segunda-feira, 11 de setembro de 2017
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
O adeus das magnólias e a viagem de carreta
AS MAGNÓLIAS secaram com a última neve. É estranho falar em neve neste inverno onde quase não fez frio, foi um verão ameno. Muitos dias com temperaturas acima dos 30º em Porto Alegre. Com interstícios de geada, alguma neve, pouca, aqui na serra.
As magnólias brancas como algodão ficaram escuras e caíram do pé. As cor-de-vinho resistiram um pouco mais, algumas ainda estão vivas, a maioria acabou por cair. É o fim do inverno que nem bem aconteceu. Eu gosto de frio. Mas os tempos são de secura, nas almas e no ambiente.
As magnólias brancas como algodão ficaram escuras e caíram do pé. As cor-de-vinho resistiram um pouco mais, algumas ainda estão vivas, a maioria acabou por cair. É o fim do inverno que nem bem aconteceu. Eu gosto de frio. Mas os tempos são de secura, nas almas e no ambiente.
A carreta no jardim com suas grandes rodas de madeira convida para um passeio. Mas não tenho cavalo nem boi para puxá-la. Vamos voar no pensamento entre as estrelas.
Andei de carreta no tempo da infância, uma grande aventura. Não me lembro do nome do carroceiro que nos levava de favor, atendendo nossos insistentes pedidos, éramos uns cinco meninos.
Começávamos por sentar nos duros e primitivos bancos de madeira. Depois saíamos pela estrada de chão, a sacolejar como batatas num saco. A sensação ao fechar os olhos: partíamos numa nave de quadro rodas puxada por um boi e íamos pelos céus, cá em baixo.
Começávamos por sentar nos duros e primitivos bancos de madeira. Depois saíamos pela estrada de chão, a sacolejar como batatas num saco. A sensação ao fechar os olhos: partíamos numa nave de quadro rodas puxada por um boi e íamos pelos céus, cá em baixo.
As inesquecíveis viagens, essas que fazemos com a imaginação.
Escrever sobre o tempo, flores e viagem de carreta é uma maneira de distanciar-se do mundo real. Licença poética indispensável nestes dias.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Solitários bancos de praça
Jorge Finatto
| photo: jfinatto. Hidráulica Moinhos de Vento, Porto Alegre |
TODOS SOMOS um pouco sozinhos. Uma voz no vento espalha essa notícia. Alguns são muito sozinhos. Trazem a marca da solidão a ferro e fogo incrustada na face, na alma. Regalo triste de nascença.
Habitamos um território cósmico povoado de solidões. De um modo claro, tudo no universo é um pouco só. Como esses solitários bancos de praça em setembro.
As pessoas têm medo de sair de casa, da caverna moderna, pois a violência e a indiferença tomaram a cidade. Zumbis vagueiam pelas ruas à procura de um lar.
As pessoas têm medo de sair de casa, da caverna moderna, pois a violência e a indiferença tomaram a cidade. Zumbis vagueiam pelas ruas à procura de um lar.
Não existe fusão possível com o outro. O caminho é ermo. Um longo itinerário no desamparo é o destino de todo vivente. Haverá salvação?
A arte, esse luxo, aproxima, cria pontes. Haja palavra, haja traço pra desanuviar o fundo escuro dessa terra de esquecimento. Não existe mais memória de dias felizes. A infância é uma ilha perdida no proceloso oceano.
Os bancos vazios nas solitárias tardes de setembro. Cada um com seu cada qual. Com medo, com frio no coração. Não há manta que apague esse frio.
A arte, esse luxo, aproxima, cria pontes. Haja palavra, haja traço pra desanuviar o fundo escuro dessa terra de esquecimento. Não existe mais memória de dias felizes. A infância é uma ilha perdida no proceloso oceano.
Os bancos vazios nas solitárias tardes de setembro. Cada um com seu cada qual. Com medo, com frio no coração. Não há manta que apague esse frio.
Dizem que não existem duas digitais iguais nem jamais existirão. Cada dedo, único dono. A solidão é assim: sinal ancestral.
Os primeiros raios de sol iluminam o corpo da estátua na praça. Na parada do ônibus muita gente sozinha se prepara para enfrentar a trincheira de mais um dia.
