segunda-feira, 18 de julho de 2016

Andante cantabile

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Deus me deu muitos vazios para me entreter nessa vida.

Muita gente se queixa do vazio. Eu, pelo contrário, celebro o vazio, as minhas faltas, os meus vagos, hiatos, intervalos, lacunas, pois, graças a eles, estou sempre ocupado na ingente busca de me completar (nunca alcançada).

Se não fossem os vazios, as longas caminhadas pela dúvida e pelos nadas, os dias seriam todos iguais, a realidade seria insuportável mais do que é. Todo artista vive pra tapar buracos na alma.  

O vivente sente um vazio no coração, uma insatisfação de existir. Queria sentir-se pleno. Vai atrás de respostas, vai observar, escutar, interrogar, criar. Nunca encontrará a plenitude. Mas o fato de procurar já o torna alguém neste mundo.
 
Passei uma parte da vida no bosque das estantes. Que é um lugar de auroras, propício a altos voos, território de vidas e histórias inventadas.

Ler é trilhar caminhos a passos de silêncio. Há dias em que monto em meu cavalo invisível e saio a galope ao lado de Sancho e Dom Quixote por estradas de pedra, sombra, luz e sonho.

Pensando bem, só nos livros andamos a salvo por estranhas realidades. Mas não é capricho viver encerrado entre as quatro paredes de um livro, a salvo da vida. Há que sair, construir pontes, encontrar outros viajantes.

Cavalgar pelo oco do mundo em busca de sentidos.
 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O espantalho no milharal

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
Se parar de escrever na casa do labirinto, se o silêncio e o medo crescerem ao meu redor como um vasto milharal habitado por estranho espantalho vestido de negro, com grossas lentes nos óculos (que já não ampliam a progressiva e asfixiante pequenez das coisas), esse tal que desistiu do ofício de espantar, sendo ele próprio o contumaz espantado no oblíquo território do viver, se os amigos esquecerem de me visitar nas noites de inverno, se um pássaro soltar o canto no galho da araucária diante da minha janela, se as palavras que escrevi servirem, ao menos, pra distrair o leitor (?) do medonho problema da morte e da irrecusável falta de sentido das coisas, eu sentirei que valeu a pena.

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Araucária vista da janela, Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado em 13 de abril, 2011.

sábado, 9 de julho de 2016

Arte e transformação

Jorge Finatto

fragmento de Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch (1450-1516).
imagem: Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa¹

As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas.²
Rainer Maria Rilke

A arte é uma maneira de suportar e reinventar a nossa passagem pela vida. Através dela temos a oportunidade de ver a recriação do mundo pelos olhos do artista. Chamo de arte todo fazer humano dotado de esforço criativo, senso estético e originalidade.

Um cesto de vime, um tecido rendado, um prato de comida, uma pandorga colorida, um pão caseiro, dependendo do esmero e capricho de seu fazedor, podem ser arte. A arte não é só aquilo que encontramos em museus, galerias, livros e monumentos. Está na vida, está no dia a dia.

Do mais delirante quadro de Hieronymus Bosch ao mais tocante poema de Rilke, o que vemos é o espírito humano se desvelando, mostrando seus interiores, anseios, medos, profundidades, alturas, indo em busca de transcendência e sentido.
 
Estou entre aqueles que acreditam que as grandes obras nascem do sofrimento, e da necessidade de superá-lo. Do confronto da consciência com a finitude. O contraste entre o estar vivo e o estar morto, entre o que é e o que deixa de ser. E o que virá depois de tudo.
 
Aí estão a música, a literatura, o teatro, o cinema, a pintura, a internet, os blogs e todas as manifestações do pensamento e da sensibilidade nos convidando a imaginar, pensar, sentir, mudar.

A arte é uma visão transformadora da vida e do real. A vida é escassa ante nossa sede de plenitude. É necessário mais. Mais silêncio, mais tempo, mais contemplação, mais estar em si, menos performance.

Viver é tudo que temos, e dura um instante. É preciso encontrar um pouco de felicidade naquilo que somos e fazemos. E encontrar outras pessoas nesse caminho.
 
