quarta-feira, 23 de agosto de 2023

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

segunda-feira, 17 de julho de 2023

domingo, 9 de julho de 2023

Um tempo

 JF





Uma casa

um jardim 

um perfume

um sentimento 

um tempo


tempo de 

pensamento 

e coração


o meu tempo

______

texto e photo (sem filtro): jfinatto

segunda-feira, 3 de julho de 2023

terça-feira, 27 de junho de 2023

Alegria guarda-chuval

 Jorge Finatto


photo: jfinatto


Caminhando na tarde azul. 

Canela. 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Pinhão

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


FRUTO da araucaria angustifolia (pinheiro brasileiro), o pinhão é alimento de humanos, aves e animais silvestres. A Serra Gaúcha foi abundante em pinheiros. A exploração rude de madeira reduziu bastante a espécie. Atualmente é árvore protegida por lei.

Quem já comeu pinhão cozido, ou assado na chapa do fogão a lenha, não esquece a delícia. É uma bênção. 

Esteticamente a araucária é uma árvore linda. O pinhão é fruto da estação fria e alimento que aquece não só o corpo como também o coração de quem, como eu,  viveu entre pinheiros na infância.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

domingo, 28 de maio de 2023

Olhar sobre o Guaíba

 Jorge Finatto


photo: jfinatto

                       

O primeiro amigo que fiz quando cheguei em Porto Alegre aos seis anos foi o Guaíba. Não conhecia ninguém e acabara de me tornar órfão. Com a morte na alma, esperava o bonde passar e atravessava a rua Washington Luís. 

Havia uma pracinha nas proximidades da Casa de Correção (velho presídio depois demolido). Na beira do rio, famílias estendiam toalhas e esteiras na areia e aproveitavam as tardes de verão. Era bonito ver. 

Eu sentava por ali e ficava olhando o Guaíba com seus barcos, peixes, ilhas e aves. Uma grande descoberta para quem vinha da Serra. 

De vez em quando um navio de grande porte entrava ou saía do porto deixando ao passar um sonoro e grave apito. 

Nas nossas conversas o rio me acolheu e me deu consolo. Me ensinou que a vida segue sempre em frente como as águas e que tudo vale a pena.

Na fotografia, em primeiro plano, um galho com biguás reunidos. No fundo, à esquerda, a Ilha das Pedras Brancas, um lugar lindo que transformaram em prisão para presos políticos durante a ditadura militar (1964/1985). Depois, mais ao sul, a saída para a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Outonos

 Jorge Finatto


Canela, Serra Gaúcha


domingo, 21 de maio de 2023

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Outonos

                                 Jorge Finatto



             

A mais bela das estações, para o rude mortal que escreve estas linhas, é o outono. De boa vontade embrulharia o verão e o mandaria direto para o inverno.

 

Mas é no outono que eu renasço.

 

Outono significa transformação, as mudanças tão necessárias para a vida revigorar seu curso. É a concentração das seivas, reunião de forças, introspecção, preparo e passagem para um outro tempo.

_________

photo: jf

domingo, 7 de maio de 2023

Café da tarde

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


No tempo passado havia o costume de fazer uma pausa para o café da tarde. Ninguém mais faz isso. Não existe tempo e, se calhar, as tardes sumiram na bruma da pressa e das inumeráveis tarefas. As loucas lidas da sobrevivência.
Eu sempre que posso invento tempo para o antigo ritual. Foi o que fiz hoje, sentei-me à mesa diante do Vale do Quilombo.

Visto de cima, o vale parece um lugar familiar com casas de pedra e madeira, muros cobertos de hera e gente que tem o hábito de parar na estrada de terra para uma conversa de amigo.

Diante da minha janela uma espécie de plataforma feita de taipa aponta ao infinito.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

La que nunca tuvo novio

                                               Jorge Finatto

                  

                   a Nena com amor



A nostálgica e suave melodia deste tango de 1930 (de Augustín Bardi e Enrique Cadícamo) me levou a encontrar a mulher que nunca teve namorado, que triste!

