sexta-feira, 2 de julho de 2010

Baltasar Garzón*

 José Saramago

O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclaman de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?

O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.

Um auditório multitudinário e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair em na permissividade da abjecção.

A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 12 de dezembro, 2008.
A grafia é a de Portugal.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto


Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios. Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava em sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se encontravam para o café da tarde. Até  os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da  saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios,  o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum  lado pra outro feito joão-bobo. Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento leve na face, os peixes no córrego, conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo.

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Foto: J. Finatto

terça-feira, 29 de junho de 2010

Queremos bem a Goethe

Jorge Adelar Finatto


Não tenho tempo nem a necessária disposição para, a essa altura, aprender alemão gótico. O muito pouco que sei do idioma de Goethe aprendi com Púbi Mann, o maior germanófilo vivo de Passo dos Ausentes. O Púbi esteve ontem aqui em casa, bastante preocupado com uma notícia publicada na Folha de São Paulo, edição de 26 de junho passado, de autoria de Lucas Ferraz. Diz  a matéria que um acervo com mais de seis mil volumes, reunindo obras de autoria de Johann Wolfgang  von Goethe (1749-1832) e outras a seu respeito, está guardado sem o devido cuidado na biblioteca do Ministério da Justiça, em Brasília.

Trata-se, conforme o adido cultural da Alemanha, Holger Klitzing, de uma coleção impressionante. Talvez seja o mais importante conjunto de livros sobre o grande escritor alemão na América latina. Há obras do final do século 17, entre elas algumas artesanais e ilustradas a ouro. A maior parte foi editada entre 1780 e 1860 e está escrita em alemão gótico seiscentista. Outras foram escritas em alemão contemporâneo, inglês, francês, italiano, espanhol e português.

Os livros foram comprados pelo governo brasileiro há cerca de 40 anos, quando era Ministro da Justiça Alfredo Buzaid, que gostou muito da coleção, à venda na livraria Kosmus, do Rio de Janeiro. Segundo livreiros, o preço pago então, Cr$ 80.000,00 - equivalente hoje a quase R$ 70.000,00 - estaria muito abaixo do valor real.

Conforme noticiado, o governo diz que irá restaurar a rara coleção até 2011.

Púbi Mann está inconformado, porque os livros apresentam  mofo, estão em estado sofrível, desorganizados e sem possibilidade de consulta pelo público.

- Os livros estariam melhor cuidados aqui em Passo dos Ausentes - , disse Púbi, que é o guardião da nossa pequena biblioteca.

Dom Sigofredo de Alcantis, nosso filósofo, inteirou-se de tudo o que estava se passando. Ele e Púbi são os únicos da cidade que entendem alemão gótico. Em certas tardes, reúnem-se para ler, em voz alta, textos de Goethe na Praça da Ausência, na presença de estudantes, para os quais, em seguida, fazem a tradução , transmitindo noções do idioma alemão.

Depois de planejar uma ida a Brasília para tentar influir no destino e na salvação do importante acervo, Púbi Mann e Dom Sigofredo desistiram da ideia, devido às peculiares condições atmosféricas reinantes aqui nos Campos de Cima do Esquecimento. 

A chuva, a neblina, a geada, o vento e o frio não nos dão trégua  o ano inteiro. Vivemos, a duras penas, a 1.800 metros de altitude, nem sequer estamos no mapa do Rio Grande do Sul. Somos poucos e invisíveis. Ninguém chega, ninguém sai.  A única estrada que nos liga ao mundo está, como sempre, intransitável. Em suma, não há nada de novo sob as névoas eternas de Passo dos Ausentes. Mas queremos bem a Goethe.

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Postais do portal do inverno

Jorge Adelar Finatto


Agora é o tempo da longa espera do sol.

O outono passou com seus pássaros tristes,  suas árvores desabitadas.




O inverno é  um filme de cinema mudo.









 



Agora, espessas nuvens povoam o céu.



As sementes sonham com a claridade. 
 


A primavera é a promessa que amadurece em silêncio no  secreto movimento das seivas.

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Fotos: J. Finatto

sábado, 26 de junho de 2010

À sombra de uma oliveira


"Mas não subiu para as estrelas,
 se à terra pertencia". 

 Memorial do Convento



José Saramago repousará no Campo das Cebolas, após remodelação no local, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, à sombra de uma oliveira centenária que será transplantada da sua aldeia natal, Azinhaga, para Lisboa.


A frase do "Memorial do Convento" estará inscrita em pedra de Pero Pinheiro. 
 