E que a obsessão de perfeição não nos sufoque na hora de criar qualquer coisa, nem nos tolha o olhar na hora de admirar a criação dos outros.
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¹Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal
http://www.museudearteantiga.pt/colecoes/pintura-europeia/tentacoes-de-santo-antao
²Cartas a um jovem poeta. Rainer Maria Rilke. p. 32. Tradução de Paulo Rónai. Editora Globo, 9ª edição, Porto Alegre, 1978.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Mulher preparando café

Jorge Finatto
 
Coral. photo by: Linda Wade. Wikipédia

 
A parede é espessa e fria. O tempo é circular e monótono como um carrossel. Ela escreve  no computador e faz desenhos na caverna moderna onde vive. Em volta do fogo, ela espera. 
 
Às vezes, penetra um vazio na alma, dá vertigem. Então ela bate com o nó dos dedos na parede, como se houvesse uma porta, alguma secreta passagem, como se existisse alguém do outro lado. Precisa acreditar que existe vida. Vida humana, vivente e cálida.
 
Um coração, uma pessoa como ela entre quatro paredes, quatro décadas, um coração partido em fatias igual o dela, como o bolo caseiro sobre a mesa. O silêncio caseiro. 
 
Nuvens de signos saem do teclado pelo espaço, um grito abafado pela solidão. Talvez exista alguém do outro lado, que também espere como ela, e sinta frio, e queira ir embora com ela dessa cidade trágica e deserta, fugir disso tudo, abandonar o mar morto das cavernas urbanas. Pobres corais sofrendo sozinhos e calados.

Enquanto pensa essas coisas, ela prepara o café da noite.
 
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Texto revisto, publicado antes em 25.11.2010
 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Violência na praça

Jorge Finatto
 
porto de Porto Alegre, vista parcial. photo: jfinatto

No sábado (25 de junho), fui ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, para o lançamento de um livro. Não costumo freqüentar o Casco Velho da cidade, perto do porto, por uma razão bastante triste: tenho medo de ser assaltado (o que seria de menos) e levar um tiro de bandidos que atuam na região.

A Praça da Alfândega e suas cercanias constituem cartão-postal da capital do Rio Grande do Sul, lugar histórico, berço social e cultural da cidade. Não por acaso ali estão órgãos importantes como o Margs e a Casa de Cultura Mario Quintana.

Naquelas ruas e passeios vi gente como Mario Quintana, Dyonélio Machado, Caio Fernando Abreu, Rubem Braga, Carlos Reverbel, Paulo Hecker Filho, Jorge Amado, José Cardoso Pires, entre tantos. Na praça se realiza, anualmente, na primavera, a Feira do Livro de Porto Alegre.

No entanto, nos últimos 30 anos o lugar vem se degradando, transformando-se na coisa lamentável que é hoje: uma área desumanizada e muito perigosa.
 
A motorista de táxi que me levou recomendou cuidado na travessia da praça até o museu. Disse que naquele trecho ocorrem diversos assaltos a cada dia, e que isto não espanta mais ninguém.
 
Fiquei uns 50 minutos no Margs, comprei o livro e fui embora. Com receio fiz o percurso de volta até encontrar um táxi numa rua próxima. Policiamento não vi nenhum. Encontrar policiais nas ruas é coisa raríssima em Porto Alegre.

O problema nem é ser despojado dos poucos bens materiais, mas perder a vida, como infelizmente tem acontecido diariamente nas ruas. Porque aqui os bandidos não se contentam mais em subtrair o patrimônio das vítimas, querem também a sua vida.

O mais perverso é que internalizamos o medo e perdemos a liberdade e a alegria de andar pela cidade. Difícil manter a saúde mental num ambiente assim. E desta forma vamos vivendo (?) no Brasil.
 

domingo, 26 de junho de 2016

Só, pero no mucho

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Eu caminhava pela rua na noite de verão. Era numa praia do sul*, soprava uma leve brisa do mar. Muita gente nas ruas, casais de mãos dadas, casas com amplas varandas, pessoas conversando em cadeiras preguiçosas. Eu ia só, dando uma volta no quarteirão. De repente senti um solidão danada em meio a toda aquela beleza. Me deu um nó na garganta. Não sabia o motivo, afinal tudo estava bem.
 
