sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os fundamentalistas

Jorge Finatto

Panos quentes no frio zero grau de Canela.
photo: jfinatto
 
 
TENHO MEDO de quem nunca duvida das próprias certezas. A rigidez de pensamento tem motivado a grande desolação em que vivemos. Questionar-se sobre o modo de ser e de fazer as coisas, repensar a vida, olhar o outro, é exercício de civilidade cada vez mais raro.

O fundamentalismo, seja laico, religioso ou político, não torna as pessoas mais felizes e nem melhores. Pelo contrário, espalha sofrimento, conflito, morte. O fundamentalista é dono de verdades absolutas, irrenunciáveis. Ele e o grupo a que pertence, incapazes de autocrítica, são pérolas que pairam impolutas sobre os pobres mortais.

No Brasil de hoje, à esquerda e à direita, a irracionalidade tomou conta.
 
Pôr-se no lugar das outras pessoas, ponderar suas razões e sentimentos, está fora de cogitação para o sectário. O que ele quer - ser iluminado que é - é mandar na vida alheia e no país, mostrar o caminho único da ventura e prosperidade.

O fundamentalismo passa longe da tolerância, essa atitude que, sendo menos que o respeito, é, todavia, um primeiro passo na aceitação do diferente.

Prefiro viver numa sociedade com muitas faces do que num hospício, que é para onde nos conduzem a inflexibilidade, o fanatismo, a força bruta, o aniquilamento da alteridade.

A ética da aproximação, como princípio fundamental da existência, é, ainda, a possível ponte para uma convivência razoavelmente civilizada e fraterna.
 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A travessia do cotidiano

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
A travessia do COTIDIANO é Odisséia.  As histórias das pessoas comuns, os verdadeiros heróis, quem as contará? Nenhum Homero jamais se debruçará sobre as pequenas memórias que constituem a existência do povo.
 
E, no entanto, não há tesouro mais bonito. São as histórias reais, mais belas e incríveis que as maiores ficções.
 
Cada um é Ulisses e Homero da própria trama. Uma pequena história numa constelação de narrativas.
 
O que resta, no fim de tudo, são histórias humanas sem fim que o vento carrega para as bibliotecas azuis das estrelas.
 

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Scrittura

Jorge Finatto

photo: jfinatto


ESCRITA rente ao sentimento e ao pensamento.
Escrita dentro do cotidiano mas aberta ao sonho e à imaginação.
Escrita sem pedir licença nem perdão.
 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A hora da cocota

Jorge Finatto


 fotos: jfinatto 

Na ponta de um PLÁTANO já sem folhas, na frente de casa, pousaram essas caturritas. É o primeiro dia do inverno. Ali ficaram um bom tempo observando tudo lá de cima. Podiam ver a catedral e o centrinho de Passo dos Ausentes. Talvez cansadas, no fim de tarde, antes do sol se pôr, resolveram fazer uma pausa antes de regressar aos ninhos.
 
Essas criaturas são também conhecidas como periquitos-monges, catorras ou cocotas. Seguidamente estão aqui no quintal comendo araçás e outros frutos do seu agrado. Fazem uma gritaria e andam sempre em bando. Não tenho ideia de onde elas vivem, mas parecem bem e estão sempre atentas. Juntas cuidam umas das outras. E por isso vão mais longe. Se as pessoas fizessem o mesmo no Brasil...


Neste primeiro dia de inverno deram as caras as amigas cocotas. Fiz umas fotos de recordação. Uma espécie de celebração do inverno. De retiro das almas. Completado com a audição do Concerto para Cello em Si Menor, de Dvorák.
 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A paleta do outono

Jorge Finatto

Praça Gustavo Langsch. fotos: jfinatto

 
SAÍ PELA RUA na tarde de outono pra tirar umas fotos. Uma visita à Praça Gustavo Langsch perto de casa e não precisa mais. Ali habitam todas as cores da estação.
 
