quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto

 
E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará no coração?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador do casarão abandonado na Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instante que não se deixa apagar. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher que não se perdeu graças ao registro.
 
Pequena eternidade que não se esvaiu no oblívio.

Plaza Constitución. 13/02/2015. photo: jfinatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 14 fev. 2015.
 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O escritório no rodamoinho

Jorge Finatto
 
Campos de Cima do Esquecimento. photo: jfinatto


O ESCRITÓRIO é nave. Navega em mar revolto entre os dias e as estrelas. Presente, passado, futuro. Tempo, perpétuo pêndulo. Perdido, vivido, esquecido. Tempo de passagem, tempo de viagem, tempo de espera, tempo de fugazes eternidades. Lugar de achados incríveis. Semeadura, rota escura, colheita. Os bons momentos, esses que se vivem fora dos calendários, quando o tempo para e nos libertamos do açoite da ampulheta. A vida é tudo misturado. Rodamoinho.

Escritório onde habita o eremita e o doido aventureiro. O texto não é a vida em si, mas uma bela imitação. O mundo possível no interior do caos. Enquanto a nave navega, atravessa distâncias impossíveis, reconcilia ausências, a palavra se tece como um fio azul, se desprende do novelo e vai pelo espaço entre as estrelas até mergulhar na escuridão do cosmos, no sem fim do pensamento-coração. O escritório é álbum de recordações de um tempo que já não volta. Caderno onde se anunciam dias de explorar caminhos e contar histórias. Urgente amanhecer.
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encher o saco de Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes*
                        Heitor Saldanha

 
AS BARBARIDADES que o ser humano faz todos os dias contra os semelhantes (?). Seremos nós um ato falho da criação? Fico pensando nessas coisas que me perseguem desde os tempos do Dilúvio.

Está escrito em Gênesis 6: 5-8: "Por conseguinte, Jeová viu que a maldade do homem era abundante na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, todo o tempo. E Jeová deplorou ter feito os homens na terra e sentiu-se magoado no coração.

"De modo que Jeová disse: "Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei, desde o homem até o animal doméstico, até o animal movente e até  a criatura voadora dos céus, porque deveras deploro tê-los feito." Mas Noé achou favor aos olhos de Jeová."

O Dilúvio veio, chovendo durante quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo, salvo Noé, sua família e os animais que levou junto na famosa arca. A vida recomeçou.

A solidão e a tristeza de Deus me comovem. Não se sentirá Ele muito sozinho, sem ter com quem conversar, em tempos de tanta maldade e incompreensões como agora? Terá o Criador alguém com quem desabafar nas horas difíceis?
 
Estou me referindo àqueles dias em que Ele olha para a Terra e assiste ao deplorável espetáculo que continua sendo apresentado por homens e mulheres.

Como se sente um Pai ao ver os filhos nos descaminhos da perversidade e do sofrimento, sem falar na solene indiferença ao outro? Deve ser profundamente doloroso.

Por isso gosto muito do poema de Heitor Saldanha em epígrafe, que bem resume essa perplexidade. Um texto dilacerante, dos mais belos já escritos por um poeta.
 
Espero que Deus perdoe a minha intromissão em seus assuntos de foro íntimo. Ainda mais partindo de um grão de areia como eu.

O pensamento é o parque de diversões de filósofos, poetas e outros seres inúteis. Essa gente que passa os dias obstinada em encher o saco de Deus como se o Criador não tivesse mais o que fazer.

Eu aqui nessa puta solidão cósmica a querer falar da solidão do Todo Poderoso. Tem gente que não se enxerga.
 
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*A Hora Evarista, Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, p. 49. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1974.

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aurora do mundo

Jorge Finatto
 
 
Amor
É quando batem em você e dói muito.
(Viviana Castaño, 6 anos)

Criança
Para mim a criança é algo que não é cachorro. É um humano que todos temos que apreciar.
(Johana Villa, 8 anos)
 
Adulto
Pessoa que em toda coisa que fala, vem primeiro ela.
(Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)

Universo
Casa das estrelas.
(Carlos Gómez, 12 anos)


O MUNDO DAS CRIANÇAS está povoado de sabedoria,  imaginação e poesia. Elas veem as coisas com outro olhar, sem dúvida mais humano e completo que o nosso. E nunca omitem seu sentimento quando se expressam.
 