Tive a viva impressão de estar só no universo, mesmo estando cercado de pessoas, num lugar de descanso e convivência. Havia uma paz sólida diante do mar. E eu numa solidão cósmica. Mas não era uma solidão triste. A vontade de chorar que eu sentia não era por estar sozinho. Mas por participar, de alguma maneira, da vida. Simplesmente isso.

Eu pertencia àquele grão de pólen chamado Terra, perdido na bruma de estrelas, com seus seres, suas histórias, seus destinos. Aí pensei nos poetas, músicos e em todos esses que fazem de sua solidão um hino de amor à vida para que outros dela possam participar com mais encanto e verdade. Sim, eu estava vivo.
 
A sensação de pertencer à raça humana me enchia de felicidade. As pessoas com suas diferenças, seus dramas, seus sonhos, seus defeitos, suas culpas, seus mortos, suas incríveis qualidades, suas mãos dadas, sua incontornável solidão.

Então segui caminhando pela rua e depois outra e mais outra e outra. Até que desapareci na paisagem. Feliz, sufocando de felicidade, cheio de gratidão por ser um a mais no cenário, andando numa noite de verão.
 
Infinitamente só e acompanhado, irmão das estrelas, dos que conversam nas varandas, dos que andam de mãos dadas, dos que caminham sozinhos pelas ruas, irmão de todos os seres que respiram no mundo. Parte de tudo isso, membro da grande família das coisas criadas. 
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quinta-feira, 23 de junho de 2016

A felicidade do outro

Jorge Finatto

photo: jfinatto

É impossível ser feliz sozinho.
                                        Antonio Carlos Jobim, na canção Wave 
 
Num café li a seguinte frase, numa placa pendurada na parede (transcrevo de memória): "Torço muito pela felicidade dos outros, porque gente feliz não enche o saco". Não havia menção do nome do autor. De qualquer maneira, vale a pena pensar nisso.

Estou inteiramente de acordo. Sempre quero ver gente feliz por perto. É a melhor coisa. O Maestro Tom Jobim disse tudo no seu verso: É impossível ser feliz sozinho.
 
Quanto mais gente feliz está ao nosso redor, melhor é a vida. A felicidade é um negócio que se espalha, como corrente elétrica pelas lâmpadas da casa escura. A pior coisa é viver perto de pessoas infelizes, sem esperança, negativas e sem alegria. Uma nuvem negra as acompanha. É um fardo difícil de suportar.

Mas quem não tem seu dia infeliz ou seus momentos de tristeza e preocupação? O importante é não deixar que esses sentimentos sejam predominantes. Sentir um pouco de inveja da felicidade alheia é até normal, quando não é demais. Mas não leva a lugar nenhum. A chance de realizar coisas, e ser mais, vivendo perto de pessoas batalhadoras e otimistas é muito maior.

Felicidade pra todos já. Esse é o grande lema. Sem  esquecer as lições de dois filósofos do cotidiano brasileiros. O cantor e compositor Odair José ensinou: "Felicidade não existe; o que existe na vida são momentos felizes". E a atriz Tônia Carrero declarou, quando perguntada se era feliz: "Sou feliz algumas vezes durante o dia". Isto que é sabedoria, não é mesmo?

Fazer algo pela felicidade do outro, no dia a dia, é condição essencial para viver melhor e para um planeta mais feliz. Isso poder ser feito de várias maneiras, a começar por executar com esmero e dedicação o nosso trabalho. É o que faz rodarem para frente as rodas dessa velha carroça a que chamamos mundo.
 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Caderno de inéditos de Van Gogh

Jorge Finatto

A casa amarela (Arles), Van Gogh, Museu Van Gogh, Amsterdam

A grande notícia da última semana foi a descoberta de um caderno com desenhos inéditos do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853 - 1890). O anúncio foi feito há poucos dias pela editora francesa Éditions du Seuil.
 