Por alguma razão que desconheço, o outono custa muito a chegar nessa praça. A estação já anda madura no restante da cidade e na Langsch as folhas resistem a amarelar e cair dos galhos. O ocre demora a ocupar o lugar que lhe cabe por direito. Mas quando o outono, enfim, acontece, ela torna-se uma das praças mais bonitas de Porto Alegre.
 
 
O outono é a estação mais bela do ano. Pelas mutações biológicas na natureza, pela incrível paleta de cores que pintam o ambiente e multiplicam ao infinito os tons.
 
Outono é alumbramento, festa do olhar.
 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Ao viajante solitário

Jorge Finatto

Canela, RS. photo: jfinatto
 
AS COISAS que não aconteceram são as que mais se afeiçoam à minha memória. A biografia que vale os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. 

O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas caminho do mar. Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia. Cheio pelas orelhas de frustrações, tapas na cara, rasteiras e desejos. Quem houvera nesta vida maledeta se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno. Por isso estou aqui. Me contando, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao vento. Construo o venturoso canto. Não me interessa a realidade. Quem quiser a realidade, bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário. Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fiozinho de orvalho estendido de manhã sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma. Caminho para o lugar ermo dos esquecidos.

Eu, Landgrave dos Santos Strano, inquilino do absurdo, apresento-me ante vossa alta ausência.

Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento. Rio Grande do Sul, Brasil, Fim da Via Láctea. Dou fé e assino.

Provavelmente outono.
 

domingo, 2 de junho de 2019

A livraria e a rua

Jorge Finatto

photos: jfinatto
 
NUMA CIDADE afundada em violência, num país em que a criminalidade fugiu do controle, as pessoas evitam andar nas ruas. Só o fazem quando necessário, pois há sempre presente o risco de figurar no longo rol das vítimas da barbárie. 

Há, contudo, um movimento dos cidadãos no sentido de voltar a ocupar o espaço público. Há como que uma necessidade física e psicológica das pessoas de sair das tocas a que estão submetidas.

Desde sempre a cidade é o lugar de convivência entre os humanos.  O espaço comum, o local de interação, de trabalho, de lazer, de coexistência, de construção da vida. Não por acaso surgem agora iniciativas como a Noite dos Museus, em que uma multidão se reúne para sair pelas ruas em intensa programação cultural e comunitária.


Com alegria visitei na semana que passou uma nova livraria, a PocketStore. O bacana é que é uma livraria de rua, não de shopping. Nasce com este espírito de retorno ao espaço público, na Rua Félix da Cunha, no bairro Moinhos de Vento, cada vez mais povoado de cafés, restaurantes, sorveterias, bancas de jornal e lojas nas calçadas.

 

A PocketStore é um bom espaço, moderno e bem atendido. A única coisa que eu mudaria é o nome: por que não chamá-la Livros de Bolso, ou coisa parecida? O português é tão bonito, tão gostoso de ler e escrever. Nada contra o inglês, mas para uma livraria creio que ficaria melhor um nome no idioma de Saramago, Nelson Rodrigues e Guimarães Rosa. Mas isso é detalhe, gosto pessoal. O que importa, raro leitor, e deve ser saudado, é a oportuna iniciativa de colocar a livraria na rua.
  

domingo, 26 de maio de 2019

Limites

Jorge Finatto

photo jfinatto
 

EXISTE a necessidade urgente de pacificação dos espíritos neste Brasil tão conturbado dos últimos tempos, onde se discute muitas vezes sobre coisas sem nenhuma importância e que não levam a lugar nenhum. Há um campeonato de testosterona no país. Disputa-se pelo amor à emulação, à discórdia, para mostrar quem é o mais forte, quem tem mais razão, quem tem a verdade verdadeira, quem é o mais isso e aquilo.

Dificilmente o clima de animosidade levará a algum lugar. Até para discordar tem que ter nível, boa educação, calma. Temo pela evolução deste estado de permanente confronto entre governistas e opositores. A sociedade está cansada. Não suporta mais as injustiças e mazelas decorrentes da corrupção.
 