Um banco de jardim possibilitará que os seus amigos leiam fragmentos da sua obra ou observem a paisagem que o Escritor teria da sua janela.

José Saramago está em Lisboa, nos seus livros, mas, sobretudo, nos nossos corações.

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Notícia extraída do site da Fundação José Saramago.
http://www.josesaramago.org/
 
Imagem: Casa dos Bicos, Lisboa. FJS

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A viagem do balão vermelho

Jorge Adelar Finatto



O balão é vermelho e tem forma de coração.

A tarde cai vertical e fria em Passo dos Ausentes. O solitário voo do balão é um convite à evasão da realidade. Não sei como ele apareceu aqui nos Campos de Cima do Esquecimento.  Talvez tenha se perdido no itinerário do vento. O fato é que sua breve aparição no céu da cidade foi um grande acontecimento. Os habitantes saíram para as ruas em alvoroço, apontando para o objeto que passava lentamente sobre os telhados. Os meninos correram pela estrada afora atrás dele.


Quem sai a voar num balão vermelho, numa segunda-feira de junho, início de inverno? Quem  será o destemido navegante que decidiu entrar no cesto do aerostato e ir pelo  espaço sem pressa, deixando embaixo os medos, a falta de tempo e de ternura, as angústias e tragédias da vida? De onde virá a força que o faz navegar entre as nuvens, fugindo dos mil nadas que aprisionam a existência?

Desliza no ar gelado, entre o azul e o branco . A bagagem do viajante são as palavras e a memória. Lá em cima, está livre da violência, do tédio e da mesquinharia. O navegante rasga o azul e vai para um lugar onde ninguém poderá encontrá-lo. A viagem de balão é um modo de postergar o absurdo cotidiano, um jeito de  não enlouquecer.

Enquanto o viajante flutua no cesto, a frágil nave se distancia para além das montanhas. Deriva em direção à noite.  Perco-a de vista.  Os meninos voltam para suas casas. A cidade aos poucos volta ao normal. Lá longe desaparece o balão vermelho, levando com ele os delicados fios de que são tecidos nossos sonhos .

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Foto: J.Finatto

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saramago, Caras e Pessoas

Marcelo Buainain


Para muitos, ao longo dos últimos 10 anos essa imagem do escritor José Saramago se tornou  conhecida, porém poucos sabem da sua história e autoria. O autor não é desconhecido...

O ponto de partida é Lisboa, cidade onde vivi praticamente toda a década de 90. Foi nessa ocasião que tive oportunidade de formar uma parceria com a jornalista Cristina Duran que pautava os entrevistados e eu os fotografava. Momentos especiais foram vividos e compartilhados nas tascas e em nossas residências situadas no bairro de Alfama, quase  à beira do rio Tejo. Deste elo profissional e amizade tivemos o privilégio de fotografar várias celebridades, entre elas Wim Wender, Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci, Irène Jacob, entre tantas outras.

Tomado por uma certa insatisfação com os clichês fotográficos, concebi o projeto "CARAS E PESSOAS", cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra, a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein, o insólito, o inusitado. 

Já em campo, empunhando uma Hasselblad e um estúdio ambulante, retratei o então presidente Mário Soares, a atriz Eunice Munhoz, o ator Joaquim de Almeida, o amigo e escritor Pedro Paixão, o pianista Bernardo Sassetti, o cineasta João Botelho, a cantora de fado Amália Rodrigues e, entre tantos outros, João Fiadeiro, Sérgio Godinho, Rui Chafes, Pedro Cabrita, Ana Salazar, Jorge Molder e Júlio Pomar. 

Sensibilizado com o drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, idealizei para o projeto Caras e Pessoas um retrato do escritor Saramago, enfatizando os olhos, a cegueira, a visão.

Em 25 de fevereiro de 1996, no bairro de Alfama em Lisboa, na residência da jornalista Cristina Duran, tive a oportunidade de focar os olhos e a alma de José Saramago, expressos nesse retrato.

Saramago, a nossa gratidão por acreditar na possibilidade e realização desta imagem.

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Agradeço a Marcelo Buainain a preciosa  e generosa colaboração. J.Finatto

terça-feira, 22 de junho de 2010

Maratona de leitura de «O ano da morte de Ricardo Reis» na Casa Fernando Pessoa

Amigos,
Porque acreditamos que a voz dos grandes escritores só morre quando a nossa voz os deixa morrer, convidamos-vos a ler em voz alta O Ano da Morte de Ricardo Reis, na próxima sexta-feira, dia 25, na Casa Fernando Pessoa. Faremos a leitura integral desta obra, numa maratona que terá início às 12 horas.

