mais do que a
natureza lhes oferece. A vida é breve. Aproveitam o dom de estar vivos.
& & &
A volúpia
de publicar muitos livros para ser reconhecido, às vezes, faz um autor se
perder. Ser bom de venda e de mídia não significa ser bom escritor, embora
faça bem para a vaidade, para a vida social e para o bolso.
Mas cada um é cada qual. Ninguém deposita flores no monumento ao escritor desconhecido.
& & & Mas cada um é cada qual. Ninguém deposita flores no monumento ao escritor desconhecido.
Eu sou
antes de tudo um leitor. Espero que os escritores fora de comércio continuem seu
trabalho. Não desistam, resistam, sobrevivam. O resto é o
que vem depois, mas isso ninguém sabe.
_________
*Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
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monumento ao escritor desconhecido
sábado, 26 de março de 2016
Ressurreição pra todos
Jorge Finatto
| quaresmeira em flor. photo: jfinatto |
Ninguém podia imaginar que, passada a ditadura, outra escuridão nos esperava - profunda, espessa e dolorosa - essa que estamos atravessando. Mas vai passar.
A claridade há de expulsar as trevas da corrupção, do cinismo, do desamor às pessoas, da luta rasteira pelo poder a qualquer preço.
Não é mais possível continuar desse jeito.
Não é mais possível continuar desse jeito.
As pessoas de bem - de todas as ideologias, partidos, grupos e credos - haverão de colocar o Brasil acima dos interesses mesquinhos, acima da violência, acima da desesperança e do desastre.
A luz dos espíritos esclarecidos, o diálogo, a capacidade de reconhecer os próprios erros e de se colocar no lugar do outro acabarão por vencer os oráculos da morte.
Nesta Páscoa, e nos dias que virão, Feliz Ressurreição a todos!
domingo, 20 de março de 2016
A lágrima
Jorge Finatto
As percas. O irremediável na vida da pessoa. Os olhos pretos, pretos. Acesos. Os negros cabelos caíam-lhe nos ombros. No então eu habitava o calabouço. Agonia em mim costumada. As esperas.
Ela surgiu um dia no abrigo, as carinhas nossas. Vestia casaco azul-marinho, lenço branco no pescoço. Quando vi aquela iluminação, meu coração saltou saltos. Pensei no vazio de mim: o que, a estrela da minha vida, essa? Nunca esqueço.
A Encantada. Os olhos dela me encontraram. Escolheu a minha frágil escondida criatura. Havia muitos outros habitantes do calabouço aguardando amanhecer. No limbo, esperando a face do milagre. Os esquecidos.
A Encantada me pegou nos braços. O meu filho, disse. Passei a ser o amoroso. Os baldos. Meu coração cavalo cego na alegria. Quem me via, falava: esse tal, o príncipe. O escolhido. A Encantada inaugurou minha vida. A estrela. Eu príncipe. Ela disse: menino agora é meu filho no rigor da lei e pessoa da minha alma. Tive outro menino, disse ela, olhando o esmo. Do meu sangue próprio. Perdi nos prelúdios, tinha quatro anos. As percas. As esfumações.
Cresci com esse invisível irmão. O finado. O sempre lembrado. Às vezes eu conversava com ele. A mãe era sozinha no mundo. A mãe tinha os momentos. As lonjuras. Carregava o menino morto no regaço do coração. Caminhava no outro mundo com seus desaparecidos. A mãe tinha segredos guardados. Ninguém entrava ali. Ai de quem.
O meu filho, dizia. A mãe fazia eu dormir no colo, na frente do fogão a lenha, até os seis anos. O príncipe. A mãe levava o filho vivo passear na praça. O mundo conhecesse o amoroso. A solitária da Rua São João e seu menino vivo. Eu tive, depois perdi. O coração da mãe tinha umas ausências, sustos, sufocos. Um dia estranhei aquele sono esquecido de acordar. Fui no quarto. Ela deitada. O rosto lindo inclinado. Os olhos pretos, pretos, abertos. Havia uma lágrima transparente. Eu me vi dentro daquela lágrima. A boca parecia rir um pouquinho. Tinha eu seis anos. O escolhido.
Peguei na mão da Encantada. Fiquei dois dias sentado no chão ao lado dela, esperando ela retornar. A mão muito fria. A testa que beijei, gelada. A mãe não regressou. Os silêncios. Disse no dentro do fundo do meu coração: vou junto. Aqui não fico mais. A vida não vale, acabou. Odiei ter renascido. O escolhido. Ódio, ódios envenenados senti. Um vizinho, vizinhos, forçaram a porta, sobejaram pela casa. Os espantos. Me tiraram de lá, no forçado. Eu gritei deveras os tristes gritos. Me deixem, me deixem. O pobre, diziam, o pobre príncipe.
Nos retratos a nossa vida em família: a mãe, o sempre lembrado, eu. O príncipe partido. Sobrevivo a mim mesmo. Sou uma ausência afogado na lágrima. O frio, frios dentro em mim.
_________
Texto publicado em 22 de maio, 2010.
terça-feira, 15 de março de 2016
Jungfraujoch, Top of Europe
Jorge Finatto
| Vista do vale em Jungfraujoch, Suíça. photo: jfinatto |
Chegar à estação de trem mais alta da Europa, em Jungfraujoch, no cantão de Berna, Suíça central, requer paciência e fé. E uma alma aberta para encontrar esse tipo singular de beleza. Um pouco de jogo de cintura é importante para encarar a subida por estradas de ferro sinuosas e a pique, entre as altas e álgidas montanhas alpinas.