Trazem a esperança de uma improvável felicidade, uma incerta salvação neste lugar onde todos padecem. Se olhar bem, cada rosto é uma obra de Deus e merece ao menos um olhar. Um olhar ao menos. Triste Brasil.
Haja filosofia, haja poesia diante de tanta crua realidade. Valha-nos Deus nesse imenso deserto.
Trazem a esperança de uma improvável felicidade, uma incerta salvação neste lugar onde todos padecem. Se olhar bem, cada rosto é uma obra de Deus e merece ao menos um olhar. Um olhar ao menos. Triste Brasil.
Haja filosofia, haja poesia diante de tanta crua realidade. Valha-nos Deus nesse imenso deserto.
Se ao menos nos déssemos as mãos, talvez os emissários do medo e da morte não fizessem o que estão fazendo com nossas vidas. Talvez tomássemos enfim a direção desse navio fantasma. E a solidão de cada um, de cada dia, já não seria o que é.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Livro de Jean Richepin em pintura de Van Gogh
Jorge Finatto
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| Jean Richepin fotografado por Nadar. Wikipédia |
VAN GOGH admirava o escritor francês Jean Richepin (1849 - 1926). Tanto que desenhou a capa de seu livro Brava Gente, publicado em 1886, na pintura Três novelas (1887). O fato ilustra o quanto o pintor holandês cultivava livros e escritores. A leitura era, ao lado da pintura e da escrita de cartas, atividade à qual se dedicava diariamente.
Ao ver a pintura (post anterior a este), interessei-me pelo que estava escrito no desenho (livro no alto da pequena pilha). Descobri que se tratava de referência àquela obra do escritor Jean Richepin, de quem eu nunca tinha ouvido falar.
Ao ver a pintura (post anterior a este), interessei-me pelo que estava escrito no desenho (livro no alto da pequena pilha). Descobri que se tratava de referência àquela obra do escritor Jean Richepin, de quem eu nunca tinha ouvido falar.
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| Three novels, Van Gogh, 1887, Van Gogh Museum |
Engana-se muito quem pensa que Van Gogh era apenas um doido que pintava com cores extravagantes. Longe disso. Tinha uma mente brilhante e um extraordinário poder de criação. Foi um gênio autodidata que teve alguns orientadores, Paul Gauguin entre eles. Apesar da pobreza, freqüentava museus, livrarias e conhecia a obra dos grandes artistas de seu tempo.
Um raro observador e um homem culto.
Um raro observador e um homem culto.
A opção pela pintura não veio sem dor, após fracassar na tentativa de tornar-se pastor como o pai. Distanciou-se da família, que dele esperava uma "vida normal" com uma profissão que lhe garantisse segurança.
Nas cartas de Van Gogh há referências a Richepin, assim como a outros artistas e escritores.* Ao ler as missivas percebemos um pensador profundo, interessado em aspectos que dizem respeito não só à arte como à existência humana.
Um gênio que se construiu em meio à doença que o perseguiu até a morte, em períodos de sofrimento e ausência. Uma pessoa para quem a pintura significou iluminação em meio à espessa treva.
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*Vincent Van Gogh, The letters
http://vangoghletters.org/vg/search/advanced?originaltext=original&translation=translation&annotations=notes&essays=essays&other=other&from=1&to=1&date_from=1872-09-29&date_until=1890-07-31&order=date&person_code=727
**Braves Gens
http://www.priceminister.com/offer/buy/1755416280/braves-gens-de-jean-richepin.html
Um gênio que se construiu em meio à doença que o perseguiu até a morte, em períodos de sofrimento e ausência. Uma pessoa para quem a pintura significou iluminação em meio à espessa treva.
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Livre - Jean Richepin - 01/01/1913 - Broché
Copyright 1913 - Illustrations de René Lelong Collection Idéal bibliothèque ** |
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*Vincent Van Gogh, The letters
http://vangoghletters.org/vg/search/advanced?originaltext=original&translation=translation&annotations=notes&essays=essays&other=other&from=1&to=1&date_from=1872-09-29&date_until=1890-07-31&order=date&person_code=727
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sábado, 26 de agosto de 2017
Um livro
Jorge Finatto
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| Three novels, 1887, Van Gogh. Museu Van Gogh, Amsterdam * |
UM LIVRO é uma promessa de felicidade. Uma casa de papel e tinta.
Um território povoado de seres, fantasmas e histórias. Um passaporte para o mistério. Caminho das estrelas.