O amanhecer do universo habita o coração infantil com suas cores e sentidos. Os pequenos são capazes de ver muito além dos preconceitos e aparências.

Olham a vida pela primeira vez, como fazem os poetas, os artistas e os puros de coração. Esta visão inaugural é capaz de notáveis revelações.
 
O olhar primitivo de meninos e meninas está longe da contaminação que advém dos condicionamentos. Ainda não se submeteram por inteiro às imposições do ambiente social. É nessa capacidade generosa de ver a vida, e aproximar-se do outro, que elas muitas vezes nos surpreendem.
 
Pois um excelente apanhado deste notável poder de percepção é o que encontramos no livro Casa das Estrelas, organizado pelo escritor colombiano e professor de alunos de séries iniciais Javier Naranjo.
 
Ele recolheu, ao longo de mais de dez anos, frases de seus alunos de espanhol, leitura e criação literária, com idade entre 3 e 13 anos. O trabalho ocorreu em escolas situadas na cidade de Rionegro, departamento (estado) de Antioquia, na Colômbia.

Javier Naranjo também é pesquisador da linguagem infantil e este livro é produto de seu encantamento em trabalhar as palavras, a leitura e a criatividade com as crianças, num clima de liberdade e prazer.
 
Os pequenos autores expressam sua visão das coisas a partir de palavras-tema que escolheram e compartilharam em sala de aula. O resultado é riquíssimo do ponto de vista da linguagem (a maneira livre de amarras sintáticas de se expressar) e do conteúdo. Por vezes, temos a impressão de estar navegando nas águas mágicas de outro colombiano ilustre, Gabriel García Márquez.
 
Para quem se sente exausto diante do palavrório gasto e enfadonho do dia a dia, a leitura das frases destes audazes construtores de sentido nos remete à aurora de um mundo onde a linguagem ainda não cedeu aos apelos da publicidade, da mentira, da pobreza de ideias e sentimentos.

Deus
É invisível e não sei mais porque não fui no céu.
(José Piedrahíta, 3 anos)

Eternidade
É esperar uma pessoa.
(Weimar Grisales, 9 anos)

Família
Lugar onde tem muita discussão e se amam.
(Alejandra Giraldo, 10 anos)

Igreja
Onde as pessoas vão perdoar Deus.
(Natalia Bueno, 7 anos)
 
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Casa das estrelas, o universo contado pelas crianças. Seleção, organização e apresentação de Javier Naranjo. Editora Foz, Rio de Janeiro, 2013. Tradução de Carla Branco. Ilustrações de Lara Sabatier.
 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Je reste au lit

                                                          Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
EU FICO NA CAMA. Sair do quarto pra quê? À força de invencível banzo, não traço nem a primeira das duas linhas que queria escrever. Imagino um banco, entre pinheiros, na praça da imaginação, à espera do amanhecer do texto. Nada.
 
Palavras são caramelos. Palavras são farelos de uma coisa maior. Mas hoje eu não quero falar disso. Estou com banzo. Quero ficar quieto.

Não que haja leitores esperando, nem há nem. Ler? Existem para todos coisas mais urgentes.

Essa mania de escrever e não ser lido é coisa de louco. Coisa que se presta a um estudo. Será feito por algum arqueólogo da internet - ou psicanalista do ciberespaço - daqui a séculos. Enquanto isso, eu fico na cama.

Palavras também cansam. Que fiquem todas dormindo no dicionário. Je reste au lit. O fato é que não vejo graça em sair do quarto.
 
Preciso de um tempo de silêncio. É bom ficar calado nesse mundo cheio de bocas parlantes.

Resta um imenso vazio diante das notícias da Terra de Vera Cruz. Não dá pra ficar mais de cinco minutos escutando o noticiário, sem ter vontade de vomitar. Prefiro não ler jornal, revista, nem ver tv. Melhor ficar na cama, lendo um livro ou ouvindo música. De vez em quando uma passada até a janela, mas sem demorar ali.