E a vi horas sem fim na janela do bairro pobre, olhando a rua vazia, onde algum moço passava de vez em quando, e ela então sonhava. Mas o moço apenas passava diante de sua janela, todos os moços passavam e se iam para outras ruas, outras moças.

Ela morava com a mãe, cuidava da casa e dos sobrinhos. Na calle com casas coloridas e flores humildes nas janelas, num bairro distante.

Uma ruazinha perdida no continente, um lugar escondido de Deus, um ermo esquecido ao sul do planeta. Igual a tantos no mundo. Lá ela morava.

Aos sábados, la que nunca tuvo novio se enfeitava com um vestido florido que ela mesma fizera e se ia pelas ruas do barrio com a sombrinha amarela doendo sob o sol. 

Olhava as poucas vitrines, conversava na praça com as vizinhas, tomava refresco do vendedor ambulante. Comia algodão doce sentada no banco. Esperava...

Depois voltava sozinha pra casa por ruas estreitas. Assim passaram-se os anos. As amigas de infância se casaram, depois as filhas delas. A vida passou. Ninguém nunca entrou na sua vida. E as vizinhas diziam: la que nunca tuvo novio. Pobrecita!

Essas coisas eu vi e senti enquanto ouvia o tango no bandoneón de Rodolfo Mederos. Caminhei pela calle triste da pobre moça que nunca teve namorado. E chorei por ela.

----------

photo: Colonia del Sacramento, Uruguay, j.finatto. 

Texto revisto, publicado antes em 25 maio 2015.


sexta-feira, 7 de abril de 2023

Juiz e réu, encontro extra-autos

 Jorge Finatto


Era quase meia-noite quando saí do consultório do dentista. Tinha viajado cerca de 500 quilômetros até Porto Alegre, dirigindo o inefável Monza. Cheguei e fui direto para a consulta.

Na época, 1996, jurisdicionava a vara criminal da comarca de Santo Ângelo, na Região das Missões do Rio Grande do Sul, perto da Argentina. Os compromissos e a grande distância da capital faziam raras essas viagens.

Tinha deixado o carro no estacionamento de um posto de gasolina, do outro lado da rua. Era preciso encher o tanque. Havia apenas um funcionário àquela hora tardia e ele veio me atender. 

Enquanto o veículo abastecia, ele se aproximou e disse que me conhecia. Ah, sim?, de onde - perguntei-lhe.

- O senhor é o juiz que me julgou e me condenou no processo criminal em que fui réu.

Era tarde, uma noite fria de agosto, quase ninguém na rua. Eu não sabia o rumo que aquela conversa ia tomar. Não recordava daquele rosto, por mais que me esforçasse. O homem falava pausadamente.

Não sabia o que dizer, então falei:

- Mas então, como vai a vida? Vejo que estás trabalhando, isso é muito bom.

Impassível, ele limpava o vidro dianteiro. Continuou:

-  Eu andava perdido, tinha problema com drogas, vieram os furtos. O senhor não se lembra de mim. Sabe por que eu não esqueci? Porque me tratou com respeito nas audiências, durante todo o processo. Me tratou com educação. Quando alguém na sala começou a me agredir com palavras, mandou que cessassem as agressões e que todos ficassem calmos. Nunca vou esquecer.

Depois, paguei a gasolina, agradeci o serviço, desejei-lhe sucesso na vida e fui embora.

Este fato me impressionou pelo tipo de percepção que revela. O que mais marcou aquele indivíduo não foi tanto a condenação (talvez esperasse o resultado), mas a maneira como foi tratado no ambiente judicial.

A instrução de processos criminais costuma ser penosa para os acusados e especialmente dolorosa para as vítimas.

O processo é instrumento de realização de justiça e, portanto, de humanização da sociedade. Nele não pode haver espaço para vingança, humilhação, maus-tratos. O que se busca é a aplicação da lei e dos princípios que movem o Direito, visando restaurar a ordem jurídica.

Nesse sentido, o respeito entre todos os envolvidos na relação processual é fundamental.

Para muitos dos que chegam ao Judiciário na condição de réus, em ações penais, a sala de audiência é a escola que faltou lá atrás, infelizmente. O dever mínimo do Estado, em tal situação, é garantir um tratamento digno às pessoas, respeitando cada uma nas suas circunstâncias.