Encontrado recentemente, a editora não precisou o número de desenhos existente no carnet. Assegurou, no entanto, que sua autenticidade foi verificada por especialistas.

O  conteúdo será publicado em novembro, em vários países, com o título de Vincent Van Gogh, Le brouillard d’Arles, carnet retrouvé (Vincent Van Gogh, A névoa de Arles, caderno reencontrado).
 
Bernard Comment, responsável pela publicação, asseverou que ninguém, além do proprietário, da editora e dele próprio, tinha conhecimento da existência desse material. "É espantoso, fulgurante", declarou à AFP.
 
Morto na miséria aos 37 anos, em Auvers-sur-Oise (França), em 1890, Van Gogh é um dos pintores mais importantes de todos os tempos.  Portrait du Dr. Gachet (1890) atingiu 82,5 milhões de dólares num leilão da Christie’s de Nova Iorque em 1990; em maio do ano passado, L’Allée des Alyscamps foi adquirida por 66 milhões de dólares num outro leilão.

Van Gogh criou uma obra original e maravilhosa, oposto de sua existência repleta de crises psíquicas, afetivas e materiais. A solidão foi o pano de fundo da vida deste artista genial e incompreendido, que legou à humanidade um patrimônio espiritual sem igual na história da pintura.

Sabe-se lá as maravilhas que haverá neste caderno, não só em desenhos como em anotações. Van Gogh escrevia com raro talento e profundidade, conforme se vê de suas numerosas cartas ao irmão Theo.

Para os que amam sua pintura e admiram o ser humano que foi, como eu, a descoberta do caderno tem valor inestimável e é motivo de grande emoção.

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Post com base em informação publicada pelo jornal Público de Portugal:

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Provisoriamente bruma

Jorge Finatto

photo: jfinatto


A hora mais deserta é a madrugada, quando Alberto Bruma das Horas só ouve a respiração das coisas e todas as pálpebras se fecharam, menos as dele.
 
Sentado no telhado, sentado no corredor, sentado no quarto (do lado da janela), sentado embaixo da claraboia, sentado no banco da estação de trem, sentado no escritório (tão perto das estantes que ouve o rumor das palavras).
 
Está provisoriamente longe dos livros (ele que sempre amou o cheiro do papel, a textura das capas e das folhas). 
 
Sofre a nostalgia da claridade perdida. Uma vaga luminosidade o habita. Não pode fotografar o mundo como antes. As folhas, as árvores, os caminhos de terra, as flores, as montanhas, os vales, os córregos: bruma.

O muro de taipa dorme na tarde fria e silenciosa de junho. Ocres e azuis renascentistas. Outono. Tudo tão distante.
 
Em meio à névoa, ele respira jasmins, camélias, orquídeas e magnólias do jardim da casa interiorana.

Ouve a conversa dos passarinhos, cantando, voando num lugar que mais parece uma pintura de Raffaello Sanzio. As nuvens brancas como algodão num profundo azul.

As pinhas arredondam nos pinheiros. De certa forma, está vendo outra vez.

O belo mundo das coisas entra pelos olhos da alma.
 

sábado, 11 de junho de 2016

Café dos Ausentes

Jorge Finatto

photo: jfinatto

Os habitantes dos Campos de Cima do Esquecimento sabem que só se vive uma vez e por isso padecem severas solitudes nesse mundo. A ideia da transitoriedade da vida se faz sentir especialmente no inverno. Tempo de dispersa solidão.
 
Passo dos Ausentes, nossa velha aldeia, tem 600 e poucas almas que penam na grelha da existência. Montanhas e brumas fizeram de nós o que somos: esse jeito calado, desconfiado, sempre ao desamparo.
 
É fácil reconhecer um ausentino na multidão. Basta olhar o abandono estampado na cara: é a marca indelével. Mas estamos aí, viventes desse mundo de Deus, sobreviventes de um tempo que se esfuma impiedosamente.

