sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Maquinista de fogão a lenha

Jorge Finatto

photo: jfinatto


O inverno é um velho rabugento, de barba branca, capote preto, com olheiras e óculos de lentes de fundo de garrafa, afeito ao silêncio e a remotas recordações.

Inícios de setembro, ele prepara a carroça com seus pertences pra fazer a longa viagem ao outro lado do mundo. Viagem na névoa em direção ao hemisfério norte onde vai suceder o outono. As despedidas do inverno ouvem-se na voz do vento anunciando a primavera. 

Todavia, como maquinista de fogão a lenha, não posso descuidar. São os últimos frios, as últimas cerrações e geadas. Se o maquinista vacila, as coisas congelam na casa. 

Adeus, folhas secas, galhos retorcidos, grinfas de pinheiro, fantasmas no sótão. Adeus, nuvens de chumbo. O tempo das folhas verdes novas pede passagem. Tempo de cores e perfumes. O que melhor do que o aroma da flor de laranjeira impregnando o ar? 

Anúncio da primavera.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A palavra no agora

Jorge Finatto

Estação da Luz. fonte: site do Museu da Língua Postuguesa


Com o objetivo de ajudar as pessoas a lidar com os sentimentos advindos da pandemia, o Museu da Língua Portuguesa lançou no mês de julho o projeto virtual A palavra no agora. A ideia é estimular as pessoas a expressar este momento difícil através de exercícios de escrita. O projeto acolhe textos que traduzem sentimentos e pensamentos em face da grave crise que enfrentamos, mostrando como cada um está vivendo a situação. Está disponível no endereço http://www.noagora.museudalinguaportuguesa.org.br/. 

Para compartilhar o texto no site do Museu, o interessado deve encaminhá-lo para noagora@museulp.org.br, informando nome, idade, cidade, bem como se deseja publicar com seu nome ou pseudônimo, iniciais ou anonimamente. 

Andei lendo algumas das contribuições. É surpreendente a diversidade do material, seu conteúdo, sua qualidade. A riqueza de percepções deste tempo sombrio se manifesta em linhas de espanto, tristeza, ansiedade, imaginação, saudades e, acima de tudo, em um olhar generoso sobre a vida e o futuro.

O Museu da Língua Portuguesa é um órgão da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e foi criado em 2006 com a finalidade de valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundoAs atividades que desenvolve nessa direção são preciosas e muito variadas.

O local escolhido para abrigá-lo foi a Estação da Luz, edifício histórico no coração de São Paulo (cidade com a maior população de falantes de português do mundo). Um incêndio ocorrido em 21 de dezembro de 2015 fez com que se suspendessem as visitações enquanto o prédio está sendo reconstruído.

Entre os escritores que já foram homenageados, em mais de 30 exposições, estão Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Cora Coralina, Jorge Amado, Agustina Bessa-Luís, Rubem Braga e Guimarães Rosa.

Parabéns a toda equipe do Museu da Língua Portuguesa pela bela iniciativa.

Exposição temporária Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Um jardim na pandemia

Jorge Finatto



Tenho me envolvido com flores desde que a peste começou. A terra do jardim é fértil. As plantas pegam, crescem, iluminam. Eu apenas faço as imagens. O blog transformou-se num jardim virtual. Quem pensa e cultiva o jardim é a Izabel. Nunca esteve tão viçoso. Foi concebido para enfrentar esse tempo de sombras e espantar a morte. Está dando certo. Graças a Deus.






sábado, 22 de agosto de 2020

Tempo/espaço à beira do abismo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Nesse tempo/espaço à beira do abismo... Começar um texto com essa frase é um grande espanta-leitor. Eu mesmo ando atrás de palavras que me levantem do chão, deste chão de pandemia com mais de 113 mil mortos pela covid-19 no Brasil. Este calcinado chão da realidade brasileira cuja desumanidade derruba qualquer um. 

Como cultivo um jardim (gosto da vida), reescrevo o título: Tempo/espaço à beira de um jardim.

Eu já tive mais esperança no nosso país. Quando achava que poderíamos dar um passo adiante depois das últimas eleições, com um basta à corrupção e ao cinismo, o resultado é este que aí está. A reafirmação do atraso, da ignorância, do autoritarismo, da indiferença. A lava-jato sob ataque em diferentes níveis. A inexplicável e inacreditável ausência de um médico à frente do Ministério da Saúde em plena pandemia.

Minha decepção também quanto a nós como sociedade, educados que fomos pra não atentar para o coletivo e só ter em conta o próprio umbigo, "cuide de você, esqueça o resto e suba na vida". As ruas selvagens das nossas tristes cidades são o retrato acabado deste infeliz mantra.

