domingo, 5 de maio de 2019

Os meus velhotes

Jorge Finatto
Café, Museu Chaplin, Vevey, Suíça. photo: jfinatto

ELES REÚNEM-SE às quartas e sábados num café. Sempre na mesma mesa. São quatro, às vezes cinco. Não faço parte do grupo. Chamo-os de "os meus velhotes" com secreta intimidade. Nunca conversei com nenhum deles. É provável que nem deram pela minha presença.

Velhotes são carinhas passados dos 70 que insistem em viver e, ainda mais, em conviver. Na minha paisagem afetiva, essas figuras importam. Trazem a marca da resiliência, persistem na amizade e na vontade de levar o barco adiante. Eu admiro e gosto de pessoas assim.
Quando ando meio desanimado, vou ver os meus velhotes. Sento na mesa costumeira, peço o café, leio alguma coisa. Entrementes acompanho com discrição a reunião do grupo. De alguma maneira, aqueles cabelos brancos me dizem que vale a pena, que existe felicidade no fato de continuar respirando e ir ao encontro dos amigos para um bate-papo num café.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pontos de luz

Jorge Finatto

Entardecer em Montreux, Suíça. photo: jfinatto
 

A POESIA existe principalmente fora dos livros de versos. Conseguir reter um pouco desse mistério em forma de poema é tarefa para poucos.
 
Pra quem escreve, o olhar do outro é fundamental. Só o outro pode reconhecer sentido no texto. Sem ele, não tem razão de ser. É como deixar um livro aberto sobre a mesa do quintal, exposto aos ventos, à chuva, ao sol. Os olhos do pássaro, da borboleta e da formiga jamais poderão desvelar o que está escrito. 
 
A descoberta da arte nos torna mais humanos. Os museus, salas de concerto e bibliotecas guardam fragmentos do belo. Mas a maior parte da beleza está em outros lugares, à espera de ser desvendada pela sensibilidade de cada um.

O belo é para sentir e para pensar. O belo pode ser muitas coisas. Às vezes tudo misturado. Só não pode ser a favor da morte e da desintegração do ser humano. Obras de arte são pontos de luz soltos na escuridão cósmica.
 

terça-feira, 23 de abril de 2019

A pele cor-de-rosa da chuva

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

O SER HUMANO tem direito constitucional de andar nas nuvens. Sentimental algaravia. Ah, um dia livre por aí. O que ela mais gosta.

As horas difíceis, cotidianas, que a vida tem. Poucos momentos de gozo. Vida bonsai. Um ermo. Os medos, medo, medo. Um dia se deu conta de que. Olhou no espelho, estranhou. Quem é essa? Deus!
 
Vivia no austero, secreto, precavido jeito.

Desde que ele se foi, enfim, aquela madrugada. (Por que tinha de ser justo de madrugada?) Adeus, adeuses. Casa abandonada. Depois só quireras, uns fanicos de dar dó, cacos quebrados. Ninguém mais.
 
Dia feriado, sábado, domingo, aniversário: nenhum fio de luz embaixo da porta, escuridão completa. Ninguém vem, ninguém nunca nada. Coração solitário de bandeja, corvos vorazes.
 
Noites em claro, sede. Janela aberta sobre a cidade e neons. Vazio. Invoca rezas antigas, banho de madrugada, copo dágua gelada, dorme diante da tv. Quem é essa?
 
A solidão de batom pintada na cara. Ocos dias de viver. Malezas.
 
Ah, bem-vindo, vento de maio. Chuva. Na chuva sente-se protegida, agasalhada. Sai a divagar caminhos molhados. Os longes habitam a sua alma. Peixes coloridos soltos no ar. Sopram presságios no voo de algodão das gaivotas. O rio escorrendo lentamente.
 
Moças saltam das janelas, invadem as ruas como ela. Anêmonas. Saias flutuam. Sombrinhas navegam no vento.
 
A esperança. Ninguém pode viver sem, nem ela nem. Se solitude fosse abraço.

Instantes migalhas de vida são. Breves eternidades. Venham os dias.