É bom viajar nesse trem de mil janelas pra se sonhar. Esse belvedere que se desdobra em inumeráveis paisagens. Caleidoscópio de sentimentos.
Retiro, contemplação, desassossego.
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*Van Gogh Museum, Amsterdam:
domingo, 20 de agosto de 2017
Leão da Metro no Festival de Cinema de Gramado
O Cavaleiro da Bandana Escarlate
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| pinheiro e montanhas no Vale do Quilombo. photo: jfinatto |
Alguns hão de sentir encanto em sair do cálido quarto de hotel, abandonar a leitura de Em busca do tempo perdido, mergulhar na paisagem gelada e nevoenta de Gramado, e assistir filmes no famoso Festival de Cinema serrano. Não é, sinceramente, meu caso. Prefiro o aconchego do grosso cobertor de lã, um café quente e a vista para o Vale do Quilombo. Assumo que, como correspondente do blog no festival, sou um fracasso. Só faço o que me dá na veneta.
No hotel onde estou hospedado há tantos astros, estrelas, diretores e gente envolvida com cinema, que até um anônimo como eu chama a atenção.
Tenho participado, involuntariamente, de variadas rodas sobre temas relacionados ao mundo da grande tela. Não que eu faça questão. Sou ao natural um sujeito tímido e pouco falante. Prefiro sempre ouvir a falar. Não por modéstia, não, mas por falta do que dizer.
Ocorre que me pegam pelo braço no corredor, no café, no jardim, como se fosse um deles, e me levam pra lá, pra cá, em salas temáticas da Sétima Arte. Talvez o cabelo branco, os óculos com lentes de fundo de garrafa, a aparência vetusta façam presumir alguém que não sou.
A vida me ensinou que, neste ambiente cinematográfico, não é de bom tom perguntar-se o nome das pessoas. Supõe-se que, entre nós, celebridades, existe o sempre desejável, esperável e jamais desprezível reconhecimento.
A mim deram para chamar, nos últimos dias, de Carlos, o Carlinhos do 707. Eu, que até então era um ilustre ninguém, pertenço agora à malta.
Sou um peixe navegando nessas marés montantes, adapto-me com certa facilidade às vicissitudes. Sobrevivo no festival como o leão da Metro, um leão idoso, desses de circo, que nenhum risco oferece e talvez por isso desperte simpatia ou pena. E sempre gostei deste nome, Carlos! Já agora me sinto à vontade com a nova identidade.
Sou um peixe navegando nessas marés montantes, adapto-me com certa facilidade às vicissitudes. Sobrevivo no festival como o leão da Metro, um leão idoso, desses de circo, que nenhum risco oferece e talvez por isso desperte simpatia ou pena. E sempre gostei deste nome, Carlos! Já agora me sinto à vontade com a nova identidade.
Num desses encontros, um diretor famoso (no festival todos os diretores brasileiros são, na falta de melhor definição, famosos) cismou de achar que, no início da carreira, trabalhou como meu assistente num filme. Disse aos presentes - pedindo que eu levantasse da cadeira, no fundo da sala - disse que eu lhe dei a primeira oportunidade.
Espantado, eu quis dizer que não, que não era assim, ele estava me confundindo com outra pessoa. Mas o famoso diretor imediatamente me interrompeu e retrucou:
Espantado, eu quis dizer que não, que não era assim, ele estava me confundindo com outra pessoa. Mas o famoso diretor imediatamente me interrompeu e retrucou:
- O velho e digno companheiro Carlinhos de sempre! Além de tudo, um homem humilde!
A assistência aplaudiu de pé, com grande entusiasmo. Limitei-me a esboçar um breve aceno e, falso modesto, deixei a sala, curtindo o momento de glória. Aproximaram-se repórteres querendo a entrevista fatal. Eu disse que ia passar no quarto e já voltava. Não saí mais.
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O Cavaleiro da Bandana Escarlate, menestrel medieval, faz a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para o blogue. Como não tem mecenas, paga as suas despesas, inclusive o ônibus.
Texto revisto, publicado antes em 10.8.2011.
Texto revisto, publicado antes em 10.8.2011.