Um velho e bom capote é indispensável. Este item, aliás, não é problema para quem vem de Passo dos Ausentes, como eu, terra de grossos e impermeáveis casacões de lã, tecidos na mais que secular manufatura local. Os tradicionais agasalhos ausentinos são imprescindíveis para enfrentar os furiosos ventos austrais que nos assolam naquela boa terra, assim como as chuvas, as geadas, os nevoeiros e nevascas.
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| photo: www.swisstravelsystem.com/pt |
Encasacado e a bordo do vetusto chapéu azul-marinho, saí do hotel e fui até a estação de trem da pacata Interlaken (pouco mais de 5 mil habitantes). São necessários 3 trens para chegar a Jungfraujoch.
Embarquei no primeiro que vai escarpas acima até Lauterbrunnen. Aí pega-se outro que nos leva a Kleine Scheidegg. Por fim, o terceiro comboio se dirige a Jungfraujoch, passo entre as montanhas de Jungfrau e Mönch, onde está a estação de trem do topo da Europa.
Para subir os 3.454 metros de altitude, é necessário trem de cremalheira, isto é, com roda dentada central para engrenar no trilho dentado no meio dos trilhos, única maneira de vencer a íngreme subida. Do contrário, a composição voltaria para trás ou simplesmente não iria adiante.
No meio do caminho, há paradas em locais de ampla visão para fazer fotos. Lá enfim chegando, me aventurei a sair da estação e enfrentar a neve e o gelo escorregadio naquelas alturas. Fazia um frio de 26ºC negativos e ventava. Fiz algumas fotos, em poucos minutos, e retornei para tomar um chocolate quente.
Esperei, retomei o fôlego e saí novamente. Fiquei mais alguns momentos catando imagens, olhando as montanhas a perder de vista, nos quatro cantos, cobertas de níveo chantili. Só não é mais bonito do que os paredões dos Campos de Cima do Esquecimento.
As mãos e o rosto congelados, voltei à estação de onde não mais saí, enovelado dentro do capote ausentino, esperando o trem de retorno. Uma linda moça oriental perguntou se eu queria que ela fizesse uma foto minha diante da janela (onde eu estava sentado) que dá para o vale gelado. Concordei, claro. Por um desses mistérios que nunca entendi, não apareço em fotos nem em retratos (sou invisível talvez). Mas isso também não importa. Importa é a vista do lugar desenhada em finos e inspirados traços por Deus.
Embarquei no primeiro que vai escarpas acima até Lauterbrunnen. Aí pega-se outro que nos leva a Kleine Scheidegg. Por fim, o terceiro comboio se dirige a Jungfraujoch, passo entre as montanhas de Jungfrau e Mönch, onde está a estação de trem do topo da Europa.
| Visão a partir de Jungfraujoch. photo: jfinatto |
Para subir os 3.454 metros de altitude, é necessário trem de cremalheira, isto é, com roda dentada central para engrenar no trilho dentado no meio dos trilhos, única maneira de vencer a íngreme subida. Do contrário, a composição voltaria para trás ou simplesmente não iria adiante.
| Observatório de Sphinx em Jungfraujoch. photo: jfinatto |
No meio do caminho, há paradas em locais de ampla visão para fazer fotos. Lá enfim chegando, me aventurei a sair da estação e enfrentar a neve e o gelo escorregadio naquelas alturas. Fazia um frio de 26ºC negativos e ventava. Fiz algumas fotos, em poucos minutos, e retornei para tomar um chocolate quente.
Esperei, retomei o fôlego e saí novamente. Fiquei mais alguns momentos catando imagens, olhando as montanhas a perder de vista, nos quatro cantos, cobertas de níveo chantili. Só não é mais bonito do que os paredões dos Campos de Cima do Esquecimento.
As mãos e o rosto congelados, voltei à estação de onde não mais saí, enovelado dentro do capote ausentino, esperando o trem de retorno. Uma linda moça oriental perguntou se eu queria que ela fizesse uma foto minha diante da janela (onde eu estava sentado) que dá para o vale gelado. Concordei, claro. Por um desses mistérios que nunca entendi, não apareço em fotos nem em retratos (sou invisível talvez). Mas isso também não importa. Importa é a vista do lugar desenhada em finos e inspirados traços por Deus.
| Subida a Jungfrau. photo: jfinatto |
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domingo, 13 de março de 2016
segunda-feira, 7 de março de 2016
O casal do Elétrico 28
Jorge Finatto
Estou levando livros na bagagem, além de revistas e jornais. Publicações que não existem no Brasil. Há uma estantezinha lilás na mansarda, em Lucerna, onde acomodei, provisoriamente, o material. Mas logo vão ter que entrar na mala e enfrentar o Atlântico, nas asas do grande pássaro metálico, durante 12 horas de voo desde Zurique.
Na hora de entrar na mala os livros parecem feitos não de papel mas de pedra. Mas se para mim viajar é caminhar, conhecer, conversar, fotografar, ler jornais e revistas, escutar rádios da cidade e comprar livros, o que fazer? O que é de gosto regala a vida, diz a sabedoria do povo.
Mas o que eu quero dizer é outra coisa. Estava lendo o jornal Expresso, de Portugal, edição de 13 de fevereiro que trouxe de Lisboa (ler jornais velhos é uma das alegrias possíveis nesses tempo terríveis, porque as desgraças que estavam por acontecer ainda não tinham ocorrido).
Refiro-me à notícia do traslado dos restos mortais de Ofélia Queiroz (1900-1991), a eterna namorada de Fernando Pessoa (1888-1935), para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, ocorrido no dia 12 de fevereiro.¹
Nesse cemitério o poeta esteve enterrado até 1985, quando o que sobrou de seu corpo foi levado para o Mosteiro dos Jerônimos, onde está ao lado de Camões e Vasco da Gama.