O frio polar dos últimos dias torna rara a presença humana fora das casas. A temperatura média, durante o dia, tem sido de -6 ºC. À noite desce para álgidos -12 ºC, -15 ºC. O Vale do Olhar, submerso no nevoeiro de algodão, é bonito de se admirar no Belvederezinho da Ausência, a dois mil metros de altitude. No local três troncos de pinheiro fazem as vezes de banco para os visitantes. Todo dia 15 de cada mês os Capuchinhos do Perpétuo Amanhecer ali se reúnem para ver o sol nascer.

Em silêncio e de pé, com os capelos sobre a cabeça e seus hábitos brancos enlaçados com corda na cintura, observam o vale. Depois que o sol se ergue, retiram-se em fila. Atravessam a cidade tão silenciosamente que ninguém ouve seus passos. Somem na estrada de chão batido em direção ao convento no Contraforte dos Capuchinhos.
 
Antes de começar a falar sozinho, no ermo invernal, é melhor sair de casa e ir ao encontro dos amigos, no Café dos Ausentes, na antiga estação de trem. Nas terças-feiras Juan Niebla faz ali um concerto com seu bandoneón argentino. No cardápio, músicas de Piazzolla, Francis Poulenc, Villa-Lobos e Joaquín Rodrigo, entre outros.

Nos sábados, o programa é "Conversa na Estação", bate-papo de Niebla com Don Sigofredo de Alcantis e quem mais quiser. O tema do próximo encontro será, conforme cartaz fixado na porta do café:

"O dia em que o filósofo espanhol Miguel de Unamuno desafiou a ditadura incipiente do general Franco diante de cerca de 300 soldados armados, no salão de atos da Universidade de Salamanca, da qual era reitor, durante a cerimônia de abertura do ano acadêmico, em 12 de outubro de 1936, ao proferir o célebre discurso Vencereis, mas não convencereis. De como escapou da morte certa graças à intervenção de Carmen Franco, mulher do ditador, que o retirou do local e o levou para casa dele, onde permaneceu em prisão domiciliar e perdeu suas funções".*

Nessas alturas austrais, a palavra e a música nos aproximam e nos tornam conviventes.

Solidão é quando a madeira da casa começa a estalar e ranger por causa do frio e da umidade, como um velho barco rasgando as ondas do mar.

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*Don Miguel de Unamuno:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/02/visita-don-miguel-de-unamuno.html
 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A hora do beija-flor

Jorge Finatto
 
beija-flor com névoa. photo: j.finatto
 
Observando com atenção, há um beija-flor na ponta do ramo da magnólia. Ele está pousado no galho pensador, os olhos semicerrados, pensando na sua vidinha. Um momento de pausa no seu dia. Ninguém é de ferro.

Há de ter lá os seus compromissos o beija-flor, uma casa pra voltar, filhos pra criar, contas a pagar, preocupações de quem vive neste mundo difícil.

Mas nesse momento ele precisa ficar sozinho e em silêncio. Precisa disso pra saber quem ele é. Porque, às vezes, na dura faina da sobrevivência, a gente esquece quem é.

A nossa face perde-se na multidão. Um estranho passa a viver através de nós.
 
Na maior parte da vida cumprimos deveres, tarefas, horários, saímos e chegamos apressados, dormimos sonos interrompidos por relógios e pesadelos, sonhamos um sonho alheio, corremos todo o tempo até a exaustão, e agradecemos por não perder o emprego nem levar um tiro.

Austeras solidões nos habitam. Rígidos papéis nos aguardam todos os dias, implacáveis, inadiáveis.

O mundo espera que ponhamos a máscara de granito ao nascer e não a retiremos nunca mais. Haja Deus!
 
No caso do beija-flor, querem que ele seja sempre e eternamente a mesma ave descrita pelos estudiosos nos tratados: apodiforme, penas pequenas, úmero robusto e cúbito curto, que se alimenta do néctar das flores e de insetos minúsculos.

Igual a milhões de outros beija-flores que vivem no planeta, também conhecidos por nomes estranhos como binga, chupa-flor, chupa-mel, cuitelo, guainumbi, pica-flor. E por aí.