Adolescência. Um pobretão em escola de classe média alta sonha alcançar uma profissão, por ele e por aqueles que não tiveram a mesma chance. Sofre os olhares e gozações de praxe por estudar com bolsa de estudos, vestir-se como pobre, não ser claro nem ter olhos azuis, ir de ônibus ou a pé pra escola, não viajar nas férias, não ter dinheiro pra nada. 

Quando um dia conseguiu comprar a primeira calça Lee americana, a grife já tinha saído de moda há tempos. Não perdeu o jeito, foi adiante e realizou seus principais objetivos: conquistou uma profissão e construiu uma família. Foi muito além do preconceito e do pouco caso dos "mestres e colegas".

Queria viver num país infinitamente menos egoísta e desigual. A corrupção mutila o futuro de meninos e meninas que nunca terão oportunidade no ensino e no trabalho. Um crime contra toda a sociedade.

Mas é preciso não perder de vista o sonho em um país melhor. Ele constrói-se na cabeça e nos gestos de pessoas que levam a honestidade e o sentimento de justiça a sério, que lutam por isso no seu dia a dia. Essa prática começa dentro de casa, nas coisas mais simples. Depois ganha o mundo. 

Com esse espírito, agarrado no que resta de esperança, vou vivendo e cultivando meu jardim.

domingo, 16 de agosto de 2020

Urgente primavera

Jorge Finatto

photos: jfinatto, ago. 2020


Nunca a primavera foi tão necessária. A pandemia da covid-19, no hemisfério sul, sobretudo no sul do continente americano, nos apanhou no início do outono e se estendeu por todo o inverno. Os últimos 5 meses foram extremamente difíceis. 

A primavera ainda não chegou. Mas setembro está próximo e o sentimento dela já toca o coração devastado pela realidade brasileira. Com a primavera, vêm as esperanças de que o vírus maldito comece sua retirada, afastando de nós o ímpeto assassino. Claro que, para isso, é fundamental que as pessoas sigam as orientações de combate ao contágio. 

A doença encontrou no Brasil um território fácil à propagação e à produção de vítimas. Um país desestruturado socialmente, com baixo nível de consciência comunitária e pouca capacidade de empatia.  Não é erro afirmar que parte dos mais de 106 mil mortos (até agora) se deve à negação da doença. E muita gente continua sem respeitar as medidas de prevenção.


rosas pra alegrar a alma

Nada como o distanciamento do tempo para revelar como as coisas se passaram entre nós. Que cada um responda pelos seus atos e suas omissões. Em todos os níveis, desde o cidadão comum do povo, que se negou a seguir orientações para evitar a propagação, até os mais altos ocupantes de cargos públicos, que subestimaram o alcance da tragédia e não fizeram a tempo o que precisava ser feito.

Primavera é tempo de renascimento, não de ressentimentos. Tempo de vida nova, de fim de hibernação, de seivas explodindo em energia, luz, alegria. Tempo de voltarmos a acreditar no futuro apesar de tudo. Tenho rezado pela saúde das pessoas amadas e de todos. 

Que Deus nos conceda a sobrevivência como uma nova oportunidade. Façamos  por merecê-la.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Evocação de Rilke

Jorge Finatto 

Flor de Viena. photo: jfinatto


Quem tomará a minha mão
na noite de vermes
quando o asco me derruba
feito cão pela esquina

quem de coração amigo
chegará para beber a gota
de ternura estrangulada

quem me chamará de irmão
na dor imensa
quando o medo me acerta
com suas espadas de fogo

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Poema do livro Claridade, Jorge Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

A vida das coisas

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Em memória de Helena.


A vida das coisas pende por um fio, se te calas.
                                              Helena Jobim, no poema Princípio.

Este verso da escritora e poeta Helena Jobim é de uma beleza comovente. Remete ao compromisso do poeta com seu tempo, com os seres que habitam o mundo, com a vida geral. A palavra atuando pela afirmação da vida. Olhos atentos, coração aberto, entrega e esperança. 

O texto da querida irmã do maestro Antonio Brasileiro possui atualidade permanente neste Brasil que teima em desmoronar.

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Helena Jobim:

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Terapia de jardim

Jorge Finatto

photo: jfinatto

A terapia de jardim consiste em permitir-se ir ao encontro das flores. Pode ser num jardim público ou particular, ou na natureza. Não colher nenhuma flor. Observá-las, admirá-las, amá-las em vida. Pode até tirar umas photos e levar pra casa. O resto elas sabem fazer: encantam, serenizam, despertam a mente para o silêncio, o belo e o delicado. O perfume é lembrança do paraíso.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Respiro, logo existo

Jorge Finatto

magnólia. photo: jfinatto, julho 2020


Mais de quatro meses de quarentena, reduzido a este microterritório do universo que é minha casa, a sensação é de sufoco. Não que eu não goste de ficar em casa. Sou dos viventes mais caseiros, capaz de repetir ad nauseam as rotinas domésticas. 