Pensar em fugir não adianta. Pra onde? Celulares, câmaras secretas, satélites, drones e outros invasores são capazes de localizar o evadido em poucos segundos. Além disso, não pretendo sair da cama. Amanhã é outro dia, certo. Por hoje, contudo, a realidade pode passar muito bem sem mim.

Como tarda a claridade quando a escuridão é tamanha!
 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Hay días que me gusta vivir

Jorge Finatto

Lisboa, Tejo e gaivota. photo: jfinatto
 

NEM UMA GOTA de melancolia, nem mágoa, nem tristeza. Não quero peso nas palavras. Por que havia de escrevê-las ao avesso num dia ensolarado com todas as ventanas abertas? O dia é longo e a vida, grande. Grande a vida na miséria de cada instante. Imensa vida, vista do grão de tempo que habito.

Olho os telhados, o céu branco com nuvens azuis. Respiro à janela. Um gato esticado sobre o muro. A horta humilde no pátio lá em baixo. E flores crescendo sem cuidado na calçada ao alcance do olhar fatigado.
 
Que posso mais querer? Carrego recordações felizes. Por exemplo, teu rosto iluminado por um raio de sol, sorrindo quando tínhamos 20 anos. E sinto um doce perfume  que vem dos teus cabelos e do teu corpo. E nos vejo numa praça e depois subimos por uma avenida larga e comprida. Mãos dadas, conversas sem relógio. Havia uma eternidade pela frente e nós juntos nela.
 
Pressinto os anjos que caminham ao meu lado, ajudam a sobreviver a tanta coisa ruim. Os anjos, mensageiros de Deus, nunca nos abandonam. É por causa deles que estou hoje aqui, à janela, olhando sobre os telhados uma nesga de rio ao fundo entre os edifícios.

As ventanas abertas ao sol, ao movimento dos barcos, à solitária gaivota. Vida que é bela e grande pelo simples fato de estar vivo e  respirando à janela.
 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Poética

Jorge Finatto

 Colonia del Sacramento, Uruguai. foto: jfinatto

 
NINGUÉM LÊ meus poemas
sequer a família
com meus versos se amola

os outros têm afazeres diversos
toda hora

recebo o poema
como um ser
que apareceu
na minha porta
nesse dia

eu escrevo para uma sala vazia

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Uma trapaça da sorte*

Luís Roberto Barroso
Ministro do Supremo Tribunal Federal
 
 
Ministro do STF Teori Zavascki (1948-2017)
foto: Nélson Jr., STF
 
 
TEORI ZAVASCKI supervisionava a Lava Jato com virtude, razão prática e coragem moral. Continuar o trabalho de mudar o patamar ético do Brasil, com a mesma determinação e serenidade, será a forma mais digna de homenageá-lo. Ajude-nos aí de cima, amigo.
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*Leia a íntegra do texto no site da Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2017/01/1851895-uma-trapaca-da-sorte.shtml
 

As tragédias mil vezes anunciadas*


Sob o título “Estações do inferno“, o artigo a seguir é de autoria de Jorge Finatto, escritor, fotógrafo, magistrado aposentado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. O texto foi publicado na quarta-feira (18) em seu blog “O Fazedor de Auroras“.
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*Transcrevo a reprodução, para mim muito honrosa, do texto "Estações do inferno", no blog Interesse Público, do notável jornalista Frederico Vasconcelos, da Folha de São Paulo:
 

sábado, 21 de janeiro de 2017

A vida vale um caco

Jorge Finatto
 
photos: j.finatto

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas".
 
EXISTE BELEZA nos cacos de uma xícara quebrada.

Juntei os restos de louça espalhados no chão do escritório, acondicionei-os em folhas de jornal velho para descartar no lixo seco. Depois subi a escada Santos Dumont, retornando ao trabalho.

Enquanto labutava nesse ofício inútil que é escrever (e ninguém ler), percebi num canto do escritório uma reminiscência da xícara em forma de lasca colorida.