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Festival de Cinema de Gramado,
leão da Metro
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Um quadro de Chagall
Jorge Finatto
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| Over the Town, Marc Chagall, 1918. Tretyakov Gallery, Moscou. |
UM LEITOR observa que os personagens das minhas fotos aparecem sempre ou quase sempre soltos no ar, muito acima do território chão dos mortais. Parecem fugir do mundo e nesse querer revogam a força da gravidade.
Os seres e coisas dos meus textos e imagens falecem de peso para estar no mundo. Têm dificuldade de pisar os duros caminhos da realidade. Anelam viver além daquilo que os aprisiona e faz sofrer. Anseiam pela liberdade e amplitude dos altos voos. Mas sabem que, para merecer o sonho, é preciso uma lúcida revolta contra o hospício.
Lembram aquelas figuras esvoaçantes das pinturas de Chagall, levitando acima dos vilarejos pobres. Quem não desejou, alguma vez, pairar sobre os nadas da existência como um personagem lírico de Chagall? Voar desse mundo. Habitar outra esfera. Quem não quis rasgar as grossas correntes que nos prendem ao calabouço do cotidiano, sem janelas para a vida?
O que eu sei, raro leitor, é que é preciso dar um chute no traseiro da morte, bater a porta na cara da morte, expulsar a presença-morte. Acho que é isso que os meus personagens, voláteis ou não, querem dizer.
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Over the Town
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Primavera manda notícia (e diz que vem)
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |
ULTIMAMENTE, no Brasil, as pessoas cansaram de falar da realidade. Nunca se ouviu tão grande silêncio nas ruas, nas bocas, dentro dos corações. Há algo de perturbador nesse silêncio, porque não se sabe no que vai dar.
O fato é que o dia a dia do brasileiro está entranhado de desespero.
A corrupção com dinheiro público e suas dramáticas e incontornáveis conseqüências invadiram nossas vidas. Mais de 50 mil homicídios por ano.* Corpos esquartejados são encontrados nas ruas e lixeiras das cidades. Não há presídios em número suficiente para os criminosos. Os existentes estão em péssimas condições, desumanizam ainda mais quem lá entrou para se "ressocializar". A maior parte dos crimes violentos fica sem punição, porque faltam recursos para segurança. A impunidade cresce de forma assustadora.
O fato é que o dia a dia do brasileiro está entranhado de desespero.
A corrupção com dinheiro público e suas dramáticas e incontornáveis conseqüências invadiram nossas vidas. Mais de 50 mil homicídios por ano.* Corpos esquartejados são encontrados nas ruas e lixeiras das cidades. Não há presídios em número suficiente para os criminosos. Os existentes estão em péssimas condições, desumanizam ainda mais quem lá entrou para se "ressocializar". A maior parte dos crimes violentos fica sem punição, porque faltam recursos para segurança. A impunidade cresce de forma assustadora.
Não há investimentos dignos em escolas, hospitais, creches, transportes, energia, infraestrutura, programas sociais, etc. Tudo isso que depende do Estado e é necessário para a vida de todos fica eternamente adiado. O dinheiro que falta tomou outros e obscuros rumos.
A população está perplexa e calada. Vivemos um cenário de devastação de valores éticos. O que a má política e o poder sem freios fizeram com o Brasil é assombroso. À esquerda e à direita não se vislumbram saídas. O sistema politico, ao invés de encaminhar as demandas da sociedade, só reproduz os próprios interesses.
A vida em sociedade está sob risco entre nós.
A vida em sociedade está sob risco entre nós.
Mas há quem sustente que as instituições estão funcionando. Não sou tão otimista. Nem sei o que pensar quando leio nos jornais a direção que as coisas estão tomando nas mais altas instâncias de poder. Ou serei eu que não entendo nada e só falo algaravias?
No entanto, os primeiros sinais da primavera já se fazem sentir nas ruas do meu bairro. É pra breve, setembro anda aí. Mas como falar em primavera, seu colorido e leves cheiros, em tempos de devastação e profunda descrença no futuro?
De qualquer modo, as flores informam que não vão hibernar e apodrecer no inverno da nossa desesperança. Que venha, pois, a primavera, digo eu, enquanto caminho nas ruas do bairro. E venha logo com toda força de que for capaz.