O amanhecer sobre nuvens. Venha esse novo amor de onde vier. 

Felicidade é relâmpago. Farândola no coração.

A pele cor-de-rosa da chuva.

Outono, outonos.
 
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Texto revisto, publicado em 9 de abril, 2010.
 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Renascer de cinzas

Jorge Finatto
 
Igreja de Canela, 21.04.2019. photo: jfinatto
 
 
Que a RESSURREIÇÃO DE CRISTO inspire o renascimento de muitos.

Que volte a chover na terra calcinada dos nossos corações.
 

sábado, 13 de abril de 2019

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto


E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira de antigüidades da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador no casarão abandonado da Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instante que não se deixa apagar. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher que não se perdeu graças ao registro.
 
Pequena eternidade de luz.
 
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Texto revisto, publicado em 14 fev. 2015.
 

domingo, 7 de abril de 2019

A casa do fantasma

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Bologna

E POR FALAR em fantasmas, a coleção deles não para de aumentar. Alguns já partiram há muito tempo (o tempo humano é farelo, ele sabe). Outros ainda estão por aqui mas não foram mais vistos.

Os habitantes do oblívio. Ele mesmo é um tipo de fantasma. Um que caminha entre luz e sombra, dia e noite, preto e branco, visível e invisível.

As ruas são as mesmas mas os antigos moradores viajaram a outros planetas. Ele ficou olhando o fim de tarde desenhado numa aquarela.

Abril chegou com seu discreto frio, seus silêncios, suas quaresmeiras em flor. 

Esta vida é uma aquarela. No início as cores e formas são vívidas e transparentes. Depois vão se apagando como um entardecer.

A beleza habita a casa do efêmero, ele pensa.

E ousa sentir.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A hora da pacificação

Jorge Finatto

Pôr do sol no Guaíba. photo: jfinatto

 
O NÚMERO de desempregados divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é terrível.* Até o final de fevereiro último, somavam 13 milhões e 100 mil as pessoas sem trabalho. Além delas, existem 4 milhões e 900 mil desalentados, isto é, aqueles que desistiram de procurar emprego por desânimo, depressão, cansaço diante do quadro que se apresenta.

Enquanto isso, não se vislumbram ações capazes de levar o país a uma pacificação. Não houve diminuição do enfrentamento politico, distensão que deveria ter se seguido às eleições para a reconstrução da confiança, da economia e dos empregos.  Pelo contrário, o bate-boca aumentou, e quando a gritaria prevalece, acaba ocupando o lugar destinado ao diálogo,  às ideias, projetos, boas práticas. A inteligência se calou no Brasil nos últimos meses.

O país continua carente de bom senso, razoabilidade, espírito público. As coisas simplesmente não andam. Parece que não existe amanhã nestes tempos de ódio. Estamos vivendo uma espécie de velório da esperança.

É preciso que os homens e mulheres que ocupam cargos públicos saibam que não estão aí para ser servidos, mas para servir a sociedade. É o óbvio que deve ser reiterado todos os dias no Brasil.

Todo mundo sabe o que necessita ser feito para melhorar a vida da população. O país não pode esperar mais. Humildade, respeito ao semelhante, paz, trabalho, justiça, empatia são algumas palavras que podem ajudar muito nesta hora. Não se brinca com a vida de mais de 200 milhões de pessoas.

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*Desemprego
https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/03/29/desemprego-sobe-para-124percent-em-fevereiro-diz-ibge.ghtml
  

terça-feira, 26 de março de 2019

Pequenas humanidades

Jorge Finatto 

photo: j.finatto


O PROBLEMA, raro leitor, é que quando a pessoa deixa de gostar de si mesma a vida torna-se muito dura. A dela e a dos que estão por perto. Por isso é do interesse geral que todos sejam felizes ou, pelo menos, o mais próximo disso que puderem.
 
O infeliz arrasta o mundo para o buraco com ele. Qualquer um de nós já passou por isso. Aparece aquela nuvem carregada sobre a cabeça. Essa nuvem se expande com facilidade.