Contamos convosco,
Inês Pedrosa
Directora

Leitores confirmados: Pilar del Rio, Leonor Xavier, José Luís Peixoto, António Mega Ferreira, José Mário Silva, Luísa Costa Gomes, Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Clara Pinto Correia e Patrícia Reis.

Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt
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Imagem e texto: Casa Fernando Pessoa, Lisboa.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto



I

Dizem
que escrever
        poemas
é ofício
   de pouco valimento
mas pouco se revelou
sobre a memória da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o esquálido corredor
onde se morria
um dia todos os dias
              sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
             da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas
os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
     do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
                   histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram

e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Fotos: J.Finatto

sábado, 19 de junho de 2010

Adeus, José

Jorge Adelar Finatto


Cada um de nós é por enquanto a vida. 
Isso nos baste.

A morte de José Saramago ontem, 18 de junho, significa a perda de um notável ser humano e o ponto final na trajetória de um escritor essencial do nosso tempo. Neste mundo em que a média de lucidez e sensibilidade é muito baixa , um homem dessa natureza fará muita falta.

O desaparecimento do escritor português, aos 87 anos , na ilha de Lanzarote, situada no arquipélago espanhol das Canárias, onde vivia desde que o governo de Portugal censurou seu livro O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), representa uma dor pessoal para seus muitos leitores espalhados pelo mundo. Todos faziam parte da família espiritual que Saramago construiu através de seus livros, suas posições corajosas contra a injustiça, sua fé na razão  humanista e na solidariedade como instrumentos de luta diante das trevas que inundam o planeta. Foi o primeiro e, até agora, único escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998.

Numa época em que se misturam os conceitos de escritor e publicitário, em que o marketing pessoal muitas vezes vem antes do trabalho literário e da consciência do que este representa, José Saramago foi uma notória exceção. Antimarqueteiro por excelência, não se preocupava em atender as demandas e caprichos do mercado. Nele o cidadão andava junto com o criador de páginas belas, densas, simples e memoráveis. Dizia o que pensava e o que sentia . Não tolerava a opressão e a coisificação da vida. Não fugia dos temas polêmicos, a indiferença jamais fez parte de seu modo de ser e escrever. Queria denunciar a iniquidade e a desumanização, e o fazia com  destemor, acendendo e partilhando a boa luz que emanava de seu espírito. 

Esse homem de origem muito humilde, nascido na pequena povoação de Azinhaga, província do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922, apontou a irracionalidade de religiões que investem contra a dignidade das pessoas. Criticou Israel na luta desigual, violenta e injusta contra os palestinos, acusou a perseguição movida ao juiz espanhol Baltasar Garzón por querer apurar os crimes cometidos pela ditadura franquista, e insurgiu-se diante de muitos outros atos  de violência.

Terá cometido erros como todos, do contrário não seria gente. Mas o legado literário, ético e humano que deixa para as pessoas de todas as nações é digno de atenção e profundo respeito.

Em sua importante produção, encontramos livros como Levantado do chão (1980), O ano da morte de Ricardo Reis (1988), Ensaio sobre a cegueira (1995), O conto da ilha desconhecida (1998), As pequenas memórias (2006).

O blog que manteve a partir de 2008, intitulado O Caderno de Saramago, na página da Fundação José Saramago na internet, foi mais uma manifestação concreta de grande generosidade e  capacidade de intervenção na realidade.

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada
À espera da minha vez.)

O homem silenciou.

A obra continuará viva entre nós.

Por isso, lhe seremos sempre gratos.

Adeus, José.

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Foto: José Saramago, janeiro de 2009. Arquivo da Fundação José Saramago.
Textos do escritor, em itálico vermelho, extraídos do livro  de poemas Provavelmente Alegria, Editorial Caminho, Lisboa, 1985.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O processo

Jorge Adelar Finatto


Sou habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

Foto: J.Finatto

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Breve notícia de um domingo

Jorge Adelar Finatto


A moça do casaco de lã azul tem cabelos encaracolados. Os dentes da moça do casaco azul são muito brancos. A cidade fica iluminada quando a moça sorri. Essa moça de cabelos encaracolados não sabe que espalha encanto e dor na tarde fria e triste do domingo de junho. Por isso, enquanto conversa fazendo gestos suaves, na moldura branca do banco da praça, o riso da moça apaga e acende como farol no meio da melancolia que insiste  no coração. Dá vontade de caminhar na estrada ensolarada que a moça inaugura toda vez que sorri dentro do casaco azul.

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Foto: J.Finatto