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*globo.com:
http://g1.globo.com/politica/noticia/taxa-de-homicidios-no-brasil-aumenta-mais-de-10-de-2005-a-2015.ghtml
*Nações Unidas:
http://g1.globo.com/politica/noticia/taxa-de-homicidios-no-brasil-aumenta-mais-de-10-de-2005-a-2015.ghtml
*Nações Unidas:
sábado, 5 de agosto de 2017
Van Gogh: a vida em amarelo
Jorge Finatto
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| Girassóis, 1889, Van Gogh, Van Gogh Museum, Amsterdam |
A PINTURA DE VAN GOGH expressa o grito de um animal ferido, desesperado na selva do mundo. Alguém que não podia suportar a realidade e encontrou na arte um meio de sobreviver e fugir do grande nada que o cercava. Não conseguindo sustentar-se, vivendo na eterna dependência do irmão mais moço, Theo (também ele com dificuldades financeiras), o dia a dia era para ele uma jaula com raras oportunidades de movimento.
Aí entra a pintura, a composição obsessiva de um quadro após outro, única maneira de sentir-se útil e esperar algum reconhecimento (que quando chegou, de forma inequívoca, no Salon des Indépendants, de Paris, em março de 1890, não lhe disse muita coisa, pois já estava concluindo a travessia da dolorosa ponte que o levaria à morte em julho daquele ano). A literatura era outro caminho de fuga. Não apenas escrevia muito (cartas basicamente) como lia bastante.
Os últimos três anos da vida de Van Gogh (1888 - 1890) foram extremamente produtivos. A explosão das cores. A vitória do talento sobre a pobreza e o abandono. A criação alcançou a plenitude do gênio. Por outro lado, os acontecimentos de Arles (cortou com navalha a orelha esquerda após desentendimento com Paul Gauguin), as sucessivas internações hospitalares, as discussões, a rejeição da comunidade local a esses e outros eventos que o envolveram, acabaram por desestruturá-lo mais ainda internamente. À doença psíquica (nunca esclarecida e nem tratada a jeito) junta-se a miséria material.
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| Autorretrato, 1887. Van Gogh Museum |
Van Gogh era um homem visceralmente carente e sentimental. Tinha o temperamento muito difícil e explosivo. Conviver com ele não era tarefa fácil.
A esses traços soma-se o artista superdotado e autodidata, possuidor de extraordinário poder de observação. Alquimista das formas e das cores, nas suas mãos o mundo transmutava-se em ofuscante e singular beleza.
A esses traços soma-se o artista superdotado e autodidata, possuidor de extraordinário poder de observação. Alquimista das formas e das cores, nas suas mãos o mundo transmutava-se em ofuscante e singular beleza.
Ser feliz não fazia parte do seu cotidiano, salvo quando criava, ou nos eventuais momentos de calmaria. As crises sucediam-se qual as rajadas do impiedoso Mistral que, seco e frio, leva tudo por diante, incomoda ao bater portas e janelas, ao levantar saias e desfazer cabelos, varrendo as folhas do outono. (Não poucas vezes perdeu o chapéu de palha na passagem do vento cortante.)
A tudo ele enfrentou e respondeu do único jeito que sabia e podia: no silêncio da tela, com o mistério e a força de sua paleta, ao ar livre, perto da natureza, nos dias de trabalho longe da ingente loucura, sua e dos outros.
O amarelo foi talvez a mais alta paixão de Van Gogh, a que correspondeu e jamais o traiu. La vie en jaune. A obra que nos deixou é o testemunho vivo de que, apesar de tudo, havia doçura, amor e esperança em seu coração. A vida em amarelo num mundo de sombras.
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terça-feira, 1 de agosto de 2017
Maison de Van Gogh
Encaminhei à MAISON DE VAN GOGH imagens e textos que tenho publicado sobre o artista. Recebi a manifestação a seguir, que muito me encanta por constatar que nós, admiradores da obra de Van Gogh, somos uma numerosa família ao redor do planeta. E que, em nosso coração, não existe lugar para egoísmos. Pelo contrário, o que mais queremos é compartilhar a herança espiritual do grande pintor.
Obrigado Monsieur Finatto !
Nous avons partagé votre article sur la page Facebook de la Maison de Van Gogh. Nos amis portugais et brésiliens seront ravis de vous lire.