Em frente ao Cemitério dos Prazeres, numa parte alta da cidade, situa-se uma estação do Elétrico 28, bonde que Ofélia e Fernando seguidamente tomavam em seus namoros secretos pela cidade.
A transferência dos ossos de Ofélia foi obra da Câmara Municipal de Lisboa. Ao que se sabe, Ofelinha (como a chamava carinhosamente Fernando) foi a única namorada do poeta. Namoro de duas pessoas discretas e sensíveis, que tudo fizeram por não tornar pública a relação (essencialmente por decisão dele).
Fernando Pessoa decidiu que não poderia se casar (a sua precária condição financeira de tradutor freelancer não lhe permitia oferecer a ela uma boa condição de vida). Essa decisão (escondida num véu de indecisão) contrariou o desejo ardente de Ofelinha. Mais que tudo, a obra literária era e sempre foi a prioridade das prioridades na vida de Pessoa.
No íntimo, o poeta talvez cogitasse que o casamento o distrairia do "destino" de tornar-se o super Camões (que de fato se tornou). Provavelmente se enganou, o casamento poderia numa certa altura melhorar e prolongar sua existência, dar-lhe alguma alegria além da escrita e do álcool - que consumia deveras - , e dos 80 cigarros diários.
"Gosto muito, mesmo muito, da Ofelinha. Aprecio muito, muitíssimo, a sua índole e o seu caráter. Se casar não casarei senão consigo.", escreveu Fernando Pessoa. Respondeu Ofélia: "Agradeço muito os teus beijos e envio-te também muitíssimos e muitos chi-corações apertados. Da tua, sempre mesmo muito tua, Ofélia." Trechos de cartas trocadas entre eles, inscritos agora na lápide de Ofélia no Cemitério dos Prazeres.
Trocaram inúmeras cartas, bilhetes, postais, recadinhos, desenhos, palavras inventadas, que muitos anos depois foram publicados em livro. Ofélia não se conformou com o rompimento. Sofreu em sigilo e em silêncio. Só veio a casar-se três anos depois da morte dele. Não teve filhos com o marido e este, felizmente, não colocou nenhum obstáculo para que ela guardasse as cartas e demais documentos do ex-namorado.
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)²
A ironia reside no fato de que, mais uma vez, os fados separam Ofelinha e Fernando. O jazigo onde os restos dela foram inumados fica próximo daquele onde estava o poeta antes de ir para os Jerônimos. Mais um desencontro.
Refiro-me à notícia do traslado dos restos mortais de Ofélia Queiroz (1900-1991), a eterna namorada de Fernando Pessoa (1888-1935), para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, ocorrido no dia 12 de fevereiro.¹
Nesse cemitério o poeta esteve enterrado até 1985, quando o que sobrou de seu corpo foi levado para o Mosteiro dos Jerônimos, onde está ao lado de Camões e Vasco da Gama.
Em frente ao Cemitério dos Prazeres, numa parte alta da cidade, situa-se uma estação do Elétrico 28, bonde que Ofélia e Fernando seguidamente tomavam em seus namoros secretos pela cidade.
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| Maria da Graça Queiroz, sobrinha-neta de Ofélia, no traslado dos restos mortais foto: Tiago Miranda |
A transferência dos ossos de Ofélia foi obra da Câmara Municipal de Lisboa. Ao que se sabe, Ofelinha (como a chamava carinhosamente Fernando) foi a única namorada do poeta. Namoro de duas pessoas discretas e sensíveis, que tudo fizeram por não tornar pública a relação (essencialmente por decisão dele).
Fernando Pessoa decidiu que não poderia se casar (a sua precária condição financeira de tradutor freelancer não lhe permitia oferecer a ela uma boa condição de vida). Essa decisão (escondida num véu de indecisão) contrariou o desejo ardente de Ofelinha. Mais que tudo, a obra literária era e sempre foi a prioridade das prioridades na vida de Pessoa.
No íntimo, o poeta talvez cogitasse que o casamento o distrairia do "destino" de tornar-se o super Camões (que de fato se tornou). Provavelmente se enganou, o casamento poderia numa certa altura melhorar e prolongar sua existência, dar-lhe alguma alegria além da escrita e do álcool - que consumia deveras - , e dos 80 cigarros diários.
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| Fernando Pessoa |
"Gosto muito, mesmo muito, da Ofelinha. Aprecio muito, muitíssimo, a sua índole e o seu caráter. Se casar não casarei senão consigo.", escreveu Fernando Pessoa. Respondeu Ofélia: "Agradeço muito os teus beijos e envio-te também muitíssimos e muitos chi-corações apertados. Da tua, sempre mesmo muito tua, Ofélia." Trechos de cartas trocadas entre eles, inscritos agora na lápide de Ofélia no Cemitério dos Prazeres.
Trocaram inúmeras cartas, bilhetes, postais, recadinhos, desenhos, palavras inventadas, que muitos anos depois foram publicados em livro. Ofélia não se conformou com o rompimento. Sofreu em sigilo e em silêncio. Só veio a casar-se três anos depois da morte dele. Não teve filhos com o marido e este, felizmente, não colocou nenhum obstáculo para que ela guardasse as cartas e demais documentos do ex-namorado.
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)²
A ironia reside no fato de que, mais uma vez, os fados separam Ofelinha e Fernando. O jazigo onde os restos dela foram inumados fica próximo daquele onde estava o poeta antes de ir para os Jerônimos. Mais um desencontro.