Nessas horas precisamos de uma palavra, um olhar, um aconchego para voltar a viver. Acontece que na vida de aparências em que estamos metidos somos cada vez menos estimulados a falar de nossos sentimentos. Somos esfinges no deserto.
  
Conheço pessoas que nada mais esperam da vida. Perderam a alegria de viver. Sobrevivem a duras penas. Não que queiram. Simplesmente aconteceu. Não sabem o que fazer. Têm medo de viver, de sonhar, de sofrer de novo. Os medos.
 
Esse estado de espírito é um dos principais legados da sociedade materialista, competitiva, agressiva e desumana em que vivemos. O outro é o inimigo em armas. Existe pouco espaço para a mansidão e a solidariedade.
 
Só o afeto tem o poder de nos reconciliar com o próximo e com a vida. Longe do calor humano tudo é o mesmo que nada.

Afeto não tem preço, não se aluga, não se compra, não se vende. Se dá e se recebe.

Não precisamos ser íntimos de alguém pra passar afeto. Isso se faz num gesto de gentileza, cordialidade, atenção.

São coisas simples que, enlaçadas, são capazes de causar uma grande revolução. Está todo mundo esperando e precisando muito dessas pequenas humanidades.

Eu acredito que podemos investir mais na nossa espécie, na reciprocidade dos bons gestos, no afago.

De mãos dadas a vida é outra.

Começo a terça-feira oferecendo a você essas palavras, minha amiga, meu amigo. Elas estão vivas. Cuide bem delas, dos outros, de si mesmo. Você merece. Nós merecemos.

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Texto revisto, publicado antes em 21, outubro, 2014.
 

quinta-feira, 21 de março de 2019

Giorgio Morandi, traços de Bolonha

Jorge Finatto

Atelier. Casa Morandi. photo: jfinatto
 

OLHANDO OS TONS pastéis dos edifícios, arcadas, praças e monumentos de Bolonha, tem-se a impressão de que a cidade nasceu da paleta de seu pintor Giorgio Morandi. A transparência das cores, a leveza geométrica dos traços do grande artista da Via Fondazza estão profundamente enraizadas nas formas e matizes da cidade. Morandi e Bolonha pertencem-se. A cidade e o pintor vivem um dentro do outro.

Seria talvez uma ousada metáfora dizer que Bolonha nasceu da imaginação de Morandi. Mas não seria uma mentira descabelada...

Casa Morandi, atelier. photo: jfinatto

Na Via Fondazza encontra-se a casa onde ele viveu e trabalhou, hoje Casa Morandi. Ali encontram-se alguns de seus objetos pessoais, o atelier com a cama, quadros, livros, o chapéu, material de pintura, instrumentos de trabalho, etc. Olhando-se as cores e tons das casas da Via percebe-se que a cidade foi sempre a inspiração primeira na obra do artista. Sobriedade e ousadia, o caráter doméstico das fachadas, com suas portas, paredes e janelas, a vida social existente, tudo remete a um ambiente muito particular.

Natureza-morta. Museu Morandi, Bolonha. photo: jfinatto

Visitei o Museu Morandi, não muito distante da Casa. Lá encontram-se muitas de suas pinturas, embora haja peças do acervo em outras partes e coleções. Um sentimento de equilíbrio e suavidade compõe os traços do pintor nas naturezas-mortas, flores e paisagens. Olhar estas obras faz bem ao coração.

Paisagem. Museu Morandi. Bolonha. photo: jfinatto
 


sábado, 16 de março de 2019

A poesia está em toda parte

Jorge Finatto

Ron Padgett. photo by Chris Felver
 
 
Varrer

O que eu quero
é esquecer tudo
o que alguma vez soube sobre poesia
e varrer a caruma
de cima do telhado da cabana
e vê-la voar para longe
nesta tarde de Outubro

A caneta é mais poderosa que a espada
mas hoje a vassoura
é mais poderosa que a caneta                       

                                     Ron Padgett*
 
 
CONTINUO LENDO, calma e atentamente, o livro Poemas Escolhidos, de Ron Padgett. Não se deve ler um livro de poemas como quem lê um romance ou outra prosa qualquer. O poema pede retiro, distanciamento, já nem digo físico, mas espiritual. Quer dizer, é preciso construir um espaço de silêncio interior em meio ao tumulto e à brutalidade do cotidiano para deixar entrar um pouco de luz em forma de poesia.
 