As necessárias mudanças precisam ser feitas com exemplos de conduta, de retidão, de oposição ao extremismo, com luta pacífica em busca de justiça e solidariedade social.
 
O ressentimento e a beligerância não conduzirão a uma realidade melhor do que esta que estamos vivendo. Acredito na disposição mental para o entendimento, para receber críticas, para dar o passo adiante, para querer o bem comum, para não querer destruir quem pensa diferente.

As mentes lúcidas não podem aceitar a violência moral ou física como forma de resolução de conflitos e de afirmação política. O limite de qualquer manifestação deve ser o respeito ao outro. Que a serenidade nos inspire e proteja.
 
 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O processo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Rio Guaíba

 
SOU habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

_______

Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

domingo, 12 de maio de 2019

Homem grande, coração de guri

Jorge Finatto
 
Flor de maracujá. photo: jfinatto
 

O FATO é que as datas festivas ou efemérides existem. Podem até ter um sentido comercial, buscando levar as pessoas ao consumo. Mas às vezes é difícil ignorá-las. Hoje, por exemplo, Dia das Mães. Não há como não pensar na mãe de modo mais sentimental. E quem já não tem mãe, como no meu caso, fica calado no seu canto. Disfarça, vai até a janela, sentindo um aperto no peito.
 
Lembro Dela me levando no meu primeiro dia de escola em Porto Alegre. Eu tinha sete anos e acabara de chegar do interior onde vivia com os avós. Tudo era estranho. O Guaíba com seus barcos e navios, a enorme chaminé do Gasômetro, a praça e a praia que havia onde hoje é o Parque Harmonia. A avó tinha morrido há pouco tempo.
 
Naquele dia Ela me vestiu com o uniforme engomado, camisa branca e gravatinha azul, me passou um leve perfume e, antes de eu entrar no portão, me segurou e disse "esse é teu primeiro dia, um dia muito importante. Tu serás um grande homem".
 
Hoje, olho com saudade aquele momento precioso (a esperança que ela tinha no seu menino). Olho com o coração dolorido. Ela não está mais aqui para um abraço. Pequeno, pequeno homem.
 

domingo, 5 de maio de 2019

Os meus velhotes

Jorge Finatto
Café, Museu Chaplin, Vevey, Suíça. photo: jfinatto

ELES REÚNEM-SE às quartas e sábados num café. Sempre na mesma mesa. São quatro, às vezes cinco. Não faço parte do grupo. Chamo-os de "os meus velhotes" com secreta intimidade. Nunca conversei com nenhum deles. É provável que nem deram pela minha presença.

Velhotes são carinhas passados dos 70 que insistem em viver e, ainda mais, em conviver. Na minha paisagem afetiva, essas figuras importam. Trazem a marca da resiliência, persistem na amizade e na vontade de levar o barco adiante. Eu admiro e gosto de pessoas assim.
Quando ando meio desanimado, vou ver os meus velhotes. Sento na mesa costumeira, peço o café, leio alguma coisa. Entrementes acompanho com discrição a reunião do grupo. De alguma maneira, aqueles cabelos brancos me dizem que vale a pena, que existe felicidade no fato de continuar respirando e ir ao encontro dos amigos para um bate-papo num café.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pontos de luz

Jorge Finatto

Entardecer em Montreux, Suíça. photo: jfinatto
 

A POESIA existe principalmente fora dos livros de versos. Conseguir reter um pouco desse mistério em forma de poema é tarefa para poucos.
 
Pra quem escreve, o olhar do outro é fundamental. Só o outro pode reconhecer sentido no texto. Sem ele, não tem razão de ser. É como deixar um livro aberto sobre a mesa do quintal, exposto aos ventos, à chuva, ao sol. Os olhos do pássaro, da borboleta e da formiga jamais poderão desvelar o que está escrito. 
 