A Câmara Municipal de Lisboa perdeu, talvez, a última oportunidade de reunir, ao menos simbolicamente, o que a vida separou. Poderia ter trasladado os restos de Ofelinha para o Mosteiro dos Jerônimos, aproximando-os, post-mortem, aos do poeta. Faz muito dó que não tenha sido assim.
Se é verdade que Pessoa foi um gênio literário, não é menos verdade que Ofélia foi uma mulher admirável em sua inteligência, discrição, sensibilidade e caráter, tendo influenciado positivamente a vida de Fernando, como comprova a extensa correspondência.
Ofelinha está para Fernando como Inês está para Pedro, no Mosteiro de Alcobaça.³ Será despropósito? São quatro personagens centrais na vida emocional de Portugal. São duas histórias de amor que não vingaram.
A reunião de Ofélia e Fernando pelo menos faria a alegria dos fantasmas dos antigos namorados. E de alguns românticos como eu que olham com ternura para aquele homem e aquela mulher singulares que sonharam um amor que nunca se realizou. O casal-que-não-foi entrou para a história dos grandes amores impossíveis. Como tantos e tantos no mundo.
O casal do Elétrico 28.
_______
¹O último desencontro entre Ofélia e Fernando Pessoa (excelente texto de Cristina Figueiredo):
http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-02-14-O-ultimo-desencontro-entre-Ofelia-e-Fernando-Pessoa
²Poesia completa de Álvaro de Campos, p. 225. Fernando Pessoa, Companhia das Letras, São Paulo, 2007.
³Pedro e Inês:
http://www.mosteiroalcobaca.pt/pt/index.php?s=white&pid=235
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Pegadas na neve
Jorge Finatto
Na tarde a neve cai mansamente na ruazinha. Espalho a cortina sobre as vidraças da mansarda. Desço a escada de madeira escura e entrego a chave na portaria da pousada. Uma lareira com chamas ocre-alaranjadas ilumina o ambiente.
A senhora de cabelo branco, um pouco sonolenta, recebe-a e deseja um bom dia. Saio pelas vielas de Lucerna, ruminando névoa.
A tosse seca dos últimos dias amenizou. É preciso caminhar. Os flocos brancos se depositam sobre o capote e o chapéu.
A tosse seca dos últimos dias amenizou. É preciso caminhar. Os flocos brancos se depositam sobre o capote e o chapéu.
Eu tenho amor pelos que partiram. Olho as pegadas no caminho. Nunca esqueço. Não fui feito para o esquecimento. Ninguém foi. Várias pessoas amadas morreram. Alguns amigos e amigas se dispersaram na nuvem dos dias. O sentimento ficou. Todos estão comigo. Somos como a bruma.¹
Se o pássaro imagina que é seu último voo, não vai sair do ninho. Se alguém pensa que é o último abraço, vai hesitar. Então é melhor viver o momento como se fosse eterno. Será que não é? E se Einstein estiver certo e a noção de passado, presente e futuro for só uma ilusão? E se, como querem os eternalistas, os três existirem simultaneamente?²
Na dúvida, devemos viver como se a morte fosse uma hipótese remota. Como se o fim já não existisse, pelo menos não agora. Como se viver dia após dia fosse tudo que nos resta. E seguir andando.
Caminhamos deixando pegadas na neve.
Caminhamos deixando pegadas na neve.
___________
¹A bruma de que somos feitos:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2015/04/a-bruma-de-que-somos-feitos.html
²Viaje alrededor del tiempo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/09/viaje-alrededor-del-tiempo.html
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Castelo dos Mouros, Palácio da Pena, Glauber Rocha, Café Saudade
Jorge Finatto
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| Palácio da Pena (fragmento). photo com celular: jfinatto, fev. 2016 |
Um passeio à cidade de Sintra, cercanias de Lisboa, poucos dias antes de voltar à Suíça. Levei o filho adolescente para conhecer o Palácio da Pena. Ele, depois, insistiu em me levar a subir as escadas escarpadas das muralhas do Castelo dos Mouros, coisa que nunca havia feito em visitas anteriores.
Resquício e testemunho da rica presença árabe na Península Ibérica, do castelo, construído no século IX, restaram as ruínas do que foi. Ruínas bem cuidadas, com espaços restaurados e história resgatada. Virou Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
É o que sobrou depois de tantos séculos em que, além da vida cotidiana no escorrer da ampulheta, ocorreram batalhas e desastres naturais no local. Escavações arqueológicas identificaram objetos da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e do Neolítico, entre eles um vaso cerâmico completo do 5º milênio a.C..
Judeus viveram no local, no século XV, até sua expulsão de Portugal.
É o que sobrou depois de tantos séculos em que, além da vida cotidiana no escorrer da ampulheta, ocorreram batalhas e desastres naturais no local. Escavações arqueológicas identificaram objetos da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e do Neolítico, entre eles um vaso cerâmico completo do 5º milênio a.C..
Judeus viveram no local, no século XV, até sua expulsão de Portugal.
Na metade da subida, pensei em desistir. É muito íngreme e é preciso ter sobra de fôlego paga chegar até a parte mais elevada das muralhas. Ao descansar entre as ameias, percorrendo o caminho das torres, procurei não olhar para baixo.
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| Castelo dos Mouros. photo com celular: jfinatto, fev. 2016 |
Mas Deus é pai e não abandonou este seu pobre servo. Deu-me forças para seguir adiante. Seria um vexame ficar cá embaixo vendo o filho subir sozinho às alturas (na minha cabeça, os filhos estão sempre necessitando de nós, embora isso não seja verdade). Por fim, a visão que se tem no alto compensa o esforço.