O beija-flor personagem deste texto tem vida interior, seus próprios sonhos e pensamentos, não quer ser igual a nenhum outro existente no mundo.

No fundo, é um poeta o nosso beija-flor. Passa o dia procurando quintais, praças e jardins, não só para alimentar-se, mas para fugir dos predadores e da loucura das pessoas, e para ter um momentozinho de contemplação.

Sim, a nossa pequena ave interioriza-se para poder melhor observar a natureza e os seres, senti-los, talvez escrever alguma coisa.
 
Agora, calado e enovelado em si mesmo, no repousante galho da magnólia, o que o beija-flor quer é ficar só, distante, tentando reunir os fragmentos, reconstruir-se com o que sobrou (se é que ainda existem asas e cores suficientes do pássaro que um dia ele foi), longe dos olhares intrujões, das mesquinharias cotidianas e do fotógrafo abelhudo.
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Heráclito e o espelho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/02/heraclito-e-o-espelho.html
Texto revisto, publicado antes em 27 de fevereiro, 2013.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O vendedor de picolé

Jorge Finatto
 
ilustração: Maria Machiavelli

Tinha 12 anos quando encontrei um modo de arrumar dinheiro pra comprar picolé. Foi no verão, período de férias escolares. Fiz o que os meninos pobres da rua, como eu, faziam: tornei-me vendedor de picolé. 
 
Havia uma pequena fábrica de gelados a poucas quadras de casa. O produto era bom, o negócio fez sucesso e se expandiu. A proprietária comprou um sobrado pra diversificar e aumentar a produção. 
 
A venda era feita nas ruas por vendedores ambulantes, em carrinhos refrigerados ou em caixas de isopor. Os maiores levavam os carrinhos e os menores, as caixas com tira de couro pra pendurar no ombro.
 
Esse foi o meu primeiro emprego. Caminhar horas a fio debaixo do astro-rei em pleno calor de janeiro era o de menos. O difícil era ter que dizer, bem alto, "olha o picolé", nas esquinas e na frente das casas. Fazia  isso com grande constrangimento. A timidez me atarantava.

Mas o trabalho durou só três semanas. O salário era tão miserável que desisti. Mal dava pra comprar dois ou três gelados por caixa vendida. Não compensava a sola do sapato, a sede, o suor, o cansaço.

Cheguei a ficar devendo uns trocos pra dona do negócio (sempre de cara feia, acho que sua boca nunca conheceu um sorriso). Devi porque comi picolés além da conta, durante o trabalho; e também porque vendi fiado e não me pagaram. Incauto vendedor! Pra quitar o débito com a patroa, trabalhei uma semana sem nada receber.

Não precisei de grandes teorias para aprender, a partir de então, que a vida do trabalhador é regida pela lei da selva. Os mais fortes devoram os mais fracos na relação capital e trabalho. E não há picolé que adoce essa exploração.
  

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sentimental

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

O  sentimento é a única coisa capaz de nos salvar. É tudo quanto  temos. Ninguém pode roubar. O resto é matéria bruta que mais dia, menos dia, se dissolve no ar, como a bruma.
 
Ninguém está aqui negando a razão. Nem se imagina possa haver vida humana longe dela. A razão nos mantém ativos, vigilantes e de pé desde que acordamos até a hora de dormir (ou de curtir a velha insônia).
 
O sentimento é que nos dá sentido, motivos para viver e nos justifica. Não existe riqueza maior do que sentir: as pessoas, as coisas, os outros seres, o mundo. Isso que estou dizendo é óbvio, eu sei, mas gosto de recordar o óbvio.

No sentimento é que brilham as minas de diamantes das nossas afeições. O mais é ferro velho, ilusão de poder, baita solidão. 
 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O desmemoriado António Nevoeiro

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
- Existem precedências e ritos a observar, disse Ângelo das Horas Findas, voando de um lado para outro na sala dos recém-chegados. Entoava uma cançoneta suave enquanto espalhava flores de maio nos vasos alinhados sobre a grande mesa que atravessava o ambiente de ponta a ponta. De acordo com a suma teologal, não podia responder às perguntas do jovem viajante.