Até onde eu sei não existe livro de Padgett lançado no Brasil. A tradução em Portugal dos Poemas Escolhidos (setembro de 2018) vem em muito boa hora por oferecer uma visão ampla da obra do poeta norte-americano em língua portuguesa. Quem viu o excelente filme Paterson, que tem poemas dele, saiu do cinema com a impressão de que a poesia não só é possível como está muito viva nos dias de hoje, em plena aridez deste início de século.
 
Depois que publiquei a resenha sobre o poeta no post anterior, resolvi encaminhar-lhe por e-mail. Fiquei surpreso e sensibilizado com a resposta que ele deu. Não é sempre que um bardo de arrabalde se comunica com um "colega" de Nova Yorque, ainda mais quando este último é famoso e um dos mais importantes da atualidade. O que reforça a ideia de que a poesia irmana todos os humanos não importa onde vivam. Não tem centro nem periferia. Uma força cósmica nos reúne em torno da palavra.
 
A poesia, como o ar, está em toda parte.
 
Dear Jorge,
Thank you for the kind words. Tonight at dinner I will raise a bica in your honor. 
Best wishes, 
 
Ron Padgett
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*Poemas Escolhidos. Ron Padgett. Seleção, tradução e introdução por Rosalina Marshall. Editora Assírio & Alvim, Portugal, 2018.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Um poeta: Ron Padgett

Jorge Finatto

Ron Padgett. O crédito será dado tão logo identificado
o autor da imagem

O poeta enquanto pássaro imortal
 
Um segundo atrás o meu coração deixou de bater
e eu pensei: "Seria uma péssima altura
para ter um ataque cardíaco e morrer,
a meio de um poema", então reconfortou-me
a ideia de que nunca soube de ninguém
que morresse a meio da escrita de um poema,
assim como os pássaros nunca morrem a meio do voo.
Acho.
                         Ron Padgett
 
O LIVRO mais interessante que encontrei nesse início de 2019, e que estou levando na bagagem para as leituras da Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Musical, Geológica, Astronômica, Antropológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes, é Poemas Escolhidos, do norte-americano Ron Padgett. Não fosse por outras razões, esta só descoberta teria valido a viagem a Lisboa.

Enquanto pescava nas estantes da Livraria Bertrand, me chamou a atenção o volume solitário. Nunca tinha lido nada sobre o autor. Peguei o livro, li alguns versos aqui e ali. Fechei e saí para outra estante. Já estava com 26 livros na mala.

Mas aqueles versos ficaram batendo na minha cabeça. Voltei, abri de novo, li outros versos. Cheguei à conclusão de que não poderia voltar ao hotel sem aquele poeta. Paguei os 18,80 euros e fui folheá-lo no Café Praça Central, ali mesmo, no Shopping Amoreiras.

Padgett nasceu em Tulsa, Oklahoma, em 1942, e está bem vivo nos Estados Unidos. São de sua autoria alguns dos poemas do belo filme Paterson, de 2016, escrito e dirigido por Jim Jarmusch. A história trata, em resumo, da vida de um pacato motorista de ônibus que também escreve, e como escreve!, poemas. Uma vida comum apenas na aparência, cheia de busca de sentidos e beleza.

Padgett escreve sobre coisas do cotidiano, nada transcendentes (na aparência). Mas que, na mira de seu olhar sensível, adquirem uma outra dimensão.

Não é quimérico nem oráculo. Quando escreve é como se caminhasse ao lado do leitor pela rua, qualquer rua, numa cidade qualquer, Nova Yorque ou Selbach. Escrever assim é deixar-se tocar pelas mãos candentes da vida, é estar louco, mas sem abdicar da lucidez e dos sonhos.