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| photo com celular: jfinatto, fev. 2016 |
O Palácio Nacional da Pena, construído no século XIX pelo rei Fernando II, é uma obra arquitetônica notável, no alto da Serra de Sintra. Vale a visita, mostrando como viviam os nobres. O lugar é rico em equipamentos, alguns avançados para a época. Os espaços são generosos e requintados. Um luxo. A realeza nunca passa mal, ao contrário do povo. A desgraça de sempre.
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| Palácio da Pena. photo com celular: jfinatto, fev. 2016 |
Um grande cineasta brasileiro viveu em Sintra seus últimos dias, Glauber Rocha. Imagino que ele talvez tenha feito imagens da bela pequena cidade. Se o fez, devem ser muito interessantes.
Na volta, paramos no Café Saudade, perto da estação de comboios. O lugar é perfeito para provar as iguarias locais, doces ou salgadas; tem conforto, o atendimento é bom e os preços são bem razoáveis. E, como diz o nome, deixa saudade.
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| Café Saudade, fachada. photo: Saudade.pt* |
Sintra vale o olhar. Com sua gente, vielas, casario, monumentos e palácios, além da serra, donde se avista o mar. Fica a um pulo de Lisboa, passeio de trem. Uma viagem no tempo e na beleza.
___________
*Café Saudade:
http://saudade.pt/en/contact_us/
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Sintra
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Coruja: o retorno ao ninho
Pois fui ao escritório dos Caminhos de Ferro Suíços, no aeroporto de Zurique, conforme e-mail que me mandaram, a fim de buscar a Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano.
Tinha perdido dentro de um trem em Berna, conforme já aqui relatado. Dentro do estojo tinha canetas, carregador, cabo usb, um calepino.
Estava tudo como quando perdi. Paguei 20 francos suíços, cumprimentei-os pelo trabalho e fui comemorar com um café ao lado, feliz da vida. Agora ando com a Coruja a tiracolo. A partir de hoje paro de fotografar com o celular.
Viver numa sociedade regrada pelo princípio da confiança e da solidariedade social faz toda a diferença. E como faz bem ao coração.
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Swisstravelsystem:
http://www.swisstravelsystem.com/pt/highlights-pt/rotas-panoramicas.html
Tinha perdido dentro de um trem em Berna, conforme já aqui relatado. Dentro do estojo tinha canetas, carregador, cabo usb, um calepino.
Estava tudo como quando perdi. Paguei 20 francos suíços, cumprimentei-os pelo trabalho e fui comemorar com um café ao lado, feliz da vida. Agora ando com a Coruja a tiracolo. A partir de hoje paro de fotografar com o celular.
Viver numa sociedade regrada pelo princípio da confiança e da solidariedade social faz toda a diferença. E como faz bem ao coração.
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domingo, 21 de fevereiro de 2016
Outros olhares
Jorge Finatto
| photo com celular: jfinatto. Alpes suíços, fev. 2016 |
É preciso ver além do olhar. Há algo nisso tudo (gente, natureza, coisas) que só se enxerga com a lente do sentimento. São os olhos interiores, as visões subjacentes, aquilo que só a intuição desvela. Olhos invisíveis, olhos de dentro.
Como disse Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, pela boca da sábia raposa: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos".
Lisboa, manhã de sol. Sol frio, depois de vários dias de chuva, vento e neblina. Uma luz azulada toca os telhados ocres, as paredes, as ruas. Do quarto de hotel, avisto o Tejo.
Após o pequeno almoço (café da manhã), vou ao shopping Amoreiras comprar dois livros que ficaram faltando durante esta passagem por Portugal. São eles: Lisboa by sketchers, desenhos de vários autores do coletivo Urban Sketchers Portugal, e Lisboa, modos de habitar, poemas de Domingos Lobo.
Há três boas livrarias no Amoreiras, além de bancas de jornais e revistas: Bulhosa, Bertrand e Fnac. Fiz meu farnel de livros nelas, na Casa Fernando Pessoa, na Livros Cotovia e na Livraria Sá da Costa, da Rua Garrett, no Chiado, hoje um alfarrabista.
Há três boas livrarias no Amoreiras, além de bancas de jornais e revistas: Bulhosa, Bertrand e Fnac. Fiz meu farnel de livros nelas, na Casa Fernando Pessoa, na Livros Cotovia e na Livraria Sá da Costa, da Rua Garrett, no Chiado, hoje um alfarrabista.
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| Livraria Sá da Costa. photo: jfinatto |
No aeroporto, tomo um café no Starbucks. Lá escuto uma música que me passa profunda doçura. Pergunto quem canta. Um dos atendentes (todos muito gentis) vai lá dentro e traz por escrito: conjunto The Stylistics, disco Round 2, 1972, e a música é You're as right as rain* (de Thom Bell e Linda Creed, na interpretação maravilhosa de Russell Thompkins Jr. A letra fala num encontro em que a pessoa amada é tão certa, tão suave (faz tão bem) como a chuva num dia de verão).
O avião aproxima-se de Zurique. Pela janela vejo a majestade do Matterhorn tapado de neve e com os últimos raios de sol do entardecer.
Uma pintura inesquecível. Retorno à mansarda na álgida montanha. Vou beber um vinho, ler um pouco diante do fogo.
Felicidade é um abraço cálido (e o resto não importa).
Uma pintura inesquecível. Retorno à mansarda na álgida montanha. Vou beber um vinho, ler um pouco diante do fogo.
Felicidade é um abraço cálido (e o resto não importa).
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You're as right as rain:
sábado, 20 de fevereiro de 2016
Um passeio de coche
Jorge Finatto
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| Museu Nacional dos Coches, Lisboa. photo com celular: jfinatto, fev.2016 |
Eis algumas fotos de carruagens do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. Fiz com o celular depois que perdi a Coruja num trem em Berna. Boa viagem!