As cores e o formato daquele caco me chamaram atenção. Descobri que havia encanto naquilo. Fui em seguida até o lixo e resgatei os outros pedaços.

 

O objeto xícara havia se partido acidentalmente ao cair da escrivaninha (dentro havia folhas secas de erva cidreira). Deu origem a vários outros miniobjetos com formas, cores e volumes próprios.

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas". No ato de renascer, receberam a marca intransferível da solidão que caracteriza as coisas e os seres viventes.

Sei, por experiência de quem é astrônomo do farelo, observador de miudezas, que não existem outras lascas iguais a essas.

São entes novos no mundo. Estão aí com sua particular verdade, têm uma face própria, uma maneira de estar, uma sombra, ocupam certo espaço, a claridade os ilumina todas as manhãs, existem.

 

A asa da xícara-mãe ficou incólume, contudo não é mais uma asa. Aderente à superfície convexa, lembra antes uma bela orelha renascentista.

Orelha que escuta talvez uma voz ausente, que se perdeu no tempo, ou uma canção impossível.

Libertou-se, a asa, da antiga e rígida obrigação. Ninguém mais poderá tratá-la ou esperar dela que se comporte como se singela asa fosse. É uma nova entidade, um corpo mutante com uma estética própria. Perdeu a natureza acessória com que veio à existência.


De certo modo, os fragmentos estão mais vivos do que quando formavam um todo orgânico e fechado. Aproveitaram a chance, gozam agora de uma liberdade que antes não conheciam.

O que aconteceu com os cacos foi um reviver após a morte da mãe que os aprisionava. Estão soltos no mundo, rebentos recém paridos, cada um a seu jeito. Como todos os seres, correm riscos, o futuro é incerto e padecem de solidão. O preço de estar vivo.
 
Olho os restos sobre a escrivaninha. São parecidos com tudo que vive e sofre e existe apesar de tudo. Aprenderam na pele que cair um tombo, bater com a cara no chão, ficar reduzido a estilhaços, pode ser, às vezes, o caminho para um novo, jamais imaginado, venturoso recomeço.

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Texto revisto, publicado em 30 de abril, 2013.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Estações do inferno

Jorge Finatto

O BRASIL não consegue enfrentar temas cruciais que estão a gritar por solução todos os dias. Faz pelo menos 30 anos que não há uma política eficaz voltada ao saneamento das penitenciárias e à ressocialização dos apenados. O resultado é o que se vê nos bárbaros massacres ocorridos nos últimos dias em presídios do Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte, com requintes de decapitações e extrações de órgãos dos corpos, na terrível guerra das facções.
 
Estes são apenas os casos mais recentes que causaram forte impacto pelo insuportável grau de crueldade que os alimenta. Mas a violência física e psicológica é fato corriqueiro nas cadeias (destinadas a presos provisórios) e penitenciárias (para presos que cumprem pena em regime fechado). Fatos terríveis como os ocorridos são tragédias mil vezes anunciadas.

As autoridades federais e estaduais encarregadas da gestão material e da segurança dos estabelecimentos penais (leia-se Poder Executivo) têm um desempenho muito abaixo do esperado diante da crise prisional (antiga de décadas), mostrando-se às vezes confusas, resolvendo no improviso questões estruturais que demandam ação sistêmica. Não é de hoje que o Estado perdeu o controle das prisões.
 
O fato é que Estado e sociedade demonstram indiferença à dura realidade dos presídios. Não raro ouvem-se declarações estapafúrdias no sentido de que a violência entre presos é assunto de menor importância e que quanto mais se maltratarem e matarem uns aos outros melhor será. A tanto chegamos.

Acontece que os indivíduos que cometem barbáries nas casas prisionais retornam, mais cedo ou mais tarde, ao convívio social e, sem receber tratamento adequado durante a reclusão, aqui fora farão novas vítimas. Quantas pessoas mais vão morrer nessa espiral de horror?
 