Estou lendo aos poucos e com calma como deve ser lido um livro de poemas. A edição bilíngüe permite acompanhar o trabalho de tradução e aquilatar seu alcance (sem esquecer que traduzir poemas é uma das maiores aventuras a que alguém se pode lançar).

O poeta não dá muitas voltas, vai ao ponto. Ao mesmo tempo, especula o brilho das estrelas nos olhos de um pássaro. Não quer ser, e não é, um pastor ou um guia no deserto.  Fala uma língua humana, é profundo, bem-humorado, irônico, mas nunca cruel, com a vida, consigo e com o leitor. Um grande achado.

Um autor que merece ser levado para casa.


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Poemas Escolhidos. Ron Padgett. Seleção, tradução e introdução por Rosalina Marshall. Editora Assírio & Alvim, Portugal, 2018.

terça-feira, 5 de março de 2019

A volta

Jorge Finatto
photo: jfinatto. Lisboa

VAI SER difícil voltar a Porto Alegre e não te ver mais. Encontrarei um apartamento fechado, uma janela onde o sol já não entra. Não estarás à minha espera nem à espera de ninguém. Os dias de esperar terminaram. As tuas horas, borboletas numa tarde poente, sumiram, sumiram.

Primavera está chegando mas não pra ti, Nena. Eras o centro de uma mesa com muitos lugares. Porta e janela se fecham com a tua casa vazia. Terei de inventar outra morada, outra mesa, e pôr novas flores na minha janela triste.

A tua ausência permanece de braços abertos na porta.

Vou pintar um sol amarelo sobre a folha branca. Tecer a aurora para expulsar a escuridão da tua falta.

sábado, 2 de março de 2019

Lisboa

Jorge Finatto
 
vista Lisboa a partir de Cacilhas. photo: jfinatto
 

VISTA do outro lado do Tejo, do cais de Cacilhas, Lisboa aparece iluminada pelo sol de inverno. A cidade de tantos poetas e tantos fados não economiza sua luz. É generosa com o visitante.
 
Invadida por turistas (estão por todo lado a toda hora), não perde seu jeito de ser. Está sempre em si mesma.
 
Lisboa se conhece aos poucos, é amiga do tempo, não se deixa conquistar sem sentimento.
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Aveiro

Jorge Finatto
 
Moliceiro na Ria de Aveiro. photo: jfinatto
 
AVEIRO é uma cidade cordial. É isto que sinto conversando e andando por aqui. Um passeio de moliceiro pela Ria de Aveiro é uma beleza. A cidade tem canais que se formam a partir do encontro das águas do mar com o rio Vouga. A Ria resulta desse encontro. Quem gosta de cidades de rio ou mar, como eu, sente-se em casa.

painel com azulejos, Aveiro. photo: jfinatto
 
O tratamento dos habitantes é simples e gentil. O centro histórico, o casario, as igrejas, as ruas e vielas, os doces de ovos moles, tudo faz a gente querer ficar e, depois, voltar. Lugares que gostei muito de conhecer: o Hotel Moliceiro, os restaurantes Maré Cheia e O Augusto, além de A Barrica com seus doces que são verdadeiro tormento para diabéticos.

a Ria de Aveiro. photo: jfinatto
  

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Bolonha

Jorge Finatto 

photo: jfinatto

HÁ CIDADES que têm museus. Há cidades que são museus. Acervos viventes com habitantes, casas, cores, monumentos, ruas, pontes, histórias... Bolonha é um museu vivo. O passado de muitos séculos está presente. Ontem e hoje se encontram. O tempo já não é esquecimento. É memória em cotidiana construção.
 
photo: jfinatto
 
photo: jfinatto

No primeiro dia na cidade, no Casco Velho de Bolonha, fiquei com a impressão de que poderia ser atropelado a qualquer momento, tal o trânsito caótico pelas ruas e vielas. Um movimento intenso e em velocidade de lambretas, carros e bicicletas surgindo por todo lado. Um situação de aflição. Multipliquei os cuidados.  Mas sobrevivi. Deus é pai!
 
photo: jfinatto