A descoberta da arte nos torna mais humanos. Os museus, salas de concerto e bibliotecas guardam fragmentos do belo. Mas a maior parte da beleza está em outros lugares, à espera de ser desvendada pela sensibilidade de cada um.

O belo é para sentir e para pensar. O belo pode ser muitas coisas. Às vezes tudo misturado. Só não pode ser a favor da morte e da desintegração do ser humano. Obras de arte são pontos de luz soltos na escuridão cósmica.
 

terça-feira, 23 de abril de 2019

A pele cor-de-rosa da chuva

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

O SER HUMANO tem direito constitucional de andar nas nuvens. Sentimental algaravia. Ah, um dia livre por aí. O que ela mais gosta.

As horas difíceis, cotidianas, que a vida tem. Poucos momentos de gozo. Vida bonsai. Um ermo. Os medos, medo, medo. Um dia se deu conta de que. Olhou no espelho, estranhou. Quem é essa? Deus!
 
Vivia no austero, secreto, precavido jeito.

Desde que ele se foi, enfim, aquela madrugada. (Por que tinha de ser justo de madrugada?) Adeus, adeuses. Casa abandonada. Depois só quireras, uns fanicos de dar dó, cacos quebrados. Ninguém mais.
 
Dia feriado, sábado, domingo, aniversário: nenhum fio de luz embaixo da porta, escuridão completa. Ninguém vem, ninguém nunca nada. Coração solitário de bandeja, corvos vorazes.
 
Noites em claro, sede. Janela aberta sobre a cidade e neons. Vazio. Invoca rezas antigas, banho de madrugada, copo dágua gelada, dorme diante da tv. Quem é essa?
 
A solidão de batom pintada na cara. Ocos dias de viver. Malezas.
 
Ah, bem-vindo, vento de maio. Chuva. Na chuva sente-se protegida, agasalhada. Sai a divagar caminhos molhados. Os longes habitam a sua alma. Peixes coloridos soltos no ar. Sopram presságios no voo de algodão das gaivotas. O rio escorrendo lentamente.
 
Moças saltam das janelas, invadem as ruas como ela. Anêmonas. Saias flutuam. Sombrinhas navegam no vento.
 
A esperança. Ninguém pode viver sem, nem ela nem. Se solitude fosse abraço.

Instantes migalhas de vida são. Breves eternidades. Venham os dias.

O amanhecer sobre nuvens. Venha esse novo amor de onde vier. 

Felicidade é relâmpago. Farândola no coração.

A pele cor-de-rosa da chuva.

Outono, outonos.
 
______
Texto revisto, publicado em 9 de abril, 2010.
 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Renascer de cinzas

Jorge Finatto
 
Igreja de Canela, 21.04.2019. photo: jfinatto
 
 
Que a RESSURREIÇÃO DE CRISTO inspire o renascimento de muitos.

Que volte a chover na terra calcinada dos nossos corações.
 

sábado, 13 de abril de 2019

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto


E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira de antigüidades da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador no casarão abandonado da Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instante que não se deixa apagar. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher que não se perdeu graças ao registro.
 
Pequena eternidade de luz.
 
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Texto revisto, publicado em 14 fev. 2015.
 

domingo, 7 de abril de 2019

A casa do fantasma

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Bologna

E POR FALAR em fantasmas, a coleção deles não para de aumentar. Alguns já partiram há muito tempo (o tempo humano é farelo, ele sabe). Outros ainda estão por aqui mas não foram mais vistos.

Os habitantes do oblívio. Ele mesmo é um tipo de fantasma. Um que caminha entre luz e sombra, dia e noite, preto e branco, visível e invisível.

As ruas são as mesmas mas os antigos moradores viajaram a outros planetas. Ele ficou olhando o fim de tarde desenhado numa aquarela.

Abril chegou com seu discreto frio, seus silêncios, suas quaresmeiras em flor. 

Esta vida é uma aquarela. No início as cores e formas são vívidas e transparentes. Depois vão se apagando como um entardecer.

A beleza habita a casa do efêmero, ele pensa.