A Constituição Federal não vigora no interior de boa parte de nossas prisões. Estabelece que é assegurado aos presos o respeito à sua integridade física e moral, mas não é o que se verifica. A Lei de Execução Penal é sábia e bastaria cumprir com seus princípios fundamentais para evitar o colapso em curso no país.  Nela existe, por exemplo, importante previsão de participação da sociedade no processo de execução através dos conselhos da comunidade. No entanto, o sistema faliu por força da inércia do Estado, com cadeias superlotadas e tratamento desumano aos reclusos.
 
O enfrentamento da violência começa fora dos presídios com atenção às famílias, à infância e à juventude através de creches, atendimento à saúde, escolas, centros comunitários, formação profissional, oportunidades de trabalho, etc., aquelas coisas que todos precisam para uma vida razoavelmente digna. Para que isso aconteça é necessário combater com vigor e tenacidade a corrupção e a incompetência do andar de cima, que simplesmente desaparece com o dinheiro público. Não há falta de recursos no Brasil para estas e outras obras: há corrupção e má gestão.
 
Neste momento é essencial construir penitenciárias em condições de receber vida humana lá dentro, individualizando-se a execução com separação dos presos, como manda a LEP, para que se possa falar em ressocialização por meio do trabalho, do estudo e do provimento de necessidades básicas dos detentos.

É preciso dar fim às estações do inferno. Não existe esperança para um país que aceita a trágica e cotidiana violência no interior das prisões. Todas as violações que lá ocorrem acabam voltando para as ruas. O resultado é este círculo absurdo e intolerável de violência que tomou conta das nossas cidades e das nossas vidas.
 
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul desenvolveu, no início dos anos 2000, o Projeto Trabalho para a Vida que pode servir de referência e inspiração na busca de soluções. Congregando dezenas de entidades civis e órgãos estatais, elaborou programas de ressocialização, colhendo bons resultados.

Iguais a esta existem outras iniciativas do Judiciário que podem contribuir para resolver em parte os desafios que se apresentam. Mas é necessário, antes de tudo, que a União e os Estados queiram realmente sair da improvisação e avançar nessa área que é talvez a mais esquecida e desprezada em nossa sociedade.

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Encarceramento degradante, danos morais:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/04/encarceramento-degradante-danos-morais.html
 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Último dia para ver "Olhar sobre Veneza"

Jorge Finatto

Exposição Olhar sobre Veneza. Café do Porto. photo: jfnatto
 
NESTA SEGUNDA-FEIRA encerra-se a mostra Olhar sobre Veneza no Café do Porto. Foram 14 dias de convívio das imagens com os frequentadores do charmoso café da Rua Padre Chagas.

Estive lá algumas vezes nesse período, olhando as minhas crias e o movimento, sentado à mesa perto da janela. Um bom lugar para se estar, sob a direção atenciosa de Cacaia Bestetti, que, além de arquiteta e proprietária, é incentivadora das artes.
 
Espécie de memorabilia afetiva da cidade do Adriático, a exposição nasceu por acaso, fruto das minhas digressões por seus canais e pontes, a pé ou embarcado. Veneza é um nome bom de se dizer e um lugar único no universo para se conhecer.
 
A todos que estiveram na mostra, meu agradecimento. Uma exposição só faz sentido no olhar de quem a vê. Até a próxima.
 
photo: jfinatto

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A lupa chinesa

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
COMPREI UMA LUPA num bazar perdido num canto do mercado público. A procura de sempre: aumentar a nitidez das coisas. Não é esta a primeira vez, nem a primeira lupa. Esta lupa, contudo - garantiu-me o vendedor -, é especial,

- fui buscá-la no laboratório de um sábio chinês, no bairro do Bixiga, em São Paulo. Instrumento especial  de primeira, sim senhor, capaz de divulgar até o invisível.

Eu ando tão precisado de claridade, tão necessitado de qualquer coisa que me ajude a decifrar os absurdos e mistérios do mundo, que não resisti à oferta, sem opor dúvida nem ressalva. Quem sabe não começo, enfim, a entender melhor o sentido da vida?

Uma dúvida, porém (sempre o maldito porém), me ocorreu. Não sabia que havia sábios chineses criando maravilhas no Bixiga. Que eu saiba, naquele tradicional bairro vivem italianos, seus descendentes e afins, além de nativos. Ao menos era assim quando por lá andei há muito tempo, envolvido com as artes do Grupo Sanguinovo e fazendo visitas ao MASP.