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| photo com celular. jfinatto, fev. 2016 |
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| photo com celular: jfinatto, fev. 2016 |
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| photo com celular: jfinatto, fev. 2016 |
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Lisboa,
Museu Nacional dos Coches
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Fernando Pessoa viajando no elétrico em Lisboa
Jorge Finatto
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| pintura: Mário Linhares. foto com celular: jfinatto |
Estive revisitando o Museu Nacional dos Coches, em Lisboa (fui lá pela primeira vez em 2002), sempre um programa interessante. São carruagens muito antigas, com exemplares a partir do século XVI em diante. Pelo que li, não existem iguais em nenhum país da Europa. Na França, por exemplo, teriam sido destruídas durante a famosíssima Revolução de 1789.
Certos coches são tão formosos que dá vontade de sentar neles e sair rodando pela cidade, como faziam os nobres e prelados daqueles tempos. Existem alguns construídos especialmente para crianças. Não estou a justificar a monarquia nem privilégios (ainda em voga em várias repúblicas atuais). Penso na beleza e técnica construtiva dos objetos em si, produtos da criatividade humana. Numa época em que motores estavam longe, muito longe de existir, e o transporte de tração animal era a regra, andar de coche era uma necessidade e um luxo. Mais adiante publicarei imagens que colhi no local.
No mesmo museu, visitei a exposição de pinturas do artista português Mário Linhares, as mesmas que ilustram o livro de Fernando Pessoa intitulado Lisboa, o que o turista deve ver. São desenhos de fino traço e sensibilidade, dignos de figurar na obra do genial poeta que Portugal deu ao mundo.
Dois ou três dias depois, estava no agradável Café Lisboa, no Teatro Nacional de São Carlos (situado no largo com o mesmo nome, onde nasceu, aliás, Fernando Pessoa, no quarto andar de um edifício situado no lado oposto ao teatro), quando, ao manusear o cardápio, me chamou a atenção a pintura na capa e contracapa, que ilustra este post (e a capa do blog nesta data). De quem era? Mário Linhares. A foto (feita com o celular) saiu meio sombreada.
Gostei tanto que enviei um e-mail ao artista solicitando autorização para publicar aqui no blog (ele gentilmente atendeu o pedido). Retrata Pessoa viajando na porta de um elétrico, observando a cidade que tanto amou/amamos. Um momento precioso. Ao Mário, cumprimentos pelo trabalho e um abraço agradecido.
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| pintura de Mário Linhares na contracapa. em cima, poema de Fernando Pessoa |
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Coruja: esperança de reencontro
Jorge Adelar Finatto
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| fachada de casa, Tomar. foto-celular, jfinatto |
O destino colocou a pedra no caminho: precisei perder a Coruja - ex-máquina, quase um ser humano - pra ver o quanto dói uma saudade. Recusei-me a comprar outra durante a viagem, embora recebesse orientação dos filhos, no Brasil, para que assim fizesse.
O fato é que decidi fotografar com o celular, coisa que nunca havia feito. Estou aprendendo. Não é a mesma coisa. É difícil se adaptar à nova maneira. Mas estamos na luta. Há gente que faz tudo com o celular. Não é o meu caso.
As fotografias são muito diferentes. O meu celular é bastante simples, já fez mais de quatro aniversários, não se pode comparar com o que existe por aí. Mas o despertador funciona e uma vez por semana recebo uma chamada, em geral do telemarketing...
Acho que melhorei um pouco, comparando com as primeiras fotos. Na véspera de retornar à Suíça, talvez reencontre lá a Coruja. Recebi um e-mail dos Caminhos de Ferro dando conta de que a encontraram (contei aqui como a perdi no trem, em Berna).
Será mesmo? Haverá precisão suíça na informação? Terei de volta a velha amiga? Andaremos outra vez juntos, catando coisas no ar, em caminhadas pelos Campos de Cima do Esquecimento? Saberei em breve.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Capela dos Ossos
Jorge Finatto
Fui a Évora, no Alentejo, para conhecer de perto a Capela dos Ossos. Construída por três monges franciscanos no interior da Igreja de São Francisco, no final do século XVI, tem as paredes e colunas cobertas por caveiras e ossos humanos retirados dos túmulos das igrejas e cemitérios da cidade. Fala-se que 5 mil caveiras revestem o interior da capela, além dos ossos.
Os monges quiseram lembrar aos vivos o destino que os espera, a transitoriedade da vida. Desejaram, também, chamar a atenção para a necessidade de uma visão mais transcendente da travessia terrestre, muito além das mesquinharias e do desejo de acumular bens materiais.
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| Capela dos Ossos, Évora. photo com celular: jfinatto |
No mármore, sobre a porta de entrada, lê-se a inscrição:
Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.
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| Capela dos Ossos. photo com celular: jfinatto |
A ideia é valorizar a espiritualidade acima das vaidades do mundo, diante do fim inexorável que a todos espreita.
A impressionante visão que se tem, no interior da Capela dos Ossos, faz crer que os monges alcançaram seu objetivo.
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| Capela dos Ossos, Évora. photo com celular: jfinatto |
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Bem-vindos a Beirais
Um dia, por acaso, assisti a um episódio da série Bem-vindos a Beirais, produzida pela RTP (Rádio e Televisão de Portugal). As imagens da RTP chegam ao Brasil através de seu canal internacional.
Fiquei tocado com a simplicidade, humanidade e humor daquelas histórias. Nada a ver com a overdose de violência e sexo, tão comum nos filmes e novelas exibidos nas televisões do mundo. Gostei tanto que passei a assistir sempre que podia. Era uma pausa para a leveza no meu dia a dia.