António Nevoeiro da Tábua queria saber onde estava, que lugar estranho era aquele. Sentia como se tivesse acordado de um sono de muitos dias. Entrou no ambiente branco e silencioso numa tarde de chuva e foi recebido pelo esvoaçante angélico, que por sinal simpático e alegrão.

Um anjo de leves passos e breves assuntos, que prefere a superfície às profundezas, que não faz parte do capítulo dos ângelos escolásticos, mas dos serviçais, e adora tocar rabeca nos interstícios.

Comunicou a António Nevoeiro que não podia revelar-lhe a razão de estar ali, obedecia ordens superiores e mais não podia revelar. António resignou-se na altura, pois ninguém ousa questionar um anjo. Estava encantado com a beleza das asas do angélico, de um rosa clarinho com rendas brancas nas bordas.
 
Lembrava-se apenas de parte de sua vida. Tinha sido poeta de aldeia num lugar escondido dos Campos de Cima do Esquecimento. Sobrevivia do ofício de marceneiro. Olhou para as mãos e constatou os dedos grossos, a pele dura das palmas. Havia uma mulher, mas não conseguia ver-lhe a face nem sabia o nome. A sua própria idade ele desconhecia.

As poucas coisas que recordava surgiam recortadas na memória, páginas de um álbum incompleto. Havia muitas folhas em branco e outras tantas foram arrancadas. Isso o inquietava.

Quem fora ele na vida, que coisas terríveis ou boas havia feito em sua passagem?

Ângelo das Horas Findas, com pena de seu desalento, acompanhou-o sobre uma nuvem até a velha casa onde vivera. António Nevoeiro sabia que aquele lugar lhe era familiar, mas as peças estavam todas vazias. Não havia pessoa, nenhum retrato nas paredes. Nem móvel, nem lembranças. As ventanas estavam abertas e por elas entrava o aroma de um roseiral perto do portão de ferro.

Sentou-se no banco do jardim, alheio a tudo e profundamente só, como se todos os habitantes do mundo tivessem partido. Sentado no umbral da casa, com as asas fechadas, Das Horas Findas olhou-o com pesar. E já pressentia o castigo que levaria do escolástico Miguel, o Piedoso, pelo que estava fazendo, contrariando o Livro das Prédicas Angelicais.

O que eles jamais podiam imaginar era o desastre que os esperava na viagem de retorno.

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Próximo capítulo: qualquer dia.
 

sábado, 14 de maio de 2016

Caminho do sol

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


Perdi o sono antes do amanhecer. Eu nunca perco o sono. Aí chegaram uns pensamentos escuros: realidade do Brasil com sua corrupção terrível, passagem desumana do tempo, saúde, perdas, essas coisas que afligem mais quando é noite. 

Pensei um dia que, com a chegada dos anos, tudo ia ficar mais claro, mais calmo, viveria em paz com meus fantasmas. As angústias dariam lugar à serenidade. Que ilusão! A minha sabedoria terminou entre os 18 e 25 anos, quando fui eterno e a beleza estava em quase tudo que eu via. 

Os anos não trazem sabedoria, trazem cansaço e desilusão (pensava eu no escuro). Aí disse chega. Levantei, vesti o capote, a manta, o chapéu, e coloquei os óculos (a essa altura, mais parecem um binóculo). Saí pela estrada de chão batido que conheço bem aqui na montanha. 

Era noite cerrada ainda. Vi uma coruja no velho muro de taipa. A ave noturna pareceu fazer-me um leve aceno de cabeça. Eu correspondi. 

Fui entrando na neblina enregelado (fazia dois graus), só queria caminhar, esquecer as amofinações, respirar o ar da nova manhã. 

Caminhei para encontrar o sol. Foi o que fiz, vendo-o levantar-se no Contraforte dos Capuchinhos. Depois voltei pra casa. Fui fazer café no fogão a lenha. Tudo ficou mais claro dentro de mim.

Não fico mais no escuro pensando bobagem: caminho até o sol.