Se há sábio chinês estabelecido no Bixiga é coisa de eras recentes. Mas pode ser também que algum carcamano esteja se fantasiando de chinês (e de sábio) para vender quinquilharias de origem duvidosa. Mas que digo eu? Por que essa mania de duvidar e sopesar os detalhes? Por que não acreditar na humanidade simplesmente?
 
O fato é que agora estou armado com a mágica lupa do sábio chinês do Bixiga. Partirei com ela em expedição aos confins do dia, buscando desvelar enigmas e encontrar clarões em meio à densa treva. Colecionarei as revelações do universo. Sabe lá Deus as besteiras que resultarão...
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Città del cuore

Jorge Finatto
 
Veneza. photo: jfinatto
 
Uma cidade será sempre
o que nosso coração
diz que ela é.
 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Nagai Kafu e as histórias da outra margem

Jorge Finatto
  
Nagai Kafu entre mulheres.
Kafu Nagai with strippers @ Asakusa Rokkuza, 1952
Fonte: the setting sun*
 
  
Oyuki era uma musa que ressuscitara em meu coração tão cansado imagens de um tempo  distante e saudoso. O manuscrito há tanto tempo abandonado sobre a escrivaninha, não fosse por ela ter aberto seu coração para mim - ou, ao menos, não fosse por eu ter achado que esse coração se me abrira -, já estaria há muito tempo no lixo.¹
                      Nagai Kafu
 
MAIS POR FALTA de livros traduzidos do que por outro motivo, no Brasil temos pouco conhecimento da literatura oriental.
 
Mas isso começa a mudar. Na medida em que editoras brasileiras investem na tradução de autores daquele lado do mundo, vamos descobrindo pérolas até aqui escondidas.
 
Ultimamente tenho folheado livros de pintura japonesa, de autores como Hokusai e Hiroshige, e lido textos de escritores japoneses. Não é pouca nem recente a admiração que sinto pela cultura do Japão.
 
Entre os autores daquele país mais conhecidos por aqui, temos Bashô (poesia) e Yasunari Kawabata (prosa, Prêmio Nobel de 1968 ). Mas existem outros de grande qualidade.
 
Acabo de ler Histórias da outra margem, do escritor Nagai Kafu (1879 - 1959), esse da foto com as moças. Trata-se de um livro de 123 páginas, que transita entre a ficção, o diário, a poesia, a crônica e as memórias do autor.

Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas.²

Nagai Kafu, 1954. photo de Ihei Kimura**

O enredo se passa na Tóquio da década de 1930. Tadasu Oe é um escritor de quase 60 anos que vive uma história de amor com uma "mulher da vida", na zona de prostituição do bairro Tamanoi, a leste do rio Sumida.

Oyuki é jovem, pobre, bela, alegre, foi gueixa antes de prostituir-se. Ao conhecer Tadasu Oe, pensa abandonar a zona e casar-se com ele. Oe, por seu turno, encontra na jovem inteligente e cheia de vida um cálido cais onde ancora sua solidão nos fins de tarde.

Ao mesmo tempo em que narra o seu romance, Oe conta detalhes do livro que está escrevendo, no qual um professor aposentado abandona a família. O desenvolvimento é surpreendente.

A história é, em vários aspectos, a história do próprio Nagai Kafu. E de muitos homens e mulheres por este mundo afora.

Histórias da outra margem é um livro com uma curiosa e envolvente construção. Nagai Kafu revela-se um excelente escritor, com uma narrativa que combina técnica esmerada e sensibilidade poética, sem cair em literatices.

Como se isso não bastasse, a obra tem ainda belas ilustrações de Shohachi Kimura (1893 - 1958). Um livro, enfim, pra se ter nas mãos.
 
___________________
 
¹,²Histórias da outra margem, pp. 109, 117. Nagai Kafu, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 2013. Tradução do japonês e notas por Andrei Cunha.