O modo como nos tratamos uns aos outros define o tipo de sociedade em que queremos viver e o país que estamos construindo.

O fato de sentir-se respeitado durante o andamento do processo talvez tenha contribuído para aquele homem refletir e mudar seu comportamento. É o que espero, do fundo do coração.

______
Publicado em 11 de maio, 2012.

terça-feira, 28 de março de 2023

O passeio

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Saímos a caminhar nesses inícios de outono. Na verdade ele me levou pra passear.
Gambelinho sentou-se à minha frente e ficou me olhando firme nos olhos, como sempre faz. Este é o convite. E não costumo dizer não pra ele. Seu olhar tem doçura e afeto.
Por aqui não faltam pinheiros, córregos e estendidos gramados. E lá no fundo tem as montanhas (menos altas do que a nossa montanha).
É nesse espaço que hoje ficamos um bom tempo. Onde ele gosta de correr contra o vento, esticando as orelhinhas pra trás.
O tempo promete dias amenos e depois gelados. Um jato passa lá em cima entre nuvens escuras, não o vejo. O som espesso traz a esperança de futuras viagens pós-pandemia.
Isso anima depois de tempos tão difíceis e dilacerantes. De profundo obscurantismo e violência no Brasil.
Esta paisagem que eu tanto procurei na minha vida (depois de nela ter vivido a infância) abre uma janela para a harmonia espiritual. E é a promessa de que, talvez, em breve, possamos voltar a sonhar.

sábado, 18 de março de 2023

Presença da rosa

A rosa no fim do verão. Alegria no coração.


photo: jfinatto


domingo, 5 de março de 2023

O cardeal e Lutzenberger

 Jorge Finatto

foto: Alex Rocha, Prefeitura de Porto Alegre



Estava lendo ontem, com algum atraso, um jornal de novembro do ano passado, que tirei da pilha no escritório, quando vi a notícia da inauguração do mural em homenagem a José Lutzenberger (1926-2002), ambientalista, filósofo, cientista,engenheiro agrônomo, paisagista, um dos pioneiros na luta pelo meio ambiente e pela consciência ecológica no Rio Grande do Sul e no Brasil.

A obra foi construída na parede lateral do Instituto de Previdência do Estado, na esquina da Av. Borges de Medeiros com Av. Aureliano de Figueiredo Pinto, em Porto Alegre, sendo autor o artista visual Kelvin Koubik.  Tem 50 metros de altura por 15 de largura.

Fiquei feliz com a justa homenagem ao grande lutador da causa ambiental, seguramente aquele que mais a defendeu naqueles sombrios anos 1970 e depois até sua morte. Foi a pessoa que mais se expôs na batalha ecológica, sendo alvo de toda sorte de incompreensões por parte dos que só veem sentido no lucro fácil e imediatista, para quem a natureza nada mais é do que um atrapalho. 

Lutzenberger fez desenvolver o pensamento ambientalista de forma nunca antes vista entre nós e seu trabalho correu o Brasil e o mundo. Não por acaso recebeu, além de pedradas, várias distinções, como o Prêmio Nobel Alternativo. 

O belo painel traz o ecologista entre borboletas, bromélias e um lindo pássaro cardeal pousado sobre o indicador esquerdo. A visão do cardeal é especialmente feliz na minha memória afetiva, já que era o passarinho que eu mais gostava quando vim morar em Porto Alegre, no bairro Mont'Serrat, ainda menino. 

O Mont'Serrat, o bairro Bela Vista e arredores eram formados, em parte, por chácaras e matos nos quais havia animais e aves por onde a meninada saía em caminhadas e descobertas nos anos 1960. No lugar onde hoje fica o Shopping Iguatemi havia um tambo que abastecia com leite a vizinhança... O cardeal sumiu da paisagem urbana, assim como aquela natureza. E o velho tambo ficou só na lembrança.