Fiquei tocado com a simplicidade, humanidade e humor daquelas histórias. Nada a ver com a overdose de violência e sexo, tão comum nos filmes e novelas exibidos nas televisões do mundo. Gostei tanto que passei a assistir sempre que podia. Era uma pausa para a leveza no meu dia a dia.
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| photo de celular: jfinatto |
Os personagens de Beirais vivem um tempo em que é possível ter tempo para viver e ser gente. Alguns dos personagens centrais foram de Lisboa para o interior, buscando uma nova vida longe da desumanização da cidade grande. Nisso lembram um pouco a trama de A cidade e as serras, obra-prima de Eça de Queirós.
Os beiralenses podem parar durante o dia para conversar com os amigos e vizinhos, vivem suas aventuras na paz interiorana onde nada ainda está perdido. Habitam um modo de vida que nos é negado nos grandes centros urbanos, ao qual a maioria das pessoas não tem mais acesso. Ali está a cidadezinha do interior com seu ritmo próprio, suas virtudes e defeitos (poucos na verdade).
Os beiralenses podem parar durante o dia para conversar com os amigos e vizinhos, vivem suas aventuras na paz interiorana onde nada ainda está perdido. Habitam um modo de vida que nos é negado nos grandes centros urbanos, ao qual a maioria das pessoas não tem mais acesso. Ali está a cidadezinha do interior com seu ritmo próprio, suas virtudes e defeitos (poucos na verdade).
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| photo de celular: jfinatto |
Impressionado com a vida presente nas histórias e com os belos cenários, tinha planejado conhecer Beirais quando viesse outra vez a Portugal. Foi o que fiz. Só que Beirais não existe. O que existe é a pequena Carvalhal, situada a cerca de 90 km de Lisboa. A cidadezinha que virou cenário é um lugar bonito, recolhido em meio à natureza, distante do ruído, da pressa e da poluição. Lá está a igreja, o largo com a cruz, as vielas que nele desembocam com suas casas coloridas, com flores na janela.
Um lugar preservado, com pessoas gentis e acolhedoras, que vale a pena conhecer. A série continua no ar aqui em Portugal e no Brasil.
Um lugar preservado, com pessoas gentis e acolhedoras, que vale a pena conhecer. A série continua no ar aqui em Portugal e no Brasil.
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| photo de celular: jfinatto |
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Doçuras portuguesas
Jorge Finatto
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| Coimbra, 10/2/16. photo: jfinatto |
Portugal é, também, o país dos doces, como se já não bastasse ser a pátria de Camões, Pessoa, Carmen Miranda, Amália, Zeca Afonso e Carlos Paredes. Sentencia a minha gulodice que nenhuma outra terra terá doçaria mais rica que esta, podendo, no máximo, igualá-la.
Começa-se a saborear a delícia das doçuras lusitanas pelos nomes. Fiz um brevíssimo apanhado de certos deles, anotando-os de uma "ementa" (cardápio), num café-padaria e confeitaria de Coimbra.
Eis alguns: suspiros grandes, hóstia conventual, pingo da tocha, barriga de freira, queijada pereira, baba de camelo, pão-de-ló do Lorvão, castanhas d'ovos, galantine de frutas, sortido húngaro, almendrados, beijinhos e cavacas, sem falar do nosso conhecido Beija-me depressa.
Há inúmeros outros, pois em cada cidade, vila ou aldeia se encontram mestres na arte de fazer essas maravilhas. Diante de tantas tentações, difícil é não pecar. Pequemos, pois, sem maiores dramas de consciência, ao menos por esses dias de frio e escassa luz.
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| photo: site da Pastelaria Estrelas de Tomar |
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Beija-me depressa
Jorge Finatto
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| Templário montado. mosaico no Hotel dos Templários. photo: jfinatto |
Sim, beija-me depressa, rápido, sem mais demora, vamos logo com isso! O mundo está acabando!
Pois Beija-me depressa, raro leitor, é o nome do doce - um deles - típico de Tomar, na região central de Portugal, onde estou por uns dias, antes de regressar à Suíça. O doce é muito antigo como tudo por aqui. Seu nome espelha bem a necessidade urgente de afeto humano. O mundo precisa de mais beijos, muitos mais.
Nesta acolhedora cidade, há o Castelo dos Templários, construído a partir do ano 1.160, por ordem do Grão-Mestre Gualdim Paes, morto em 1195. O castelo dos Pobres Cavaleiros de Jesus Cristo (Ordem do Templo) é das relíquias mais impressionantes que tenho visto. Em torno da Ordem erguem-se muitas lendas e, sobretudo, há segredos e mistérios nunca desvelados. Por isso vim aqui.
Os Templários eram monges cavaleiros, estabelecidos em mais de um lugar na Europa, que combateram nas Cruzadas, buscando recuperar Jerusalém e arredores (a Terra Santa) aos muçulmanos, mantendo-as com os cristãos.
Exerceram grande influência em sua época, tornando-se poderosos, entre outras razões por criarem a origem do sistema bancário, tendo acumulado riquezas, chegando a emprestar recursos para reis e à Igreja. O notável poder da Ordem do Templo e o endividamento de soberanos e da Igreja com os monges guerreiros teriam como conseqüência a sua extinção pelo Papa Clemente V em 1312, levando alguns de seus membros à fogueira da Inquisição (uma forma de não pagar nada eliminando o credor). Em Portugal a Ordem do Templo foi substituída pela Ordem de Cristo.
Caminhar pelo Convento de Cristo e pelas cercanias do Castelo dos Templários é penetrar num ambiente repleto de mistério, que marca sobretudo pela rigorosa organização dos cavaleiros monges e por seus ricos ideais e conhecimentos acumulados. Tiveram participação no advento das grandes navegações portuguesas.