Bien cordialement
Auberge Ravoux dite Maison de Van Gogh
Tel. : 33-(0)1 30 36 60 60
A todos que se interessam pela obra e pela vida de Van Gogh, recomendo uma viagem à Auvers-sur-Oise e uma visita ao Auberge Ravoux (Maison de Van Gogh) onde encontrarão rico material biográfico sobre o gênio da pintura num ambiente de memória, calor humano e arte.
Aos amigos da Maison de Van Gogh um fraterno abraço!
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| photo: jfinatto, 2007, Auvers-sur-Oise |
Vincent van Gogh ne passa que 70 jours à Auvers-sur-Oise. Ce court séjour fut pourtant extraordinairement prolifique, puisque ce site pittoresque, ses habitants et ses environs lui inspirèrent près de 80 œuvres (...)*
Vincent van Gogh passou apenas 70 dias em Auvers-sur-Oise. Esta pequena estadia foi, no entanto, extraordinariamente prolífica, uma vez que este lugar pitoresco, seu povo e seus arredores inspiraram-no em cerca de 80 obras (...) **
Vincent van Gogh passou apenas 70 dias em Auvers-sur-Oise. Esta pequena estadia foi, no entanto, extraordinariamente prolífica, uma vez que este lugar pitoresco, seu povo e seus arredores inspiraram-no em cerca de 80 obras (...) **
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* Maison de Van Gogh:
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sábado, 29 de julho de 2017
Um campo de trigo chamado Vincent
Jorge Finatto
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| Campo de trigo sob nuvens carregadas, 1890, Van Gogh Museum, Amsterdam¹ |
"Deve ser bom morrer sabendo que se fez algum trabalho de verdade e, portanto, viverá na lembrança pelo menos de algumas pessoas."
Vincent em carta ao irmão Theo²
VAN GOGH (1853 - 1890) é o artista trágico por excelência. O indivíduo rejeitado pela família e pela sociedade. Nele se resume o calvário existencial de um homem indefeso e ultrassensível, caído num mundo que insiste em maltratar a delicadeza, a simplicidade, a beleza e o talento natural.
O gênio maldito, que perambulou solitário de déu em déu, encontrou-se milhões de vezes sozinho por quartos, ruas, esquinas e estradas vazias, devorado pela saudade de um lar e de um amor humano que nunca teria e que o consumia por dentro.
De tanto sofrimento nasceu a luminosa obra que tem o poder de expulsar a treva da condição humana que habita nossas mentes e corações. E que diz: a vida é possível!
A obra de Vincent torna a existência um imenso campo de trigo onde a fertilidade, a transcendência e a felicidade da criação andam de mãos dadas. Nasceu, ficou 37 anos no planeta, e partiu. Mas não levou consigo os girassóis, trigais, camponeses, pontes, casas, praças, campos, retratos, céus, caminhos, jardins, mil paisagens, a alegria do olhar e do sentir. Generoso, entregou aos semelhantes o melhor de si.
Nos 127 anos de sua morte, neste 29 de julho de 2017, a memória doída, mas acima de tudo o carinho, o respeito, a admiração, a sentida homenagem ao artista.
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¹ Van Gogh Museum:
² Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. pág. 973. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.
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lembrando Vincent
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Souvenir
Jorge Finatto
| Autorretrato na exposição O último quarto de Van Gogh. photos: jfinatto |
NÃO DEIXA de ser irônico que museus, governos, colecionadores, comerciantes e indústria cultural ganhem milhões e milhões de dinheiros todos os anos à custa de obra de Van Gogh. Enquanto isso, ele em vida padeceu na mais profunda pobreza. Rigorosamente nada usufruiu de seu trabalho, exceto os momentos de felicidade quando criava.
Hoje a venda de qualquer de seus quadros é capaz de garantir o sustento de uma pessoa e seus descendentes, em excelentes condições, para o resto da vida. Esse mundo não vale mesmo um cisco.
Duvido muito que Van Gogh conseguisse entrar, com suas roupas velhas, seu chapéu de palha e seus olhos de passarinho curioso, em alguns dos museus chiques que expõem seus quadros. De início, ele não teria dinheiro para o ingresso. A aparência e o dinheiro continuam governando tudo. Não obstante, a malta se diverte nos museus e lojinhas de souvenirs.
segunda-feira, 24 de julho de 2017
Van Gogh vai ao café
Um dia ou outro eu acho que vou encontrar uma maneira de fazer uma exposição em um café.
Vincent Van Gogh em carta ao irmão Theo, de 10 de junho de 1890.