O que causa mais sofrimento é o afastamento do contato humano. Somos seres gregários, gerados no generoso útero feminino há milênios, sobreviventes de pragas e tempestades.  Precisamos do outro, ansiamos seu calor. O que não nos impede de sermos, às vezes, profundamente egoístas.  Contudo, neste momento, em meio à peste, devemos manter distância do semelhante.

Os doentes da covid-19 ficam em quartos e ambientes isolados, em casa ou nos hospitais. Quantos já morreram sem ter tido ao menos o conforto de afagar uma mão humana,  de ver o rosto querido de um parente, um amigo. Este é o lado cruel.

O que tenho feito nesses dias de pandemia? Lavar louça, passar pano no chão, tirar lixo, limpar banheiro. Não são novas habilidades. Sempre fui da turma da faxina. Aprendi com o tempo que os outros só nos valorizam (a nós, limpadores e arrumadores) quando o serviço falta. Quando está em dia, passamos invisíveis.

A primeira coisa que faço quando levanto, de manhã, é ir até a janela olhar o quintal, ver se ainda está lá. Com suas árvores, pássaros, hortaliças, flores, terra. Depois do café, é pra lá que eu vou. Respirar. Respirar é tudo que realmente importa. Tudo mais é vã literatura, inclusive esta crônica.

Ao cogito ergo sum (penso, logo existo) do filósofo francês René Descartes, acrescento este modestíssimo, porém incontornável, respiro, logo existo. Porque, nesta altura do drama, é do que mais precisamos. O resto vai ter que esperar.

sábado, 18 de julho de 2020

O Senhor não está

Jorge Finatto

cartum de Quino*


No aniversário de Quino, 88 anos completados ontem, a nossa homenagem! Feliz cumpleaños, Maestro!

NÃO, O DONO da casa não está. Saiu cedo e não disse a que horas volta. Ele foi por aí, não falou onde ia. Talvez não volte mais hoje nem nunca mais. Escafedeu-se. De fato, ele é esquisito. Vivo com ele uma vida inteira e não o conheço.

A Senhora sabe: as pessoas são estranhas. A cidade é grande, tem muito trânsito, muita livraria, muita coisa que ver, fazer, se distrair, e, sobretudo, muitos perigos. Sabe-se lá a que horas uma criatura destas retorna pra casa, se é que retorna.

Andar pelas ruas, nos dias de hoje, é uma odisseia. O Senhor gosta de olhar vitrines, até conversa com manequins, imagine; e perde horas na banca de jornal. O velhote vai ao cinema e dorme durante os filmes, acredita? É um biruta, vai pra onde leva o vento.

O quê, veio buscá-lo? Não, minha Senhora, não vale a pena ocupar-se dele, sujeito sem importância, tiozinho solitário, frugal. Gosta de viver, sim, e só isto. Teve vida difícil. Melhor deixá-lo em paz, não acha? Eu acho.

A Senhora tenha paciência, vá embora, que eu tenho mais o que fazer. Não, não posso convidá-la a entrar, não me leve a mal. Adeusinho, adeusinho.
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*site oficial de Quino:
http://www.quino.com.ar/  
Este post foi inspirado no cartum do genial artista argentino, "pai" de Mafalda, de quem sou grande admirador. Publicado antes em 3 de janeiro, 2018.

sábado, 11 de julho de 2020

As primeiras horas

Jorge Finatto

photo: jfinatto



Imagino o que os habitantes da Arca de Noé devem ter sentido quando as águas do Dilúvio baixaram e puderam olhar o azul do céu outra vez. Hoje, depois de muitos dias de pandemia, chuva, frio, ventania, ciclone bomba, enchentes, mortos e desabrigados, e sem poder ver uma nesga de céu claro, o dia amanheceu azulzinho. Abri a janela do escritório e respirei aquele azul.

Como tinha sede do Sol, desci a escada Santos Dumont e fui para o nosso jardim. Um pouco maltratadas com o mau tempo, as rosas estavam lá ainda. E as camélias, as magnólias, as azaleias, as flores de mel, as éricas também. Fiquei ali com elas, apanhando sol.