Texto publicado originalmente no blog em 7 de abril, 2013.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Os fascistas

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto


Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à BENIGNIDADE DO SOL

mas os poetas
continuarão
VIOLANDO
AS SOMBRAS


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Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ponte dei Sospiri

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


Vamos iniciar 2017 atravessando juntos a PONTE DOS SUSPIROS.
 
Mas se houver suspiros na travessia deste tempo que agora começa, que sejam de êxtase, de alegria, jamais de tristeza ou desilusão.

photo: jfinatto

photo: jfinatto

Estão todos convidados a suspirar visitando a exposição OLHAR SOBRE VENEZA, que será inaugurada hoje no Café do Porto.

photo: jfinatto
 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Colher hibiscos

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto 1º jan. 2017

NA TARDE do primeiro dia do ano, saí para colher hibiscos. Colher com os olhos, com a lente esperta da Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano. Nada de arrancar flores para pôr no vaso. O olhar sensível é capaz de entendê-las em seu habitat, sem qualquer ideia de posse.
 
Porque os hibiscos habitam as ruas e praças de Porto Alegre. A sua linda corola é um presente para o coração. Um lenitivo (talvez só o pessoal nascido em meados do século passado saiba ainda o que é lenitivo. Muitos já esqueceram seu significado tamanha a dureza destes tempos). Consolo nesta cidade triste e desmantelada.
 
photo: jfinatto, 1º jan.2017
 
O porto-alegrense virou uma pessoa mal-educada, grosseira e agressiva. É o que se vê no trânsito, nas lojas, dentro dos ônibus, em toda parte. Se você não faz parte deste grupo, perdoe. Mas a média da população está assim, infelizmente. Por isso eu, quando estou por aqui, busco as praças onde ainda é possível encontrar um pouco da humanidade perdida deste outrora acolhedor burgo.

photo: jfinatto, 1º jan.2017
 
Mas eu quero falar dos hibiscos. Durante caminhada para  equilibrar o esqueleto, no entardecer de 31 de dezembro, na Praça da Encol, percebi arbustos de hibiscos, alguns vermelhos, outros cor-de-rosa. Um brilho só. Voltei no dia primeiro para fotografá-los e guardá-los assim do esquecimento. Estão no auge do encanto. Façamos por merecer.

photo: jfinatto, 1º jan. 2017
 

sábado, 31 de dezembro de 2016

A luz do novo tempo

Jorge Finatto
 
photo: Clara Finatto, Ipanema, Rio de Janeiro

AS IMAGENS de Clara Finatto nos remetem a um momento de rara beleza e emoção neste último dia do ano. As fotos são da praia de Ipanema no Rio de Janeiro. As pessoas estão reunidas olhando o pôr do Sol. Ao fundo, à direita, o Morro Dois Irmãos.

Clara conta que os admiradores aplaudem quando o Sol se põe. O mesmo fazem quando ele nasce lá longe sobre o mar, na linha do horizonte.

photo: Clara Finatto. Morro Dois Irmãos, Rio de Janeiro

O tempo leva tudo pela frente. Passa como o vento e não pede passagem. Atropela, arrasta a pobre criatura. Um ano não significa nada na vida de uma estrela, de uma montanha como Dois Irmãos. Mas na vida de um efêmero ser humano faz muita diferença. O que isso quer dizer? Que cada dia é um tesouro que não deve ser desperdiçado.

Olhando as imagens que a Clarinha colheu, percebo que a vida e o mundo são belos demais. Devemos agradecer sempre a oportunidade que nos foi dada.

Desejo a todos bons motivos para aplaudir o dia que se vai e o dia que nasce. Que cada um colha o que semeou em 2017. E que consigamos não levar tudo tão a sério. O riso é uma arma poderosa contra o desespero e o niilismo. Que possamos rir mais, apesar de tudo.

photo: Clara Finatto, Ipanema, RJ

Que haja mais justiça na distribuição do pão, da alegria, do amor, do bem-estar, dos bens materiais. Que todos tenham tempo para viver. E possam refazer a semeadura, caso tenham errado a mão.