AUVERS-sur-OISE é uma pequena cidade nos arredores de Paris. Atravessada pelo rio Oise, é um lugar tranquilo onde se caminha pelas ruas em paz. Uma cidade interiorana, aprazível. Mas há algo que a destaca no conjunto das cidadezinhas francesas. Foi nela que um dos maiores pintores da humanidade viveu seus últimos dias.
Quando estive lá, em duas ocasiões num intervalo de cinco anos, minha intenção era me aproximar dos passos de Van Gogh naqueles ambientes em que realizou cerca de 75 obras-primas.
Entre os lugares em que trabalhou em Auvers, nenhum me tocou mais fundo do que o campo de trigo no alto da cidade. Ali pintou, entre outros, o Trigal com corvos, uma das últimas pinturas. Entrei no seu quarto, no sótão do Auberge Ravoux, e senti a imensa solidão daqueles 7 metros quadrados. Era o quarto mais barato da estalagem, sem janela, tendo como única abertura uma claraboia. Mudou-se para lá em 20 de junho de 1890.
Da profunda solidão, da pobreza e da rejeição social, nasceu uma das obras pictóricas mais sublimes e poderosas já produzidas em todos os tempos. Não à toa costumam dizer que ele libertou as cores.
Da profunda solidão, da pobreza e da rejeição social, nasceu uma das obras pictóricas mais sublimes e poderosas já produzidas em todos os tempos. Não à toa costumam dizer que ele libertou as cores.
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| V. Gogh. quadro La pluie (a chuva). photo: jfinatto |
Van Gogh foi incompreendido na sua época como o seria hoje. Não se sustentava, não teve um emprego tradicional, não conseguiu encontrar uma mulher nem constituir uma família. Viveu de léu em léu, ao desamparo, sem uma alma para se consolar. Um atrapalho para a família e um estorvo para a sociedade. Um espírito de luz vivendo em meio a seres primitivos, mesquinhos e violentos.
A vida só não lhe restou mais trágica porque contou sempre com a ajuda material e a solidariedade moral de Theo, irmão mais moço, que foi seu cálido confidente, conforme demonstram as centenas de cartas que trocaram. Vendeu apenas um quadro em vida, Vinhedo vermelho. Vestia-se com roupas surradas. Com o chapéu de palha, parecia um espantalho. Por não ser um "normal", foi alvo de zombaria e escárnio em todos os lugares onde morou
A vida só não lhe restou mais trágica porque contou sempre com a ajuda material e a solidariedade moral de Theo, irmão mais moço, que foi seu cálido confidente, conforme demonstram as centenas de cartas que trocaram. Vendeu apenas um quadro em vida, Vinhedo vermelho. Vestia-se com roupas surradas. Com o chapéu de palha, parecia um espantalho. Por não ser um "normal", foi alvo de zombaria e escárnio em todos os lugares onde morou
Existia, ao lado do homem genial, um temperamento difícil e a doença que o levava a crises psíquicas que o torturavam e faziam sofrer os que o cercavam. Até hoje ninguém sabe o que era.
Van Gogh estava longe de ser um artista interessado apenas na pintura. Era um pensador lúcido que leu os autores mais importantes de seu tempo e os antigos. Era um indivíduo culto.
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| túmulos de Vincent e Theo em Auvers. photo: jfinatto |
A biografia mais recente e exaustiva concluiu que não se matou com o tiro no abdômen.* Alguém, cuja identidade ele não quis revelar no leito de morte, atirou contra ele. Os autores do livro chegam a dizer o nome do suposto agressor, um que fazia parte do grupo de jovens com quem o pintor encontrou-se algumas vezes no período de pouco mais de dois meses em que viveu em Auvers. Morreu em 29 de julho de 1890, no quarto minúsculo, nos braços do irmão Theo. Ambos estão sepultados lado a lado no cemitério da cidade.
Quando fiz as fotografias que integram a exposição O último quarto de Van Gogh não tinha a menor ideia de que um dia faria uma mostra sobre este tema. Como sempre faço, fui fotografando na base do sentimento, da intuição. O resultado poderá ser visto a partir desta terça, 25 de julho de 2017, no Café do Porto, na Rua Padre Chagas, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
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*Van Gogh, a vida. Steven Naifeh e Gregory White Smith. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.
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