Depois fui recolher galhos e gravetos que caíram com a tempestade, para acender o fogão a lenha. Cada movimento com calma, como se o mundo estivesse começando agora. E fosse preciso viver essas primeiras horas com a delicadeza e o espanto de uma borboleta.

domingo, 5 de julho de 2020

O jeitinho brasileiro diante da tragédia

Jorge Finatto

photo: jfinatto. rosa amarela: esperança


A estimativa de que o Brasil poderá chegar a 100 mil mortos pela covid-19 nos próximos dois meses está se confirmando. O número diário de óbitos passa de mil e, seguindo assim, ultrapassará aquela projeção feita por especialistas. Uma catástrofe.

O que se percebe é uma quase indiferença em relação ao assunto. Quando a pandemia se instalou na Europa, houve comoção. Agora que está aqui, em números muito maiores, parece que não nos diz respeito. 

A falta de coesão no enfrentamento da doença é alarmante. O pouco caso de parte da população às orientações sanitárias é inacreditável. A maioria sabe o que precisa ser feito para impedir a propagação da doença. Mas muitos reagem como se se tratasse de uma gripezinha apenas, como a relativizou há algum tempo o Presidente da República. Aliás, um capítulo especial caberá a este senhor, quando for contada a história da pandemia no Brasil.

O que falta ao nosso país é amor social. Não nutrimos apreço pela vida em sociedade, a lei que vale é a famosa "quem pode mais chora menos". Não temos sentimento de coletividade. Somos capazes de atos solidários no varejo, aqui e ali, mas não alimentamos a empatia como um valor necessário e indispensável.

Claro que existem pessoas solidárias e envolvidas com o bem comum. Mas a média dos que praticam tais virtudes é insuficiente. A indiferença em relação às muitas tragédias que nos atingem pode ser observada quando olhamos para o número anual de assassinatos, para  as favelas, presídios, para a falta de saúde, educação, saneamento, moradia, para os elevados níveis de corrupção, devastação da natureza, etc.

Não formamos propriamente uma nação, mas um amontoado de gente sem direção, os "espertos" puxando brasa para o seu assado, achando que isso é o certo. O resultado é o que se vê. 

Somos uma sociedade autofágica, que não se comove com a dor do próximo. Não fomos educados para desenvolver ideia de pertencimento que reforce nossos vínculos com a comunidade na qual estamos inseridos e da qual bem ou mal dependemos. Ao contrário, o mantra desse modus vivendi é: cuide de si, leve vantagem, suba na vida, não olhe para os lados.

Uma sociedade com esse nível de desunião é incapaz de acusar o golpe ante as mais de 100 mil mortes anunciadas (hoje esse número chegou a 64.365*, sendo o primeiro óbito em março passado).

É um triste espetáculo para o mundo. Um atestado de frieza moral. Um péssimo legado para nossos filhos e netos.

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O Globo:
https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/brasil-registra-64365-mortes-por-covid-19-informa-consorcio-de-veiculos-da-imprensa-em-boletim-das-20h-24515993

terça-feira, 30 de junho de 2020

As últimas folhas

          Jorge Finatto

photo: jfinatto


Caíram as últimas folhas do outono
novelo de lã nas mãos de Maria
fogão a lenha, pinhão
conversa na noite fria

anúncio do inverno: ventania

esperança de vida
apesar do isolamento,
da pandemia
e do autoritarismo
(em progresso)
no Brasil

que Deus proteja o povo (todos nós)
da peste e da tirania

sexta-feira, 26 de junho de 2020

O visitante

Jorge Finatto

Lausanne, Suíça. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

terça-feira, 23 de junho de 2020

O caçador

Jorge Finatto

Rosa. photo: jfinatto

O caçador de flores, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.
Sou amador na arte de caçar. Dedico-me ao ofício por puro prazer, sem fazer disso meio de vida. Também não nutro espírito de emulação com outros caçadores.
Lanço-me à faina, mesmo sabendo que retratos conservam apenas a aparência do que foi belo um dia, e depois deixou de ser.
Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada.
E haja corola pra satisfazer a sanha insana.
O gesto é egoísta, típico de quem quer dar expansão ao próprio deleite estético, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se as pedras.
O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar as imagens, escondendo-as em seguida em secreto compartimento.
Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado pra ser admirado.
Só a exposição da caça torna completa a alegria do caçador.
Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas photos. Será essa, quem sabe, a possível atenuante para a conduta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.
Na cidade grande quase não há flores. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo o baú de fotografias. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto, suavizando o feio e o triste.
No lugar onde escrevo essas frágeis linhas, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente e a caça é abundante.
O retrato é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero. Mas o que não é patético nessa tosca existência, não é mesmo, raro leitor?
Magnólia rosa. photo: jfinatto
_______ 
Texto revisto, publicado antes em 26 nov. 2013.