E ousa sentir.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A hora da pacificação

Jorge Finatto

Pôr do sol no Guaíba. photo: jfinatto

 
O NÚMERO de desempregados divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é terrível.* Até o final de fevereiro último, somavam 13 milhões e 100 mil as pessoas sem trabalho. Além delas, existem 4 milhões e 900 mil desalentados, isto é, aqueles que desistiram de procurar emprego por desânimo, depressão, cansaço diante do quadro que se apresenta.

Enquanto isso, não se vislumbram ações capazes de levar o país a uma pacificação. Não houve diminuição do enfrentamento politico, distensão que deveria ter se seguido às eleições para a reconstrução da confiança, da economia e dos empregos.  Pelo contrário, o bate-boca aumentou, e quando a gritaria prevalece, acaba ocupando o lugar destinado ao diálogo,  às ideias, projetos, boas práticas. A inteligência se calou no Brasil nos últimos meses.

O país continua carente de bom senso, razoabilidade, espírito público. As coisas simplesmente não andam. Parece que não existe amanhã nestes tempos de ódio. Estamos vivendo uma espécie de velório da esperança.

É preciso que os homens e mulheres que ocupam cargos públicos saibam que não estão aí para ser servidos, mas para servir a sociedade. É o óbvio que deve ser reiterado todos os dias no Brasil.

Todo mundo sabe o que necessita ser feito para melhorar a vida da população. O país não pode esperar mais. Humildade, respeito ao semelhante, paz, trabalho, justiça, empatia são algumas palavras que podem ajudar muito nesta hora. Não se brinca com a vida de mais de 200 milhões de pessoas.

_________
*Desemprego
https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/03/29/desemprego-sobe-para-124percent-em-fevereiro-diz-ibge.ghtml
  

terça-feira, 26 de março de 2019

Pequenas humanidades

Jorge Finatto 

photo: j.finatto


O PROBLEMA, raro leitor, é que quando a pessoa deixa de gostar de si mesma a vida torna-se muito dura. A dela e a dos que estão por perto. Por isso é do interesse geral que todos sejam felizes ou, pelo menos, o mais próximo disso que puderem.
 
O infeliz arrasta o mundo para o buraco com ele. Qualquer um de nós já passou por isso. Aparece aquela nuvem carregada sobre a cabeça. Essa nuvem se expande com facilidade.

Nessas horas precisamos de uma palavra, um olhar, um aconchego para voltar a viver. Acontece que na vida de aparências em que estamos metidos somos cada vez menos estimulados a falar de nossos sentimentos. Somos esfinges no deserto.
  
Conheço pessoas que nada mais esperam da vida. Perderam a alegria de viver. Sobrevivem a duras penas. Não que queiram. Simplesmente aconteceu. Não sabem o que fazer. Têm medo de viver, de sonhar, de sofrer de novo. Os medos.
 
Esse estado de espírito é um dos principais legados da sociedade materialista, competitiva, agressiva e desumana em que vivemos. O outro é o inimigo em armas. Existe pouco espaço para a mansidão e a solidariedade.
 
Só o afeto tem o poder de nos reconciliar com o próximo e com a vida. Longe do calor humano tudo é o mesmo que nada.

Afeto não tem preço, não se aluga, não se compra, não se vende. Se dá e se recebe.

Não precisamos ser íntimos de alguém pra passar afeto. Isso se faz num gesto de gentileza, cordialidade, atenção.

São coisas simples que, enlaçadas, são capazes de causar uma grande revolução. Está todo mundo esperando e precisando muito dessas pequenas humanidades.

Eu acredito que podemos investir mais na nossa espécie, na reciprocidade dos bons gestos, no afago.

De mãos dadas a vida é outra.

Começo a terça-feira oferecendo a você essas palavras, minha amiga, meu amigo. Elas estão vivas. Cuide bem delas, dos outros, de si mesmo. Você merece. Nós merecemos.

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Texto revisto, publicado antes em 21, outubro, 2014.