Em 1973, em plena ditadura civil-militar (1964 - 1985), participei do curso de extensão Equilíbrio e Crise do Meio Ambiente, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As falas lúcidas e entusiasmadas de Lutzenberger foram fundamentais na minha iniciação ao pensamento ecológico e humanístico, na ventura dos meus16 anos.

Num país como o Brasil a disciplina de Educação Ambiental não poderia faltar em nenhuma escola e universidade, seguindo os ensinamentos do mestre. Para evitar os desastres do presente e os que estão por vir. Para o bem de todos e esperança no futuro.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Rosa vermelha

 A Zero Hora de ontem publicou esta foto da querida rosa vermelha do nosso jardim, depois da chuva. Bem haja!




sábado, 25 de fevereiro de 2023

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O caso da enciclopédia

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


COMO A CASA da serra está cheia de livros, um dia desses fui aconselhado pela família a me desfazer ("desapegar") daqueles que não interessam mais (livros há muito lidos, esquecidos, que não pertencem ao grupo dos "essenciais").
 
Providência, aliás, que tomei há um ano, separando duzentos e alguns livros para doar, a décima parte do acervo. Só que ainda não tive coragem de concretizar o gesto, porque a cada olhar retiro os que, pensando bem, merecem ficar. E, assim, cada vez que olho a pilha, retiro alguns, diminuindo o desapego. 
 
Sabendo da minha dificuldade em "desapegar", alguém da família teve a gentileza de retirar de uma estante, e acomodar sobre a escrivaninha, a velha Enciclopédia Barsa. Quando, ao regressar de viagem, entrei no escritório, dei com aquele quadro (para mim) "dantesco".
 
Pra quem não sabe, as enciclopédias eram o Google de antigamente. A elas se recorria para pesquisar e realizar estudos nas mais diversas áreas do saber e da cultura. Eu comprei a Barsa com sacrifício, pagando em prestações. Além dos volumes, com bonita encadernação em vermelho, havia os "livros do ano" que traziam as atualizações.

Aquela enciclopédia, há quase quarenta anos, me deu esperança de dias melhores para meus filhos. Acreditava, como ainda acredito, no estudo e no conhecimento como ferramentas para construir caminhos.

Como poderia me desfazer de algo com tanto significado? Resumo do caso: pedi que recolocassem a Barsa no lugar. Não estou em condições de fazer o desapego...

Numa espécie de codicilo verbal, disse que, quando fizer a passagem, podem fazer da Barsa o que quiserem. Mas, por enquanto, ela fica, assim como os demais livros que me ajudaram e ajudam a viver. Porém deixo claro: se vier um pedido de doação para escola ou outra instituição, poderei doar com prazer.
 
________
Texto revisado, publicado antes em 12 de julho 2018.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Flor da coragem e da esperança

 Jorge Finatto

photos: jfinatto


Enfim o velho cáctus exibiu a sua bela flor, que nasce ao anoitecer, avança pela madrugada e morre aos primeiros raios do Sol.
A flor do cáctus, ou flor da noite, dama da noite ou flor de mandacaru, para além de sua formosura e seu perfume, simboliza a coragem, a força e a esperança do povo nordestino, e por extensão do povo brasileiro, na sua luta por uma vida digna, contra a violência social manifestada na pobreza, na fome, na injustiça, na desumanização e no desespero.
Ver a flor da noite traz paz e resiliência ao coração e nos fortalece para a luta de cada dia.
(A ideia de fugir de tudo e ir viver no mato não está mais em questão, até porque estão botando fogo na floresta e matando quem vive lá. Faz tempo.)



terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sentimento da rosa

 Jorge Finatto


hoje após a chuva. foto: jfinatto

Uma rosa não se explica, não se traduz. A rosa fala por si mesma e seu perfume vale uma fábrica de fragrâncias de laboratório. 

A rosa vive para falar com os vivos, embora muita gente leve-a a conversar com mortos nos cemitérios. É a flor entre flores e não se deixa apanhar sem tristeza. 

Quando arrancam uma rosa, o mundo perde um pouco a graça. Talvez por isso, e pela brutalidade geral dos dias de hoje, haja tão pouca leveza e encanto nas almas. 

A rosa do meu jardim eu não arranco: sinto.