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| Convento de Cristo, Tomar. photo: jfinatto |
Há mais em Tomar. Uma raríssima sinagoga medieval, das poucas existentes no planeta, lá está, na parte mais antiga da cidade, e preservada. Encerrou suas atividade no século XV, quando o rei de Portugal, D. Manuel I, obrigou os judeus a converterem-se ao catolicismo. Com a determinação surgiram os cristão novos (os conversos). No local funciona o Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto.
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| Quatro colunas simbolizando as quatro matriarcas de Israel. photo: jfinatto |
O doce Beija-me depressa é pequeno, mais ou menos do tamanho de um negrinho ou branquinho no Brasil, em forma cilíndrica, feito à base de ovos, como boa parte dos doces conventuais portugueses. É difícil comer um só. Eu não consegui.
Beija-me depressa. Essa devia ser a nova lei mundial a ser implantada com urgência, revogando-se as dolorosas disposições em contrário.
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domingo, 7 de fevereiro de 2016
Souvenir de inverno
A vida são umas quinquilharias de viagem que a gente vai guardando nas gavetas da memória. Os dias são folhas caídas do calendário que o vento leva pelo ar. Depois já não estamos à janela.
Mas há essa sempre presente, irrecusável esperança de um amanhecer em meio ao treva-mundo. Uma janela de mansarda aberta ao sol, numa manhã de inverno. Como agora em Lucerna.
Uma mulher apareceu de repente, quando eu estava parado, na Ponte da Capela. Disse-me em francês germânico, olhando-me nos olhos: eu faço desenhos, senhor, e não comi nada o dia todo. O que eu podia fazer com essa aparição trágica? Perguntou se eu compraria um desenho seu.
Sim, sim, claro. Abriu a pasta e de lá retirou alguns. Escolhi um do Lago Lucerna, bonito. Solitário e bonito. Fazer desenhos dá mesmo fome. É como fazer versos. Viver de arte é uma danação, madame. Paguei os 15 francos suíços que pediu, porque a vida por cá é muito cara.
Sim, sim, claro. Abriu a pasta e de lá retirou alguns. Escolhi um do Lago Lucerna, bonito. Solitário e bonito. Fazer desenhos dá mesmo fome. É como fazer versos. Viver de arte é uma danação, madame. Paguei os 15 francos suíços que pediu, porque a vida por cá é muito cara.
Ela me olhou admirada, agradeceu e foi-se na neblina. Eu permaneci ali, olhando a água azul.
Essas entidades aparecem do nada e puxam assuntos obscuros. Se eu não vivesse num lugar chamado Passo dos Ausentes, habitado por fantasmas, talvez me angustiaria.
O fato é que está todo mundo precisando de um aconchego. Os que mais precisam não se dão conta e fazem sofrer os outros.
Só os abraços ficarão.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
A Coruja caiu do ninho
Raro leitor, uma nota melancólica. Perdi a Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano. Foi dentro do trem, na estação de Berna, cidade onde o linguarudo Albert Einstein formulou a Teoria da Relatividade, e onde existe hoje o seu museu. Me dei conta um tempo depois, já no caminho para Zurique.
Companheira de muitos anos, muitas histórias e viagens, perdi a graça e continuo meio perdido, embora saiba que a vida é feita também de perdas. No caso, um objeto material, mas cheio de prosopopeias e significados. Ela era uma extensão do meu olhar e do meu sentimento. Não sei se o serviço de trens da Suíça encontrará e me devolverá a Coruja.
Ela deve estar profundamente desapontada comigo, e eu também estou. Sabe-se lá onde está, com quem está agora (como na letra de Chove lá Fora, do grande Tito Madi).
Se for pra ficar na Suíça, que seja ao menos com uma boa pessoa, é o que espero. Neste momento, não ouso sequer cogitar trocá-la por outra.
Faz frio e sinto saudade, olhando a neve da mansarda. A esperança continua.
| uma das últimas fotos com a Coruja |
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Caminhos brancos
As paisagens da Suíça chegam a doer nos olhos de tão belas. Este é o país dos rios e lagos abundantes, das fontes de água potável nas cidades. O país das montanhas verticais tocando o céu, da neve espalhada no inverno, das casas em estilo relógio cuco. Da cortesia, da familiaridade. Onde as coisas públicas são feitas para funcionar para todos, e bem.
A Suíça dos trens, sim, dos trens coloridos que parecem de brinquedo, circulando em toda parte, ondulando nos alpes e vales, cruzando pontes, encostando nas nuvens. Um país simples de se percorrer, pois tudo é bem explicado, pontual e, se o cristão se atrapalha, há sempre alguém por perto para tirar a dúvida, com educação e quase sempre com simpatia.
Passei o dia fazendo um passeio à montanha de Jungfrau, onde se situa a estação de trem mais alta da Europa, Top of Europe, em Jungfraujoch (passo entre as montanhas de Mönch e Jungfrau). A elevação alpina tem mais de 4 mil metros de altura. A estação está a 3.454 metros.
Chega-se lá depois de pegar três trens a partir da cidade de Interlaken onde estou. Como os suíços conseguiram construir estradas de ferro na borda de abismos desta magnitude é algo que espanta. Uma maravilha tecida por mãos e mentes obstinadas. Um prova de que o querer é a arma mais poderesa que um indivíduo e uma sociedade têm a seu dispor. E um monumento ao espírito humano.
Existe, nestas alturas solitárias, na imponência destas montanhas tapadas de chantili, uma ideia de que homem e natureza devem conviver e respeitar-se. E que ambos perdem o sentido quando rompem o pacto.
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