Que Deus nos dê saúde para enfrentar os dias difíceis, para aproveitar os de júbilo, para repensar nossas prioridades. Possamos enxergar, ouvir e tentar entender as razões do outro (quando mais não seja, porque somos o outro do outro).

Luz pra todos.
 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Veneza no Café do Porto

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 Exposição fotográfica mostra a face pouco conhecida de Veneza, no Café do Porto, a partir de 03 de janeiro


VENEZA é uma das cidades mais visitadas e fotografadas do planeta. Uma cidade de espelhos, segredos e mistérios. Perambular sem pressa e sem itinerário por seus tortuosos caminhos (as fondamenta,  à margem dos canais) é essencial para descobrir seu corpo cheio de cálidas surpresas. 

A pé, numa gôndola ou num vaporetto (embarcação típica de Veneza, usada como meio de transporte pelos canais, com motor a diesel, e não mais a vapor como antigamente), o passeio é sempre revelador.
Não nos cansamos de admirar a arquitetura, as pontes, as paredes de tijolos à vista, as janelas com flores, os telhados, as roupas secando ao vento, as praças com pessoas de todos os lugares (talvez você dê sorte e encontre um veneziano em meio à multidão...), os longos e estreitos corredores que se perdem na bruma dos séculos.

photo: jfinatto

Veneza se deixa visitar, olhar, fotografar. Mas não se iluda o visitante: poucos terão acesso a seus aposentos interiores, à sua alma. Estes lugares não são para olhos estrangeiros. 

Recatada, a bela senhora nunca se deixa desvelar por completo. É preciso saber tocá-la com a ponta dos dedos, delicadamente. Como quem toca uma estrela muito frágil fadada a desaparecer (o aumento do nível das águas e os processos geológicos locais, embora lentos, estão levando ao afundamento da cidade).

Nesta exposição, reuni imagens que buscam mostrar o lado pouco conhecido de Veneza, longe dos clichês e do corre-corre dos turistas. Gostaria de compartilhar com você essas impressões sobre a querida República Sereníssima. São 17 painéis que estarão à mostra no acolhedor Café do Porto, a partir do dia 03 de janeiro de 2017.
 
photo: Jorge finatto


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Mostra fotográfica OLHAR SOBRE VENEZA
Autor: Jorge Finatto
Café do Porto, de 03 a 16 de janeiro, 2017
Rua Padre Chagas, 293, bairro Moinhos de Vento
Porto Alegre
 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Cemitérios nos caminhos da Serra

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

UMA COISA que chama atenção nos cemitérios da região serrana do Rio Grande do Sul é que estão sempre enfeitados com flores. O vivo colorido torna-os menos tristes nas beiras de estrada. Às vezes, estão localizados no núcleo das cidadezinhas, misturados ao casario.

Vida e morte lado a lado, sem ataques de nervos.

São espaços que nada têm de fantasmagóricos. Última morada coisa nenhuma: lugar de passagem, transição para outra esfera.

Os pequenos territórios de ausência têm muros de pedra baixos e portões de ferro com trepadeiras enlaçadas. As sepulturas são rentes ao chão, algumas cobertas de heras; outras com vasos floridos. E há aquelas que possuem flores plantadas em volta.

Na Serra até a morte parece fazer parte da vida. Os mortos têm direito a flores o ano inteiro e ocupam um lugar cálido na memória dos que ficam.
 

sábado, 24 de dezembro de 2016

As mãos estendidas de Deus

Jorge Finatto
 
Criação de Adão. Miguel Ângelo. Capela Sistina. photo: Wikipédia

 
AOS LEITORES do blog, onde estiverem, desejo um Natal com saúde, amor no coração, paz de espírito, esperanças no peito, humildade, comunhão.

Que Deus estenda a mão, ou um dedo que seja, em nossa direção, e que, ao acolher esse gesto, sintamos que existe algo muito anterior e muito além das nossas vãs filosofias.

Celebremos o Menino Jesus, as mãos estendida de Deus. Vale o mesmo pra você que é ateu (quem não é, às vezes, em meio à esculhambação em que está o planeta!) Vamos com fé. Tudo de bom a todos.